Chapter 1
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*A HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONTOU*
*por Bruseck Mackenzie*
*SINOPSE:*
Em Pirenópolis, Goiânia e Caldas Novas, oito pessoas quebradas pela vida se encontram por acaso numa tenda amarela durante uma chuva forte na Festa do Divino. Ana, padeira que largou medicina e acorda às 4h da manhã sozinha. Rafael, arquiteto que faliu em Lisboa e voltou com vergonha para Goiás. Joana, 68 anos, viúva com batom vermelho que entra no Tinder pela primeira vez. Miguel, professor e pai solo do Theo de 5 anos. Sofia, médica linda de Goiânia que toma remédio pra dormir por causa do noivo controlador. Davi, motorista de app que escreve cartas que nunca manda. E Letícia e Caio, irmãos que não se falam há 5 anos por causa de um terreno em Caldas Novas. Cada capítulo é a visão de um deles. Até que na noite da chuva, todos se encontram e viram família.
*CAPÍTULO 1: ANA*
Ana acordava às 4 da manhã porque pão não espera. A padaria era pequena, na rua principal de Pirenópolis, herdada da avó Joana. Tinha largado 2 anos de medicina em Goiânia e todo mundo falava. Ansiedade, remédio, volta pra casa. Naquela terça de chuva, 4h12 da manhã, a campainha tocou. Rafael, seu melhor amigo do ensino médio que foi pra Portugal e sumiu há 6 anos, estava ali, molhado, de mochila. "Meu voo chegou ontem em Goiânia, vim de carona, posso ficar até amanhecer?" Ana deu pão de queijo quente. Pela primeira vez em 2 anos, não se sentiu sozinha às 4h da manhã. Rafael dormiu no sofá da padaria e ela ficou olhando o forno com ele. Sentiu que o recomeço tinha cheiro de chuva.
*CAPÍTULO 2: RAFAEL*
Rafael mentiu que voltou por saudade. Na verdade faliu em Lisboa. Seu escritório de arquitetura fechou, a namorada terminou, o aluguel atrasou 4 meses. Voltou com 800 reais no bolso e vergonha. Não contou pra mãe, Dona Marlene, que morava em Pirenópolis. Dormiu na padaria da Ana porque não tinha coragem de bater na porta da mãe falido. De manhã foi até a casa da mãe e ela desmaiou de susto e depois chorou. Na praça, viu Miguel, colega da escola, com carrinho de bebê e um menino de 5 anos. Miguel também tinha recomeçado de outro jeito. Os dois quebrados se reconheceram. Rafael entendeu que voltar não era fracasso, era coragem. E decidiu ficar em Pirenópolis mais um dia. Depois mais um.
*CAPÍTULO 3: JOANA*
Joana, 68 anos, viúva há 14 meses do Seu Geraldo. Casa grande vazia em Pirenópolis, luz do corredor acesa. Neta Letícia instalou Tinder no celular dela brincando. "Vó, a senhora tem que viver". Joana deu match com Davi, 41 anos, motorista, descrição "gosto de ler Fernando Pessoa no trânsito". Ele pediu ajuda: "Minha samambaia tá morrendo". Ela respondeu: "A minha morreu em 2019 junto com meu marido, vamos comprar outra juntos?" Marcaram café na padaria da Ana, sem saber que Ana era neta da Joana. Joana passou batom vermelho pela primeira vez em 2 anos. Chegou 10 minutos cedo, nervosa como menina de 15 anos. Davi chegou com caderno no porta-luvas e disse: "Dona Joana, a senhora é mais bonita que a foto". Joana riu e pensou: ainda tô viva.
*CAPÍTULO 4: MIGUEL*
Miguel amava ser pai e odiava ser pai sozinho. Theo tinha 5 anos e perguntava da mãe todo dia. A mãe teve depressão pós-parto e foi embora quando Theo tinha 8 meses. Nunca mais voltou. Miguel era professor de história no estadual de Pirenópolis, ganhava pouco, fazia trança mal feita no filho. Sem tempo pra amar ninguém. Até que Sofia, médica dermatologista de Goiânia, foi dar palestra sobre protetor solar na escola do Theo. Ela era linda, de salto, mas riu triste. Deu um desenho de princesa pro Theo e o Theo deu o desenho pra ela levar. Miguel riu e ela riu triste de novo. Ele pensou: mulher bonita que ri triste é perigosa. Era noiva do Eduardo, empresário de Goiânia que controlava a roupa dela. Miguel escreveu no diário naquela noite: hoje uma mulher riu triste pra mim e meu filho desenhou ela.
*CAPÍTULO 5: SOFIA*
Sofia tinha consultório lindo em Goiânia, carro lindo, noivo lindo e remédio pra dormir desde os 26 anos. Eduardo dizia: "Esse vestido tá curto pra médica, amor". Ela achava que era cuidado. Foi pra Pirenópolis dar palestra a convite da prefeitura, conheceu Miguel e Theo. Theo desenhou ela como princesa da chuva. Voltou pra Goiânia com o desenho no painel do carro. Eduardo viu e brigou: "Você tá levando desenho de criança de interior agora?" Pela primeira vez, Sofia não se justificou. Guardou o desenho na bolsa. Naquela noite, não tomou remédio. Ligou pro motorista Davi: "Me leva pra Pirenópolis amanhã de novo, sem motivo". Davi respondeu: "Carro existe pra levar a gente pra onde precisa, mesmo sem saber por quê". Sofia entendeu que precisava voltar.
*CAPÍTULO 6: DAVI*
Davi, 41 anos, motorista de app, carro financiado em 48 vezes, caderno no porta-luvas com cartas que nunca enviou pra mãe que morreu, pro pai que nunca conheceu, pras mulheres que amou. Fazia rota Goiânia - Pirenópolis - Caldas Novas todo dia. Levou Sofia pra Pirenópolis, levou Joana pra padaria da Ana, sem saber que as duas eram ligadas pela mesma padaria. Joana falava de samambaia e ele achava lindo porque ninguém falava de planta com ele. Deixou Joana na padaria, viu Ana e reconheceu da foto do celular da Joana. O mundo dele, que era só estrada, ficou pequeno e quente. Escreveu no caderno naquela noite, estacionado em frente à Igreja Matriz de Pirenópolis: "Hoje levei duas mulheres pro mesmo lugar e elas são avó e neta e eu não sabia. Hoje não me senti sozinho no carro. Hoje a Dona Joana me chamou de meu filho. Joana, obrigado por lembrar que samambaia morre mas a gente pode comprar outra."*CAPÍTULO 7: LETÍCIA E CAIO - OS IRMÃOS*
Letícia e Caio não se falavam há 5 anos por causa de um terreno em Caldas Novas que o pai deixou.
Letícia, advogada, achava que Caio, músico, não merecia porque nunca ajudou em casa. Caio achava que Letícia se achava dona de tudo porque pagava as contas.
Os dois estavam em Pirenópolis no mesmo final de semana sem saber.
Letícia foi visitar a avó Joana. Caio foi tocar em um bar na rua do Rosário.
Letícia entrou na padaria da Ana às 9 da manhã. Caio saiu do bar às 9 da manhã depois de tocar a noite toda.
Eles se encontraram na porta da padaria.
5 anos sem se ver.
"Você tá gorda", Caio disse, porque não sabia o que dizer.
"Você tá com cheiro de pinga", Letícia respondeu, porque também não sabia.
Ana viu da cozinha. Rafael, que estava ajudando a fazer pão, segurou o braço dela: "Deixa eles."
Letícia e Caio ficaram 3 minutos em silêncio na calçada de Pirenópolis.
Até que Caio falou: "O pai não queria que a gente brigasse por causa de terra. Ele queria que a gente tivesse um lugar pra voltar."
Letícia chorou. Pela primeira vez em 5 anos, não de raiva. De saudade.
"Toca uma música pra mim?", ela pediu.
Caio pegou o violão que estava nas costas e tocou na calçada. Ana, Rafael, Joana que tinha acabado de chegar com Davi, todos pararam para ouvir.
*CAPÍTULO 8: A NOITE DA FESTA*
Sábado. Festa do Divino em Pirenópolis. A cidade inteira na rua.
Ana fechou a padaria mais cedo. Rafael a convenceu a ir na festa: "Você nunca sai".
Miguel levou Theo. Sofia dirigiu de Goiânia sozinha, sem avisar Eduardo, só para ver o desenho do Theo ao vivo na barraca da escola.
Davi levou Joana na festa. Joana de batom vermelho.
Letícia e Caio foram juntos, ainda sem jeito, mas juntos.
Choveu. Uma chuva forte de Goiás, que vem de repente. Todo mundo correu para debaixo da mesma tenda grande na praça.
E lá estavam os oito, pela primeira vez, todos juntos, espremidos por causa da chuva, dividindo uma garrafa de quentão.
Ninguém sabia quem era quem ainda. Mas todos sentiram que aquela chuva tinha juntado o que precisava ser juntado.
Ana olhou para Rafael e pensou: "Talvez ficar seja bom".
Rafael olhou para Miguel e pensou: "Talvez recomeçar não seja tão vergonhoso".
Joana segurou a mão de Davi por baixo da mesa.
Miguel viu Sofia encharcada e entregou a jaqueta dele para ela.
Sofia, com a jaqueta de um professor de história, entendeu que não voltaria para Goiânia naquela noite.
E Caio tocou, no meio da chuva, uma música que seu pai gostava. Letícia cantou junto, desafinada. *CAPÍTULO 9: A CHUVA NA TENDA*
Chuva em Pirenópolis não avisa. Ela chega.
