1
O despertador tocou às 7h15.
Vance Cloud Umbenhower abriu os olhos, ficou alguns segundos encarando o teto e estendeu a mão para o criado-mudo.
Não alcançou o celular.
Tentou de novo.
Dessa vez conseguiu.
Desligou o alarme e deixou o aparelho cair sobre o colchão.
— Mais cinco minutos...
Virou para o lado.
Ficou ali por aproximadamente três segundos.
Abriu os olhos novamente.
— Não. Se eu dormir de novo, perdi o dia.
Vance se sentou na cama e passou as duas mãos pelo rosto.
O quarto estava silencioso. As cortinas fechadas deixavam apenas algumas faixas de luz atravessarem o ambiente. A camiseta preta da noite anterior estava jogada sobre uma cadeira, enquanto um livro permanecia aberto de barriga para baixo na beirada da cama.
Ele olhou para o livro.
— Eu terminei isso ontem?
Não lembrava.
Pegou o celular.
Nenhuma mensagem urgente.
Nenhuma ligação perdida.
Ótimo.
Vance se levantou.
Ao passar pelo espelho, parou por um instante.
Cabelo cacheado preto completamente bagunçado. Olhos escuros ainda carregados de sono. Pele clara. A pequena cicatriz acima da sobrancelha direita continuava sendo uma das primeiras coisas que chamavam atenção quando alguém olhava para seu rosto.
Ele passou a mão nos cachos.
Piorou.
— Perfeito.
Foi para o banheiro.
Quarenta minutos depois, Vance apareceu na cozinha já vestido.
Camisa preta.
Calça preta.
Tênis preto.
Meias pretas.
Uma jaqueta escura.
Óculos pretos.
Ele abriu a geladeira.
Ficou olhando.
Fechou.
Abriu novamente.
Continuou olhando.
— Preciso fazer compras.
Na prateleira havia ovos, leite, algumas bebidas e um recipiente com comida pronta.
Nada que realmente parecesse café da manhã.
Vance pegou dois ovos.
Colocou uma frigideira no fogão.
Enquanto esperava, abriu uma gaveta.
Pegou um maço de cigarros.
Vazio.
— Claro.
Jogou o maço no lixo.
O cheiro do café que havia preparado alguns minutos antes começou a preencher a cozinha.
Vance colocou os ovos em um prato, pegou uma torrada e sentou.
Comeu em silêncio.
O celular estava ao lado do prato.
Ele abriu uma rede social, passou por algumas publicações e parou em um vídeo de um carro antigo.
Um Mustang restaurado.
Vance assistiu até o final.
— Bonito.
Salvou o vídeo.
Terminou o café.
Pegou as chaves.
Antes de sair, voltou.
Abriu uma gaveta.
Pegou a carteira.
— Agora sim.
A garagem ficava no térreo do prédio.
Vance entrou e caminhou até os veículos.
O Nissan Sentra G8 estava estacionado de um lado.
Mais adiante, o Corvette conversível.
A Suzuki preta permanecia próxima à parede.
O espaço onde normalmente ficava o Mustang estava vazio.
Vance parou ali.
Olhou para o lugar.
— Tá fazendo falta.
O Mustang 1969 estava na oficina havia alguns dias para manutenção.
Nada grave.
Mas Vance já tinha passado tempo suficiente longe do carro para começar a sentir falta.
Ele entrou no Sentra.
O motor ligou suavemente.
Vance colocou os óculos no rosto e saiu da garagem.
Primeiro, mercado.
Depois, oficina.
O mercado estava relativamente tranquilo naquela hora.
Vance pegou um carrinho e entrou.
A primeira coisa que colocou dentro foi café.
Depois pão.
Ovos.
Queijo.
Presunto.
Algumas frutas.
Macarrão.
Molho.
Um pacote de biscoitos.
Parou diante da seção de carnes.
Ficou olhando.
Pegou bacon.
Pensou por um segundo.
Pegou mais um pacote.
Uma senhora que estava escolhendo produtos ao lado dele olhou para os dois pacotes.
— Gosta bastante de bacon?
Vance olhou para ela.
— É uma relação séria.
A senhora riu.
— Dá para perceber.
— Tem coisas que a gente não abandona.
Ele continuou andando.
Passou pela seção de bebidas.
Pegou algumas garrafas de água.
Depois parou diante da parte de vinhos.
Ficou analisando os rótulos.
Pegou um.
Colocou no carrinho.
Pegou outro.
Pensou.
Colocou de volta.
— Uma coisa de cada vez.
Seguiu.
Poucos minutos depois, passou pelo caixa.
— Encontrou tudo? — perguntou o caixa.
Vance olhou para as compras.
— Acho que sim.
— "Acha"?
— Sempre esqueço alguma coisa.
O caixa passou um pacote de café.
— Talvez seja por isso que você volta tanto.
Vance apontou para ele.
— Você está começando a entender.
Pagou.
Levou as sacolas até o carro.
Guardou tudo no porta-malas e entrou.
Antes de ligar o motor, ficou alguns segundos sentado.
Olhou para o relógio.
Ainda era cedo.
Perfeito.
A oficina ficava a quinze minutos dali.
Ele ligou o carro.
A oficina de Ethan ficava em uma rua comercial cercada por lojas de peças, pequenas oficinas e postos de gasolina.
A placa acima do portão dizia:
MERCER AUTO & REPAIR
Vance estacionou o Sentra em frente.
Desceu.
Assim que entrou, sentiu o cheiro de óleo, metal e borracha.
— Bom dia! — gritou alguém do outro lado.
Vance olhou.
— Bom dia.
Ethan apareceu de trás de um carro levantado.
Tinha a mesma idade de Vance e carregava uma chave inglesa em uma das mãos.
— Achei que você não vinha.
— Eu disse que vinha.
— Você também disse isso ontem.
— Ontem eu estava ocupado.
— Fazendo o quê?
Vance pensou.
— Não lembro.
Ethan soltou uma risada.
— Isso explica bastante coisa.
Vance colocou as mãos nos bolsos da jaqueta.
— E aí?
— Ele está lá dentro.
Vance nem precisou perguntar quem.
O sorriso apareceu imediatamente.
— Está bonito?
— Está.
— Posso ver?
— Você veio aqui por isso.
— Talvez.
— Vance.
— Tá bom.
Ethan balançou a cabeça.
— Vai lá.
Vance atravessou a oficina.
Passou por duas bancadas, desviou de uma caixa de ferramentas e chegou à área coberta nos fundos.
Então parou.
O Mustang 1969 estava ali.
Limpo.
Brilhando sob as luzes da oficina.
Vance ficou alguns segundos apenas olhando.
Não havia ninguém falando.
Nenhum telefone tocando.
Nenhuma música.
Só o barulho distante das ferramentas sendo usadas na oficina.
Ele se aproximou.
Passou a mão sobre o capô.
— E aí, velho?
Ethan apareceu atrás dele.
— Você fala com o carro?
— Às vezes.
— Você sabe que ele não responde, né?
Vance olhou para o amigo.
— Ele tem mais personalidade que muita gente que eu conheço.
— Isso foi uma indireta?
— Se fosse, você saberia.
Ethan riu.
Vance abriu a porta do motorista.
Sentou.
Passou as mãos pelo volante.
O interior tinha cheiro de couro e do próprio carro, aquele cheiro que ele já conhecia perfeitamente.
— Quanto tempo ainda?
— Mais um ou dois dias.
Vance fez uma careta.
— Dois?
— Se eu terminar antes, te aviso.
— Você falou isso anteontem.
— E ainda estou falando.
Vance olhou para o painel.
— Você mexeu no motor?
— Sim.
— E?
— Está ficando bom.
— "Ficando"?
Ethan apoiou o braço na porta.
— Você quer que eu entregue o carro de qualquer jeito ou quer que eu faça direito?
Vance olhou para ele.
— Faça direito.
— Então espera.
Vance assentiu.
— Tá.
Ele saiu do carro.
Antes de fechar a porta, olhou novamente para o Mustang.
— Não vai demorar.
Ethan sorriu.
— Você está falando com ele de novo.
— Estou.
— Cara...
Vance fechou a porta.
— Deixa eu ser feliz.
Os dois começaram a rir.
Por alguns minutos, Vance ficou na oficina conversando com Ethan sobre carros, manutenção e algumas coisas completamente aleatórias.
Falou sobre um filme que tinha assistido na noite anterior.
Discutiu com Ethan sobre qual era o melhor Batman.
Perdeu a discussão.
Não admitiu.
