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Summary

Ninguém tentou salvá-la. Agora, ninguém consegue detê-la. Em 2030, guerras são tão comuns quanto a chuva, e cada pessoa, ao completar dezoito anos, caminha sobre uma lâmina de água para receber o Espírito Guardião que a escolheu. Céline Aurelian não esperou. Aos doze, perdida numa floresta em chamas na noite em que seu reino caiu, ela tropeçou numa porta que ninguém lembrava existir. Do outro lado, algo lhe ofereceu companhia. Ela aceitou com uma única condição: que fosse bonito. Sete anos depois, o mundo a conhece apenas como L-00. Seu pai, o rei, quer vê-la morta. Seu irmão sonha toda noite que chega a tempo de salvá-la. E num vale gelado do outro lado do continente, um garoto de dezoito anos acaba de despertar o primeiro caçador em mil anos. Mas há uma pergunta que nenhum deles sabe responder: quando ela diz nós, de quem está falando? Terror sombrio para ler numa tarde. 18+: violência intensa, sem conteúdo sexual.

Genre
Horror
Author
Ametoria
Status
Complete
Chapters
14
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 — A gravação

O arquivo tinha onze minutos e quarenta segundos.

O general Hask disse isso duas vezes antes de entregar o controle ao rei, como se o número fosse uma advertência. Onze minutos e quarenta segundos recuperados de uma câmera de peito, modelo padrão, presa ao colete do sargento Orsen Vey, segunda equipe, terceiro homem a cruzar a porta.

A sala de comando ficava três andares abaixo do palácio de Valcrest. Paredes de concreto, telas do teto ao chão, o zumbido constante dos servidores atrás de uma divisória de vidro. Não havia janelas. Desde a queda da barreira, ninguém da família real dormia, comia ou decidia nada perto de uma janela.

Edmund Aurelian estava sentado na ponta da mesa, as mãos apoiadas na madeira escura, imóveis. Atrás dele, encostado à parede como uma armadura esquecida num corredor, seu Espírito Guardião esperava. Era alto demais para a sala. O elmo fechado tocava quase o teto, e da fresta onde deveriam estar os olhos saía uma luz pálida de amanhecer. Nos últimos trinta anos, ele havia atravessado três guerras ao lado do rei sem dizer uma única palavra. Não era do tipo que falava.

À direita de Edmund, de pé, estava Alaric. O herdeiro não tinha se sentado desde que o relatório chegara, às quatro da manhã. O uniforme continuava abotoado até a gola, impecável, mas havia uma marca vermelha na palma da mão esquerda, de onde as unhas tinham ficado tempo demais.

— O áudio primeiro — disse o rei.

Hask hesitou.

— Majestade, o vídeo mostra...

— O áudio primeiro.

O general tocou a tela. Uma linha verde e trêmula atravessou o monitor central, e a voz do capitão Rhys Morrow, da primeira equipe, encheu a sala.

— *Equipe Um no saguão. Elevador de serviço liberado. Vinte homens, vinte Espíritos ativos. Subindo.*

Ruído de botas. A respiração de quem já fez isso muitas vezes e ainda não aprendeu a gostar.

— *Quadragésimo andar. Corredor limpo. Porta da cobertura à vista. Sem resposta térmica, sem movimento.*

Uma pausa longa.

— *Porta aberta. Repito, a porta está aberta. Não fomos nós.*

Alguém atrás de Morrow disse um palavrão em voz baixa. Outro mandou calar a boca.

— *Entrando.*

Durante quarenta segundos, só passos e ordens curtas. *Cozinha, limpa. Corredor leste, limpo. Tem música tocando. Alguém desliga essa merda.* Então a voz do capitão mudou. Não ficou mais alta nem mais baixa. Ficou mais devagar, como a de um homem que tenta descrever algo e percebe, no meio da frase, que não conhece as palavras.

— *Contato. Sala principal. Dois alvos. Ela está... ela está sentada. Está comendo. O outro está na janela. Ele...*

A frase parou ali. Não houve tiro. Não houve grito. A linha verde continuou tremendo por mais seis minutos, registrando o som baixo de uma valsa e, de vez em quando, algo que poderia ser um corpo se acomodando no chão.