19h47. Praça da Matriz lotada. Cheiro de lenha e quentão. Banda tocando. Barraca da pamonha do Seu Antônio com fila.
Ana tinha fechado a padaria mais cedo porque Rafael insistiu. "Você nunca vai em festa, Ana. Hoje você vai." Ela foi de vestido simples, cabelo preso ainda com cheiro de farinha. Rafael foi junto, com a camiseta velha dos Pães da Ana desde 1978.
Miguel correu com o Theo no colo porque o menino queria ver a roda de viola. Theo de capa de chuva de dinossauro que Miguel comprou em Goiânia parcelado em 3 vezes.
Sofia dirigiu de Goiânia sozinha. Sem avisar Eduardo. Desligou o celular na BR-060. Pela primeira vez em 1 ano, dirigiu cantando alto e riu sozinha. Impulsiva. Chegou em Pirenópolis 19h30, sem saber onde ia dormir. Só sabia que precisava voltar.
Davi levou Joana na festa. Joana de sombrinha florida que não adiantava nada. Davi com o caderno no bolso, molhado já.
Letícia e Caio, os irmãos brigados, estavam na mesma festa sem se ver ainda. Letícia com um copo de quentão, Caio no palco tocando violão na roda.
O vento virou. Todo mundo que é de Goiás conhece esse vento. Ana sentiu primeiro porque padeira sente vento.
"Vai chover forte", ela falou pro Rafael.
Rafael olhou pro céu. Preto.
Em 2 minutos, a chuva desabou. Forte, grossa, de Goiás mesmo. Que lava rua.
Todo mundo correu. Barracas fecharam. Crianças choraram.
E oito vidas que nunca tinham se encontrado todas juntas correram pra mesma tenda grande amarela com goteira na lateral.
A tenda amarela da festa.
Ana esbarrou em Joana.
"Vó? O que você tá fazendo aqui?"
"Tô com o Davi, ué. E você tá com quem?"
Rafael apareceu atrás da Ana, molhado, rindo: "Dona Joana?"
Miguel entrou correndo com o Theo: "Dona Joana! Ana! Rafael?"
Sofia entrou encharcada, sem maquiagem, cabelo grudado: "Miguel?"
Davi entrou segurando a sombrinha quebrada da Joana: "Todo mundo aqui?"
Letícia e Caio entraram juntos, molhados, brigando ainda por causa do violão que molhou: "Você deixou molhar, Caio!"
Caio: "Você me empurrou, Letícia!"
E ficaram ali. Oito pessoas. Numa tenda amarela com goteira, cheiro de lona molhada, dividindo um banco de madeira pequeno.
Ninguém sabia direito quem era quem. Mas todo mundo sentiu.
Caio, com violão molhado, tocou um acorde feio porque a corda tava molhada. Todo mundo riu.
Ana dividiu o último pão de queijo que tinha na bolsa.
Rafael falou pela primeira vez sem mentir: "Eu falí em Lisboa. Voltei sem nada."
Joana respondeu: "Meu Geraldo morreu e eu achei que tinha acabado. Não acabou."
Miguel: "Eu aprendi a fazer trança mal feita."
Mostrou a trancinha torta do Theo. Todo mundo riu.
Sofia chorou. Do nada. Ana abraçou sem perguntar por quê.
Davi escreveu no caderno molhado: hoje choveu e eu não fiquei sozinho.
Letícia olhou pro Caio e disse: "Eu não quero mais o terreno. Eu quero meu irmão."
Caio parou de tocar e abraçou ela, molhado, no meio da tenda.
A chuva durou 47 minutos. Forte. Lavou a rua, derrubou uma barraca, alagou a praça.
Mas dentro da tenda amarela, oito pessoas que estavam fugindo de alguma coisa resolveram ficar. Tomando quentão quente, dividindo pão, rindo de roupa molhada.
Quando a chuva parou, Joana levantou e falou: "Vamos na minha casa tomar chá. Todo mundo cabe."
E foram. Oito pessoas molhadas, atrás de uma senhora de 68 anos com batom borrado, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Como se sempre tivessem sido família.
E a partir dali, viraram.*CAPÍTULO 10: A CASA DA JOANA - 3 DA MANHÃ*
A casa da Joana em Pirenópolis era grande demais para uma pessoa só. Desde que o Seu Geraldo morreu, 14 meses antes, ela dormia só na metade da cama e deixava a luz do corredor acesa.
Naquela noite de sábado, depois da chuva da Festa do Divino, a casa ficou pequena.
Oito pessoas molhadas entraram tirando o sapato na porta. Theo, de 5 anos, já dormia de novo no colo do Miguel. Sofia, a médica de Goiânia, estava descalça porque o salto quebrou na corrida da chuva. Rafael carregava a mochila e a Ana, que não largava a mão dele desde a padaria.
Joana foi pra cozinha fazer chá de capim-cidreira que ela mesma plantava. Davi foi atrás ajudar, sem que ninguém pedisse. Ele sabia onde ficavam as xícaras sem nunca ter entrado naquela casa.
Na sala, o silêncio constrangedor de quem acabou de dividir uma tenda mas ainda não sabe o nome completo um do outro.
Foi Letícia quem quebrou. Advogada, direta.
"Olha, já que estamos aqui e todo mundo tá molhado e sem ter onde ir, vamos fazer uma coisa que eu faço em audiência. Cada um fala o nome, de onde vem e o que tá fugindo."
Caio riu. "Letícia, não é júri."
"É sim. A gente tá todo mundo se julgando por dentro mesmo."
Miguel foi o primeiro. "Miguel, 36, professor de história no estadual de Pirenópolis. Pai solo do Theo. Tô fugindo de achar que vou ser pai ruim pra sempre."
Sofia olhou pra ele e respondeu sem ser a vez dela. "Sofia, 29, dermatologista em Goiânia. Noiva. Ou ex-noiva, não sei. Tô fugindo de um armário cheio de roupa cara que não é minha."
Ana: "Ana, 32, padeira. Ansiosa desde os 19. Larguei medicina em Goiânia porque tinha pânico. Tô fugindo de achar que todo mundo me vê como fracassada."
Rafael apertou a mão dela. "Rafael, 34, arquiteto. Voltei de Lisboa há 4 dias. Fali. Meu escritório fechou, minha namorada me largou, voltei com 800 reais. Tô fugindo da vergonha de voltar."
Davi, da cozinha, gritou: "Davi, 41, motorista de app. Escrevo carta que nunca mando. Tô fugindo de ficar sozinho dentro do meu carro pro resto da vida."
Joana trouxe a bandeja de chá. "Joana, 68, aposentada, viúva, avó da Ana. Tô fugindo de morrer sem ter vivido de novo. E tô com batom vermelho."
Todo mundo riu. Theo acordou com a risada e perguntou: "Vovó, tem dinossauro aqui?"
Joana: "Tem um na rua, mas ele tá dormindo por causa da chuva."
Letícia e Caio falaram juntos: "Letícia e Caio, 31 e 28, irmãos. Brigamos 5 anos por um terreno em Caldas Novas que nem existe mais. A gente tava fugindo um do outro."
E ficaram ali, até 3 da manhã, tomando chá, comendo pão que a Ana tinha trazido na bolsa, ouvindo Caio tocar violão baixinho pra não acordar os vizinhos. Sofia não voltou pra Goiânia. Dormiu no sofá da sala, com a jaqueta do Miguel de coberta. Miguel dormiu no chão do lado, com o Theo. Rafael e Ana dormiram na rede da varanda, abraçados, molhados ainda, mas quentes.
Davi e Joana ficaram na cozinha até mais tarde. Ele contou da samambaia que morreu. Ela contou do Geraldo.
Foi ali que Joana teve a ideia que muda tudo.
"Por que vocês não vão embora daqui um tempo?", ela disse. "Todos vocês são novos e tão presos aqui. Pirenópolis é linda, mas é pequena pro tamanho da dor de vocês."
Davi: "Ir pra onde?"
"Pro mundo. Eu tenho uma irmã que mora em Portugal há 30 anos. Em Cascais. Ela tem uma casa grande vazia no inverno. Se vocês quiserem..."
Ana apareceu na porta da cozinha na hora, sem sono.
"Vó, você tá doida? Mandar a gente pra Portugal?"
"Não tô mandando. Tô dando destino. Vocês se encontraram numa tenda por causa de chuva. Isso não é acaso, Ana. Isso é empurrão."
*CAPÍTULO 11: A CARTA DA PREFEITURA E O CONVITE*
Segunda-feira, 8h. A padaria da Ana tinha fila.
Não de cliente. De fiscal da prefeitura.
Uma carta oficial: a rua da padaria vai virar estacionamento para ônibus de turismo. Desapropriação em 60 dias. Indenização mixaria. Assinado pelo secretário de turismo e pelo escritório de arquitetura R. Andrade & Associados, de Goiânia.
Sofia ficou branca quando viu o nome. R. Andrade era o Eduardo. O ex dela.
Ele não tinha aceitado o término. Era vingança.
Ana entrou em pânico. Ataque de verdade, depois de 1 ano sem ter. Rafael segurou ela no chão da padaria, com farinha por todo lado, enquanto ela tentava respirar.
"Eu não vou perder de novo", ela chorava. "Eu não vou."
Foi Miguel quem teve a ideia. Professor de história, sabia de lei.
"Isso não pode. Essa padaria tem mais de 40 anos. É patrimônio afetivo. A gente pode entrar com ação popular. Precisa de abaixo-assinado, de advogado."
Letícia levantou a mão. "Eu sou advogada."