E então seu telefone vibrou.
Vance tirou o aparelho do bolso.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Ele abriu.
"Senhor Umbenhower? Meu nome é Karen Miller. Me indicaram seu contato. Gostaria de falar com você sobre meu marido."
Vance leu duas vezes.
Ethan percebeu a mudança em seu rosto.
— Problema?
Vance guardou o telefone.
— Ainda não sei.
— Algum cliente?
— Parece.
Ele olhou uma última vez para o Mustang.
Depois para Ethan.
— Acho que vou ter trabalho hoje.
Ethan deu de ombros.
— Você sempre tem.
Vance colocou os óculos novamente.
— Até mais.
— Vai com Deus.
Vance caminhou em direção à saída.
— Se ele perguntar, eu estava aqui.
Ethan franziu a testa.
— Quem?
Vance apontou para o Mustang.
— Ele.
Ethan ficou olhando enquanto Vance saía.
— Esse cara precisa de ajuda.
Do lado de fora, Vance entrou no Sentra.
Ligou o motor.
O celular continuava em sua mão.
Ele olhou novamente para a mensagem.
Ainda não fazia ideia de quem era Karen Miller.
Ainda não sabia o que havia acontecido com o marido dela.
E, principalmente, não fazia a menor ideia de que aquele tipo de mensagem começaria a ocupar uma parte cada vez maior de sua vida.
Por enquanto, era apenas mais uma manhã.
E Vance ainda não tinha a menor ideia de que o mundo estava prestes a ficar bem mais complicado.
Vance não respondeu à mensagem imediatamente.
Deixou o celular sobre o banco do passageiro e saiu da frente da oficina.
O Sentra seguiu pela avenida enquanto o rádio tocava baixo.
Ele dirigia com uma das mãos no volante, a outra apoiada perto do câmbio.
O trânsito começava a engrossar.
Nada fora do normal.
Um ônibus parou no ponto à frente. Um homem atravessou a rua correndo antes que o sinal fechasse. Uma mulher buzinou para outro motorista e, alguns segundos depois, levantou as mãos como se tivesse acabado de vencer uma discussão.
Vance observou tudo sem muita reação.
A cidade já estava funcionando fazia horas.
Ele ainda estava tentando acordar completamente.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, era Ethan.
Ethan:
Esqueceu alguma coisa.
Vance respondeu:
Vance:
O quê?
A resposta veio quase imediatamente.
Ethan:
Seu cigarro.
Vance olhou para o banco ao lado.
O maço estava ali.
Ele soltou uma risada curta.
Vance:
Tá comigo.
Ethan:
Então esqueci você aqui.
Vance guardou o celular.
— Idiota.
O sinal fechou.
Ele parou.
Foi nesse momento que percebeu uma coisa.
O carro estava quase sem combustível.
Vance olhou para o painel.
— Ah, ótimo.
Virou na próxima rua.
O posto ficava a poucos minutos dali.
Vance estacionou perto da bomba e desceu.
— Completa — disse ao funcionário.
Enquanto esperava, entrou na loja de conveniência.
Pegou uma garrafa de água e um café pequeno.
Depois ficou alguns segundos diante de uma televisão presa no alto da parede.
Um programa matinal passava.
Notícias locais.
Trânsito.
Previsão do tempo.
Depois, uma reportagem sobre uma operação policial realizada durante a madrugada.
Vance assistiu por alguns segundos.
Não era exatamente o tipo de coisa que ele procurava assistir no tempo livre.
Mas seu trabalho tinha uma característica inconveniente.
Ele sempre acabava prestando atenção.
— Seu café.
Vance virou.
Pegou o copo.
— Valeu.
Pagou e saiu.
O funcionário terminou de abastecer o carro.
Vance agradeceu, entrou e seguiu viagem.
O escritório de Vance ficava no segundo andar de um prédio antigo, acima de uma pequena loja de roupas.
Não era grande.
Também não era bonito.
Mas funcionava.
Uma mesa.
Duas cadeiras para visitantes.
Um armário de arquivos.
Uma estante com livros.
Um computador.
Uma cafeteira.
E uma janela que dava para a rua.
Na parede atrás da mesa havia uma placa simples:
VANCE CLOUD UMBENHOWER
PRIVATE INVESTIGATIONS
Ele abriu a porta, entrou e deixou as chaves sobre a mesa.
Ligou o computador.
Depois tirou a jaqueta e pendurou na cadeira.
Sentou.
A primeira coisa que fez foi verificar os e-mails.
Nada urgente.
Duas propagandas.
Uma cobrança.
Um cliente perguntando sobre um relatório.
E uma mensagem de um advogado que havia contratado Vance algumas semanas antes.
Ele abriu.
"Preciso falar com você ainda hoje."
Vance respondeu:
"Sobre?"
A resposta demorou alguns minutos.
"Um caso novo."
Vance apoiou as costas na cadeira.
— Claro.
Era quase engraçado.
Quando não tinha trabalho, ninguém aparecia.
Quando tinha, aparecia tudo ao mesmo tempo.
Ele abriu o arquivo do cliente anterior.
Começou a revisar algumas informações.
Fotos.
Horários.
Endereços.
Anotações.
Vance trabalhava melhor quando estava sozinho.
Não porque não gostasse de pessoas.
Na verdade, ele gostava.
Só preferia observar antes de falar.
Uma foto mostrava um estacionamento.
Ele ampliou.
Um carro ao fundo.
Outro.
Uma placa parcialmente visível.
Vance anotou alguma coisa.
Depois voltou para a foto.
Ampliou mais.
— Hm.
Pegou o celular.
Abriu uma conversa.
Vance:
Você ainda tem acesso às imagens da câmera do estacionamento?
Esperou.
A resposta veio:
Desconhecido:
Tenho. Por quê?
Vance:
Preciso de uma gravação específica.
Desconhecido:
Te mando mais tarde.
Vance:
Valeu.
Vance voltou ao computador.
O trabalho era assim.
Às vezes uma investigação parecia importante.
Às vezes era apenas descobrir onde alguém tinha estacionado um carro.
Nem todo caso terminava em perseguição ou prisão.
A maior parte do trabalho era esperar.
Pesquisar.
Perguntar.
Comparar.
E esperar novamente.
Ele gostava disso.
Gostava da parte em que uma coisa pequena começava a fazer sentido.
Seu celular tocou.
Vance olhou.
Karen Miller.
Ele deixou tocar duas vezes antes de atender.
— Alô?
— Senhor Umbenhower?
— Pode me chamar de Vance.
— Certo. Vance.
A voz dela estava nervosa.
— Você recebeu minha mensagem?
— Recebi.
— Eu não sabia se você ia responder.
— Eu estava dirigindo.
— Desculpa.
— Não precisa.
Houve silêncio.
Vance girou lentamente a cadeira.
— Me conta o que aconteceu.
— Eu já falei com a polícia.
— Eu sei.
— Eles disseram que precisam de mais tempo.
— Isso é normal.
— Eu sei. Só que...
Ela parou.
Vance esperou.
— Eu conheço meu marido.
— Certo.
— Ele não faria isso.
Vance apoiou os braços na mesa.
— Fazer o quê?
— Simplesmente desaparecer.
Vance ficou em silêncio por um instante.
— Você tem alguma ideia de onde ele pode estar?
— Não.
— Alguma discussão antes de desaparecer?
— Não.
— Algum problema no trabalho?
— Não.
— Dívidas?
— Não.
— Alguém ameaçando ele?
— Não.
As respostas continuavam rápidas.
Vance percebeu.
— Karen.
— Sim?
— Eu não estou tentando acusar você de nada.
Ela ficou em silêncio.
— Eu só preciso saber tudo.
— Eu estou falando a verdade.
— Eu acredito em você.
Vance pegou uma caneta.
— Então vamos começar do começo.
Ele abriu uma folha em branco.
— Domingo. Que horas você viu Daniel pela última vez?
— Por volta das dez da noite.
— Vocês estavam fazendo o quê?
— Jantando.
— Ele estava diferente?
— Não.
— Recebeu alguma ligação?
— Sim.
Vance parou de escrever.
— De quem?
— Eu não sei.
— Você viu o número?
— Não.
— O que ele falou?
Karen respirou fundo.
— Ele disse que precisava sair.
— E você perguntou para onde?
— Perguntei.
— E?
— Ele não respondeu.
Vance anotou.
— Quanto tempo ele ficou fora?
— Não sei.
— Você foi dormir?
— Sim.
— Quando acordou?
— Seis e meia.
