Sob o Céu de Eryndor
☨ I ☨
A guerraaproximava-se de seus últimos dias.
Ao menos era o quediziam.
Para aqueles queainda viviam sob sua sombra, pouco importava quantos exércitos haviam recuado,quais fortalezas tinham caído ou quantos homens importantes discutiam os termospara encerrar o conflito. Naquela noite, em algum ponto do Reino de Eryndor, nãohavia paz alguma. Um pequeno vilarejo sem muralhas, soldados ou qualquerimportância que justificasse uma batalha tornara-se apenas mais um lugaralcançado pela guerra. Famílias abandonavam suas casas enquanto outras seescondiam dentro delas, agarradas à esperança de que paredes de madeira fossemsuficientes para protegê-las. Gritos atravessavam as ruas, o fogo consumia ostelhados e clarões de magia rasgavam o céu escuro. A cada novo impacto, o chãoestremecia e construções inteiras desapareciam sob madeira quebrada, pedra ecinzas.
Em meio ao caos,Ardan corria com o pequeno Gustav apertado contra o peito e a mão de Elyrafirmemente presa à sua. Ela tropeçava enquanto tentava acompanhá-lo, mas nenhumdos dois podia diminuir o ritmo. Um clarão surgiu atrás deles e, segundosdepois, uma explosão fez a terra estremecer. Elyra perdeu o equilíbrio, e Ardanconseguiu segurá-la antes que atingisse o chão.
— Ardan!
— Continue! Estamosquase chegando!
Gustav choravadesesperadamente nos braços do pai. Era pequeno demais para compreender o queacontecia ao redor, mas não precisava entender a guerra para sentir o medo dospais. Elyra aproximou-se dele enquanto retomavam a corrida e acariciou seurosto com uma das mãos.
— Está tudo bem,meu amor. A mamãe está aqui. Está tudo bem...
Outra explosãoabafou o fim da frase. Elyra fechou os olhos por um instante e apertou a mão deArdan com mais força. Dessa vez, parecia estar tentando convencer a si mesma.
A casa finalmenteapareceu adiante. Ardan acelerou o passo, mas Elyra o puxou antes que chegassemà porta.
— Você realmenteacha que vai funcionar?
Ele parou.
Por um breveinstante, os dois apenas se encararam. Elyra procurava no rosto do maridoalguma certeza à qual pudesse se agarrar, mas encontrou o mesmo medo quesentia. Ardan poderia ter mentido. Poderia ter dito que sabia exatamente o queestava fazendo, que tudo ficaria bem e que, quando o sol nascesse, os trêsainda estariam juntos. Em vez disso, segurou o rosto dela.
— Não sei.
Os olhos de Elyrase encheram ainda mais de lágrimas.
— Mas é a melhorchance que temos.
Um novo estrondoatravessou a noite. Não havia tempo para outra escolha.
Ardan abriu a portacom violência e entrou carregando Gustav. O interior da casa estava escuro,iluminado apenas pelos clarões que atravessavam as janelas. A cada impactodistante, pequenos objetos tremiam sobre as prateleiras e poeira caía das vigasdo teto. Elyra fechou a porta enquanto o marido atravessava o cômodo e começavaa retirar caixas e outros objetos de um velho armário.
— Onde está?!
— Na parte debaixo!
Ardan afastou tudoque havia à frente até finalmente encontrar o que procurava. Era um recipientede metal escuro, grande o bastante para acomodar uma criança pequena. Símbolosantigos percorriam sua superfície e, embora estivessem desgastados pelo tempo,uma luz tênue ainda surgia entre alguns deles.
Elyra se aproximou.
— Os encantamentosainda funcionam?
Ardan passou osdedos pelos símbolos.
— Precisamfuncionar.
A casa estremeceu.
Os dois olharampara o teto.
Não havia tempopara testar nada.
Ardan colocou orecipiente no chão e abriu a tampa. Quando começou a afastá-lo do peito, Gustavchorou ainda mais e estendeu os pequenos braços em sua direção.
