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Entre Rédeas e Liberdade

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Summary

Há caminhos que nos são dados. E há aqueles que escolhemos trilhar. Alice Salvatore cresceu cercada por tudo aquilo que a alta sociedade espera de uma jovem de seu título: vestidos impecáveis, bailes, pretendentes e um futuro cuidadosamente planejado por sua família. Mas, por trás da dama perfeita que todos enxergam, existe uma garota que deseja algo muito mais simples - ser livre para escolher o próprio destino. Em sua segunda temporada entre os bailes de Londres, Alice se vê cada vez mais pressionada a encontrar um marido. É então que surge Vicente, um jovem duque tão encantador quanto enigmático, capaz de despertar sentimentos que Alice não sabe se deve permitir. Entre jardins, cavalos, pinturas, festas e segredos escondidos pelos salões da nobreza, Alice começa a perceber que nem todos ao seu redor são aquilo que aparentam ser. Enquanto novos laços se formam e antigos mistérios ressurgem, sua família também enfrenta conflitos que ameaçam mudar tudo o que ela acreditava conhecer. E, enquanto o coração parece apontar para um caminho, as lembranças de sua mãe continuam a sussurrar outro. Porque, em um mundo onde todos parecem saber o que Alice deve ser, talvez sua maior história seja descobrir quem ela realmente deseja se tornar.

Status
12h ago
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - A Flor de Cristal

— Não! Mamãe! Por favor... — Meus olhos ardiam, minha visão embaçava, sentia como se meu corpo fosse desabar a qualquer momento.

O vento batia bravamente contra as janelas, cujo tampões se debatiam contra as paredes, as cortinas ondulavam, como ondas de um mar feroz.

— Aguente firme, Lana! — Meu pai segurava firme a mão de minha mãe. — Nossa benção já veio ao mundo. Por favor, resista. — Seus olhos se fecharam, e sua cabeça recostou na mão dela. As lágrimas escorriam por seus olhos. Ele olha para mim.

— Leonardo! Nicolau! Já falei para tirarem ela daqui! — Meu irmão Léo permanece paralisado, com uma de suas mãos na boca, e os olhos marejados. No entanto, Nicolau se move, e antes que pudesse me pegar, disparo em direção a cama onde a mamãe estava.

— Acorde, mamãe! — Seguro sua mão com toda a minha força. — Ninguém vai me tirar do seu lado! — Nicolau se aproximou, e então, começou a me tirar a força.

— Não! Me solta! — Eu gritava, minhas pernas e braços se debatiam, lutando para me soltar. — Mãe! Me deixem ficar com ela! — Minha voz se esvaia, com a dor que sentia, como os trovões que rugiam nos céus daquela noite.

Antes de ser totalmente puxada para fora, mesmo através da garoa melancólica que meus olhos haviam se tornado, pude ver a mão de minha mãe se movendo, seus dedos, mesmo relutantes, se esticavam, como se me chamassem. Mas, com um baque gélido e sem perdão, a porta se fecha a minha frente.

*

Meus olhos se abrem, rápidos. Minha mão tremia, a levei até meu rosto, que estava úmido. O suor frio se misturava as lágrimas que haviam escorrido pelas minhas bochechas. Aquele sonho havia retornado para me assombrar, a fatídica noite.

Mesmo sem forças, me levanto e puxo o sino da casa, para que chamem a minha dama de companhia, Isabela. Enquanto ela não chega, me debruço na janela, olhando o horizonte. Os raios de Sol adentravam meu quarto, aquecendo tudo que havia se tornado mórbido após aquela memória. As várias casas já pareciam ter acordado, carroças e carruagem passavam pelas ruas, crianças entregavam panfletos, e, ao longe, o castelo, onde o rei e a rainha residiam, dominando cinco cidades, e alguns vilarejos.

É verdade, estamos no começo da temporada de casamentos. — Meu olhar desvia para o nada — De fato não me importo muito com isso, mas...

Escuto batidas em minha porta, e logo dou a permissão para entrar.

— Bom dia, milady. — Bela se curva em reverência.

— Bom dia, Belinha. Pode por favor ordenar que preparem meu banho e separar as minhas roupas. — Caminho até ela, meus olhos ainda estavam pesados por conta de antes.

— Se me permite perguntar, senhorita. Você sonhou com aquilo de novo, não foi? — Seu semblante me mostrava uma certa melancolia. Mesmo que tenha se juntado a família alguns anos depois daquele dia, ela sempre tenta me reconfortar, sem saber exatamente de todo o sentimento por trás.

— Sim... Mesmo que eu lute para esquecer, o passado sempre volta. — Encaro o quadro de um lago azul cristalino, pendurado na parede.

