O Homem Que Eu Não Queria Encontrar
Lívia sempre acreditou que algumas pessoas pertenciam ao passado por um motivo.
Naquela manhã, entretanto, o passado resolveu bater à porta.
— Você está atrasada — disse Clara, sua melhor amiga, enquanto colocava duas xícaras de café sobre a mesa.
— Eu sei.
— Você sempre diz isso.
— Porque eu sempre estou atrasada.
Clara riu.
Lívia pegou o café e olhou pela janela do pequeno apartamento.
A cidade começava a despertar.
Carros, pessoas apressadas, buzinas.
Tudo parecia normal.
Até o telefone tocar.
— Alô?
— Lívia? É o senhor Augusto.
Ela reconheceu imediatamente a voz do proprietário da empresa onde trabalhava.
— Bom dia, senhor Augusto.
— Preciso que você venha comigo em uma reunião hoje.
— Claro. Com quem?
Houve um pequeno silêncio.
— Com o novo sócio.
O coração de Lívia não acelerou.
Ainda não.
— E quem é?
Outro silêncio.
— Miguel Ferraz.
A xícara escapou de sua mão.
O café se espalhou pela mesa.
Clara imediatamente percebeu.
— Lívia?
Ela não respondeu.
Porque durante três anos havia tentado esquecer aquele nome.
Miguel Ferraz.
O homem que tinha prometido ficar.
O homem que foi embora.
Sem explicação.
Sem despedida.
Sem sequer olhar para trás.
— Você está bem? — Clara perguntou.
Lívia respirou fundo.
— Estou.
Mas não estava.
E, pela primeira vez em três anos, ela sentiu aquela antiga sensação.
A sensação de que seu coração sabia alguma coisa que sua cabeça ainda se recusava a admitir.


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