— E ele não estava em casa?
— Não.
— Você ligou?
— Muitas vezes.
— E o telefone?
— Desligado.
Vance apoiou a caneta na mesa.
— O carro dele continuou na garagem.
— Sim.
— Carteira?
— Também.
— Algum documento?
— Tudo ficou aqui.
Vance olhou para a folha.
Aquilo começava a parecer menos com uma pessoa simplesmente saindo de casa e mais com alguma coisa que ele ainda não conseguia entender.
— Karen, preciso ver a casa.
— Quando?
— Hoje.
— Pode ser agora?
Vance olhou para o relógio.
Ainda tinha tempo.
— Pode.
Ela passou o endereço.
Vance anotou.
— Chego em quarenta minutos.
— Obrigada.
— Ainda não precisa agradecer.
— Por quê?
Vance levantou da cadeira.
Pegou a jaqueta.
— Porque ainda não descobri nada.
Ela ficou em silêncio.
— Mas vou tentar.
A ligação terminou.
Vance guardou o telefone no bolso.
Pegou as chaves.
Olhou para a mesa.
O relatório antigo ainda estava aberto no computador.
O café permanecia pela metade.
Ele desligou a tela.
Antes de sair, voltou para pegar um pequeno bloco de anotações.
— Agora sim.
Trancou a porta.
Do lado de fora, Vance parou na calçada.
O movimento da rua havia aumentado.
Ele colocou os óculos e caminhou até o Sentra.
Quando abriu a porta, o telefone vibrou.
Uma mensagem de Ethan.
Ethan:
O Mustang fica pronto amanhã.
Vance sorriu.
Respondeu:
Vance:
Agora você falou minha língua.
Guardou o celular.
Entrou no carro.
O motor ligou.
Vance colocou o cinto, ajustou o retrovisor e saiu.
Ele não sabia quase nada sobre Karen Miller.
Não sabia onde Daniel estava.
Não sabia o que encontraria naquela casa.
E aquilo, para ele, era apenas trabalho.
Mais um caso.
Mais uma pessoa procurando respostas.
Mais uma manhã comum.
Pelo menos por enquanto.
A casa dos Miller ficava em uma rua tranquila, cercada por árvores e casas parecidas.
Vance estacionou o Sentra junto ao meio-fio.
Desligou o motor e ficou alguns segundos olhando para a fachada.
Casa de dois andares. Pintura clara. Jardim bem cuidado. Duas janelas no andar de cima e uma garagem fechada.
Nada chamava atenção.
Era justamente o tipo de lugar onde ninguém esperaria encontrar um problema.
Vance saiu do carro, ajeitou a jaqueta e caminhou até a porta.
Antes que pudesse bater, ela se abriu.
— Vance?
A mulher que havia falado com ele pelo telefone estava ali.
— Karen?
— Sim.
— Prazer.
— Entre.
Vance entrou.
A primeira coisa que percebeu foi o silêncio.
Não era exatamente um silêncio desconfortável. A televisão estava ligada em algum lugar da casa, mas o volume estava tão baixo que quase não dava para entender o que passava.
Karen fechou a porta.
— Obrigada por vir.
— Sem problema.
— Eu realmente não sabia mais o que fazer.
— Vamos começar pelo começo.
Karen assentiu.
Vance olhou ao redor.
Sala de estar.
Sofá grande.
Televisão.
Estante com livros.
Algumas fotografias espalhadas pelos móveis.
Em uma delas, Karen aparecia ao lado de Daniel em uma praia. Os dois sorriam para a câmera.
Vance se aproximou.
— Vocês eram casados há quanto tempo?
— Oito anos.
— E os filhos?
Karen olhou para o corredor.
— Estão em casa.
Vance virou o rosto.
— Dois?
— Dois.
— Certo.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, uma voz masculina surgiu do corredor.
— Mãe?
Um garoto apareceu.
Tinha doze anos e segurava um controle de videogame.
Ele olhou para Vance.
Depois para Karen.
— É ele?
Karen suspirou.
— É.
O garoto se aproximou.
— Você é detetive?
Vance olhou para ele.
— Sou.
— De verdade?
— Até onde sei.
O menino sorriu.
— Você já prendeu alguém?
— Algumas pessoas.
— Com arma?
Karen imediatamente interrompeu.
— Michael.
— O quê?
— Não começa.
Michael olhou para Vance.
— Foi mal.
Vance segurou uma risada.
— Tudo bem.
O garoto ficou olhando para ele por mais alguns segundos.
— Você usa arma?
— Às vezes.
Os olhos de Michael se arregalaram.
— Legal.
— Michael, vai terminar seu jogo.
— Tá.
O garoto saiu correndo pelo corredor.
Vance olhou para Karen.
— Ele parece curioso.
— Ele não fala de outra coisa desde que eu disse que tinha chamado você.
— Eu percebi.
Karen sorriu pela primeira vez.
Então uma porta no andar de cima se abriu.
Uma garota desceu alguns degraus.
Dezessete anos.
Cabelos longos, roupa confortável e o celular na mão.
Ela parou quando viu Vance.
Os olhos dela ficaram nele por alguns segundos.
Vance percebeu.
Ela desviou o olhar rapidamente.
— Essa é minha filha, Emily.
— Oi — disse Emily.
— Oi.
Ela olhou novamente para Vance.
Dessa vez demorou um pouco mais.
Karen percebeu.
— Emily.
— O quê?
— Nada.
Emily fez uma expressão inocente.
— Eu não fiz nada.
Vance quase sorriu.
— Tudo bem.
Emily desceu o restante da escada.
— Você é mesmo detetive particular?
— Sou.
— Quantos anos você tem?
Vance ergueu uma sobrancelha.
Karen olhou para a filha.
— Emily...
— Foi só uma pergunta.
— Vinte e cinco.
— Ah.
Ela ficou em silêncio.
— Você parece mais velho.
Vance olhou para Karen.
Karen colocou a mão no rosto.
— Desculpa.
— Não, tudo bem.
Emily sorriu.
— Eu só achei.
— Eu vou considerar isso um elogio.
Ela riu baixinho.
— Pode ser.
Karen apontou para o corredor.
— Emily, por que você não fica com seu irmão?
— Tá.
Ela subiu novamente.
Mas, antes de desaparecer no andar de cima, olhou para Vance mais uma vez.
Vance não percebeu.
Karen percebeu.
E preferiu não comentar.
— Eles estavam em casa quando Daniel desapareceu? — perguntou Vance.
— Sim.
— Os dois?
— Sim.
— E eles ouviram alguma coisa?
— Eu perguntei. Michael disse que não. Emily também.
Vance assentiu.
— Quero conversar com eles depois.
Karen pareceu surpresa.
— Com eles?
— Sim. Separadamente.
— Eles são crianças.
— Eu sei.
— Michael tem doze anos.
— Não vou pressionar nenhum dos dois. Só quero saber se lembram de alguma coisa.
Karen ficou alguns segundos pensando.
— Tudo bem.
Vance tirou o bloco do bolso.
— Vamos começar pelo domingo.
Karen começou a explicar.
Jantar.
Televisão.
A ligação.
A saída de Daniel.
Vance fazia perguntas curtas e anotava apenas o necessário.
— Que horas ele recebeu a ligação?
— Um pouco depois das dez.
— Você viu o número?
— Não.
— Ele disse alguma coisa?
— Só que precisava sair.
— Você perguntou para onde?
— Sim.
— E?
— Ele não respondeu.
Vance anotou.
— E depois?
— Fui dormir.
— Daniel saiu pela porta da frente?
— Sim.
— Você ouviu?
— Não.
— E quando acordou?
— Seis e meia.
— Ele já tinha sumido.
— Sim.
— O carro estava aqui?
— Sim.
— Carteira?
— Aqui.
— Celular?
— Também.
Vance fechou o bloco.
— Posso ver o quarto?
Karen assentiu.
O quarto do casal estava arrumado.
Cama feita.
Duas mesas de cabeceira.
Alguns livros.
Perfume.
Relógio.
Vance caminhou lentamente pelo ambiente.
Não mexia em nada sem necessidade.
Observava.
Abriu uma gaveta.
Roupas.
Outra.
Documentos.
Nada.
— Ele sempre usava relógio? — perguntou.
Karen olhou para ele.
— Sempre.
— Qual?
Ela apontou para o pulso.
— Um de metal. Prateado.
— Onde está?
Karen ficou alguns segundos em silêncio.
— Não sei.
Vance olhou para ela.
— Ele estava usando domingo?
— Acho que sim.