Caio: "Eu conheço todo mundo da noite, da prefeitura, da rádio. Eu faço barulho."
Sofia: "Eu conheço gente em Goiânia. Imprensa."
Davi: "Eu levo vocês onde precisar. De graça."
Joana: "E eu conheço a irmã do prefeito. Estudei com ela."
Rafael olhou para a carta e entendeu outra coisa. O projeto de estacionamento era mal feito. Ele, arquiteto, via os erros. Era a chance dele voltar a ser arquiteto.
"Eu posso fazer um contra-projeto. Uma praça, que mantém a padaria, e ainda traz mais turista. Melhor que estacionamento."
Em 24 horas, o que era um grupo de estranhos molhados virou um mutirão.
Mas Eduardo, em Goiânia, não ia deixar barato. Ele ligou para Sofia na terça.
"Volta pra mim e eu paro a obra."
Sofia: "Você tá doente, Eduardo. A padaria é da Ana, não minha."
"Então ela vai cair. E a culpa vai ser sua por ter me largado por um professorzinho de interior."
Sofia desligou e pela primeira vez bloqueou o número dele. A mão tremia, mas tremia de raiva, não de medo.
Naquela noite, Joana juntou todo mundo de novo.
"Minha irmã Lúcia respondeu. Ela disse que a casa em Cascais está vazia em novembro. É inverno lá. Frio, mas lindo. Ela deixa vocês ficarem 3 meses se cuidarem da casa. Passagem barata se comprar agora. Quem tem passaporte?"
Ninguém tinha, só Rafael e Sofia.
"Então tirem. Porque se vocês ficarem aqui brigando com a prefeitura, vocês vão se consumir. Vão pra fora, aprendam, voltem mais fortes. A padaria a gente segura 60 dias na justiça. Vão e voltem."
Foi uma loucura. Mas toda boa história começa com uma loucura.
Ana, Rafael, Sofia e Miguel decidiram ir. Miguel levaria o Theo nas férias de janeiro, que coincidia. Letícia ficaria para cuidar do processo com Joana. Caio e Davi ficariam para fazer barulho na cidade.
O destino, que juntou eles numa tenda, agora ia separar para juntar de novo mais forte.
*CAPÍTULO 12: CASCAIS - O INVERNO QUE NÃO ERA FRIO*
Cascais, Portugal, novembro. 13 graus, vento do Atlântico, ruas de pedra.
A casa da tia Lúcia era de pedra, com lareira, com cheiro de mofo bom, com vista para o mar. Tinha 3 quartos, 1 banheiro com água que demorava pra esquentar e uma cozinha onde tudo era diferente.
Chegaram em 4: Ana, Rafael, Sofia e Miguel com o Theo.
Ana nunca tinha saído do Brasil. Chorou no avião de 9 horas. Rafael, que morou 6 anos em Lisboa, virou guia, tradutor, pai de todos.
Nos primeiros dias, brigaram. Muito.
Ana e Rafael brigaram porque morar junto 24h não é igual ficar na padaria. Ele deixava toalha molhada. Ela acordava às 4h da manhã por costume e fazia barulho fazendo pão na cozinha que não era dela.
Sofia e Miguel brigaram porque Sofia ainda tinha ciúme do Miguel falar da mãe do Theo. E Miguel tinha ciúme da Sofia atender ligação de Goiânia.
Foi numa noite de briga feia, com Theo chorando, que entrou a nova personagem.
Bateram na porta. Era vizinha.
Madalena, 35 anos, portuguesa, cabelo curtinho, arquiteta também, dona da casa ao lado. Tinha ouvido a briga.
"Desculpem, ouvi gritos. Tá tudo bem? Precisam de alguma coisa? A Lúcia me pediu para cuidar de vocês."
Madalena entrou com uma garrafa de vinho tinto e com um sotaque que fez Rafael arrepiar de memória.
Madalena tinha morado em Lisboa na mesma época que Rafael. Quase trabalharam juntos. Ela era separada, tinha uma filha de 7 anos, Leonor, que no dia seguinte ficou melhor amiga do Theo.
Madalena olhou para o projeto que Rafael estava fazendo para salvar a padaria da Ana e disse: "Isso tá bom, mas tá com medo. Você tá desenhando com medo de errar de novo."
Rafael ficou em silêncio. Ela tinha razão.
Naquela noite, Ana viu Rafael e Madalena conversando até tarde na varanda, sobre arquitetura, sobre Lisboa, sobre fracasso. Sentiu ciúme. Um ciúme feio, que ela não sentia desde o ex.
Foi falar com Sofia, que estava na cozinha fazendo chá.
"Sofia, você sente ciúme do Miguel ainda falar da ex?"
"Toda hora. Mas ciúme é só medo de perder. E a gente já perdeu tanto que agora a gente tem que aprender a confiar que o outro fica porque quer, não porque precisa."
Ana entendeu. Voltou para a varanda. Rafael estava sozinho, Madalena já tinha ido embora.
"Você gosta dela?", Ana perguntou direto.
Rafael: "Gostava. Há 4 anos eu era apaixonado por ela. Hoje eu gosto de conversar com alguém que entende fracasso sem me julgar. Mas eu amo você. São coisas diferentes."
Ana sentou no colo dele, no frio de Cascais.
"Então me aquece, porque eu tô com ciúme e com frio."
E ele aqueceu.
Sofia e Miguel, no quarto ao lado, também se resolveram. Miguel contou toda a história da mãe do Theo, sem pular parte. Sofia contou do Eduardo, sem pular parte. E pela primeira vez transaram - com calma, com conversa, com o Theo dormindo no quarto ao lado, com o barulho do Atlântico batendo na janela. Não foi fogo de chuva. Foi fogo de lareira. Que dura.
*CAPÍTULO 13: LISBOA, O ENCONTRO COM EDUARDO E A REVIRAVOLTA*
Dezembro. Precisavam ir a Lisboa resolver o visto e comprar passagem de volta.
Rafael não queria ir a Lisboa. Tinha trauma. Mas foi.
Na rua de Alfama, onde ele morou, encontraram - do mundo - quem? Eduardo.
Eduardo estava em Lisboa também, fazendo um curso de arquitetura. De terno, mesmo no frio.
Ele viu Sofia de mãos dadas com Miguel e com uma criança. Riu.
"Então era verdade. Trocou Goiânia por um professor e ainda virou babá?"
Miguel deu um passo pra frente. Theo se escondeu atrás da Sofia. Rafael segurou o Miguel.
Foi Ana quem respondeu. Ana, de 1,60m, padeira, ansiosa, que nunca tinha brigado na rua.
"Escuta aqui, seu merda. Você veio até Portugal atrás da minha amiga porque não aceita que ela não te quer? Você é pequeno. Você precisa demolir padaria de mulher pra se sentir grande? Volta pra Goiânia e espera a gente. A gente tá voltando com um projeto melhor que o seu e com uma advogada que vai te processar por perseguição. Vai com Deus."
Eduardo ficou sem reação. Ninguém nunca tinha falado assim com ele.
Sofia, pela primeira vez, não chorou. Ela riu. Alto. No meio de Alfama.
"Vamos embora, gente. Ele não vale o nosso vinho."
Naquela noite, em Lisboa, eles descobriram que Madalena tinha conseguido uma reunião com um escritório grande de arquitetura de Lisboa que queria fazer parceria com projetos de revitalização de centros históricos no Brasil. O escritório adorou o projeto da padaria.
Rafael, que tinha falido, recebeu uma proposta de ser correspondente do escritório em Goiás.
Ele chorou no meio da rua Augusta. Ana chorou junto. Miguel e Sofia aplaudiram. Theo não entendeu nada e pediu sorvete.
O destino, que parecia punição, era empurrão de novo.
*CAPÍTULO 14: O RETORNO E A BRIGA NA CÂMARA*
Janeiro. Volta para Pirenópolis. 40 graus, depois de 13 de Cascais. Choque térmico e emocional.
A cidade estava diferente. Letícia, Joana, Caio e Davi tinham feito um abaixo-assinado com 4 mil assinaturas. A rádio local falava da padaria todo dia. Caio fez uma música chamada "Pão da Ana" que tocava no bar.
Na Câmara Municipal, audiência pública.
Eduardo estava lá, de terno, com seu projeto de estacionamento. Mostrou slides.
Rafael entrou depois, de camiseta, com olheiras de voo, com um projeto feito à mão e depois passado para o computador por Madalena em Portugal.
Ele mostrou: em vez de demolir, transformar a rua da padaria em uma praça de alimentação, com a padaria no centro, com mesas na rua, com história. Mais turista, mais dinheiro, sem demolir nada.
A plateia aplaudiu de pé.
O prefeito, que era amigo da irmã da Joana, votou contra a demolição.
A padaria ficou.
Eduardo saiu batendo a porta. Letícia foi atrás com uma intimação por assédio moral e perseguição. Ele ainda vai responder processo em Goiás.
Naquela noite, na padaria, festa. A padaria virou praça por uma noite. Todo mundo dançou.
Miguel pegou o microfone de Caio e falou, com Theo no colo:
"Sofia, eu não tenho anel, não tenho dinheiro pra anel. Mas tenho 20 minutos por noite e agora tenho uma casa que não é alugada, porque minha mãe me deu o lote dela. Quer casar comigo e dividir os 20 minutos pro resto da vida?"
Sofia disse sim chorando. Theo disse sim também, porque achava que casamento era festa.
Rafael olhou para Ana e não pediu em casamento. Pediu outra coisa.
"Ana, quer abrir uma segunda padaria comigo? Em Goiânia? Eu projeto, você faz pão. A gente chama de Pão e Projeto."