— Eu sei, meufilho... eu sei.
Ele o acomodoucuidadosamente no interior e permaneceu ajoelhado diante da caixa. Por algunssegundos, apesar das explosões que faziam a casa estremecer, o som da guerrapareceu distante. Gustav continuava estendendo os braços para ele, e aquelehomem que passara os últimos minutos correndo sem demonstrar hesitaçãosimplesmente não conseguiu fechar a tampa.
Elyra levou a mão àboca.
Ardan tentousorrir.
— Ei...
Sua voz falhou.
Respirou fundo esegurou a pequena mão de Gustav entre os dedos.
— O papai precisaque você seja forte agora, certo?
Gustav continuouchorando.
— Eu queria termais tempo com você. Queria ensinar você a segurar uma espada, ver vocêcrescer... ver o homem que vai se tornar.
Os olhos de Ardanse encheram de lágrimas. Dessa vez, ele não tentou escondê-las.
— Mas escute umacoisa, Gustav. Você vai crescer. Vai conhecer pessoas, vai errar, vaiacertar... e algum dia vai encontrar seu próprio caminho.
Ardan acariciou orosto do filho.
— Seja um grandehomem. Não por mim. Não por ninguém.
Um sorriso dolorososurgiu em seus lábios.
— Seja o homem quevocê escolher ser.
Elyra já nãoconseguia conter as lágrimas. Ajoelhou-se ao lado do marido, tomou a outra mãode Gustav e beijou seus pequenos dedos.
— A mamãe ama você.Mais do que qualquer coisa neste mundo.
Ela tentoucontinuar, mas precisou interromper a frase para recuperar a voz.
— E, não importaquanto tempo passe, você nunca estará sozinho. Está ouvindo? Nunca. Mesmo quenão possa nos ver... estaremos com você.
Gustav não poderiacompreender aquelas palavras. Talvez fosse jovem demais até mesmo para guardaraquele momento como uma lembrança verdadeira. Ainda assim, Elyra precisavadizê-las.
— Nós sempreestaremos ao seu lado.
Ardan colocou a mãosobre o ombro da esposa. Os dois se olharam e, naquele breve silêncio, disseramum ao outro tudo aquilo para o qual já não havia tempo. Ardan voltou-se paraGustav uma última vez.
— Eu te amo, meufilho.
Elyra sorriu entreas lágrimas.
— Nós amamos você.
Então fecharam atampa.
A última imagem queGustav teve dos pais foi a de Ardan e Elyra tentando sorrir para ele enquanto omundo desabava ao redor dos três.
Anos depois, eleainda sonharia com aqueles rostos.
Gustav abriu osolhos com o coração acelerado e levou alguns segundos para perceber ondeestava. Sua respiração pesada parecia pertencer ao menino preso dentro daquelacaixa, mas acima dele não havia fogo, fumaça ou um teto prestes a desabar.Havia apenas os galhos de uma velha árvore balançando lentamente sob a brisa datarde e, entre as folhas, um céu limpo que começava a adquirir os tonsalaranjados do entardecer.
Ele permaneceudeitado por alguns instantes, esperando o corpo entender aquilo que a mente jásabia.
Era apenas o sonho.
De novo.
— Ótimo...
Passou as mãos pelorosto e se sentou, encostando as costas no tronco. Nunca soubera dizer quantodaquilo era lembrança e quanto havia sido construído pelas histórias que ouvirasobre aquela noite. Era jovem demais quando perdera os pais para se recordarcom tanta clareza de suas vozes, seus rostos ou das palavras que haviam dito.Talvez sua mente simplesmente tivesse preenchido os espaços vazios ao longo dosanos.
Gustav já haviadesistido de descobrir.
Ao lado dele, aespada de treinamento permanecia caída sobre a grama.
Ele a encarou.
— Melhor ainda. Vimtreinar e dormi.