— Não fique assim, use isso como combustível para continuar seguindo em frente. — Ela segura as minhas mãos. — Além disso, a nova temporada se iniciou, se anime, quem sabe conheça um rapaz e consiga construir seu futuro.

Meu olhar se encontra com o dela por um instante, mas logo desvia. — Esta já é a minha segunda temporada, Belinha. Eu só quero ser livre, viver como quiser.

— E nada impede de você ser livre ao lado de alguém. Além disso, nunca é tarde para tentar. — Ela abre o roupeiro e tira um vestido casual amarelo.

— Certo, certo..., mande também que preparem o café da manhã.

Ela assente, e se retira. Fico encarando a pintura do lago em minha parede. Aquilo inundava a minha mente de memórias. Me sentia como naquele tempo..., a água em meus pés, a brisa em meu rosto, os gansos, as lindas flores e árvores em volta. Lembro-me da mamãe segurando a minha mão enquanto caminhávamos na margem do lago, eu ficava reclamando porque os gansos sempre fugiam de mim, ela ria, dizendo que talvez eles soubessem que eu os perseguiria. Também perguntei naquele dia porque sempre íamos lá, e ela me disse que, às vezes, precisamos de silêncio para compreender algumas coisas. Aquela memória me arranca um sorriso nostálgico, que saudade..., mas logo volto a realidade com as empregadas chegando ao quarto.

Banho tomado e vestido colocado, saio de meu quarto e vou até a sala de estar tomar meu café da manhã. Enquanto me aproximava, pude ouvir uma melodia suave de um piano, um som que acalmava o espírito. Ao entrar na sala, vejo Léo sentado em frente ao instrumento, seus dedos deslizavam calmamente pelas teclas. Ele sempre me dizia que não sabia tocar, mas acho que nossa mãe discordava. E, quando ele errava, a mamãe se sentava ao seu lado e corrigia seus dedos sobre as teclas, repetindo de novo e de novo a mesma melodia até que ele acertasse. Me lembro vagamente da conversa dos dois:

— De novo, Leonardo.

— Mamãe, eu já toquei três vezes!

— E errou as três.

Era tão engraçado ver Léo irritado. Hoje em dia ele não fala muito, se tornou mais reservado. Bom, não quis interromper a melodia, então me sentei no sofá em silêncio e peguei minha xícara de café e algumas guloseimas. A sala era bem decorada, com diversos quadros que a mamãe costumava pintar. Em cima de uma das cômodas, ficava o diário de minha mãe, com uma flor seca dentro dele. Desde que ela se foi, papai pediu para que não o tirassem dali.

Tomo meu café calmamente e vou a caminho da galeria, onde costumava pintar como passatempo. No caminho, passo na frente do escritório de meu pai. Meu irmão mais velho, Nicolau, saía irritado lá de dentro. Papai o cobrava bastante, já que ele seria o próximo marquês Salvatore. E por conta disso, meu irmão nunca ficou muito em casa. Antigamente, ele me apoiava sempre, mesmo coisas bobas, ele mergulhava no meu mundo infantil e alimentava os meus sonhos. Houve uma tarde que eu estava bem triste e irritada, pois não queria participar das aulas de etiqueta, eu estava no chão, esperneando, até que Nicolau veio até mim, e minha mãe nos observava de longe. Mesmo que sujasse as suas roupas, ele se ajoelhou ao meu lado, no chão.

— Você não precisa chorar por isso, Alice.

— Você não entende!

— Não mesmo? — Ele fingia indignação. — Então me explique tudinho.

Eu havia contado entre soluços, e ele ouviu atentamente, sem rir de mim. Quando terminei de contar tudo, ele passou as mãos pelo meu cabelo.

— Então está decidido. Hoje você não precisa ser uma dama.

— Não?

— Não. Hoje você pode ser apenas a minha irmã.

Agora ele parece seguir o que meu pai quer para mim, de vez em quando me perguntava, olhando naquele rosto, para onde foi aquele garoto que sujava as roupas para me consolar. Enfim, chego na galeria, ela era enorme, com diversos quadros da mamãe, e meus também. Havia quadros de cravos cor de rosa, do céu estrelado, do castelo..., e um quadro inacabado. Nunca soube o porquê ela não o terminou, e não entendia o que ele queria dizer, talvez tivesse algumas correntes? Não sabia ao certo. Mesmo sendo estranho, ao menos não estava totalmente em branco, afinal, a mamãe nunca deixava as telas em branco, ela dizia que cada vazio precisava ser preenchido por cores, por vida. Me lembrava de quando me sentei ao lado dela, pela primeira vez, tive vontade de aprender a pintar, eu era pequena demais para alcançar a paleta sem ter que me inclinar sobre a mesa. Ela colocou um pouco de rosa no meu pincel e deixou que eu escolhesse onde colocá-lo. E daí surgiu o quadro dos cravos rosa, baseado nas manchas de uma criança arteira, a mamãe era mesmo incrível. Ela tinha o péssimo hábito de esquecer os pincéis dentro dos copos d'água, e cantarolava enquanto pintava, mas na maioria das vezes, inventava a letra, pois sempre esquecia de como era de fato.

