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Bastardo - BL

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Summary

Dominique aprendeu desde cedo a ocupar o lugar que lhe foi reservado: o de um segredo tolerado. Sua rotina de silêncios e cautela começa a ruir quando novas presenças e sentimentos inesperados atravessam as portas daquela casa. Dominique se vê diante de um afeto intenso e proibido, algo capaz de desafiar a dinâmica sufocante da família e provocar fissuras onde antes só havia obediência.

Genre
Romance
Author
delicore
Status
24d ago
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Bastardo

O estalo seco da fechadura principal, seguido pelo tilintar de chaves na antessala, fez o jovem cozinheiro voltar o olhar para a entrada da cozinha. A sombra projetada na parede aproximou-se devagar até revelar seu dono. Os olhos castanho-escuros de Dominique colidiram com o azul-acinzentado do recém-chegado.

Era seu padrasto. Havia chegado mais cedo do trabalho, parecendo cansado e sonolento. Dominique o observava timidamente, de cabeça baixa, acompanhando pelo canto dos olhos os movimentos calmos do homem enquanto ele se acomodava em uma das banquetas do balcão.

As mãos molhadas do garoto voltaram ao trabalho, cortando os vegetais com cuidado. Agora de costas para o mais velho, Dominique sentia sobre a nuca o olhar firme de Arthur. Seu corpo ficava estranho sempre que estava perto do padrasto; nunca soube explicar exatamente o que era. Desde a morte da mãe, anos atrás, o homem se tornara distante e frio, e às vezes, quando a bebida tomava conta de sua mente e derrubava a razão, violento.

Dominique perdera a conta de quantas vezes se escondera no quarto ao vê-lo naquele estado irracional. Era um homem irreconhecível. Mesmo ele, que o conhecia desde que nascera, jamais imaginaria que a figura gentil que acompanhava sua mãe a encontros e festas se tornaria aquilo. É verdade que Arthur nunca fora para ele a figura paterna que era para os meio-irmãos. Dominique se questionava se sua própria presença naquela casa não era o problema: ele não era filho de Arthur. O seu papel naquela família sempre ficara claro, o bastardo, fruto de uma aventura mal-sucedida da mãe. Dois anos após o seu nascimento, por razões que Dominique jamais entenderia, Arthur perdoara a esposa e reatara a família. Logo em seguida nascera Letícia, a caçula e a grande paixão de Dominique.

Após a perda da mãe, a menina se apegara ao irmão. Pudera: Dominique e a mãe eram idênticos, mestiços dourados que contrastavam com o restante da família, claros, loiros e quase nórdicos, réplicas perfeitas do pai.

Domie, como era chamado por Letícia, e apenas por ela, sentia a própria vida escapar de suas mãos como a água corrente que levava o aroma forte das ervas para o jantar. O controle sobre o futuro deslizava por entre seus dedos longos e finos, caindo em um buraco escuro e incerto.

Seus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela voz grave atrás dele.

"Avise quando o jantar estiver pronto. Vou tomar um banho e descansar."

O arrastar da cadeira e os passos pesados foram as únicas coisas que ouviu antes que aquela aura sufocante e incômoda deixasse o cômodo. Como um fardo carregado por muito tempo e finalmente solto, Domie sequer percebera o quanto seus músculos estavam tensionados. Respirou fundo. Ainda havia um nó em seu ventre. Nervosismo, talvez? Ou apenas o medo de que qualquer gesto na frente daquele homem o desagradasse. Era assim que vivia, medindo cada movimento para jamais provocá-lo.

O relógio sobre o batente da porta marcava exatamente às 19h00. O tinir dos talheres sobre a delicada porcelana branca dos pratos postos à mesa era o único som a preencher o silêncio daquele jantar em família. À cabeceira, o mais velho mastigava concentrado o bife saboroso disposto na bela travessa de prata. O aroma era familiar e agradável, e seu olhar, vez ou outra, dividia-se entre os mais novos. Ao seu lado esquerdo, a pequena de cabelos ondulados e dourados ainda segurava o garfo da mesma forma de quando era menor; o sorriso tímido ao cruzar com o olhar do pai fazia suas bochechas rosadas subirem. Ao lado dela, Dominique comia quieto, sempre em silêncio durante as refeições. Sua atenção voltava-se apenas para o próprio prato e, quando solicitado, usava o guardanapo para limpar o canto da boca suja de molho que Letícia insistia para o irmão limpar. Domie às vezes sorria com a afeição travessa da irmã. Arthur os encarava em silêncio. Mantinha uma observação discreta sobre a feição serena do enteado e, ainda que tentasse conter-se, seus olhos sempre acabavam repousando sobre ele, como se fossem inevitavelmente atraídos.

Poucos minutos após o fim da refeição, a porta da frente bateu com força, fazendo os presentes despertarem abruptamente de seus pensamentos. Passos rápidos foram ouvidos subindo as escadas.

Arthur bufou em desagrado, apoiando o rosto sobre os punhos cerrados, e logo se levantou com raiva em direção ao barulho. Dominique recolhia os pratos nessa hora, pedindo a ajuda de Letícia para distraí-la do que possivelmente ocorreria em seguida.

As vozes abafadas no andar de cima pareciam alteradas. Dominique não conseguia ouvir direito o que eles falavam, mas temia que de alguma forma a discussão pudesse alcançá-los no andar de baixo. Letícia encarava o irmão com os olhos azuis temerosos, e seus passos curtos até a cozinha eram acompanhados por uma atenção constante aos gritos.

Quando enfim os barulhos cessaram, a sombra masculina sobre o batente da porta agora era outra. Marcus, seu meio-irmão mais velho, o encarava com um olhar pesado. O rosto estava molhado, possivelmente pelo suor e pelo orvalho da noite. Ainda vestia a mesma roupa com a qual saíra bem cedo; sequer fora à faculdade.

Aproximou-se da mesa já limpa, arrastou uma cadeira e sentou-se. O corpo parecia pesado. O cheiro era o mesmo que sempre o acompanhava quando praticava esportes, mas agora parecia mais forte ao olfato de Dominique. Os braços estirados sobre a mesa estavam sujos do que pareciam ser pedaços de grama. Apenas sob a luz mais clara Dominique percebeu o pequeno corte em seu supercílio, erguendo o rosto para encarar mais uma vez o outro à sua frente.

"Onde está meu jantar?", disse.

Dominique o encarou confuso. Seria uma piada? Mas o som duro de um tapa sobre a mesa fez Dominique recuar, percebendo a gravidade do pedido.

"Não acha melhor tomar um banho antes? Está fedendo", indagou, virando-se para verificar Letícia, que se encolhia atrás da divisória entre o cômodo e a cozinha.

"Você não me ouviu?", perguntou Marcus, alterando a voz embargada. "Seu trabalho nessa casa é servir, vadia!"

Um arrepio estranho correu a espinha de Dominique. Não seria a primeira nem a última vez que recebia aquele tipo de ofensa do mais velho. Tudo o que Arthur se permitia fazer apenas sob embriaguez, Marcus ocasionalmente praticava por ele.

Dominique prosseguiu em seu caminho, tomando a mão de Letícia e levando-a para fora dali.

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