Se Osricperguntasse, aquela parte definitivamente não entraria no relato.
Gustav recolheu aespada e se levantou. O sol já começava a desaparecer atrás das colinas quecercavam Smalberg, e ele decidiu que havia treinado o suficiente naquele dia —ou, pelo menos, era o argumento que pretendia usar caso alguém perguntasse.
O caminho de voltaatravessava boa parte do pequeno vilarejo. Algumas dezenas de casas seespalhavam ao longo das ruas de terra, cercadas por plantações, campos epequenos bosques. Crianças ainda brincavam próximas às casas enquanto osúltimos trabalhadores encerravam o dia. Gustav conhecia praticamente cadapessoa que vivia ali, cada trilha entre as árvores e cada lugar onde erapossível desaparecer durante algumas horas quando Osric aparecia procurandoalguém para ajudá-lo com algum trabalho.
Smalberg era suacasa.
Sempre havia sido.
Talvez justamentepor isso fosse tão difícil explicar a sensação que carregava havia algum tempo.
Ele gostava daquelelugar.
Gostava daspessoas.
Só não conseguiaimaginar passar toda a vida ali.
O cheiro da comidachegou até Gustav antes mesmo de ele abrir a porta.
— Se você queimoualguma coisa de novo, eu como na taverna — anunciou enquanto entrava.
A resposta de Osricveio da cozinha.
— Continue falandoe você não come em lugar nenhum.
Gustav sorriu.
— Então está bom?
— Descubra.
Osric já estavasentado quando ele chegou à mesa. Os anos haviam embranquecido parte de seuscabelos e deixado marcas profundas em seu rosto, mas pouco fizeram paradiminuir a presença do homem que liderava Smalberg havia tanto tempo que Gustavsequer lembrava de outra pessoa ocupando aquela posição. Mais importante queisso, Osric fora quem o criara depois da morte de seus pais. Para Gustav,“líder do vilarejo” sempre parecera um título pequeno demais para explicar quemaquele homem era.
Ele se sentou eexperimentou a comida.
Osric ficouesperando.
Gustav mastigoulentamente, como se avaliasse um prato servido na corte real.
— Sobrevivi àprimeira colher.
— Ótimo. Amanhãfaço pior.
— Sabia que nãodevia ter falado.
Osric soltou umarisada e começou a comer. Durante algum tempo, conversaram sobre coisas semimportância. Um dos moradores precisava consertar o telhado antes das próximaschuvas, algumas cercas haviam sido danificadas e Gustav, aparentemente, haviaprometido ajudar em mais trabalhos do que conseguia lembrar.
Era uma noitecomum.
Talvez por issofosse tão difícil dizer o que precisava dizer.
Osric percebeuantes que ele encontrasse coragem.
— Você estáestranho.
Gustav ergueu osolhos.
— Estranho como?
— Está há quasecinco minutos sem reclamar da comida.
— Talvez eu estejaamadurecendo.
— Então é grave.
Gustav riu, mas osorriso desapareceu aos poucos. Osric percebeu e deixou os talheres sobre amesa.
— O que aconteceu?
Gustav permaneceualgum tempo olhando para o prato. Havia ensaiado aquela conversa várias vezesnas últimas semanas, mas todas as versões pareciam muito melhores quando Osricnão estava sentado diante dele.
— Tio... você játeve a sensação de estar no lugar certo e, ao mesmo tempo, saber que nãodeveria permanecer nele?
Osric franziulevemente o cenho.
— Explique.
— Eu gosto daqui.Você sabe disso. Smalberg é minha casa. Só que todos os dias parecem iguais. Eutreino, ajudo no vilarejo, volto para casa e, no dia seguinte, faço tudo outravez. Não é uma vida ruim. Eu só... não sei se é a vida que quero.
Osric não ointerrompeu.
Gustav apoiou osbraços sobre a mesa.
— Tenho dezenoveanos e não faço ideia do que quero fazer daqui para frente. Quanto mais pensonisso, mais parece que não vou descobrir ficando aqui.