Ana disse sim. E beijou ele com farinha na cara, na frente de todo mundo.
Davi olhou para Joana e para Letícia, que estavam lado a lado. Ele gostava das duas, de jeitos diferentes. Joana percebeu e sussurrou para Letícia:
"Vai lá, menina. Eu já vivi. Agora é sua vez de ficar nervosa."
Letícia foi até Davi e pegou na mão dele. Davi não soltou.
Joana ficou sozinha um minuto, mas só um minuto. Porque o Seu Antônio, de 70 anos, que vendia pamonha na praça há 30 anos e sempre gostou dela, chegou com duas pamonhas.
"Dona Joana, quer dançar?"
E Joana dançou.
*CAPÍTULO 15: O E-MAIL DE PORTUGAL E O NOVO PERSONAGEM*
Fevereiro. Tudo parecia resolvido. Padaria salva, casamentos marcados, projetos.
Até chegar um e-mail de Madalena, de Cascais.
Assunto: "Vocês precisam voltar. É urgente."
No e-mail, uma foto. Leonor, a filha dela de 7 anos, melhor amiga do Theo, estava no hospital.
E uma segunda foto. Um homem. O ex-marido da Madalena, que era brasileiro, de Anápolis, Goiás, que tinha sumido há 5 anos com dinheiro dela.
O homem da foto era... Eduardo.
Eduardo, ex da Sofia, era ex marido da Madalena em Portugal. Tinha dado golpe nas duas, em dois países diferentes, com o mesmo nome falso.
Sofia leu o e-mail e desmaiou. Rafael segurou.
Miguel: "Ele fez isso com vocês duas?"
Madalena no e-mail: "Descobri que ele usou meu escritório em Lisboa para lavar dinheiro de um esquema de demolição no Brasil. A padaria de vocês era só uma parte. Tem mais. Preciso que venham me ajudar a provar. E a Leonor não para de perguntar do Theo."
O grupo, que achou que tinha fechado o ciclo, entendeu que o ciclo era maior.
Ana olhou para Rafael: "A gente tem que voltar pra Portugal."
Rafael: "A gente acabou de voltar."
Joana, que leu o e-mail por cima do ombro: "Então voltem. Mas agora vão todos. Eu pago a passagem da Letícia e do Caio e do Davi com a aposentadoria do Geraldo. Dinheiro guardado é pra isso. Pra desatar nó."
E assim, o que era uma história de 8 pessoas em Pirenópolis, virou uma história internacional de golpe, de duas mulheres enganadas pelo mesmo homem em dois continentes, e de uma criança de 7 anos no hospital em Cascais esperando o melhor amigo brasileiro de 5 anos.
O destino não tinha terminado. Tinha só mudado de país.
*CAPÍTULO 16: O HOSPITAL DE CASCAIS*
O e-mail da Madalena não dizia tudo. Ela escreveu curto porque estava com medo.
Quando Rafael ligou por vídeo, 2h da manhã no Brasil, 5h da manhã em Cascais, ela atendeu chorando, com olheiras, no corredor de um hospital.
"Madalena, o que aconteceu com a Leonor?"
"Não é só a Leonor. É o Eduardo. Ele voltou."
Madalena contou tudo de uma vez, sem respirar, em português de Portugal misturado com desespero.
Depois que Ana, Rafael, Sofia e Miguel foram embora de Cascais em janeiro, Eduardo apareceu lá. Disse que soube que Madalena estava ajudando brasileiros com um projeto e queria conversar. Ela deixou entrar porque ele era pai da Leonor. Ele ficou 20 minutos na casa. Depois sumiu. No dia seguinte, a conta da empresa dela em Lisboa estava zerada. 42 mil euros. Levou tudo. E levou os documentos do projeto da padaria de Pirenópolis que Rafael tinha deixado impresso lá.
Leonor, de 7 anos, viu o pai levar as coisas e ficou tão nervosa que teve uma crise de asma grave, foi para o hospital. Asma que ela não tinha desde os 3 anos.
"Ele usou o nome da Sofia aqui e o meu nome no Brasil. Ele tem dois passaportes. Um com o nome Eduardo Andrade, outro com o nome Eduardo Costa. Eu fui casada com o Costa. A Sofia foi noiva do Andrade. É o mesmo homem."
Sofia, que estava ouvindo a chamada do lado do Rafael, ficou branca e caiu sentada no chão da padaria. Miguel segurou.
"Ele me pediu 15 mil reais emprestado em dezembro, disse que era pra pagar o curso de Lisboa. Eu dei", Sofia sussurrou. "Ele disse que me amava."
Ana, que sempre foi a mais explosiva, pegou o celular.
"Madalena, escuta aqui. A gente tá voltando. Todo mundo. Eu, Rafael, Sofia, Miguel, Theo, Letícia, Caio e Davi e a Joana se ela aguentar o voo. A gente vai desmascarar esse filho da puta em Portugal e no Brasil. Ele mexeu com a padaria errada."
Madalena chorou de alívio no vídeo. Atrás dela, no leito do hospital, Leonor deitada, com oxigênio, perguntou fraquinho: "Mamãe, o Theo vem?"
Theo, que estava acordado no colo do Miguel em Pirenópolis ouvindo tudo sem entender, respondeu alto: "Eu vou, Leonor! Eu vou levar meu dinossauro pra você!"
Em 48 horas, Joana sacou 12 mil reais da aposentadoria do Geraldo, que ela guardava há 14 meses sem tocar. "Dinheiro de morto não serve pra guardar, serve pra fazer justiça", ela disse. Comprou 8 passagens na promoção da TAP: Goiânia - Lisboa, com escala.
Letícia, como advogada, imprimiu tudo: e-mails, transferências, o projeto de demolição da padaria com assinatura do Eduardo, as duas identidades. Levou numa pasta vermelha que não largava nem pra ir ao banheiro.
Davi vendeu o carro. O carro financiado em 48 vezes. Vendeu por 30 mil e quitou 20 mil de dívida e ficou com 10 mil para ajudar nas despesas. "Carro a gente compra de novo, amiga a gente não perde", disse para Sofia, que chorou abraçada nele.
No aeroporto de Goiânia, 8 pessoas que se conheceram numa tenda amarela por causa de chuva, agora embarcavam juntas para outro continente para salvar duas portuguesas que conheceram há 2 meses.
Joana, de 68 anos, nunca tinha entrado em avião. Tinha medo. Segurou a mão de Davi e de Letícia ao mesmo tempo.
"Se cair, a gente cai junto, né?"
"Não vai cair, Dona Joana. A gente vai cair em cima do Eduardo", Caio respondeu, com o violão despachado como bagagem frágil.
O avião decolou. Pirenópolis ficou pequena lá embaixo.
*CAPÍTULO 17: CASCAIS DE NOVO - A CASA VAZIA*
Chegaram em Cascais em fevereiro, inverno ainda, 11 graus, vento cortante.
A casa de pedra da tia Lúcia estava aberta, mas fria. Madalena estava no hospital com Leonor há 3 dias direto, não tinha voltado.
Encontraram a casa revirada. Gavetas abertas, papéis no chão. Eduardo tinha procurado algo mais que dinheiro.
Rafael achou no chão da cozinha um pen drive quebrado. Era o pen drive onde ele tinha deixado o backup do projeto da padaria e também fotos antigas dele e da Madalena de 4 anos atrás, quando quase trabalharam juntos em Lisboa.
Ana pegou o pen drive e guardou. "Isso aqui é prova."
Foram para o Hospital de Cascais. Leonor estava melhor, sentada na cama, com o cabelo curtinho igual da mãe, desenhando. Quando viu Theo, gritou e pulou da cama com o oxigênio ainda no nariz.
"Theo! Você trouxe o dinossauro?"
Theo tirou da mochila um dinossauro de plástico verde, sujo de tanto usar.
"Trouxe o Rex! Ele viajou de avião!"
As duas crianças se abraçaram e todos os adultos choraram. Até Caio, que nunca chorava.
Madalena abraçou Sofia. As duas enganadas pelo mesmo homem. Não como rivais, como irmãs.
"Desculpa", Sofia disse.
"Desculpa eu o quê? Você não sabia", Madalena respondeu, em português de Portugal. "Ele é um mentiroso profissional. Enganou nós duas com a mesma conversa. Que era arquiteto falido que precisava de ajuda."
Miguel, que estava quieto, perguntou: "Onde ele tá agora?"
Madalena mostrou no celular. Uma foto tirada por uma amiga dela naquela manhã. Eduardo num café em Lisboa, no Chiado, com uma mulher loira, rindo, com pasta de documentos.
"Ele tá tentando vender o projeto de vocês para um escritório de lá. Dizendo que é dele. O projeto da praça da padaria que o Rafael fez."
Rafael sentiu o sangue subir. Não era mais só sobre dinheiro. Era sobre a história dele.
"Ele não vai vender", Rafael disse, calmo, mas com a voz de quem vai brigar. "Porque hoje a gente vai lá."
E foram. Todos. Até Joana, que ficou no hospital com as crianças e com Davi, que ficou para cuidar das duas.
Lisboa, comboio de Cascais para Lisboa, 40 minutos. Letícia com a pasta vermelha no colo, Ana com o pen drive quebrado, Sofia com o celular cheio de prints de transferência, Miguel com o Theo no colo porque não tinha onde deixar, Caio com o violão porque não largava nunca.
No Chiado, no café A Brasileira, Eduardo estava lá mesmo, de terno, com a loira, mostrando um notebook.
Rafael chegou por trás e fechou o notebook com a mão.