Hask pausou.

— A Equipe Dois entrou dezoito minutos depois, senhor. O capitão Dell perdeu contato com Morrow e decidiu subir. Contra o protocolo.

— Dell tinha um irmão na Equipe Um — disse Alaric, sem tirar os olhos da tela.

O rei não comentou. Inclinou a cabeça um centímetro, e Hask entendeu.

O vídeo começou.

A imagem tremia com cada passo do sargento Vey. Corredor de mármore claro, luz âmbar embutida no rodapé, o reflexo dos fuzis nas paredes polidas. Vinte homens em fila dupla. Ao lado de cada um, flutuando, rastejando ou caminhando, os Espíritos: um lobo de fogo branco que deixava pegadas de geada no chão, uma serpente de escamas de bronze enrolada nos ombros de um soldado baixo, uma figura magra feita de vidro fosco, um cervo de galhada negra, um enxame de luzes do tamanho de vaga-lumes. O Espírito do próprio Vey aparecia de vez em quando na borda da imagem, um cão de ferro com olhos de brasa, colado à perna do sargento.

A porta da cobertura estava aberta, como Morrow havia dito.

A música ainda tocava.

O corredor de entrada era longo, decorado com quadros e vasos de flores frescas. Os homens da Equipe Um estavam ali. Estavam todos ali.

Ninguém na sala de comando disse nada, mas Edmund ouviu a respiração de Alaric falhar.

Os soldados não estavam espalhados, nem empilhados, nem caídos como cai quem morre lutando. Estavam deitados ao longo das paredes, um ao lado do outro, de costas, com os braços junto ao corpo. Alguém os havia arrumado. Os fuzis estavam encostados num aparador, lado a lado, com os carregadores retirados e organizados numa bandeja de prata ao lado de um vaso de rosas.

Os rostos estavam intactos. Os olhos, abertos.

Na câmera, a voz do capitão Dell veio baixa e firme, a voz de um homem segurando alguma coisa com as duas mãos para não deixar cair.

— Não parem. Formação. Espíritos na frente.

A Equipe Dois avançou passando pelos mortos. Vey não olhou para baixo. A câmera olhou por ele: um rosto jovem, com o bigode ralo de quem ainda tentava deixá-lo crescer, a boca levemente aberta, sem nenhuma marca. Como se tivesse sido desligado.

O corredor desembocava numa sala enorme. Pé-direito duplo, um lustre de cristal, móveis claros, tapetes grossos. A parede do fundo era inteira de vidro, e atrás dela a cidade de Merran se estendia em luzes até o rio. Era uma noite limpa. Era uma vista bonita.

A garota estava sentada à mesa de jantar.

Usava um vestido de renda marfim e rosa antigo, cheio de laços, com mangas bufantes e uma fita de cetim no cabelo dourado, que descia solto pelas costas até a cintura. Era um vestido de festa de jardim, de aniversário, de retrato de família. Na frente dela havia um bolo pela metade sobre um prato de porcelana, e ela comia com um garfo de sobremesa, em pedaços pequenos, sem pressa.

Não levantou os olhos quando vinte homens armados entraram na sala.

O homem estava junto ao vidro, de costas para a cidade. Alto, cabelo preto curto, casaco longo escuro de gola alta. As mãos estavam nos bolsos. Ele olhava para os soldados como alguém olha para um prato que acabou de ser posto na mesa.

E havia a sombra.

A câmera de Vey pegou só por um segundo, quando o lustre balançou com o deslocamento de ar das portas. A luz da cidade entrava pelo vidro e estendia a sombra do homem pelo tapete, na direção dos soldados. Era longa demais. E era muitas. Silhuetas sobrepostas, dezenas, de alturas e formas diferentes, algumas com braços demais, algumas sem cabeça, todas saindo dos pés de um único homem parado, todas inclinadas para frente.

Hask pausou o vídeo sem que ninguém pedisse.