— E já sabe paraonde pretende ir?
Dessa vez, Gustavnão hesitou.
— Valedorn.
Osric ergueu umasobrancelha.
— A capital?
— Quero tentarentrar para a Guarda Real de Eryndor.
Gustav esperou pelareação. Imaginara aquela conversa tantas vezes que já conhecia todas aspossíveis respostas de Osric — ou pensava conhecer. Esperava preocupação,perguntas ou uma longa tentativa de fazê-lo reconsiderar.
Em vez disso, Osricapenas assentiu.
— Então vá.
Gustav piscou.
— Só isso?
— Queria umdiscurso?
— Eu esperava pelomenos alguma tentativa de me impedir.
Osric recostou-sena cadeira.
— E adiantaria?
Gustav pensou porum instante.
— Provavelmentenão.
— Foi o queimaginei.
Um sorriso surgiuno rosto dos dois, mas Osric logo assumiu uma expressão mais séria.
— Há quanto tempopensa nisso?
— Alguns meses.
— E decidiu quando?
— Hoje.
— Então você pensademais e decide devagar. Isso explica muita coisa.
— Obrigado peloapoio.
— Disponha.
Gustav riu.
Osric apontou ostalheres na direção dele.
— Mas não confundameu apoio com achar que vai ser fácil. A Guarda Real não é como treinar comigoatrás de casa. Valedorn também não é Smalberg. Lá você vai encontrar gente quetreinou a vida inteira com os melhores espadachins de Eryndor, magos com formaçãoque você nunca teve e pessoas que não vão se importar nem um pouco com quemvocê é.
— Eu sei.
— Não. Ainda nãosabe.
Gustav abriu a bocapara responder, mas Osric ergueu a mão.
— E não há problemanisso. Vai aprender.
A resposta o pegoudesprevenido.
— Você realmenteacha que consigo entrar?
Osric o encaroucomo se a pergunta fosse absurda.
— Gustav, vocêtreina espada desde que era grande o bastante para segurar uma sem cair paratrás. E consegue manipular dois elementos.
— Você fala como seisso fosse grande coisa.
Osric quase seengasgou.
— Porque é umagrande coisa.
— Para mim semprefoi normal.
— Para você. —Osric balançou a cabeça. — A maioria dos magos que consegue despertar umaafinidade passa anos aprendendo a controlar apenas aquele elemento. Fogo, Água,Terra ou Ar. Dominar dois já é raro o bastante para fazer alguém prestaratenção.
Gustav fez umacareta.
— Então talvez eudevesse evitar contar isso para todo mundo.
— Finalmente umaideia inteligente.
— Ei.
— E talvez tambémdevesse aprender a não mostrar tudo o que sabe cinco minutos depois de conheceralguém.
Gustav estreitou osolhos.
— Isso pareceestranhamente específico.
— Porque eu conheçovocê.
Gustav sorriu evoltou a comer. Para ele e Osric, suas afinidades com Fogo e Água eram umapeculiaridade incomum, mas já familiar depois de tantos anos. Nenhum dos doistinha motivo para imaginar que aquilo fosse apenas uma parte de algo muitomaior.
Osric tomou umpouco de água antes de continuar:
— E não esqueça damana. Afinidade nenhuma adianta se você se esgotar no meio de uma luta.
— Você já explicouisso umas cem vezes.
— Então possoexplicar mais uma. Quanto mais complexa a magia, maior o consumo. Se gastartudo tentando impressionar alguém, vai terminar no chão antes do adversário.
— Quem disse que eutentaria impressionar alguém?
Osric apenas oencarou.
Gustav suspirou.
— Certo. Argumentojusto.
Osric sorriu.
— Vá para Valedorn.Faça o teste. Conheça o mundo. Talvez descubra que a Guarda Real é exatamente oque procura.
Fez uma pausa antesde acrescentar:
— Talvez descubraque não é.