Uma vez, ela havia ficado furiosa, pois tinha derrubado tinta azul sobre um quadro quase terminado. No entanto, no dia seguinte, o acidente havia se tornado um pássaro, ela sabia transformar tudo em arte. Desejava um dia ser como ela, tirando a parte de jantar com as mãos sujas de tinta.

Passo o resto da manhã e começo da tarde pintando, e agora precisava ir comer, Belinha havia vindo me chamar, senão esqueceria de me alimentar. Fui até a sala de jantar e me sentei à mesa, meu pai estava saindo, parecia que tinha acabado de almoçar. Me sentei e comecei a me servir enquanto o via se retirando. No passado, ele era um homem muito animado, lembro-me de acordar numa noite e ver ele e a mamãe rindo, o papai estava com o rosto sujo de tinta, eles estavam pintando juntos, e havia um lindo buquê sobre um banquinho. Mas agora, no presente, me perguntava se meu pai ainda era o homem que minha mãe amara ou ele se foi junto com ela. Enquanto dava uma garfada na comida, meu irmão mais novo, Theodoro, apareceu.

— Bom dia, irmãzinha. — Ele se sentou e se serviu.

— Bom dia, Theo. Como anda as suas aulas de hipismo?

— Indo muito bem! Meu professor sabe muito bem o que faz! — Ele diz entusiasmado, o que me tira uma risadinha.

Me lembro de quando ele havia começado as aulas, ele estava no estábulo, extremamente determinado a montar um cavalo bem maior que ele.

— Você vai cair. — Eu lhe alertava.

— Não vou. — Ele insistia.

— Vai sim.

Ele colocou o pé no estribo e tentou subir. O cavalo sequer se moveu, mas Theo perdeu o equilíbrio e caiu sentado na palha.

Fiquei alguns segundos em silêncio, o encarando e me segurando, até que não aguentei e comecei a rir.

— Não tem graça! — Ele reclamava, completamente vermelho.

Almocei e a tarde se passou rapidamente, já era noite, e a hora de ir ao baile se aproximava, estava no meu quarto me arrumando com o auxílio de minha dama de companhia. Em frente ao meu espelho, sentada, deixava Isabela terminar meu penteado. Enquanto encarava meu reflexo, imaginava-me novamente nessa obrigação de ir aos bailes e ser cortejada, é tão cansativo.

— Bela, me pergunto sempre por que temos de arcar com as decisões da alta sociedade? Por que nós, mulheres, não podemos decidir por nós mesmas? — Cruzo meus braços.

— Você tem tanta sorte, pôde nascer em uma família bem estruturada, está sempre reclamando de coisas tão fúteis. — Ela revira os olhos. — Queria eu poder me arrumar com lindos vestidos e ir a bailes para dançar a noite em busca de um homem bem-sucedido que me dará um futuro perfeito. — Ela fecha os olhos e sorri. — Mas ao invés disso, aqui estou eu estando a acatar ordens de uma governanta, preparando-a com lindas vestimentas para bailes e levando-a a passeios diurnos. — Bela fecha a cara e volta a pentear meu cabelo.

— Belinha, pontuando dessa forma, faz parecer que me acompanhar e trabalhar ao meu lado todos os dias é algo difícil de suportar, pense positivo, ao acompanhar-me nessas temporadas e ir aos bailes, você descobrirá por outras damas o que as loucas por casamento pensam. — Lanço um sorriso para ela através do reflexo.

— Certo, termine de se arrumar, irei solicitar que os cocheiros arrumem a carruagem para sua saída. — Bela se retira de meu quarto, deixando-me com que termine a produção.

Estou com um lindo vestido azul-real, o caimento é perfeito, além disso, coloco um conjunto de pérolas herdadas de minha mãe. — Já faz tanto tempo que você se foi mamãe... Vestir isso me traz de volta ao passado, você ficava linda usando isso e agora, utilizando essa herança, é como se você estivesse aqui comigo, espero não lhe decepcionar. — Suspiro.