— "Acha"?
— Eu não prestei atenção.
Vance assentiu.
Aquilo podia significar alguma coisa.
Ou absolutamente nada.
Ainda era cedo para decidir.
Na garagem, o carro de Daniel permanecia estacionado.
Vance se aproximou.
— Posso abrir?
— Claro.
Ele entrou no banco do motorista.
Olhou o painel.
Depois o porta-luvas.
Manual.
Papéis.
Caneta.
Seguro.
Nada.
Abriu o console central.
Óculos de sol.
Carregador.
Algumas moedas.
Nada.
Saiu.
Karen permanecia na porta.
— Você acha que ele foi sequestrado?
Vance fechou a porta do carro.
— Ainda não sei.
— Então o que você acha?
— Acho que precisamos descobrir por que alguém sairia de casa sem levar carro, carteira ou celular.
Karen baixou os olhos.
Vance olhou para a câmera instalada acima da garagem.
— Essa câmera funciona?
— Sim.
— Tem gravação?
— Tem.
— Ótimo.
Alguns minutos depois, Vance estava sentado à mesa da cozinha com o notebook.
A gravação de domingo aparecia na tela.
21h47.
Nada.
21h58.
Nada.
22h06.
Um carro passou pela rua.
22h11.
Nada.
22h17.
Vance avançou.
22h19.
Daniel apareceu.
Saiu pela porta.
Vance pausou.
Karen se aproximou.
— É ele.
Vance deu play.
Daniel caminhou até a calçada.
Parou.
Olhou para trás.
Vance pausou novamente.
— Ele fez isso?
— O quê?
— Olhou para trás.
Karen se aproximou ainda mais.
— Talvez tenha ouvido alguma coisa.
Vance voltou alguns segundos.
Daniel olhou para trás novamente.
Dessa vez Vance percebeu algo.
Do outro lado da rua, parcialmente escondida atrás de um carro estacionado, havia uma pessoa.
Ele ampliou a imagem.
A qualidade piorou.
Ainda assim, dava para perceber uma silhueta.
Karen levou a mão à boca.
— Quem é?
— Não sei.
— É alguém seguindo ele?
— Não posso afirmar.
Vance avançou o vídeo.
Daniel continuou andando.
A figura permaneceu parada.
Depois saiu do enquadramento.
Vance voltou.
Assistiu novamente.
Depois uma terceira vez.
Daniel não parecia assustado.
Parecia estar indo ao encontro de alguém.
Vance tirou uma foto da tela com o celular.
— Preciso dessa gravação.
— Pode levar.
— Obrigado.
Karen permaneceu olhando para a tela.
— Você acha que ele conhecia aquela pessoa?
Vance fechou o notebook.
— É uma possibilidade.
— Isso é ruim?
Ele colocou o computador na mochila.
— Depende de quem era.
Antes de ir embora, Vance encontrou Michael sentado no sofá.
O garoto largou o controle assim que o viu.
— Você descobriu alguma coisa?
— Algumas coisas.
— Meu pai está vivo?
Vance parou.
Não respondeu imediatamente.
Sentou na outra ponta do sofá.
— Eu ainda não sei.
Michael abaixou os olhos.
— Mas você vai encontrar ele?
— Vou tentar.
— Você promete?
Vance olhou para ele.
— Prometo que vou fazer o possível.
O garoto assentiu.
— Ele estava estranho no domingo.
Vance ficou atento.
— Como assim?
— Não sei.
— Tenta lembrar.
Michael pensou.
— Ele ficou muito tempo no telefone.
— Você ouviu alguma coisa?
— Não.
— Ele brigou com sua mãe?
— Não.
— Estava nervoso?
— Um pouco.
— Por quê?
— Não sei.
Vance assentiu.
— Tudo bem.
Michael voltou a pegar o controle.
— Se descobrir quem fez isso, me conta?
Vance sorriu.
— Se sua mãe deixar.
— Ela vai deixar.
— Então está combinado.
Vance levantou.
Ao passar pela escada, encontrou Emily descendo.
Ela segurava o celular.
— Já vai?
— Vou.
— Você volta?
Vance olhou para Karen.
— Provavelmente.
Emily sorriu.
— Legal.
Vance assentiu.
— Até mais, Emily.
— Até, Vance.
Ele saiu.
Assim que a porta fechou, Emily ficou olhando para ela por alguns segundos.
Michael apareceu atrás dela.
— Você gostou dele.
Emily virou imediatamente.
— Cala a boca.
— Gostou.
— Vai jogar.
— Você ficou olhando pra ele.
— Michael!
O garoto começou a rir e saiu correndo.
Emily pegou uma almofada do sofá e jogou na direção dele.
Karen apenas balançou a cabeça.
Do lado de fora, Vance entrou no Sentra.
Colocou o notebook no banco do passageiro.
Antes de ligar o carro, pegou o celular.
Mandou a imagem da gravação para um contato.
Vance:
Preciso descobrir quem é esse carro.
Depois ficou olhando para a tela.
O caso ainda tinha poucas respostas.
Mas agora havia pelo menos uma direção.
Uma pessoa havia aparecido naquela gravação.
E alguém sabia onde Daniel estava.
Vance ligou o carro.
Dessa vez, não voltou para o escritório.
Precisava de café.
E, depois disso, precisava descobrir quem estava naquele carro.
Ele saiu da rua dos Miller sem imaginar que, naquela mesma cidade, em algum outro lugar, uma garota de vinte e um anos estava começando um dia completamente diferente.
Uma garota que ainda não fazia ideia de quem ele era.
E que, naquele momento, estava muito longe de imaginar que seu caminho acabaria cruzando o dele.
O despertador tocou às 5h40.
Giselle Clarice Ross abriu os olhos e ficou alguns segundos olhando para o teto.
Ainda estava escuro.
Ela estendeu a mão até o criado-mudo, encontrou o celular e desligou o alarme.
Ficou sentada na cama.
— Vamos lá...
Passou as mãos pelo rosto e respirou fundo.
Era só mais um dia.
Pelo menos era isso que ela tentava dizer para si mesma.
Levantou.
O quarto ainda estava silencioso. Algumas roupas estavam separadas sobre uma cadeira, sua bolsa já estava pronta perto da porta e, em cima da escrivaninha, havia uma pilha de materiais da academia de polícia.
Giselle olhou para aquilo.
— Hoje não.
Foi tomar banho.
Pouco depois das seis e vinte, Giselle desceu para a cozinha.
A casa ainda estava relativamente quieta.
Seu pai já estava sentado à mesa com uma xícara de café.
— Bom dia.
— Bom dia, filha.
A mãe estava preparando alguma coisa no fogão.
— Dormiu bem?
Giselle puxou uma cadeira.
— Mais ou menos.
O pai olhou para ela por cima da xícara.
— Nervosa?
— Um pouco.
— Você já está treinando há meses.
— Eu sei.
— Então sabe o que está fazendo.
Giselle deu um pequeno sorriso.
— Na teoria.
A mãe colocou um prato diante dela.
— Come.
— Eu não estou com muita fome.
— Giselle.
— Eu vou comer.
Ela pegou um pedaço de pão.
Foi nesse momento que alguém entrou na cozinha arrastando os pés.
— Bom dia.
Era seu irmão mais novo.
Quinze anos.
Cabelo completamente bagunçado e uma expressão que deixava claro que ele ainda estava tentando entender por que existia algo chamado manhã.
Giselle olhou para ele.
— Você acordou cedo.
— Não tive escolha.
Ele sentou.
— Que horas você vai?
— Daqui a pouco.
— Vai de carro?
— Vou.
— Posso ir?
Giselle olhou para ele.
— Pra academia de polícia?
— É.
— E você faria o quê lá?
— Sei lá. Ficaria olhando.
— Não.
— Por quê?
— Porque você tem aula.
— Hoje não.
— Tem sim.
Ele pegou o celular.
— Só depois das nove.
Giselle estreitou os olhos.
— Você só quer faltar.
— Talvez.
— Então não.
Ele bufou.
— Chata.
— Eu sou sua irmã. É meu trabalho.
O pai riu baixinho.
— Ela tem razão.
— Vocês dois estão contra mim.
— Estamos — respondeu Giselle.
O garoto pegou um pedaço de pão.
— Você vai prender alguém hoje?
Giselle quase engasgou.
— O quê?
— Você é policial.
— Ainda estou na formação.
— Mas um dia vai prender.
— Talvez.
— Com arma?
Giselle olhou para o pai.
— Por que todo mundo nessa casa acha que ser policial é só andar com uma arma?