Gustav franziulevemente o cenho.
— E se não for?
— Procure outracoisa.
A simplicidade daresposta o pegou desprevenido.
Osric deu deombros.
— Você tem dezenoveanos, garoto. Não precisa descobrir o resto da sua vida amanhã.
Gustav permaneceuem silêncio por alguns segundos. Durante meses, pensara na partida como seprecisasse encontrar uma resposta definitiva para a própria existência. Como sehouvesse algum lugar no mundo onde seu propósito estivesse esperando por ele ebastasse chegar até lá.
Talvez nãofuncionasse assim.
Talvez bastassecomeçar.
— Obrigado, tio.
— Não me agradeçaainda. Primeiro entre para a Guarda Real. Depois pode voltar aqui e se gabar.
Gustav sorriu.
— Pode deixar.
Pela primeira veznaquela noite, a incerteza dentro dele pareceu um pouco menor. Ainda não sabiao que encontraria em Valedorn, nem se aquele caminho realmente lhe daria asrespostas que procurava.
Mas agora havia umadireção.
E, por enquanto,aquilo bastava.
Gustav acordou cedona manhã seguinte. Quando terminou de guardar seus poucos pertences, encontrouOsric diante da casa com provisões suficientes para vários dias e uma pequenabolsa de couro. Pegou-a e sentiu o peso das moedas antes de guardá-la junto àsoutras coisas.
— Quanto tem aqui?
— O bastante parachegar a Valedorn. Desde que não resolva gastar tudo pelo caminho.
— Em quê? Árvores?
— Conhecendo você,encontraria alguma maneira.
Osric lhe entregouos mantimentos.
— E coma direito.
— Sim, tio.
— Estou falandosério.
— Eu sei.
— Não viva só depão.
— Certo.
— E tente nãodormir no meio do treinamento.
Gustav parou dearrumar a mochila e lentamente ergueu os olhos.
Osric sorria.
— Você achou mesmoque eu não sabia?
— Como?
— Você ronca.
— Eu não ronco.
— Ronca.
— Isso é mentira.
— Vá para Valedorn,Gustav.
Gustav balançou acabeça, rindo, e colocou a mochila sobre os ombros. A espada descansava presa àcintura, e tudo que levaria consigo cabia nas costas. Caminhou alguns passos emdireção à estrada, mas, ao chegar ao limite da propriedade, parou.
Aquela casa sempreestivera ali.
Durante toda a suavida, não importava quanto tempo passasse fora ou onde estivesse dentro deSmalberg, aquele era o lugar para onde voltava no fim do dia. Pela primeiravez, não sabia quando atravessaria aquela porta novamente.
Virou-se.
Osric permaneciadiante da casa, observando-o.
Gustav haviaimaginado aquela viagem durante meses.
Nunca pensara muitona despedida.
— Tio.
— Hm?
— Eu volto.
Osric assentiu.
— É bom que volte. Aindatem muito trabalho atrasado por aqui.
Gustav soltou umarisada.
— Sabia que haviaalgum interesse nisso.
Osric aproximou-see colocou uma das mãos sobre o ombro dele. Dessa vez, não houve piada.
— Vá, Gustav.Descubra o que existe além daqui. Conheça pessoas, veja lugares novos... façaalgumas escolhas ruins de vez em quando.
Gustav arqueou umasobrancelha.
— Esse é seuconselho?
— Algumas. Só obastante para aprender alguma coisa.
— Excelentecriação.
— Fiz o que pude.
Os dois sorriram.
Osric apertou oombro dele.
— Encontre aquiloque está procurando.
Gustav assentiu.
— Até logo, tio.
Osric retirou amão.
— Até logo, filho.
Gustav se virou ecomeçou a caminhar. Não olhou novamente para trás, não porque fosse fácildeixar Smalberg, mas porque sabia que, se continuasse olhando, acabariaencontrando motivos para adiar aquilo por mais um dia. A espada pesava àcintura, a mochila estava cheia e algumas moedas tilintavam na bolsa que Osriclhe dera. Era pouco, mas era tudo de que precisava.