"Esse projeto é meu."
Eduardo levou um susto. Depois riu, nervoso.
"Rafael? O que você tá fazendo aqui? E Sofia? Que surpresa..."
Sofia não deixou ele terminar. Jogou na mesa os extratos.
"Você me roubou 15 mil. Roubou 42 mil da Madalena. Tentou demolir a padaria da minha amiga. Quantas mais, Eduardo? Quantas?"
A loira levantou e saiu correndo. Era mais uma.
Eduardo tentou sair também, mas Caio e Miguel fecharam a passagem. Letícia abriu a pasta vermelha e mostrou, em voz alta, para todo o café ouvir.
"Eduardo Andrade Costa, duas identidades, dois CPFs, um em Portugal e um no Brasil. Estelionato, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica. Eu sou advogada no Brasil e já entrei com processo aí também. Você tem 5 minutos para sair de Lisboa e voltar pro Brasil pra responder ou eu chamo a polícia portuguesa agora. Tenho tudo aqui."
Eduardo ficou branco. O café inteiro olhando.
"Vocês não podem provar nada..."
Ana, que até então estava quieta, pegou o pen drive quebrado e colocou na mesa.
"Isso aqui tem digital sua. Você quebrou na nossa casa. Invasão de domicílio em Portugal dá cadeia. Quer tentar?"
Era blefe. O pen drive não tinha digital nenhuma, estava quebrado. Mas Eduardo não sabia.
Ele pegou a mochila e saiu correndo do café, deixando o notebook para trás.
No notebook, aberto, um e-mail sendo escrito para um escritório em Goiânia: vendendo o projeto da praça da padaria por 80 mil reais.
Rafael tirou foto de tudo.
Naquela noite, no hospital de Cascais, com Leonor já sem oxigênio, todos comeram pastel de Belém que Davi comprou na estação. Joana, que nunca tinha saído do Brasil, estava em Portugal comendo pastel de Belém e disse:
"Gente, a gente veio pra outro país pra fazer barraco em café. Eu tô viva demais."
E todos riram. Pela primeira vez em 5 dias, riram de verdade.
*CAPÍTULO 18: O BEIJO QUE FALTAVA - LETÍCIA E DAVI*
O hospital tinha um pátio interno com uma árvore seca de inverno.
Letícia não conseguia dormir. Desde que chegou em Cascais, não conseguia parar de pensar no Davi. No motorista que vendeu o carro para ajudar a Sofia, que ficou no hospital cuidando de duas crianças que nem eram dele, que escrevia cartas.
Davi também não dormia. Estava no pátio, escrevendo no caderno, com a caneta quase congelando de frio.
Letícia desceu.
"Tá escrevendo carta pra quem?"
"Pra você."
Ela ficou parada.
"Posso ler?"
"Não terminei."
"Então termina na minha frente."
Davi escreveu, com a mão tremendo de frio, mas escrevendo rápido, como se tivesse guardado há semanas.
"Letícia, eu tenho 41, um carro que não tenho mais, um caderno cheio de carta que nunca mandei. Eu nunca achei que uma advogada de 31 ia olhar pra mim. Mas desde Pirenópolis, desde que você cantou desafinada na calçada com seu irmão, eu não consigo pensar em outra coisa. Se você quiser, eu escrevo uma carta por dia pro resto da vida. Uma que você pode ler."
Letícia pegou o caderno da mão dele e respondeu escrevendo embaixo, com letra firme de advogada.
"Davi, eu tenho 31, um processo do meu pai que não existe, um irmão que voltei a amar e um medo gigante de ficar sozinha. Eu não quero carta por dia. Eu quero você por dia. Me beija agora que tá muito frio."
Davi não precisou ler duas vezes. Beijou. No pátio frio de um hospital em Cascais, com cheiro de desinfetante e com a árvore seca olhando.
Foi um beijo longo, desajeitado, quente, com gosto de lágrima e de café frio. Letícia, que sempre foi dura, chorou no meio do beijo. Davi secou com a manga do casaco.
Lá em cima, na janela do quarto da Leonor, Joana viu tudo e bateu na janela para Madalena ver também.
"Olha lá, Madalena. Mais um casal que nasceu na chuva de Pirenópolis e vai crescer no frio de Cascais."
Madalena riu. "Dona Joana, a senhora tem que voltar pro Brasil e abrir uma agência de casamentos."
"E vou abrir na padaria da Ana. Vai chamar 'Pão e Amor'."
*CAPÍTULO 19: A VOLTA PARA GOIÁS E O JULGAMENTO*
Voltaram para o Brasil uma semana depois. Leonor teve alta, mas ficou em Cascais com a avó. Theo chorou na despedida no aeroporto, prometeu que ia voltar. Leonor deu a ele um desenho de dois dinossauros de mãos dadas. Um verde e um rosa.
No Brasil, o processo andou rápido porque Letícia não parou.
Audiência marcada em Goiânia, Fórum, 14h, sala 7.
Eduardo chegou de advogado caro, de terno novo, com cara de vítima.
Do outro lado, 8 pessoas de Pirenópolis, mais Madalena que veio de Portugal especialmente com procuração, mais Leonor por vídeo chamada do hospital, com 7 anos e falando para a juíza: "Ele pegou o dinheiro da minha mãe e me deixou sem ar."
A juíza, uma mulher de 50 anos, de Goiânia, ouviu tudo.
Letícia apresentou: extratos, e-mails, fotos do notebook, o pen drive quebrado, o projeto roubado, as duas identidades.
Eduardo tentou se defender: "Foram empréstimos, foram relacionamentos que acabaram, foi mal entendido..."
A juíza interrompeu: "Mal entendido é esquecer guarda-chuva. O senhor tem duas identidades, dois países, três vítimas mulheres aqui e uma criança no hospital. O senhor tentou demolir um patrimônio histórico de Pirenópolis por vingança porque foi largado. Isso não é mal entendido, é obsessão."
Sofia foi chamada para falar. Ela tremia, mas falou firme.
"Eu amei ele. Dei 15 mil porque achei que ele precisava. Ele me controlava, via minhas mensagens, minha roupa. Quando terminei, ele tentou destruir a padaria da minha amiga. Eu só quero que ele nunca mais faça isso com outra mulher."
Miguel levantou e segurou a mão dela na frente da juíza. A juíza sorriu.
Rafael falou depois: "Ele tentou vender meu projeto como se fosse dele. Projeto que eu fiz falido, em Cascais, com ajuda da Ana. Ele não tem nada dele. Nem o nome é dele."
Joana, que foi a última a falar, sem ser chamada, levantou do banco de 68 anos e disse:
"Meritíssima, eu tenho 68 anos, criei minha neta Ana na padaria, meu marido morreu. Eu nunca vim em fórum. Mas vim porque esse moço achou que podia brincar com mulher. Com mulher nova, com mulher velha, com mulher mãe, com mulher estrangeira. E mulher quando se junta, minha filha, não tem advogado que segure. A gente veio de Portugal pra cá só pra dizer que a gente não tem medo dele."
A sala inteira aplaudiu. A juíza teve que bater o martelo para calar.
Sentença na hora: Eduardo condenado a devolver 57 mil reais para as vítimas, proibido de se aproximar de Sofia e Madalena a menos de 500 metros, proibido de exercer arquitetura por 2 anos por fraude, e o processo criminal por estelionato e falsidade vai continuar.
Além disso, a prefeitura de Pirenópolis foi obrigada a pagar indenização moral para Ana por tentativa de desapropriação ilegal: 30 mil reais.
Ana chorou. Com 30 mil, ela podia finalmente reformar a padaria e abrir a segunda em Goiânia com Rafael.
Fora do fórum, Eduardo saiu escoltado, sem olhar para ninguém.
Madalena abraçou Sofia por 5 minutos.
"Acabou", Madalena disse.
"Acabou", Sofia repetiu, e finalmente acreditou.
*CAPÍTULO 20: A SEGUNDA PADARIA E O PEDIDO*
Dois meses depois. Goiânia.
Com os 30 mil da indenização, Ana e Rafael abriram a segunda padaria. Não em shopping. Na rua, no Setor Sul, com porta de madeira, cheiro de pão às 4 da manhã também em Goiânia.
Chamava "Pão e Projeto" mesmo. Rafael fez o projeto, Ana fez o pão. Na inauguração, todo mundo de Pirenópolis foi de van alugada por Davi, que comprou outro carro, mais velho, mas comprou.
Joana cortou a fita com batom vermelho.
Miguel e Sofia já estavam casados no cartório, só com Theo e com a juíza que julgou o Eduardo como testemunha - ela virou amiga. Sofia estava grávida de 2 meses, ainda não contou pra ninguém, só para Miguel, que chorou no banheiro da padaria quando soube.
Letícia e Davi estavam morando juntos em Pirenópolis, num kitnet pequeno, com a pasta vermelha agora guardada no armário e o caderno de cartas do Davi agora com cartas que eram lidas, todas.
Caio e sua música "Pão da Ana" tocou na rádio de Goiânia. Ele foi contratado para fazer trilha de uma novela das 6 que se passava em Goiás.
Madalena e Leonor voltaram para o Brasil de vez em janeiro seguinte. Leonor entrou na escola do Theo em Pirenópolis. As duas crianças inseparáveis. Madalena abriu um escritório de arquitetura com Rafael: Andrade & Lúcia Arquitetura - com nome de mulher na frente.
No dia da inauguração da segunda padaria, Rafael chamou Ana na cozinha, onde ela estava sovando massa, com farinha até no cabelo.