O irmão deu de ombros.
— Porque é a parte mais legal.
— Não é.
— Então qual é?
Giselle pensou por alguns segundos.
— Ajudar pessoas.
O garoto ficou quieto.
— Isso é legal também.
Giselle sorriu.
— Viu?
Ele voltou a comer.
O celular de Giselle vibrou sobre a mesa.
Ela olhou.
Uma mensagem do irmão mais velho.
"Boa sorte hoje. Não fica nervosa."
Giselle sorriu.
Seu irmão mais velho já não morava com eles fazia algum tempo. Tinha a própria casa, o próprio trabalho e a própria rotina.
Mas, mesmo longe, continuava sendo uma das pessoas que mais acompanhavam a vida dela.
Ela respondeu:
"Você fala isso como se eu estivesse indo fazer uma prova."
A resposta chegou quase imediatamente.
"Pra você é quase isso."
Giselle riu.
Guardou o celular.
— Quem era? — perguntou a mãe.
— O mano.
— Ele desejou boa sorte?
— Sim.
O pai assentiu.
— Ele sempre foi preocupado com você.
— Eu sei.
Giselle terminou o café.
Levantou.
— Tenho que ir.
A mãe se aproximou e ajeitou uma pequena parte do cabelo dela.
— Está bonita.
— Mãe...
— O quê?
— Eu estou indo trabalhar.
— Eu sei.
— Então não precisa arrumar meu cabelo.
— Preciso.
Giselle riu.
— Tá bom.
Pegou a bolsa.
— Tchau.
— Boa sorte — disse o pai.
— Vai dar tudo certo — acrescentou a mãe.
O irmão de quinze anos levantou dois dedos.
— Não seja presa.
Giselle olhou para ele.
— Engraçadinho.
— Estou tentando ajudar.
Ela saiu rindo.
O carro estava estacionado na frente da casa.
Giselle colocou a bolsa no banco do passageiro e entrou.
Antes de ligar o motor, ficou alguns segundos parada.
Olhou para o volante.
Depois para o celular.
Outra mensagem.
Dessa vez de Nora.
Nora:
Já saiu?
Giselle respondeu:
Giselle:
Sim.
Nora:
Mentira. Você ainda tá sentada no carro.
Giselle olhou ao redor.
Como ela sabia?
Giselle:
Como você sabe?
Nora:
Porque te conheço.
Giselle sorriu.
Giselle:
Estou indo.
Ligou o carro.
A academia de polícia estava movimentada.
Giselle estacionou e pegou a bolsa.
Assim que entrou, encontrou Nora perto da entrada.
— Você demorou.
— Eu cheguei no horário.
— Eu cheguei antes.
— Problema seu.
Nora sorriu.
— Está nervosa?
Giselle respirou fundo.
— Um pouco.
— Eu também.
— Ótimo.
— Por quê?
— Pelo menos não sou só eu.
As duas começaram a caminhar.
Giselle olhou para o prédio.
Meses de treinamento.
Aulas.
Provas.
Exercícios.
Treinos físicos.
Simulações.
Tudo aquilo tinha preparado sua cabeça para aquele momento.
Ou pelo menos era o que ela esperava.
Ela ainda não tinha ido a uma ocorrência real.
Nunca tinha investigado um crime de verdade.
Nunca tinha precisado olhar para alguém e decidir o que fazer sem um instrutor dizendo se estava certo ou errado.
Aquilo ainda estava por vir.
E, naquele momento, ela não fazia ideia de quanto sua vida mudaria quando acontecesse.
A manhã passou entre instruções, exercícios e avaliações.
Giselle prestava atenção em tudo.
Era concentrada.
Talvez até demais.
Anotava praticamente tudo.
Nora já tinha brincado algumas vezes que ela provavelmente faria anotações até sobre como respirar.
No intervalo, as duas estavam sentadas do lado de fora.
— Você precisa relaxar — disse Nora.
— Eu estou relaxada.
— Você está segurando a caneta como se ela tivesse cometido um crime.
Giselle olhou para a própria mão.
Realmente estava apertando a caneta com força.
Soltou.
— Talvez eu esteja um pouco tensa.
— Um pouco?
— Tá. Muito.
Nora sorriu.
— Você vai conseguir.
Giselle olhou para o pátio.
— Espero.
No fim da tarde, finalmente deixou a academia.
O céu começava a ficar alaranjado.
Giselle entrou no carro.
Antes de ligar, recebeu outra mensagem.
Dessa vez, do irmão mais velho.
"E aí? Sobreviveu?"
Ela sorriu.
"Sobrevivi."
"Sabia."
Giselle guardou o celular.
Ligou o carro.
Ainda não era uma detetive particular.
Ainda não tinha participado de uma investigação de verdade.
Ainda não conhecia Vance Cloud Umbenhower.
Naquele momento, os dois estavam vivendo vidas completamente diferentes.
Vance estava seguindo pistas sobre um homem desaparecido.
Giselle estava apenas começando sua própria carreira.
Nenhum dos dois sabia que essas duas vidas, que naquele momento pareciam tão distantes, estavam caminhando lentamente para o mesmo lugar.
Mas isso ainda demoraria.
Por enquanto, Giselle só queria chegar em casa, tomar banho e ouvir o irmão de quinze anos reclamar de alguma coisa na cozinha.
Era uma vida simples.
E ela gostava dela.
Quando Giselle chegou em casa, já passava das sete da noite.
Estacionou o carro na frente da casa, pegou a bolsa do banco do passageiro e ficou alguns segundos sentada.
O cansaço tinha chegado de uma vez.
Ela soltou o ar devagar.
— Que dia...
Saiu do carro e entrou.
Assim que fechou a porta, ouviu a voz do irmão.
— Demorou.
Giselle tirou os sapatos.
— Boa noite pra você também.
O garoto estava jogado no sofá, com o controle do videogame nas mãos.
— Como foi?
— Cansativo.
— Só?
— Só.
— Você prendeu alguém?
Giselle olhou para ele.
— De novo isso?
— É uma pergunta.
— Não.
— Atirou?
— Não.
— Perseguiu alguém?
— Também não.
— Então foi chato.
Giselle passou por ele.
— Você tem quinze anos. Vai achar tudo chato mesmo.
— Tenho razão.
— Claro.
Ela deixou a bolsa no sofá.
— E você? Fez a tarefa?
O garoto ficou quieto.
Giselle lentamente virou o rosto.
— Você não fez.
— Eu ia fazer.
— Claro.
— Depois.
— Depois quando?
— Mais tarde.
— Você sabe que "mais tarde" não é um horário, né?
— Eu sei.
— Então vai fazer.
— Mas eu estou jogando.
— Pode continuar jogando depois.
— Só mais uma partida.
— Não.
— Metade?
— Não.
— Dez minutos?
— Cinco.
Ele pensou.
— Dez.
— Cinco.
— Oito.
Giselle cruzou os braços.
— Você está negociando comigo?
— Sim.
Ela segurou uma risada.
— Cinco minutos.
— Fechado.
— E depois tarefa.
— Tá.
Giselle foi para a cozinha.
A mãe estava preparando o jantar.
— Chegou.
— Cheguei.
— Como foi?
Giselle puxou uma cadeira.
— Bom.
A mãe olhou para ela.
— Só bom?
— Cansativo.
— Isso é diferente.
— Eu sei.
— Está gostando?
Giselle ficou alguns segundos pensando.
— Estou.
— Mesmo?
— Mesmo.
A mãe sorriu.
— Eu sabia.
Giselle apoiou os braços sobre a mesa.
— Só que é estranho.
— O quê?
— Passar tanto tempo treinando para uma coisa e ainda não saber como vai ser quando realmente acontecer.
A mãe desligou o fogo.
— Você não precisa saber tudo antes de começar.
— Eu sei.
— Você só precisa fazer o que aprendeu.
Giselle olhou para ela.
— Parece simples quando você fala.
— Porque é simples.
— Não é.
A mãe se aproximou.
— Você sempre complica tudo na sua cabeça.
Giselle sorriu de canto.
— Talvez.
— É verdade.
— Obrigada pelo apoio.
— Estou te apoiando.
— Do seu jeito.
— Exatamente.
As duas riram.
Depois do jantar, Giselle subiu para o quarto.
Tomou banho e colocou uma roupa confortável.
Quando voltou, encontrou o irmão sentado no chão do quarto dela.
— O que você está fazendo aqui?
— Nada.
— Então por que está aqui?
— Vim pegar meu carregador.
