ultimo ponto
Eu não sabia exatamente quando Helena começou a deixar de ser apenas uma garota que eu via pelos corredores.
Talvez tivesse sido naquela manhã.
Talvez tivesse sido quando ela esqueceu os fones.
Ou talvez tenha sido depois da nossa primeira conversa.
A verdade é que, antes daquele dia, eu sabia quem ela era.
Sabia que jogava vôlei.
Sabia que fazia parte do time da escola.
Sabia que quase sempre estava com os fones.
Mas isso não significava que eu a conhecia.
Até que, por acaso, ela esqueceu os fones na sala.
Eu os encontrei em cima de uma das carteiras.
E, quando saí da sala, ela estava procurando alguma coisa no corredor.
— Você está procurando isso?
Ela levantou os olhos.
Por um segundo, pareceu confusa.
Então olhou para minha mão.
— Meu Deus.
Ela riu.
— Eu estava procurando isso há uns cinco minutos.
Entreguei os fones.
— Então acho que acabei de salvar seu dia.
Ela pegou os fones e sorriu.
— Talvez.
Foi uma conversa curta.
Ridiculamente curta.
Mas foi a primeira vez que eu ouvi Helena falar comigo.
E, depois daquele dia, as coisas começaram a mudar.
Não de uma forma absurda.
Nada de repente.
Era só...
Um “oi” no corredor.
Um sorriso quando passávamos um pelo outro.
Às vezes, algumas palavras.
Ela começou a saber meu nome.
Eu comecei a conhecer o jeito dela.
Descobri que ela fazia piada quando estava nervosa.
Que odiava perder.
Que ficava mexendo no cabelo quando estava pensando.
E que, apesar de parecer extremamente confiante na quadra, às vezes também duvidava de si mesma.
Eu também descobri que ela sabia quem eu era antes de realmente me conhecer.
— Você é o Noah, né?
— Sou.
— O jogador de basquete?
Eu ri.
— Isso foi uma pergunta ou uma acusação?
Ela sorriu.
— Só estou tentando confirmar.
— Então, sim. Sou eu.
Ela balançou a cabeça.
— Sabia.
Foi estranho.
Porque, por algum motivo, saber que ela também tinha me notado fazia meu coração bater um pouco mais rápido.
Alguns dias depois, estávamos conversando perto do ginásio.
Helena segurava a mochila em um ombro enquanto olhava para a quadra.
— Você vai fazer alguma coisa hoje?
— Hoje?
— É.
— Acho que não.
Ela hesitou por um segundo.
— A gente joga hoje.
Eu já sabia.
Mas tentei não demonstrar.
— Ah.
Ela sorriu.
— Se você quiser... podia ir assistir.
Meu cérebro simplesmente parou.
Por algum motivo, aquilo parecia muito mais importante do que deveria.
— Eu...
Olhei para o chão por um segundo.
Ela esperou.
Eu sorri, tentando disfarçar o nervosismo.
— Vou ver se dá pra eu ir.
Helena riu baixinho.
— Tá.
Ela começou a andar.
Depois virou o rosto.
— Espero que dê.
E foi embora.
Eu fiquei parado por alguns segundos.
Pensando naquela última frase.
Espero que dê.
Olhei para o relógio.
Depois para a quadra.
E sorri sozinho.
Eu definitivamente iria.
O frio daquela noite parecia ter tomado conta da cidade inteira.
Do lado de fora, as janelas do ginásio
estavam cobertas por uma fina camada de vapor, enquanto dezenas de alunos se espremiam nas arquibancadas.
O barulho era quase insuportável.
Gritos.
Palmas.
O som das solas dos tênis contra a quadra.
Eu poderia dizer que estava ali pelo time da escola.
Era uma boa desculpa.
Conveniente, inclusive.
Mas havia uma garota usando a camisa número oito naquela quadra.
E, aparentemente, isso era motivo suficiente para eu passar duas horas sentado em uma arquibancada desconfortável.
Helena.
Agora eu conhecia o nome dela.
E, de alguma forma, isso fazia tudo parecer diferente.
O placar estava empatado.
As jogadoras se posicionaram.
Helena passou a mão rapidamente pelo cabelo preso antes de se abaixar, concentrada.
Eu já tinha visto aquele gesto antes.
Ela fazia aquilo quando estava nervosa.
Ou quando estava prestes a fazer algo importante.
A bola atravessou a rede.
O ginásio inteiro prendeu a respiração.
O jogo continuou.
Um toque.
Dois.
A bola voltou.
E então alguém levantou.
Helena correu.
Por um segundo, tudo pareceu mais lento.
Ela saltou.
E acertou a bola.
O som do impacto ecoou pelo ginásio.
A bola tocou o chão.
Ponto.
Por alguns segundos, ninguém parecia acreditar.
Então o ginásio explodiu.
As companheiras correram até Helena, gritando, abraçando-a enquanto a torcida se levantava das arquibancadas.
Eu fiquei parado.
Observando.
Ela ria.
Não era o sorriso educado que eu costumava ver pelos corredores.
Era diferente.