Eu me olho no espelho, mas não me via, via o reflexo de minha mãe. O que me fez refletir sobre o que ela disse uma vez para mim, enquanto me arrumava para o primeiro baile: "Não deixe que um vestido faça você acreditar que precisa ser outra pessoa.". Mas aquilo não dura muito, precisava ir.

Após me arrumar, escuto batidas em minha porta. — Alice! Está tudo pronto! — Exclama Nicolau, meu irmão mais velho. Ele desceu, e logo o segui.

Chegando ao saguão, me junto ao meu pai e meu irmão Leonardo, que diz:

— Uau! Você está belíssima! — Ele me olha de cima a baixo.

— Dessa temporada você não passa Alice. — Diz Nicolau logo em seguida, tocando meu ombro e soltando risadinhas. Sorrio de canto. Enquanto caminhamos em direção ao lado de fora de nossa casa, meu pai comenta:

— Você está esplêndida, minha filha. Algum cavalheiro lhe chamou a atenção? Porque é inadmissível que passe outra temporada solteira! O que vão pensar de nossa família?! — Sua expressão era firme, apesar de sentir uma certa preocupação em suas palavras. É fato que não consegui um pretendente, mesmo já tendo debutado. Talvez isso canse o meu pai, mas nunca fiz questão de ser graciosa com os cavalheiros, isso deve ser o motivo de afastá-los.

— Obrigada papai. Mas essa continua não sendo minha maior preocupação.

— Pois já está passando da hora de pensar sobre isso, Alice. Você está ficando velha, e ficar velha significa ficar para trás. — Ele pausa e olha nos meus olhos. — Pense que você precisa criar a sua família e viver sua vida igual todo mundo espera, pois não me terá para lhe bancar para sempre. — Aceno com a cabeça um pouco triste. Entendo o lado de meu pai, mas não esperava um comentário desse tipo.

Saindo de casa, vejo Sir Louiz, nosso cocheiro, ao de lado de Bela. Me aproximando, Louiz me ajuda a subir na carruagem, e Belinha me acompanha. Meus irmãos nos acompanham na segunda carruagem.

Prontos, partimos rumo à casa Taylor, onde ocorrerá o primeiro baile da temporada. Dizem que é no primeiro baile que ocorrem as melhores oportunidades para se arranjar um marido. Decerto, esta é minha segunda temporada, mas tenho esperanças de que vou deixar de ser um peso para o meu pai e finalmente ser livre, mesmo me submetendo a isso.

— Alice, chegamos. — Isabela diz. Me debruço na janela e vejo a deslumbrante casa Taylor, há diversos convidados no jardim. Me sinto ansiosa, afinal, não quero mais uma vez trazer decepção para a família.

Com a carruagem já parada no local, desço e, ao caminhar em direção ao baile acompanhada de Nicolau e Bela, sinto diversos olhares sobre mim, me pergunto o que chama tanta atenção. A casa era enorme, a entrada era vasta, havia diversas pessoas caminhando rumo ao baile, os arbustos estavam decorados com algumas pedrinhas de cristal, como estrelas que preenchiam o céu da noite.

— Olha só irmã, quantos cavalheiros solteiros procurando uma dama sofisticada e bela como você para dar uma ótima vida, e em troca, apenas criar uma família, olha como a vida de uma dama é fácil. — Nicolau me dá uma leve cotovelada. Incrédula, respondo:

— Olhe você, há tantas damas neste baile a procura de um belo rapaz. Rapaz esse que provavelmente, as descartaria como lixo, pois ele enjoaria e lhes trairia no primeiro deslize. — O olho com desprezo. — Além disso, nem pense em me dar um sobrinho se o destratar de tal modo. Se enxerga, nenhuma dama merece um homem imaturo. — Retruco sarcástica. Logo, Leonardo se junta a nós e diz:

— A que essa discussão levará? Devo lhes lembrar que ambos nunca puderam conhecer o amor verdadeiro? Nicolau, você apenas se mete em casos superficiais, nunca caiu na realidade. — Ele pressiona o dedo contra o peito do Nick. — E você Alice, como pode se permitir dissertar sobre este assunto sem sequer ter se permitido sentir algo assim? — Leonardo aponta para mim agora, e um silêncio paira sob nós. Após alguns segundos, um dos empregados da casa quebra o silêncio e pergunta:

— Vossa senhoria, aceita um cordão para seu cartão de dança? — Ele curva ligeiramente o corpo em saudação.

— Claro! — Respondo com um leve sorriso em meu rosto.