— Ele está onde?
— Não sei.
Giselle apontou para a escrivaninha.
— Ali.
Ele pegou.
— Valeu.
Quando estava saindo, parou na porta.
— Gi.
— O quê?
— Você vai trabalhar com arma mesmo?
Ela olhou para ele.
— Por que você está tão interessado nisso?
— Só quero saber.
— Talvez.
— Você tem medo?
Giselle ficou quieta por alguns segundos.
A pergunta tinha vindo de maneira tão simples que ela quase respondeu automaticamente.
Mas não respondeu.
— Um pouco.
O garoto pareceu surpreso.
— Sério?
— Claro.
— Achei que você não tinha medo.
Giselle sorriu.
— Todo mundo tem medo de alguma coisa.
— Eu não tenho.
— Você tem medo de barata.
Ele ficou sério.
— Isso é diferente.
Giselle começou a rir.
— Vai dormir.
— Ainda nem está tarde.
— Então vai fazer a tarefa.
— Você estragou o momento.
— De nada.
Ele saiu reclamando.
Giselle fechou a porta.
Ela se sentou diante da escrivaninha.
Sobre ela estavam os materiais da academia.
Giselle abriu um dos cadernos.
Começou a revisar algumas anotações.
Não precisava.
Já tinha estudado aquilo.
Mas era uma mania.
Quando estava insegura, estudava.
Quando estava nervosa, estudava.
Quando achava que não estava preparada o suficiente, estudava ainda mais.
Depois de alguns minutos, largou a caneta.
Pegou o celular.
Uma mensagem de Nora.
Nora:
Ainda viva?
Giselle sorriu.
Giselle:
Infelizmente.
Nora:
Ótimo.
Giselle:
Por quê?
Nora:
Porque preciso de você amanhã.
Giselle:
Pra quê?
Nora:
Depois te conto.
Giselle franziu a testa.
Giselle:
Isso parece suspeito.
Nora:
Você está ficando paranoica.
Giselle:
Estou entrando pra polícia.
Nora:
Ainda não é desculpa.
Giselle riu.
Deixou o celular de lado.
Pouco depois das onze, a casa já estava silenciosa.
Giselle estava deitada.
A luz apagada.
O celular carregando no criado-mudo.
Ela olhou para o teto.
Pensou no futuro.
Na academia.
No trabalho.
Na possibilidade de finalmente ter sua própria casa.
No irmão mais velho.
No garoto de quinze anos que provavelmente ainda estaria acordado jogando escondido.
Ela sorriu.
A vida estava mudando.
Devagar.
Mas estava.
Giselle fechou os olhos.
O despertador já estava programado para tocar às 5h40.
Mais um dia.
Mais treinamento.
Mais uma etapa.
Ela ainda não sabia que sua vida profissional estava prestes a mudar.
Não sabia que, em algum momento, seria colocada diante de um caso que não terminaria simplesmente quando seu turno acabasse.
E não sabia que existia um homem chamado Vance Cloud Umbenhower que, naquele exato momento, também estava vivendo sua própria rotina.
Os dois ainda estavam separados.
Dois caminhos diferentes.
Duas vidas completamente diferentes.
Por enquanto.
Giselle virou para o lado e puxou o cobertor.
— Boa noite...
A casa permaneceu em silêncio.
E, pela primeira vez naquele dia, ela não pensou em trabalho.
Dormiu.
Vance voltou para o escritório pouco depois das seis.
O Nissan Sentra ficou estacionado na frente do prédio.
Ele subiu as escadas, abriu a porta e entrou.
A sala estava exatamente como havia deixado.
Silenciosa.
Bagunçada o suficiente para parecer usada, mas organizada o bastante para ele encontrar qualquer coisa que precisasse.
Vance tirou a jaqueta e jogou sobre a cadeira.
Depois colocou o notebook sobre a mesa.
Abriu.
A primeira coisa que apareceu foi a gravação da câmera da casa dos Miller.
Vance assistiu novamente.
Daniel saiu.
Parou.
Olhou para trás.
Continuou andando.
A figura do outro lado da rua permanecia praticamente impossível de identificar.
Vance pausou a imagem.
Ficou olhando.
— Quem é você?
Nada.
Ele voltou alguns segundos.
Assistiu novamente.
Dessa vez, prestou atenção no horário.
22:19:43.
Anotou.
Depois abriu outra janela.
Começou a pesquisar o endereço dos Miller.
Não queria saber apenas quem morava perto.
Queria saber o que existia naquela região.
Comércios.
Estacionamentos.
Câmeras.
Postos.
Restaurantes.
Qualquer lugar que pudesse ter registrado Daniel depois que ele deixou a casa.
Encontrou uma pequena loja de conveniência a duas quadras.
Uma farmácia.
Um posto de gasolina.
E um cruzamento com câmera de trânsito.
Vance recostou na cadeira.
— Melhor que nada.
Abriu o mapa.
Se Daniel realmente havia seguido a pé, existiam algumas possibilidades.
Mas se alguém o havia buscado...
Ele precisaria descobrir.
Pegou o telefone e ligou para Karen.
Ela atendeu rapidamente.
— Vance?
— Oi. Preciso confirmar uma coisa.
— Claro.
— Daniel costumava caminhar por aquela região?
— Às vezes.
— Para onde?
— Tinha um restaurante que ele gostava. Não muito longe daqui.
Vance pegou a caneta.
— Qual?
Ela passou o nome.
Vance anotou.
— Ele ia sozinho?
— Às vezes. Às vezes comigo.
— Quando foi a última vez?
Karen pensou.
— Acho que umas três semanas atrás.
— Ele encontrou alguém lá?
— Não sei.
— Tudo bem.
Vance olhou para o mapa.
— Outra coisa. Daniel tinha algum amigo próximo que você não conhecesse?
— Não que eu saiba.
— Algum antigo colega de trabalho?
— Ele conhecia muita gente.
— Eu sei.
Vance olhou para a fotografia da família sobre a mesa.
— Mas alguém que ele costumava mencionar?
Karen ficou em silêncio.
— Tinha um homem.
Vance levantou os olhos.
— Quem?
— Não lembro o nome.
— Mas você lembra dele?
— Sim.
— O que sabe?
— Daniel trabalhou com ele alguns anos atrás. Eles não eram exatamente amigos, mas...
— Mas?
— Às vezes Daniel dizia que aquele homem era problema.
Vance anotou.
— Você sabe onde ele trabalhava?
— Na mesma empresa.
— Vou descobrir.
— Vance...
— Sim?
— Isso significa alguma coisa?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Ainda não sei.
— Entendi.
— Se lembrar do nome, me avisa.
— Vou avisar.
A ligação terminou.
Vance olhou para a anotação.
ANTIGO COLEGA — "PROBLEMA."
Ele abriu o site da empresa onde Daniel trabalhava.
Começou a procurar funcionários antigos.
Primeiro pelos registros públicos.
Depois por redes profissionais.
Depois por notícias relacionadas à empresa.
Nada.
Até que encontrou uma lista antiga de funcionários.
Passou os olhos pelos nomes.
Parou.
Um sobrenome parecia familiar.
Vance abriu uma nova aba.
Pesquisou.
Nada.
Tentou outra combinação.
Ainda nada.
Ele encostou na cadeira.
— Vamos com calma.
Não tinha motivo para correr atrás de uma pessoa apenas porque alguém havia dito que ela era "problema".
Aquilo poderia não significar absolutamente nada.
Vance sabia disso.
Uma investigação mal conduzida começava justamente assim.
Você encontrava uma coisa estranha e começava a encaixar todo o resto ao redor dela.
Ele não faria isso.
Ainda.
Fechou a pesquisa.
Voltou para a gravação.
Dessa vez, em vez de olhar para Daniel, observou a rua.
Carros.
Casas.
Postes.
Pessoas.
Um veículo passou às 22h17.
Outro às 22h18.
Daniel saiu às 22h19.
A figura apareceu.
Vance pausou.
Voltou.
22h18.
O carro.
Ele ampliou.
Tentou identificar o modelo.
Não conseguiu.
Voltou mais uma vez.
O veículo passou devagar.
— Você estava esperando ele?
Vance anotou o horário.
22:18.
Depois abriu o mapa.
Se conseguisse descobrir onde aquele carro havia ido depois, talvez encontrasse alguma coisa.
Pegou o telefone.
Mandou uma mensagem para um contato que poderia conseguir acesso às imagens públicas de trânsito.
Vance:
Preciso das imagens desse cruzamento. Domingo, entre 22h15 e 22h30.