Livre.
Como se durante aqueles poucos segundos não existisse nenhuma preocupação no mundo.
Eu já tinha visto Helena sorrir antes.
Mas nunca daquele jeito.
E talvez tenha sido naquele momento que percebi uma coisa perigosa.
Eu não queria mais apenas conhecê-la.
Queria descobrir quem ela era quando ninguém estava olhando.
Algumas horas depois, o salão principal da escola estava irreconhecível.
As mesas haviam sido afastadas.
Luzes penduradas atravessavam o teto.
A música tocava alto.
E, por algum motivo, alguém tinha decidido que aquilo seria um baile.
Eu não tinha planejado ir.
Na verdade, pensei em simplesmente voltar para casa depois do jogo.
Mas então lembrei do sorriso dela.
E daquela frase.
Espero que dê.
Então fui.
Sozinho.
O que, olhando em retrospecto, talvez não tivesse sido a melhor ideia.
Quando entrei, percebi imediatamente que praticamente todo mundo parecia ter alguém.
Grupos de amigos.
Casais.
Pessoas dançando.
Pessoas fingindo que sabiam dançar.
E eu.
Sozinho perto de uma mesa com copos descartáveis.
Excelente decisão, Noah.
Foi então que eu a vi.
Helena estava perto das grandes janelas no fundo do salão.
Sozinha.
Ela já não estava com o uniforme do jogo.
Usava o vestido da festa, e algumas mechas do cabelo haviam escapado do penteado.
Mas havia algo estranho em vê-la ali.
Distante da multidão.
Como se, apesar de toda aquela comemoração, uma parte dela estivesse em algum outro lugar.
Por alguns segundos, pensei em não ir até lá.
Era o que eu normalmente faria.
Observar.
Pensar demais.
E deixar o momento passar.
Mas então Helena virou o rosto.
E me viu.
Por um instante, nenhum dos dois desviou o olhar.
Ela sorriu.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Então levantou a mão.
Um gesto simples.
Chamando-me para perto.
Meu coração acelerou.
Eu respirei fundo.
E comecei a andar.
Dessa vez, eu não precisava fingir que estava ali por acaso.
Eu tinha ido porque ela pediu.
E talvez fosse justamente aí que aquela história começasse de verdade.
Então você veio mesmo.
Parei ao lado dela.
— Você parece surpresa.
Helena sorriu.
— Um pouco. Você disse que ia ver se dava.
— E deu.
Ela assentiu, olhando novamente para a festa.
— Ainda bem.
Por algum motivo, aquela resposta simples me fez sorrir.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
A música tocava alto atrás de nós, mas ali perto da janela parecia mais tranquilo.
— Você jogou muito bem — falei.
Helena virou o rosto para mim.
— Só agora você vai admitir?
— Eu estava esperando você ficar menos convencida.
— Eu fiz o último ponto.
— Eu sei.
— Então deveria estar um pouco mais impressionado.
Soltei uma risada.
— Eu estava.
Ela sorriu.
E, por alguns segundos, fiquei apenas observando.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Depende.
— Você sempre fica nervosa antes dos jogos?
Helena franziu a testa.
— Como você sabe disso?
— Você mexe no cabelo.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Eu mexo?
— Bastante.
— Não mexo tanto assim.
— Mexe.
Helena estreitou os olhos.
— Você estava prestando atenção em mim?
Meu cérebro demorou um segundo para encontrar uma resposta.
— No jogo.
Ela sorriu.
Daquele jeito que deixava claro que não acreditava completamente em mim.
— Claro.
Balancei a cabeça, rindo.
— Você é impossível.
— E você é um péssimo mentiroso.
A música mudou e algumas pessoas correram para o centro da pista.
Helena olhou para elas.
— Você não vai dançar? — perguntei.
Ela riu.
— Definitivamente não.
— Por quê?
— Porque eu não sei dançar.
— Então estamos na mesma situação.
Ela me olhou.
— Você também não sabe?
— Não conte pra ninguém. Tenho uma reputação a manter.
Helena riu baixinho.
E foi estranho perceber que eu gostava de ouvir aquela risada.
— Então por que você veio? — ela perguntou.
Olhei para a festa.
Depois para ela.
A resposta verdadeira estava presa na ponta da língua.
Porque você me chamou.
Mas apenas sorri.
— Acho que queria ver como seria.
Ela pareceu aceitar a resposta.
— E está gostando?
Olhei novamente para ela.
— Mais do que eu esperava.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
Não era um silêncio estranho.
Era confortável.
Helena apoiou os braços no parapeito da janela e olhou para fora.
— Que bom que você veio, Noah.
Dessa vez, não fiz nenhuma piada.
— Eu também.
A festa continuava acontecendo atrás de nós.
Pessoas dançavam.
Riam.
Falavam alto demais.
Mas eu mal prestava atenção.
Porque, pela primeira vez, eu não estava ali pensando em ir embora.
Eu queria ficar.
E talvez ainda não soubesse quase nada sobre Helena.
Mas, naquela noite, percebi que queria mudar isso.