O empregado entrega o cordão para Belinha, que o amarra em meu braço. Nós entramos no salão, estava lotado, pude ver um grande lustre de cristal no centro, um bufê com comidas requintadas no canto, empregados serviam bebidas por todo o baile, estava tudo muito belo, vejo minhas amigas Veronica e Amelita, mas há muita gente então decerto que nosso encontro não será possível. A condessa Taylor estava no andar de cima, ela usava um lindo vestido branco, que brilhava com pequenos cristais. Seu filho, Austin, parecia estar cortejando a Verô, que sorte a dela. Conde Taylor conversava com alguns rapazes, ele está sempre com um ar de juventude, acredito que ele queira ser jovem de novo. Era como entrar em uma caverna iluminada por várias pedras preciosas que refletiam a luz da Lua.

Nicolau olha distante para algum ponto fixo no baile, logo, ele murmura:

— Este baile parece deveras interessante, não é Alice? E olha só que incrível, acabo de avistar o par perfeito para você. — Olha para mim de canto.

— COMO ASSIM NICOLAU?! — Exclamo bruscamente. Meu irmão me julga com o olhar.

— Sim, papai e eu estávamos visando um ótimo partido para ti, lhe garanto que ficará encantada, dessa forma, antes de objeções, dê uma oportunidade, Alice. — Ele junta as mãos, suplicando.

— Se for para livrar-me de vocês logo, aceitarei qualquer coisa. Quem seria esse péssimo partido que jogam em meu colo? — Dou de ombros.

Nicolau aponta para o outro lado do salão.

— Veja ali, Duque Vicente, ou para os mais íntimos, Vince. Mas para você, Vicente mesmo. — Nicolau sorri de canto.

— Como puderam planejar isso sem que eu descobrisse? Quantas vezes terei de dizer que meu futuro é decidido por mim e apenas por mim? — Coloco a mão na cintura.

Meu olhar paira sob o baile, e logo, se encontrou com o de Vicente. Seu olhar era marcante, e atravessa todo o salão. Sua roupa era branca, e joias de cristal brilhavam em seus dedos.

Após nossos olhares se encontrarem, Vicente caminha em minha direção. Chegando até mim, ele diz com uma voz que preenche todo o meu corpo:

— Mi lady, conceder-me-ia a honra de uma dança nesta linda noite? Adoraria fazer parte da preferência de seu cartão de dança, mesmo desejando querer ser o único a dançar com você. — Vicente pega minha mão com delicadeza, e sorri.

Comecei a sentir algo estranho dentro de mim, não diria que é amor, apesar de nunca ter experenciado esse sentimento também. Algo nele intrigava, o charme dele era enlouquecedor, de certo que esse seja o motivo de tantos olhares sob ele.

— Vossa graça, obrigada pelo convite e preferência, mas hoje não estou me sentindo bem para uma dança, quem sabe na próxima. — Respondo falsamente, enquanto Vicente me leva para a pista de dança.

— Quem sabe uma dança não lhe faça se sentir melhor, mi lady. Não vai me dizer que quer perder essa oportunidade? — Vicente nos aproxima.

Mesmo sentindo um frio na barriga e sentimentos que não entendia, decidi dar a Vicente uma condição:

— Dançarei com Vossa Graça se pegar uma bebida para mim. — Digo com um sorriso frouxo.

— Mas é claro, minha dama. Fique onde eu possa vê-la para lhe entregar. — Vicente beija minha mão e vai pegar a bebida.

Enquanto o lindo som de um piano tocava ao fundo, e pares apaixonados dançavam em meio a pista, estava à procura de Bela, para que pudesse lhe contar o que havia acontecido. Logo, a encontro em um dos cantos do salão, me aproximo e lhe digo:

— Bela, me prometeram um cavalheiro de status elevado, muito belo e com muito dinheiro, ele parece ser perfeito, mas perfeito demais para ser verdade. Receio que há algo ruim nisso. — Olho para Vicente que pegava a bebida e depois volto o olhar para minha dama de companhia.

— Alice pare de ser tola, há o homem ideal para você logo a passos de distância e tudo que você consegue pensar são coisas ruins? Pois volte até ele, essa pode ser a sua última oportunidade de encontrar um bom partido. — A Bela retruca. Após pensar por alguns instantes, finalmente cedo:

— Certo, irei dar uma chance, a primeira de anos. — Sorrio para Bela, que fica animada.

— Agora ande, vá de encontro com seu futuro noivo, antes que tirem de você. — Bela diz sorrindo. Avisto Vicente ao horizonte, na pista de dança, ele me procura com uma bebida na mão e, logo, seu olhar penetrante encontra o meu, então vou em sua direção, com um frio na barriga. Por que seu olhar faz o meu desviar?