Pela primeira vez,o caminho diante dele levava a um lugar que não conhecia.
E Gustav gostoudaquela sensação.
As primeiras horasde viagem transcorreram sem grandes dificuldades. A estrada serpenteava entrecampos e bosques, afastando Gustav cada vez mais de Smalberg, e pouco a poucoas paisagens conhecidas deram lugar àquelas que até então ele vira apenas nas históriasde viajantes. Depois de anos percorrendo sempre os mesmos caminhos, atépequenas diferenças pareciam interessantes. O único problema, descobriu depoisde algum tempo, era viajar sozinho. Nas primeiras horas, o silêncio eraagradável. Depois, começou a conversar consigo mesmo.
— Excelente começo.
Esperou algunssegundos, como se alguém pudesse responder.
— Pelo menosconcordamos.
Continuou andando.
Foi ao atravessaruma região de vegetação mais densa que percebeu alguma coisa se movendo entreos arbustos. Gustav parou e, quando o ruído cessou, levou lentamente a mão aocabo da espada.
— Provavelmentenada.
Um galho grosso separtiu dentro da mata.
Gustav suspirou.
— Claro.
O urso surgiu davegetação como uma massa enorme de pelos e músculos. Gustav mal teve tempo decompreender o tamanho da criatura antes que ela avançasse. Jogou o corpo para olado e sentiu as garras passarem próximas o bastante para rasgar o tecido de suamanga. Caiu sobre um dos joelhos e puxou a espada da bainha enquanto o rugidodo animal atravessava a estrada.
— Certo... vocêdefinitivamente não é nada.
Gustav se levantoue retirou rapidamente a mochila, lançando-a para a lateral do caminho. O ursose virou e investiu novamente. Dessa vez, Gustav correu em sua direção. Esperouaté o último instante e, quando a pata veio contra seu rosto, abaixou-se e passoupela lateral da criatura. Girou o corpo ao mesmo tempo em que conduzia a espadanum arco horizontal.
A lâmina encontroucarne.
O golpe atravessouuma das patas dianteiras.
O membro caiu sobrea estrada enquanto o rugido do animal ecoava entre as árvores. Gustav recuouimediatamente, mantendo a espada diante do corpo. Seu coração batia rápido, masa respiração permanecia controlada. Anos de treinamento haviam lhe ensinado queferir um adversário não significava vencer uma luta, e aquele urso parecia terficado ainda mais perigoso.
Ferida e tomadapela fúria, a criatura avançou novamente. Gustav desviou da primeira investida,mas não conseguiu se afastar completamente da segunda. A pata restante atingiude raspão seu ombro e o fez cambalear alguns passos.
Ele recuperou oequilíbrio e movimentou o braço para verificar se ainda respondia.
— Certo... issodoeu.
O urso tornou a seerguer.
Gustav percebeu quenão precisava prolongar aquilo.
Abaixou a espada eabriu a mão esquerda.
Mana começou apercorrer seu corpo.
Conhecia aquelasensação desde criança. Primeira vinha um calor no centro do peito; depois, apressão se espalhava pelo braço até se concentrar na palma da mão. Toda magiaexigia mana, e mana tinha limite. Osric fizera questão de martelar aquela liçãoem sua cabeça durante anos.
Uma pequena chamasurgiu sobre sua palma.
O urso rugiu eavançou.
Gustav concentroumais mana, fazendo a chama crescer e se condensar diante dos dedos. O caloraumentou rapidamente, iluminando seu rosto enquanto a criatura encurtava adistância entre eles.
— Fireball.
A esfera de fogodisparou.
O impacto atingiu ourso em cheio e interrompeu sua investida. A criatura foi lançada contra ochão, e as chamas percorreram seu corpo por alguns segundos enquanto Gustavpermanecia com a mão erguida, preparado para atacar novamente.