"Ana, lembra quando você me deu pão de queijo às 4h12 da manhã no dia que voltei falido?"
"Lembro. Você tava fedendo chuva."
"Eu tava fedendo fracasso. E você me deu pão. Desde então eu só quero acordar às 4h com você pro resto da vida. Quer casar comigo? Não na igreja, não com festa grande. Casa comigo aqui, na farinha, com sua avó de testemunha e com cheiro de pão?"
Ana chorou na massa. A massa ficou salgada.
"Rafael, eu sou ansiosa, acordo cedo, falo demais, largo medicina, faço pão..."
"E eu sou falido, teimoso, deixo toalha molhada. A gente combina."
Ela disse sim com a mão suja de farinha no rosto dele.
Joana entrou na cozinha e viu os dois abraçados e gritou: "Finalmente! Eu já comprei o vestido!"
*CAPÍTULO 21: A NOITE DAS CARTAS*
Um ano depois da chuva na tenda amarela de Pirenópolis.
Joana fez 69 anos e fez festa na casa grande. Chamou todo mundo de novo. Os 8 originais, mais Madalena e Leonor, mais a tia Lúcia que veio de Portugal, mais a juíza de Goiânia.
Na sala, Theo e Leonor, agora 6 e 8 anos, dormiam no mesmo sofá onde Sofia dormiu um ano antes.
Davi levantou e pediu silêncio. Tirou do bolso um maço de cartas amarradas com barbante.
"Eu escrevi carta a vida toda e nunca mandei. Esse ano, mandei todas. Uma por dia pra Letícia. Mas hoje, escrevi uma pra cada um aqui. Posso ler?"
Ele leu, uma por uma, com voz embargada.
Para Joana: "Dona Joana, obrigado por me ensinar que samambaia morre mas a gente compra outra e que amor de 68 anos é mais corajoso que de 20."
Para Ana e Rafael: "Obrigado por me deixarem dormir na padaria aquele dia e por me mostrarem que pão quente salva gente."
Para Miguel e Sofia e Theo que vai nascer: "Obrigado por me deixarem ver que pai solo não é sozinho e que princesa da chuva existe."
Para Caio e Letícia: "Obrigado por brigarem 5 anos e me ensinarem que irmão volta."
Para Madalena e Leonor: "Obrigado por atravessarem o oceano pra gente ser família."
Todo mundo chorou. Até Caio, que dessa vez não disfarçou.
Joana levantou e fez seu discurso de 69 anos.
"Eu achei que ia morrer sozinha nessa casa grande. Meu marido morreu e eu achei que acabou. Aí minha neta trouxe um menino molhado de Lisboa pra padaria às 4h da manhã e tudo começou. Eu aprendi que história não é o que a gente conta, é o que a gente vive junto. Essa aqui é a história que ninguém contou porque ninguém acreditava que 8 estranhos numa tenda amarela com goteira iam virar família. Mas virou. E agora tem pão, tem projeto, tem música, tem carta, tem criança, tem outra criança vindo aí - é, Sofia, eu sei que você tá grávida, eu sou velha mas não sou boba - e tem amor. Muito amor. E isso ninguém demole. Nem prefeitura, nem Eduardo nenhum."
Sofia ficou vermelha e colocou a mão na barriga ainda pequena.
Miguel beijou a testa dela.
*CAPÍTULO 22: a história que ninguém contou
Na madrugada, 4h da manhã, Ana acordou como sempre, por costume, mesmo sem precisar fazer pão naquele dia porque era festa.
Foi até a padaria original de Pirenópolis, abriu a porta, acendeu a luz do forno.
Rafael estava lá, já acordado, com farinha na mão.
"Eu sabia que você ia vir", ele disse.
"Eu sabia que você ia estar aqui", ela respondeu.
E fizeram pão juntos, às 4h da manhã, como no primeiro dia, mas agora de mãos dadas.
Enquanto sovavam, a porta da padaria abriu. Era Madalena, com Leonor sonolenta no colo, e com uma pasta na mão.
"Desculpa, sei que é cedo. Mas chegou um e-mail agora de Lisboa. Do escritório grande que o Rafael fez parceria."
Rafael abriu o e-mail. Era uma proposta oficial: o escritório de Lisboa quer levar o projeto "Pão e Projeto" - padarias que viram praças - para 5 cidades históricas de Portugal. Com investimento de 200 mil euros. E quer que Rafael e Ana passem 6 meses por ano lá, 6 meses aqui.
Ana leu por cima do ombro, com mão de farinha.
"Rafa... 200 mil euros..."
"É muito pão", Rafael riu.
Madalena completou: "E eles querem que a Joana vá também, para contar a história da padaria. Eles disseram que história vende mais que pão."
Leonor, sonolenta, perguntou: "Tia Ana, eu posso ir também? O Theo vai?"
Naquele momento, a porta abriu de novo. Era Miguel, Sofia, Theo, Letícia, Davi, Caio e Joana, todos de pijama, todos que não conseguiram dormir e foram atrás do cheiro de pão às 4h da manhã, igual há um ano atrás na Festa do Divino.
Joana entrou com seu batom vermelho já passado, mesmo às 4h da manhã.
"Se for pra ir pra Portugal de novo, eu vou. Mas dessa vez eu quero janela no avião."
Todo mundo riu. E Ana entendeu.
A história que ninguém contou não tinha final. Tinha recomeço. De novo, e de novo, e de novo. Cada vez que alguém achava que tinha acabado, vinha uma chuva, uma carta, um e-mail, um pão quente às 4h da manhã.
E eles iam. Juntos.
Porque família não é quem nasce junto. É quem se encontra na tenda amarela quando chove.
*CAPÍTULO 23: OS SEIS MESES EM PORTUGAL - O CONTRATO DE 200 MIL EUROS*
O e-mail do escritório de Lisboa não era spam. Era real. Com timbre, com assinatura digital, com valor.
Sandra Sousa Arquitetos Associados. O maior escritório de revitalização de centros históricos de Portugal. Eles queriam o projeto "Pão e Projeto" - a ideia da Ana e do Rafael de transformar ruas com padarias antigas em praças gastronômicas - para cinco vilas históricas: Óbidos, Monsaraz, Sortelha, Marvão e a própria Cascais.
200 mil euros de investimento inicial. Metade na assinatura. Passagens pagas. Casa paga por 6 meses em Cascais. E exigência: Ana e Rafael tinham que morar lá de março a agosto, e de setembro a fevereiro em Pirenópolis e Goiânia. 6 meses lá, 6 meses cá.
Ana leu o contrato 7 vezes naquela madrugada de 4h da manhã, com farinha na mão, com todo mundo de pijama na padaria.
"Rafa, 200 mil euros dá mais de 1 milhão de reais. A gente nunca viu esse dinheiro."
"Eu vi em Lisboa, mas nunca foi meu. Agora é nosso."
Madalena, que conhecia o escritório, confirmou: "São sérios. São os melhores. E eles amaram a história da Dona Joana. Disseram que história vende mais que arquitetura. Querem que a Dona Joana vá contar a história da padaria de 40 anos em cada vila."
Joana, de batom vermelho às 4h15 da manhã, com 69 anos, respondeu: "Eu vou. Mas só se o Davi for junto pra carregar minha mala e o Antônio da pamonha for junto também porque ele pediu pra namorar comigo ontem."
Todo mundo gritou. Antônio da pamonha, de 70 anos, tinha pedido Joana em namoro na festa.
Davi, que estava do lado da Letícia, riu e segurou a mão da Joana: "Dona Joana, eu carrego a senhora se precisar."
Decidiram ali. Iriam. Todos.
Só que Sofia estava grávida de 4 meses. Miguel era professor, não podia sair 6 meses. Theo tinha escola. Letícia tinha processos. Caio tinha shows. Davi tinha acabado de comprar outro carro.
Como faz?
Foi Miguel quem resolveu, professor de história que sabia de logística.
"A gente vai em rodízio. Ana e Rafael vão os 6 meses porque são o projeto. Madalena já mora lá, fica como ponte. Eu, Sofia e Theo vamos em junho e julho, nas férias escolares. Letícia, Davi, Caio e Joana com Antônio vão em agosto, na festa de Óbidos, que é a maior. Assim todo mundo vai, ninguém perde tudo."
Parecia loucura. Mas toda a história deles foi loucura que deu certo.
Em março, Ana e Rafael embarcaram de novo. Dessa vez não falidos, não fugindo. Com contrato, com visto de trabalho, com a padaria de Pirenópolis reformada e funcionando com dois funcionários que Ana treinou.
No aeroporto de Goiânia, despedida.
Sofia chorando com barriga de 4 meses: "Traz queijo da Serra da Estrela pra mim?"
Ana: "Trago queijo, trago azeite, trago até marido português se você quiser."
Rafael abraçou Miguel: "Cuida da minha padaria de Goiânia?"
"Cuido. Cuida da minha mulher que vai te visitar grávida e com vontade de comer pastel de Belém todo dia."
O avião decolou. Pirenópolis ficou pequena de novo, mas agora com uma placa nova na entrada da padaria: "Filial em Cascais, Portugal - Em Breve".
*CAPÍTULO 24: ÓBIDOS, MÔNICA E A PRIMEIRA PRAÇA*
Óbidos, Portugal. Vila medieval murada, toda de pedra, com buganvile roxa nas janelas.
A primeira praça "Pão e Projeto" seria lá. A prefeitura de Óbidos deu uma rua inteira que estava abandonada, com 3 casas vazias, para Rafael e Ana transformarem.