Ao me aproximar, Vicente diz:

— Achei que mi lady tivesse me abandonado. Aqui está a bebida que pediu, um doce licor de morango para minha doce dama. — Vicente me entrega o licor estendendo-me a mão, seus dedos roçam os meus, sinto um arrepio percorrer todo o meu corpo. Pego a bebida. Após um gole, digo:

— Obrigada, Vossa Graça, talvez vá lhe conceder a honra da dança. — Digo sorrindo gentilmente.

— Me sinto lisonjeado, prometo fazer essa dança ser inesquecível — Vicente diz com um sorriso marcante, o que me faz corar, o que é isso que estou sentindo? Tomo um último gole de meu licor, o sabor era doce, animador, descia quente, o calor percorria todo meu corpo, uma estranha sensação de ânimo tomava conta.

Logo, uma orquestra de médio porte começa a tocar os instrumentos. Ao som de violinos, harpas e outros instrumentos, os pares se organizam todos para uma dança conjunta. — Mi lady? — Vicente faz o convite para a dança estendendo seu braço. Pego em sua mão e me deixo levar para o centro da pista de dança. Me posiciono na frente de Vicente, nossos corpos levemente colados, e as mãos dadas e, logo, a música muda para a dança começar. O lustre de cristal desenhava no chão com sua luz refletida.

No início da dança, logo me senti levada por Vicente. Não fazia ideia do que estava acontecendo, apenas me deixei ser conduzida por seus passos, não o deixei me levar por obrigação, mas porque, após muito tempo, eu quis que alguém me conduzisse. Nossos corpos giravam, o baile sumiu, estávamos em um espaço criado ali, por Vicente. Apenas nós dois estávamos naquele salão, nossos corpos giram em uníssono, o subir e descer de nossos passos é como se flutuássemos pela pista, como dois pássaros voando juntos além das nuvens. Tudo havia se fechado, ao lado de Vicente, era como se uma bolha nos fechasse, não havia sussurro ou o que seja que pudesse nos tirar a atenção, estava hipnotizada, Vicente sabia acompanhar meu ritmo, é como se nos completássemos, nada mais importava, estava intrigada. Esse sentimento estranho percorria meu corpo. — Com você aqui, tudo a nossa volta parece não existir... — Eu disse que faria ser inesquecível. — A música começa a desacelerar, junto com o ritmo de nossos giros. Por fim, Vicente recua o pé uma última vez, nos juntando assim de forma firme e elegante, terminamos o movimento unidos, ofegantes, sem nos soltarmos tão cedo.

A música volta para um tom calmo, e todos param, ou apenas fazem passos simples.

— Isso foi incrível, Vossa Graça, você dança tão bem. Me senti nas nuvens. — Meu olhar evita o de Vicente, estava envergonhada demais para olhá-lo nos olhos.

— Será que isso me torna digno de conhecê-la melhor, mi lady? — Vicente pergunta sorridente.

— Mas é claro, por que não andamos um pouco? — Finalmente consigo levantar meu olhar.

— Eu adoraria, vamos ao jardim caminhar um pouco, sempre bom um ar fresco após uma dança tão memorável. — Vicente contorna seu braço ao meu.

Antes de sairmos, pude avistar Nicolau comemorando ao fundo, parecia se vangloriar. Bela veio a nosso encontro para nos acompanhar ao lado de fora. Atravessamos o salão e fomos para o lado de fora, o jardim era enorme, com lindas flores, alinhadas em gigantes corredores de arbustos simétricos, caminhei ao lado de Vicente, e Bela nos seguia.

— O ar aqui está mais leve, não acha? — Vicente respira fundo.

— Com toda certeza, gosto bastante dessa sensação de leveza.

— Queria poder sentir essa leveza todos os dias, não é porque sou um duque que tudo se torna mais fácil. — Olho para Vicente, intrigada com o que ele disse.

Vicente também se sente pressionando? Será que entenderia como me sinto?

— A leveza nos ajuda a espairecer, por isso ando a cavalo, dá uma sensação de liberdade — Volto a olhar para frente.

— Anda a cavalo? Interessante. No meu caso, tenho de pensar mais no futuro, mas sabe, só quero viver em uma casa onde ninguém precise fingir ser o que não é — Sua expressão era leve. Sorrio para ele. Estranho ele desejar justamente o que eu procurava. Deveria dar uma chance para essa vida? Ao lado dele serei livre? São tantas perguntas, ele parece perfeito, meu irmão parecia feliz, e não traria mais decepção para casa, poderia livrar-me de tudo isso, me sentiria culpada por recusar uma vida assim entregue de bandeja, mas a mamãe quer isso para mim?