Não foi necessário.
Pouco a pouco, osilêncio retornou à estrada.
Gustav esperou maisalguns segundos antes de abaixar a mão. O uso da magia deixara aquela conhecidasensação de energia consumida, mas era pequena — quase insignificante. Depoisde tantos anos manipulando Fogo e Água durante os treinamentos, aprendera a reconheceros próprios limites e sabia que ainda possuía mana de sobra.
Ou, pelo menos,acreditava saber onde estavam esses limites.
Embainhou a espadae caminhou até a mochila.
— Espero queValedorn tenha menos ursos.
Pegou-a do chão ecomeçou a colocá-la novamente sobre os ombros.
Pensou por uminstante.
— Provavelmente temproblemas piores.
Suspirou.
— Excelenteescolha, Gustav.
Depois de encontrarum lugar seguro próximo à estrada, Gustav parou apenas o suficiente para comerparte das provisões que Osric havia preparado e recuperar as forças. Aindahavia vários dias de viagem pela frente e, se pretendia chegar a Valedorn atempo do teste da Guarda Real, não podia transformar cada descanso em uma tardeinteira.
Nos dias seguintes,a paisagem mudou pouco a pouco. Pequenos povoados começaram a surgir ao longodo caminho, carroças tornaram-se mais frequentes e viajantes passaram aaparecer em maior número. Quanto mais avançava, mais evidente ficava queaquelas estradas convergiam para o mesmo lugar.
No quinto dia,Gustav alcançou o topo de uma elevação.
E finalmente viuValedorn.
Mesmo àqueladistância, as grandes muralhas da capital de Eryndor dominavam o horizonte.Torres erguiam-se acima delas, e incontáveis construções se espalhavam paraalém dos portões. Depois de cinco dias cercado por estradas, bosques e pequenasaldeias, Gustav levou alguns segundos para compreender a escala daquela cidade.
— Então é essa...
Valedorn.
O primeiro destinoque escolhera para si mesmo.
Gustav permaneceualguns instantes observando a cidade antes de ajustar a mochila sobre os ombrose começar a descer a estrada. Ainda levaria algumas horas até alcançar osportões, mas aquilo já não importava. Estava perto. Depois de tantos anosimaginando o que poderia existir além de Smalberg, o primeiro verdadeiro passode sua nova vida estava finalmente diante dele.
Foi então que ouviualgo.
Uma melodia.
Gustav diminuiu opasso e olhou ao redor. Havia alguns viajantes ao longe, mas estavam distantesdemais para serem responsáveis pelo som, e nenhuma casa podia ser vista nasproximidades. A música surgiu novamente, carregada suavemente pelo vento, edessa vez ele percebeu de onde vinha.
Da floresta.
Parou à margem daestrada e escutou com atenção. Era uma voz suave, acompanhada apenas pelomurmúrio distante de água corrente e pelo vento atravessando as folhas. Haviaalgo melancólico naquela melodia, mas não exatamente triste. Era calma,delicada e quase íntima, como se quem cantasse acreditasse estar completamentesozinho.
Gustav olhou paraValedorn.
Depois para afloresta.
Voltou a olhar paraValedorn.
— Não.
Retomou o caminho.
Deu três passos.
A melodiacontinuou.
Gustav parou outravez e fechou os olhos.
— Eu vou mearrepender disso.
Saiu da estrada.
Os primeiros passosentre as árvores ainda permitiam enxergar o caminho atrás dele, mas logo avegetação se tornou mais densa. Gustav afastou um galho e continuou seguindo avoz, cada vez mais nítida conforme avançava floresta adentro.
Valedorn podiaesperar alguns minutos.
Ele só queriadescobrir quem estava cantando.
Sem imaginar queaquela pequena decisão, aparentemente insignificante, o conduzia para algomuito maior do que qualquer coisa que o aguardava além dos portões da capital.