Esperou.
A resposta veio alguns minutos depois.
Contato:
Vou tentar conseguir.
Vance colocou o celular sobre a mesa.
Olhou para o relógio.
Já passava das nove.
Ele estava cansado.
Mas não queria ir embora.
Não ainda.
Pegou o maço de cigarros.
Acendeu um.
Abriu a janela.
A cidade continuava se movimentando lá fora.
Vance ficou alguns segundos olhando para as luzes.
Depois voltou para a mesa.
Abriu o arquivo de Daniel novamente.
Dessa vez, não procurou pistas.
Apenas leu.
Nome.
Idade.
Profissão.
Família.
Rotina.
Vida.
Tentou enxergar o homem por trás daqueles documentos.
Porque, antes de desaparecer, Daniel tinha uma vida.
E alguma coisa naquela vida havia feito com que ele saísse de casa naquela noite.
Vance apagou o cigarro.
Pegou a caneta.
Escreveu no papel:
"Descobrir o que Daniel estava procurando."
Ficou olhando para a frase.
Depois acrescentou:
"E quem ele estava esperando."
Vance fechou o caderno.
A investigação ainda estava no começo.
Ele tinha mais perguntas do que respostas.
Mas, pela primeira vez, começava a entender uma coisa:
Daniel não parecia simplesmente ter desaparecido.
Ele parecia ter ido ao encontro de alguma coisa.
E Vance pretendia descobrir o quê.
Vance fechou o caderno.
A investigação ainda estava no começo.
Ele tinha mais perguntas do que respostas.
Mas, pela primeira vez, começava a entender uma coisa:
Daniel não parecia simplesmente ter desaparecido.
Ele parecia ter ido ao encontro de alguma coisa.
Vance ficou alguns segundos olhando para a frase que havia acabado de escrever.
Depois recostou na cadeira.
O escritório estava silencioso.
O relógio na parede marcava 21h47.
Ele pegou o celular e abriu novamente as informações sobre Daniel.
Nome.
Idade.
Endereço.
Trabalho.
Família.
Nada parecia explicar aquela saída.
Vance abriu a gravação mais uma vez.
Daniel apareceu na tela.
Saiu de casa.
Parou.
Olhou para trás.
Depois caminhou.
Vance avançou alguns segundos.
A figura do outro lado da rua continuava lá.
Ele voltou.
Assistiu de novo.
Dessa vez, prestou atenção no rosto de Daniel.
Mesmo com a baixa qualidade da imagem, havia uma coisa que chamava atenção.
Daniel não parecia assustado.
Não estava correndo.
Não olhava repetidamente para os lados.
Simplesmente caminhava.
Vance pausou.
— Você sabia onde estava indo.
Ficou olhando para a tela.
Depois pegou o telefone.
Ligou para Karen.
Ela demorou alguns segundos para atender.
— Vance?
— Desculpa ligar tão tarde.
— Tudo bem.
— Eu estava revendo a gravação.
— Encontrou alguma coisa?
— Talvez.
Vance olhou para o monitor.
— Daniel parecia tranquilo quando saiu.
Karen ficou em silêncio.
— Você percebeu alguma coisa diferente nele naquele domingo?
— Não.
— Nada?
— Não.
— Ele parecia preocupado?
— Não mais do que o normal.
Vance girou a caneta entre os dedos.
— Vocês tiveram alguma discussão?
A pergunta demorou a ser respondida.
— Não.
— Tem certeza?
— Vance, eu já falei tudo o que consigo lembrar.
— Eu sei. Só estou tentando entender.
— Eu também.
A voz dela ficou mais baixa.
— Eu fico pensando se deveria ter percebido alguma coisa.
Vance mudou o tom.
— Não faça isso.
— O quê?
— Não fique procurando uma coisa que você poderia ter feito diferente.
Silêncio.
— Você não tinha como saber.
Karen respirou fundo.
— Obrigada.
— Eu te ligo se descobrir alguma coisa.
— Certo.
A ligação terminou.
Vance colocou o celular sobre a mesa.
Ficou alguns segundos olhando para ele.
Depois abriu uma nova página no computador.
Começou a pesquisar os hábitos de Daniel.
Não apenas os últimos dias.
Meses.
Lugares onde costumava ir.
Restaurantes.
Postos de gasolina.
Locais onde havia feito compras.
Vance encontrou algumas movimentações comuns.
Supermercado.
Trabalho.
Casa.
Academia.
Restaurante.
Nada estranho.
Então percebeu uma coisa.
Daniel havia feito uma compra em um posto de gasolina fora da rota habitual três semanas antes.
Vance abriu o endereço.
Era uma cidade pequena, a aproximadamente cinquenta minutos dali.
Ele anotou.
Não significava nada.
Ainda.
Mas era um começo.
22h26.
Vance levantou da cadeira.
Foi até a pequena cozinha do escritório.
Abriu a geladeira.
Pegou uma garrafa de água.
Ficou parado por alguns segundos.
Depois abriu um armário.
Encontrou um pacote de biscoitos.
— Jantar de campeão.
Pegou dois.
Voltou para a mesa.
Sentou.
Começou a comer enquanto continuava pesquisando.
Uma nova janela apareceu.
A empresa onde Daniel trabalhava.
Vance abriu os registros de funcionários.
Começou pelos atuais.
Depois pelos antigos.
Um nome chamou sua atenção.
Michael Turner.
Vance abriu o perfil.
Antigo funcionário.
Trabalhou na empresa durante quase seis anos.
Saiu aproximadamente oito meses antes do desaparecimento de Daniel.
Vance continuou lendo.
Nada criminal.
Nenhum processo.
Nenhuma acusação.
Só uma observação em um antigo registro profissional:
"Desligamento voluntário."
Vance estreitou os olhos.
Voluntário.
Abriu outra página.
Michael Turner tinha se mudado para outra cidade.
Vance anotou o endereço.
Depois fechou o arquivo.
Não tinha motivo para assumir que Turner tinha alguma relação com o desaparecimento.
Mas poderia perguntar.
Amanhã.
Por enquanto, ele precisava dormir.
Vance desligou o computador.
Pegou a jaqueta.
Apagou as luzes.
Antes de sair, voltou para pegar o celular.
Olhou uma última vez para a tela.
A fotografia de Daniel ainda estava aberta.
Vance ficou olhando.
— Espero que você esteja bem.
Guardou o telefone.
Saiu do escritório.
Pouco depois das onze, Vance chegou em casa.
A garagem estava silenciosa.
Os três carros permaneciam estacionados onde deveriam.
O Mustang 1969 ainda estava na oficina.
Na garagem estavam o Nissan Sentra e o Corvette conversível.
A Suzuki preta permanecia encostada mais ao fundo.
Vance entrou.
Jogou as chaves sobre um móvel.
Abriu a geladeira.
Pegou uma garrafa de água.
Parou.
Olhou para a garrafa de whisky guardada no armário.
Ficou alguns segundos pensando.
Pegou.
Serviu um pouco no copo.
Bebeu puro.
Depois colocou o copo sobre a bancada.
O celular vibrou.
Vance pegou.
Uma mensagem de um número que ele não conhecia.
Ele abriu.
"Você está procurando Daniel Miller?"
Vance ficou imóvel.
Leu novamente.
Não havia nome.
Nenhuma explicação.
Apenas aquela pergunta.
Ele digitou:
"Quem é?"
A mensagem foi visualizada.
Nenhuma resposta.
Vance esperou.
Trinta segundos.
Um minuto.
Dois.
Nada.
Ele ligou.
Número indisponível.
Vance deixou o celular sobre a bancada.
Olhou para o copo.
Depois para o telefone.
Aquela mensagem mudava uma coisa.
Se alguém sabia que ele estava investigando Daniel, então talvez alguém estivesse acompanhando a investigação.
Mas havia outra possibilidade.
Alguém simplesmente queria fazê-lo acreditar nisso.
Vance não tinha como saber ainda.
Pegou o celular novamente.
Salvou uma captura da conversa.
Depois escreveu uma anotação.
23h18 — mensagem anônima.
Abaixo:
"Você está procurando Daniel Miller?"
Vance apagou a luz da cozinha.
Subiu as escadas.
Mas não foi dormir imediatamente.
Ficou sentado na cama, olhando para o telefone.
Aquela noite tinha começado como qualquer outra.
Agora havia uma pergunta nova.
E, dessa vez, alguém havia feito a pergunta para ele.
A manhã chegou sem pressa.