— Alice? — Vicente me tira de meus pensamentos e volto para a realidade.

— Peço perdão, Vossa Graça. Acabei divagando. — Sorrio com os olhos, tentando parecer divertida. Antes que Vicente dissesse algo, Bela o interrompe: — Perdoem-me a interrupção, mas devo dizer que está tarde, e a senhorita Alice precisa ir. — Ela curva ligeiramente o corpo.

— Certo, uma pena não ter passado mais tempo com você, mi lady. Mas espero ter mais encontros contigo. Foi um prazer conhecer a senhorita. — Vicente acena.

— Digo o mesmo, Vossa Graça. Obrigada pela experiência esplêndida esta noite. — Curvo levemente a cabeça.

Após me despedir de Vicente, acompanho Bela de volta ao salão, lá me junto a Nicolau e Leonardo. — Parece que se divertiu bastante hoje, irmã. — Nicolau esfrega as mãos. — Será que finalmente se rendeu?

— Cale a boca, Nicolau. — Digo, apenas. Estava com diversos sentimentos ao mesmo tempo, não poderia conversar sobre esta noite agora.

— Você me magoa tanto irmãzinha. — Ele finge querer chorar.

Ignorando o que Nicolau dizia, olho para o conjunto de pérolas que estou usando. Mamãe, você teria chamado isso de amor?

Nicolau e Leonardo não vieram junto comigo e Bela, me pergunto para onde eles foram tão tarde da noite. A viagem de volta foi tranquila, de volta ao lar, bela me acompanha até meu quarto. Lá, me despeço de Bela com um boa noite e me jogo em minha cama. Olhando para o teto, começo a refletir: O que é tudo isso que estou sentindo? Será que posso escolher Vicente sem que meu pai decida por mim? Deveria aceitar ser prometida dessa forma? Iria contra os meus princípios? Nunca tinha dado oportunidades ao amor, pensar tudo isso é tão estranho, mas eu quero continuar sentindo isso, me faz me sentir viva, mas terei a liberdade que sempre almejei ao lado de Vicente? Mamãe, sei que você queria que eu escolhesse meu próprio caminho a ser trilhado, mas e se eu quiser que alguém trilhe ele comigo?

Minha mente havia se tornado um turbilhão de especulações, e depois de relutar bastante, eu finalmente durmo.

*

Acordo exausta no outro dia. Passei a noite inteira tentando dormir, mas ao fechar os meus olhos, aquela dança me voltava a mente. Me sentia tão bem, mas sequer o conhecia. Não penso muito sobre. Puxo o sino para chamar minha dama de companhia, afinal, teremos visitas de algumas damas hoje. Escovo meus dentes, enquanto Bela prepara meu banho e minhas vestimentas. Após banho tomado e roupa colocada, estou sentada em frente à minha penteadeira, Bela prepara meu cabelo. Decido quebrar o silêncio:

— Belinha, devo mesmo mergulhar de cabeça com Vicente? Eu sequer pude conhecê-lo direito.

— É verdade que você mal o conhece, Alice. Você não precisa decidir tudo de uma vez. Pode conhecê-lo, e quem sabe descubra que não é tão ruim assim— Ela coloca a mão sobre meu ombro.

— Você parece bem interessada em que eu dê uma chance a Vicente. — Meu olhar encontra o de Bela através do espelho.

— Talvez só esteja cansada de ver você fugindo de qualquer possibilidade de ser feliz.

— Talvez você esteja certa. — Respondo com certo desânimo. Não era eu que não queria me submeter a um homem para ser livre? Seria esse caminho que trilharia? De certo modo, me livraria de meu pai. Mas sme sentiria liberta?

Bela termina de preparar meu cabelo. Por fim coloco meu conjunto de pérolas e, acompanhada de Bela, desço até o saguão. Caminhamos rumo a sala de visitas para sabermos se alguém passou por lá. Chegando na sala, nos deparamos com Leonardo sentado em um dos sofás, lendo um jornal. Logo, lhe pergunto:

— Bom dia Leozinho, alguém veio me visitar hoje? — Digo gentilmente, com um leve sorriso.

— Bom dia, Alice. Sua paixão é tão contagiante que dá vontade de ir embora. Mas respondendo sua pergunta, ninguém veio a sua procura. — Ele abaixa o jornal e me olha com uma expressão cansada.

Me pergunto por que meu irmão é tão negativo. Ele fala tão pouco e, quando fala, o clima pesa. O que será que o fez ficar assim? Meio triste com esse comentário, respondo:

— Obrigada, Léo. Mas se for permanecer aqui com assuntos tão deprimentes e falar comigo de tal forma, é melhor que se retire após o café, pois irei receber algumas damas hoje e não quero que minha manhã seja estragada. — Digo batendo os pés repetidamente.