Ana acordava às 4h da manhã mesmo em Portugal. Só que lá fazia 5 graus em março. Ela fazia pão de queijo com queijo da Serra, pão de mel com mel de rosmaninho, pão com chouriço. Os portugueses da vila, desconfiados no começo, formavam fila às 6h da manhã no frio.
Rafael desenhava com Madalena no escritório aquecido. Pela primeira vez desde Lisboa, 6 anos atrás, ele desenhava sem medo de falir. Porque não desenhava sozinho. Tinha Ana trazendo café quente, tinha Madalena corrigindo, tinha Antônio da pamonha que veio em maio e ficava sentado contando história de Pirenópolis para os portugueses.
Joana chegou em maio, com Antônio de mãos dadas. De batom vermelho, com um xale que comprou em Pirenópolis, contou a história da padaria de 1978 para a Câmara de Óbidos. Falou 40 minutos sem parar, com sotaque goiano, e os portugueses aplaudiram de pé.
"Minha neta largou medicina pra fazer pão e eu achei que era loucura. Hoje eu entendo. Médico cura gente doente. Padeira não deixa a gente adoecer de saudade."
Foi nesse dia que entrou uma nova personagem que muda tudo no final.
Mônica. 38 anos, brasileira de Caldas Novas, Goiás, que morava em Óbidos há 10 anos. Dona de uma pensão. Viúva, com dois filhos. Tinha vindo para Portugal para fugir de um marido violento, e ficou.
Mônica entrou na padaria de Ana em Óbidos porque sentiu cheiro de pão de queijo de longe.
"Você é de Goiás?", perguntou para Ana, com sotaque goiano carregado mesmo depois de 10 anos em Portugal.
"Sou de Pirenópolis! E você?"
"Caldas Novas! Minha nossa senhora, 10 anos sem ouvir sotaque da gente!"
As duas se abraçaram no meio da padaria e choraram. Rafael filmou e mandou para o grupo do WhatsApp "Tenda Amarela". O grupo tinha 10 pessoas agora, com Madalena e Leonor.
Mônica contou sua história. Veio fugida em 2015, com 2 filhos pequenos, sem nada. Abriu pensão, sofreu preconceito, quase voltou 3 vezes. Hoje tinha 3 pensões e empregava 8 brasileiras.
"Eu vi vocês na internet. A história da padaria de Pirenópolis que virou projeto em Portugal. Eu pensei: são goianas como eu. Eu preciso ajudar."
E ajudou. Deu casa para Ana e Rafael ficarem de graça quando o aluguel da casa da tia Lúcia acabou. Deu emprego para Davi quando ele chegasse. Deu conselho para Sofia, por vídeo, sobre ser mãe longe de casa.
Mônica virou irmã. E sem saber, ela era a peça que faltava para fechar o ciclo do Eduardo.
Porque Mônica conhecia Eduardo.
*CAPÍTULO 25: MÔNICA CONHECIA O EDUARDO - A VERDADE FINAL*
Noite de maio, frio em Óbidos, lareira acesa na pensão da Mônica.
Ana e Rafael jantavam com Mônica e seus dois filhos, Pedro de 14 e Julia de 12.
Mônica mostrou fotos antigas do celular para Ana ver como era Caldas Novas há 10 anos.
Numa foto, de 2014, festa de Caldas Novas, Mônica com um homem ao lado.
Ana quase derrubou o copo de vinho.
"Esse homem..."
Rafael olhou também. Ficou branco.
Era Eduardo. Mais novo, com cabelo diferente, mas era ele. Com o braço em volta da Mônica.
"Mônica, quem é esse homem na foto com você?"
"Meu ex-marido. Pai dos meus filhos. O motivo de eu ter fugido pro Portugal. Por quê? Vocês conhecem?"
Ana e Rafael se olharam. Era ele. Eduardo Andrade Costa. O mesmo que enganou Sofia em Goiânia, que roubou Madalena em Cascais, era ex-marido violento da Mônica em Caldas Novas em 2014. Três identidades, três cidades, três mulheres destruídas, mesmo homem.
Mônica contou, chorando, pela primeira vez completa.
Ele se chamava Eduardo Costa em Caldas Novas. Casou com ela em 2009. Era carinhoso no começo. Depois começou a controlar dinheiro, roupa, amizades. Em 2014 bateu nela na frente dos filhos. Ela fugiu com os filhos para Portugal com ajuda da igreja, sem documentos, sem nada. Ele ficou em Caldas Novas, vendeu a casa dela que estava no nome dele, sumiu. Ela soube depois que ele tinha ido para Goiânia e mudado de nome para Eduardo Andrade.
"Ele me deve pensão há 10 anos. Nunca pagou. Meus filhos acham que ele morreu. Eu disse que morreu."
Rafael gravou tudo em áudio, com permissão dela.
No dia seguinte, chamada de vídeo com Letícia em Pirenópolis, com a pasta vermelha.
Letícia ouviu o áudio e disse a frase que fecha o caso de vez:
"Com três vítimas em três cidades e duas nacionalidades, isso não é mais estelionato. É crime continuado internacional, violência doméstica, abandono de incapaz e lavagem de dinheiro. Isso dá cadeia em Portugal e no Brasil. A gente vai denunciar em Lisboa também. Mônica, você quer denunciar?"
Mônica chorou 10 minutos sem parar. Depois disse: "Quero. Por mim, pela Sofia, pela Madalena e pelos meus filhos que acham que o pai morreu mas o pai tava vivo dando golpe em outras mulheres."
Em junho, Letícia, Davi, Joana, Antônio, Caio, Miguel, Sofia grávida de 6 meses e Theo de 6 anos desembarcaram em Lisboa. Todos. Foi a primeira vez que os 10 originais mais Mônica e seus 2 filhos e Madalena e Leonor estiveram juntos no mesmo continente ao mesmo tempo.
Foram 14 pessoas numa casa de pedra em Cascais que cabiam 6. Dormiram no chão, em colchão inflável, em rede, em sofá. E foi a melhor noite da vida deles.
No dia seguinte, todos foram à Polícia Judiciária de Lisboa com Mônica, Madalena e Sofia. Três mulheres, três sotaques, mesma dor, mesmo homem.
Eduardo foi preso em Goiânia no mesmo dia, por mandado internacional solicitado por Portugal, quando tentava embarcar para Miami com outra mulher loira, de 24 anos, que conheceu há 2 semanas no Tinder de Goiânia.
A loira, quando soube, foi até a padaria "Pão e Projeto" de Goiânia e pediu desculpas para Ana. Ana deu a ela um pão de queijo de graça e disse: "Não pede desculpa pra mim, pede pra você. E vai viver."
*CAPÍTULO 26: O NASCIMENTO - SOFIA, MIGUEL E O NOVO NOME*
Julho, Portugal. 32 graus em Cascais, calor diferente do de Goiás, com vento do mar.
Sofia estava de 8 meses. Grávida grande, barriga que parecia que ia explodir, mas linda, com cabelo preso, sem maquiagem, sem salto, de chinelo.
Ela decidiu que queria ter o bebê em Portugal. Porque Leonor nasceu em Portugal, porque Theo conheceu Leonor em Portugal, porque a história deles renasceu em Portugal.
Miguel ficou desesperado. "Amor, mas nosso plano de saúde é de Goiás..."
"Plano de saúde não faz parto, Miguel. Quem faz é gente. E aqui tem gente."
Madalena arranjou um hospital público de Cascais que aceitou. Mônica arranjou uma parteira brasileira que morava em Lisboa há 20 anos. Joana, com 70 anos recém feitos em Portugal - fez aniversário em Óbidos com festa de 50 portugueses cantando parabéns em português de Portugal - disse que ia ser a doula.
"Eu já pari sua mãe, Ana, já ajudei a parir você, agora vou ajudar a parir esse menino ou menina que nem sei o que é."
No dia 18 de julho, 3h47 da manhã - o mesmo horário que Ana acordava para fazer pão - a bolsa da Sofia estourou na casa de pedra de Cascais.
Todos estavam lá. 14 pessoas dormindo espremidas acordaram com grito da Sofia.
"AI! MIGUEL! TÁ SAINDO!"
Miguel, professor de história que sabia tudo sobre Dom Pedro II mas nada sobre parto, ficou branco e começou a recitar datas históricas de nervoso: "Em 1888 a Lei Áurea..."
Rafael pegou o carro emprestado da Mônica. Ana pegou a bolsa da Sofia que já estava pronta há 1 mês. Davi e Letícia pegaram Theo e Leonor que choravam achando que a Sofia ia morrer. Joana e Antônio e Madalena e Mônica e Caio foram atrás em dois carros.
No Hospital de Cascais, 4h30 da manhã.
Sofia teve parto normal, de 6 horas, com Miguel segurando uma mão, Ana segurando a outra, Joana passando pano frio na testa e falando: "Força, minha filha, igual na hora de sovar pão, força no braço!"
Às 10h32 da manhã de 18 de julho, nasceu.
Menina. 3,2kg, 48cm, careca, chorando alto.
Miguel chorou mais alto que ela.
"É menina", a enfermeira portuguesa disse.
Sofia, exausta, suada, com cabelo grudado, olhou para Miguel e disse: "Qual nome?"
Eles já tinham 3 nomes brigados há meses. Miguel queria Helena, Sofia queria Liz, Theo queria Dinossauro.
Na hora, Miguel olhou para a janela do hospital, viu o Atlântico, viu Ana com farinha na camiseta mesmo no hospital porque saiu correndo da padaria, viu Joana de batom vermelho borrado de tanto chorar, viu Madalena e Mônica abraçadas, viu Theo e Leonor na porta do quarto com os dois dinossauros de mãos dadas.