Vance acordou pouco depois das sete.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto, tentando lembrar por que havia dormido tão mal.
Então lembrou.
Daniel Miller.
E a mensagem.
Ele pegou o celular no criado-mudo.
Abriu a conversa.
A última mensagem continuava sendo a mesma:
"Você está procurando Daniel Miller?"
Nada mais.
Vance tinha respondido.
Nenhuma resposta.
Ele ficou olhando para o número desconhecido.
Aquilo podia ser uma brincadeira.
Podia ser alguém tentando atrapalhar a investigação.
Ou podia ser uma pista.
Levantou.
Pouco depois das oito, Vance estava no escritório.
Abriu o arquivo de Daniel.
As anotações da noite anterior estavam espalhadas pela mesa.
A cidade.
O posto de gasolina.
O antigo funcionário da empresa.
As fotografias.
Tudo apontava para uma possibilidade que ainda não conseguia provar.
Black Creek.
Vance abriu novamente os registros.
A compra feita por Daniel meses antes havia sido naquela região.
Não era suficiente para afirmar que ele estava lá.
Mas era suficiente para fazer uma visita.
Pegou a jaqueta.
As chaves do Nissan Sentra.
E saiu.
A viagem levou pouco menos de uma hora.
Black Creek apareceu no horizonte como uma cidade pequena demais para esconder muita coisa.
Ou talvez justamente o contrário.
Vance estacionou perto do centro.
Desceu do carro.
Olhou ao redor.
Havia uma farmácia.
Um mercado.
Uma lanchonete.
Um posto.
E uma pousada.
A mesma região onde Daniel havia passado anteriormente.
Vance entrou na pousada.
O homem atrás do balcão levantou os olhos.
— Bom dia.
— Bom dia.
Vance mostrou uma fotografia de Daniel.
— Já viu esse homem?
O recepcionista pegou a fotografia.
Olhou.
Depois voltou os olhos para Vance.
— Por quê?
— Estou procurando uma pessoa desaparecida.
O homem continuou olhando a fotografia.
— Não sei.
Devolveu.
Vance agradeceu.
Virou-se.
— Quarto doze.
Vance parou.
Olhou para trás.
— O quê?
O recepcionista apontou para o corredor.
— Ele está no quarto doze.
Vance ficou imóvel.
— Tem certeza?
— Tenho.
O coração de Vance acelerou.
Ele caminhou até o corredor.
Parou diante da porta.
Bateu.
Nada.
Bateu novamente.
— Daniel?
Silêncio.
Vance esperou.
A porta finalmente abriu.
E ele ficou olhando.
Daniel Miller estava diante dele.
Vivo.
Sem ferimentos.
Sem sangue.
Sem algemas.
Sem qualquer sinal de que tivesse sido vítima de algum crime.
Apenas cansado.
Daniel olhou para Vance.
— Você demorou.
Vance ficou alguns segundos sem responder.
— Você é o Daniel Miller.
— Sou.
— Sua família acha que você está morto.
Daniel abaixou os olhos.
— Eu sei.
Vance entrou.
O quarto era simples.
Uma cama.
Uma mochila.
Uma pequena mala.
Algumas roupas.
Nada que parecesse esconder uma vida secreta.
Vance fechou a porta.
— Então fala.
Daniel sentou na cama.
— Eu fui embora.
— Por quê?
Daniel demorou a responder.
— Porque eu quis.
Vance esperou.
— Só isso?
— Só isso.
— Você não foi sequestrado?
— Não.
— Ninguém estava ameaçando você?
— Não.
— Você não estava fugindo de alguém?
— Não.
Vance respirou fundo.
— Então você simplesmente decidiu abandonar tudo.
Daniel olhou para o chão.
— Eu precisava desaparecer.
— Você poderia ter avisado sua esposa.
— Se eu avisasse, ela tentaria me convencer a ficar.
— E você não queria ficar.
— Não.
Daniel levantou os olhos.
— Eu amo minha família, Vance.
— Então por que fazer isso?
— Porque eu não estava feliz.
Silêncio.
— Passei anos fazendo tudo que esperavam de mim. Trabalhando, pagando contas, sendo marido, sendo pai...
Ele respirou fundo.
— E em algum momento percebi que não sabia mais quem eu era.
Vance não interrompeu.
— Eu precisava sair.
— E decidiu deixar todos acreditarem que morreu?
Daniel assentiu lentamente.
— Sim.
Vance ficou sério.
— Você sabe o que isso significa?
— Sei.
— Sua família vai sofrer.
— Eu sei.
— Então por que não volta?
Daniel olhou para ele.
— Porque se eu voltar agora, tudo começa de novo.
Vance ficou em silêncio.
Daniel levantou-se.
Foi até a janela.
— Eu não quero morrer.
Virou-se.
— Mas quero que eles acreditem que eu morri.
Vance franziu a testa.
— Você está me pedindo para mentir.
— Estou pedindo para você terminar o caso.
— Como?
— Diga que não encontrou nada.
— Isso não vai fazer você ser considerado morto.
— Então deixe o caso continuar como está.
Vance ficou olhando para ele.
— Você quer que eu registre você como morto?
— Quero.
— Oficialmente?
— Sim.
— Eu não tenho autoridade para declarar ninguém morto.
— Eu sei.
Daniel voltou a sentar.
— Só quero que você pare de procurar.
Vance respirou fundo.
A situação era absurda.
Mas, ao mesmo tempo, fazia sentido.
Daniel tinha escolhido desaparecer.
Não queria ser encontrado.
E agora que Vance o havia encontrado, estava pedindo exatamente o contrário do que qualquer família esperaria.
— Você tem certeza?
Daniel olhou diretamente para ele.
— Tenho.
Vance ficou alguns segundos em silêncio.
Depois pegou o celular.
— Vou precisar falar com sua esposa.
Daniel assentiu.
— Eu sei.
— E você vai falar com ela.
— Sim.
— Não pessoalmente.
Daniel balançou a cabeça.
— Ainda não.
— Então por telefone.
— Sim.
A ligação aconteceu alguns minutos depois.
Vance ficou do lado de fora do quarto.
Daniel conversou com Karen durante bastante tempo.
Vance não ouviu a conversa inteira.
Não precisava.
Quando Daniel saiu, seus olhos estavam vermelhos.
— Ela está bem?
— Não.
Daniel abaixou a cabeça.
— Mas agora sabe que estou vivo.
Vance assentiu.
— E seus filhos?
Daniel ficou em silêncio.
— Vou falar com eles depois.
Vance colocou as mãos nos bolsos.
— Você sabe que não posso simplesmente apagar tudo.
— Eu não quero que apague.
— Então?
— Quero que pare de procurar.
Vance entendeu.
Daniel não queria ser encontrado novamente.
Queria continuar sendo uma pessoa desaparecida.
Uma pessoa que, para o mundo, havia deixado de existir.
Vance respirou fundo.
— Certo.
Daniel olhou para ele.
— Obrigado.
— Não agradece ainda.
Vance apontou para ele.
— Se você se arrepender, voltar ou aparecer de repente, eu não vou conseguir consertar as consequências disso.
— Eu sei.
— E se sua família precisar de alguma coisa...
— Eu vou ajudar.
Vance assentiu.
Antes de sair da pousada, Vance recebeu uma ligação de Karen.
— Vance?
— Oi.
— Quanto ficou o trabalho?
Ele informou o valor combinado.
— Vou transferir agora.
— Tudo bem.
Alguns minutos depois, o celular vibrou.
Pagamento recebido.
Vance conferiu.
Guardou o telefone.
O caso estava encerrado para ele.
Não porque tivesse descoberto um assassino.
Não porque tivesse encontrado um sequestrador.
Mas porque havia descoberto a verdade.
Daniel Miller estava vivo.
Ele simplesmente tinha escolhido desaparecer.
Vance saiu da pousada.
Entrou no Nissan Sentra.
Antes de ligar o carro, olhou pelo retrovisor.
A pousada continuava atrás dele.
Daniel continuava lá dentro.
Vance respirou fundo.
— Boa sorte, cara.
Ligou o motor.
Saiu de Black Creek.
E, enquanto voltava para casa, Vance percebeu uma coisa.
Nem todo desaparecimento precisava de um culpado.
Às vezes, a pessoa simplesmente queria deixar de ser encontrada.
E naquele caso, era exatamente isso que Daniel queria.
Para todos os outros, ele continuaria desaparecido.
Para Vance, porém, a verdade era outra.
Daniel Miller estava vivo.
E queria continuar morto para o resto do mundo.