— Certo, se é o que vossa majestade deseja, irei me retirar imediatamente. — Léo finge cortesia e se levanta.

Leonardo sai da sala, infelizmente tem sido assim recentemente, não queria isso. Sento-me no sofá e pego algumas guloseimas e minha xícara de chá. Algum tempo depois, Bela avisa a chegada das meninas, e o arauto anuncia:

— Lady Amelita e Lady Veronica, para Alice. — Ele se curva em reverência.

— Bom dia meninas, ver vocês enchem meu coração de alegria. O dia sempre melhora com as suas presenças. — Cumprimento animada.

— Olá Alice. Temos muitos assuntos para botar em dia sabia? O baile estava tão bom que nem conseguimos conversar, só pude me encontrar com a Verô. O primeiro baile é geralmente bem animado, mas o de ontem estava lotado! — Diz Amelita adentrando a sala junto de Veronica. Logo, ambas se sentam em um outro sofá.

— Ou talvez seja porque a casa Taylor era um ovo e o salão não dava nem para andar de tão pequeno. Como eles querem que eu arranje um bom homem se eu tive que ficar me abanando a festa inteira. — Ela imita o gesto de se abanar com as mãos. Isso nos retira uma risada sincera.

— Realmente estava cheio, Verô. Mas também tão mágico que não há quem não se apaixonasse. — Fecho os olhos me lembrando de como foi.

— Você que o diga, Alice. Não havia quem não reparasse no Duque Vicente e você. Os olhares de todos caíram em vocês enquanto dançavam. — Amelita sorri enquanto pega um docinho.

— Realmente Alice. Sabia que queria muito se casar, mas não imaginei que visava logo um duque, seria surpreendente você virando duquesa, queria ter essa sorte viu. — Ela suspira. — No baile tive sorte de falar apenas com o filho de conde Taylor, um chato aliás. Mas sei que vem de uma boa família, preciso me casar logo, pois se não o fizer, meu pai me mandará para as províncias da Noruega para morar com minha tia. — Verô desvia o olhar para a janela. — E amigas, lá não tem absolutamente nada. — Ela murmura. Isso me deixa surpresa, será que meu pai faria algo do tipo?

— Sabe meninas, é uma história complicada, mas o duque é realmente encantador, é perfeito, fez minha noite com ele ser mágica, me senti nas nuvens. — Me lembro das sensações e meu corpo se aquece.

— Temos esperanças de que ele lhe peça em casamento logo. — Bela diz enquanto serve chá para Amelita e Veronica. Um silêncio constrangedor percorre a sala.

— Já que todos comentaram sobre suas noites, acho que é minha vez. — Ri de nervoso. — Alice, preciso confessar, estou tentando me aproximar do futuro Marquês Salvatore. — Ela fica corada.

— Espere um pouco Amelita — Me interrompo com a surpresa. — Você quer tentar algo com meu IRMÃO? — Digo ainda processando tudo, mas me divertindo com a situação.

— Perdão amiga, mas seu irmão é encantador, e ontem ele me trouxe uma bebida. Meninas, acho que ele está me cortejando. — Amelita junta as mãos e seus olhos brilham.

— Saiba que tem total apoio, se der certo, seremos mais que amigas, seremos irmãs. — Digo gentilmente. Fico feliz pela Amelita estar se apaixonando, estou começando a entender isso.

— Meninas, dessa forma também vou querer fazer parte da família. — Veronica solta risadinhas. — Será que posso conhecer o Leonardo, Alice? — Ela esfrega as mãos e molha os lábios. Nós rimos bastante, como é bom tê-las aqui.

Pelo resto da manhã as meninas e eu ficamos conversando, comendo guloseimas e rindo bastante, até chegar o momento delas se despedirem.

— Obrigada por nos receber em sua casa, Alice. — Amelita diz gentilmente.

— Foi ótimo comentar sobre o baile meninas, e as comidinhas estavam ótimas, pode comunicar aos cozinheiros. — Veronica e Amelita acenam para mim.

— Foi um prazer recebê-las aqui meninas. E pode deixar que a Bela irá comunicá-los sobre a comida. Obrigada por virem. — Digo alegre enquanto aceno.

Após as meninas saírem, me peguei pensando no que Amelita disse sobre meu irmão cortejá-la. Claro que eu apoio, mas receio meu irmão continuar sendo imaturo e magoá-la, não quero isso para a minha amiga. Mas pensar nisso não durou muito, pois para a minha surpresa, Leonardo apareceu.

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