E disse: "Joana."
Sofia repetiu: "Joana?"
"Joana. Porque se não fosse a Dona Joana com batom vermelho na tenda amarela na chuva de Pirenópolis, nada disso existia. Nem você, nem eu, nem essa menina. Joana."
Sofia chorou e concordou.
Joana, na porta, ouviu, colocou a mão na boca e desmaiou de emoção no corredor do hospital de Cascais. Antônio da pamonha segurou e gritou: "Chama médico pra médica que virou mãe e pra mãe que virou avó!"
A menina foi registrada em Portugal como Joana Miguel Sofia - com dois sobrenomes, um português e um goiano. Apelido: Joaninha. Nascida em Cascais, filha de professor de Pirenópolis e médica de Goiânia, neta de padeira, bisneta de parteira.
Theo entrou no quarto e olhou para a irmã.
"Ela parece um pãozinho", ele disse.
E todos concordaram. Parecia mesmo. Um pãozinho quente de 3,2kg.
*CAPÍTULO 27: O CASAMENTO NA PADARIA - ANA E RAFAEL*
Agosto. Óbidos. Festa medieval da vila. A praça "Pão e Projeto" pronta, com 3 casas reformadas, com forno de barro no meio, com mesas de madeira, com cheiro de pão e de sardinha.
Ana e Rafael decidiram casar ali. Não em Pirenópolis, não em Goiânia. Em Óbidos, onde tudo recomeçou de verdade para os dois.
Sem igreja. Sem padre. Com pão.
Joana foi a celebrante. Com 70 anos, com autorização da Câmara de Óbidos que deixou, porque em Portugal pode.
Vestido da Ana? Avental branco de padeira, com farinha de verdade, com véu de tule que Mônica emprestou. Cabelo preso com coque desarrumado, como ela usava às 4h da manhã.
Terno do Rafael? Camiseta "Pães da Ana" e calça jeans com farinha também.
Convidados: 60 pessoas. Os 14 do grupo original, mais 46 portugueses de Óbidos, mais a tia Lúcia que veio de Cascais, mais a juíza de Goiânia que veio de férias para Portugal só para ver o casamento - ela virou amiga de verdade.
Caio tocou. Não música romântica. Tocou "Pão da Ana", que agora era hit em Pirenópolis e em Óbidos também, porque os portugueses aprenderam a letra em português do Brasil.
Votos:
Rafael falou primeiro, com voz tremendo, com as mãos sujas de farinha porque acabou de tirar pão do forno:
"Ana, eu voltei de Lisboa falido, com 800 reais, com vergonha, e você me deu pão de queijo às 4h12 da manhã sem perguntar nada. Você me salvou com pão. Eu não tenho muito pra te oferecer além de projeto e toalha molhada no banheiro. Mas eu prometo acordar todo dia às 4h com você, mesmo quando a gente tiver 80 anos e não precisar mais fazer pão. Porque acordar com você é meu pão."
Ana chorou na farinha.
"Ana, sua vez", Joana disse, também chorando com batom borrado.
Ana respirou fundo, como fazia quando tinha crise de ansiedade, mas não teve crise. Teve amor.
"Rafael, eu larguei medicina porque eu tinha pânico de não ser boa o suficiente. Você me fez acreditar que fazer pão é ser boa o suficiente. Você me viu sem maquiagem, com farinha no cabelo, com ataque de pânico no chão da padaria, e ficou. Eu não quero casamento perfeito. Quero casamento com farinha no chão, com projeto na parede, com segunda padaria, terceira padaria, com filho que a gente ainda vai ter, com netos que vão comer pão de queijo. Casa comigo todo dia de novo?"
Rafael disse sim. Ana disse sim. Joana disse: "Eu declaro vocês pão e projeto pra sempre!"
E todo mundo jogou farinha em vez de arroz. A praça inteira ficou branca. Os portugueses nunca tinham visto casamento com farinha. Amaram.
Naquela noite, na pensão da Mônica, Ana e Rafael transaram com calma, com amor de quem já transou com pressa na padaria, com amor de quem agora tem tempo. Com cheiro de pão no quarto, com barulho da festa medieval lá fora, com promessa de 6 meses lá, 6 meses cá, pra sempre.
E Ana engravidou naquela noite. Só foi descobrir 3 semanas depois, já em Pirenópolis de novo, quando enjoou do cheiro de pão que ela mais amava.
*CAPÍTULO 28: A VOLTA DEFINITIVA E A AGÊNCIA PÃO E AMOR*
Setembro. Volta para Goiás. Todos.
No avião, Ana enjoada, com teste positivo na bolsa, escondido do Rafael porque queria contar na padaria original.
Sofia com Joaninha de 2 meses no colo, com passaporte português e brasileiro. Miguel com Theo de um lado e com a certidão de nascimento da filha do outro. Letícia e Davi com aliança de noivado comprada em Óbidos com dinheiro da venda do segundo carro do Davi - ele vendeu de novo, comprou outro mais velho ainda. Caio com contrato para fazer trilha de novela das 7 agora. Joana e Antônio de mãos dadas, namorando firme aos 70 e 71. Madalena e Leonor e Mônica e seus dois filhos vieram também para passar 3 meses em Pirenópolis, para conhecer Goiás.
Pirenópolis parou no dia que chegaram. A cidade fez festa na rua da padaria, que agora era praça oficial, com nome: Praça Dona Joana e Seu Geraldo - Pão e Projeto.
Ana chamou Rafael na cozinha da padaria original, onde tudo começou às 4h12 daquela terça com chuva.
"Rafa, fecha a porta."
"Que foi?"
Ela mostrou o teste.
Duas linhas.
Rafael ficou em silêncio 10 segundos. Depois gritou tão alto que a cidade inteira ouviu:
"EU VOU SER PAI! A PADEIRA TÁ GRÁVIDA!"
Joana entrou correndo, com batom vermelho, achando que era assalto. Quando viu o teste, desmaiou de novo. Segundo desmaio em 2 meses. Antônio disse: "Dona Joana vai desmaiar toda vez que nascer criança nessa família?"
Sofia entrou com Joaninha no colo e chorou. "Vai ter mais um pãozinho!"
Theo e Leonor gritaram: "Mais um dinossauro!"
Naquela semana, Joana abriu oficialmente o que prometeu no hospital de Cascais: Agência "Pão e Amor".
Não era agência de casamento. Era banco na padaria. Ela sentava numa mesa da praça, com caderno, e juntava gente sozinha.
Dona Maria, 72, viúva, que nunca tinha namorado depois do marido: Joana juntou com Seu Joaquim, 75, que vendia queijo.
Letícia e Davi? Foi Joana que cutucou.
Madalena, que estava em Pirenópolis, conheceu o irmão do Miguel, Marcos, 38, também professor, divorciado, que veio visitar Joaninha e ficou olhando para Madalena o tempo todo. Joana viu e já marcou café.
Mônica, com 2 filhos, conheceu Caio, que tocava na praça toda noite, e Caio começou a dar aula de violão para Pedro, filho dela de 14 anos, e ficou até tarde conversando com ela na varanda.
Joana tinha 70 anos e tinha virado cupido de Pirenópolis.
Ela anotava tudo no caderno: "Maria + Joaquim - deu certo - 72 e 75 - beijaram na praça dia 12/09". "Madalena + Marcos - em andamento - ela riu da piada dele". "Mônica + Caio - talvez - ele ensina violão e fica".
A padaria, que era padaria, virou praça, virou agência de amor, virou casa de todo mundo.
*CAPÍTULO 29: O JARDIM DAS SAMAMBAIAS - DAVI E LETÍCIA E O FINAL DO EDUARDO*
Outubro. Goiânia. Fórum.
Julgamento final do Eduardo.
Dessa vez, 5 vítimas na sala: Sofia com Joaninha no colo, Madalena com Leonor, Mônica com Pedro e Julia, a loira de 24 anos de Goiânia que ele tentou enganar por último, e uma quinta que ninguém conhecia: Patrícia, 42 anos, de Anápolis, que viu a reportagem na TV sobre o caso e reconheceu o homem que deu golpe nela em 2012.
Cinco mulheres. Cinco cidades. Um homem.
Eduardo chegou algemado. Sem terno. De camiseta branca. Magro, sem o charme de antes.
Letícia foi a advogada de acusação assistente, com a pasta vermelha agora com 300 páginas.
Ela não gritou. Falou baixo, calmo, como advogada boa faz.
"Meritíssima, esse homem não roubou dinheiro. Ele roubou tempo. Roubou 10 anos da Mônica que teve que fugir com dois filhos para outro país. Roubou 2 anos da Madalena que teve que recomeçar com uma filha pequena. Roubou 1 ano da Sofia que tomava remédio para dormir. Roubou a paz da Patrícia e da Ana que quase perderam a padaria. Ele não precisa de cadeia só. Ele precisa entender que mulher quando se junta não esquece."
A juíza, a mesma que julgou a demolição da padaria, condenou: 8 anos em regime fechado por estelionato continuado, falsidade ideológica, violência psicológica, abandono de incapaz e tentativa de lavagem de dinheiro. Sem fiança. E pensão retroativa para os 2 filhos da Mônica: 120 mil reais.
Eduardo chorou na hora da sentença. Pela primeira vez, chorou de verdade, não de manipulação.
Mônica levantou e disse para ele, na frente de todos:
"Eu não te perdoo. Mas eu não te odeio mais. Porque eu tenho uma pensão em Óbidos, dois filhos lindos, e uma família grande que nasceu por sua causa, de um jeito torto, mas nasceu. Fim



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