— Os analistas confirmaram, senhor. Não é defeito da lente.

— Continue — disse o rei.

Na imagem, Dell levantou o punho fechado.

— L-zero-zero. Em nome do Reino de Valcrest, você está...

O homem na janela tirou uma das mãos do bolso.

Foi tudo o que ele fez. Não houve passo, nem salto, nem borrão de movimento. Num quadro, ele estava junto ao vidro. No seguinte, estava no meio da formação, ao lado do soldado baixo da serpente de bronze, com a mão estendida, a palma aberta, quase gentil.

A serpente se desfez.

Não houve luta. As escamas se soltaram umas das outras como fumaça puxada por uma porta aberta, e toda aquela fumaça correu para a mão do homem e desapareceu dentro dela. Levou talvez dois segundos.

O soldado baixo não gritou. Fez um som pequeno, o som de quem esqueceu no meio da frase o que ia dizer. Depois olhou para as próprias mãos como se pertencessem a outra pessoa. Os joelhos cederam devagar. Ele ficou ajoelhado no tapete, a boca aberta, procurando alguma coisa no ar à sua volta, apalpando o próprio ombro onde a serpente costumava se enrolar.

O homem de preto tocou a nuca do soldado com dois dedos. O soldado se dobrou para frente e não se mexeu mais.

Então a sala explodiu.

A câmera tremia demais para mostrar tudo, mas mostrou o bastante. O lobo de fogo branco saltou e foi engolido no ar, a meio caminho, a luz dele se esticando como fio de lã até sumir. O cervo de galhada negra baixou a cabeça para investir e se desfez com a cabeça baixa. O enxame de vaga-lumes se espalhou pela sala e foi recolhido, ponto por ponto, como migalhas varridas de uma toalha. Os fuzis disparavam. O vidro da parede do fundo trincou em teia, mas não caiu. Os tiros não acertavam nada, ou acertavam e não importava.

E a cada Espírito devorado, um homem ficava parado no meio da sala, vazio, olhando para lugar nenhum, até que a mão do homem de preto o encontrasse.

Ele não tinha pressa. Ia de um para o outro como quem cumprimenta convidados numa recepção.

A garota cortou outro pedaço de bolo.

No minuto seis da gravação, um soldado muito jovem, de capacete torto, saiu de trás de uma coluna e apontou a pistola para a nuca do homem a menos de um metro de distância. Ao lado dele, um pássaro pequeno, feito de vidro azul, batia as asas sem fazer barulho.

O homem de preto se virou antes do disparo. A mão dele se moveu, rápida, rápida demais, sem a lentidão educada de antes, e o soldado caiu para trás com o pescoço num ângulo que não era o de um pescoço.

O pássaro de vidro ficou sozinho no ar por um instante.

Depois se apagou. Não foi devorado. Simplesmente deixou de existir, como uma vela soprada, sem fumaça para recolher.

O homem ficou olhando para o ponto onde o pássaro estivera. Pela primeira vez desde o início da gravação, o rosto dele tinha uma expressão, e era a de alguém que derrubou o prato no chão no meio do jantar.

— Ele não gosta quando eles se apressam — disse, em voz baixa, para ninguém.

A voz era bonita. Era isso que tornava difícil ouvi-la.

Depois, mais baixo ainda, com outra cadência, como se a frase tivesse saído de outra boca dentro da mesma boca:

— Nós não gostamos.

— Você deixou cair de novo — disse a garota, da mesa, sem levantar os olhos do prato.

Alaric deu um passo para trás. Bateu o quadril na cadeira e não pareceu perceber.

A gravação seguiu. O sargento Vey estava atrás de um sofá, e a câmera mostrava o encosto de veludo claro, a respiração dele cada vez mais curta, o cão de ferro rosnando na borda do quadro. Vey falou com a voz trêmula, em código, para um rádio que ninguém ouvia mais. Pediu apoio. Pediu evacuação. Disse o nome de uma mulher, duas vezes.

Então o cão de ferro ganiu.

Edmund conhecia aquele som. Todo soldado de Valcrest conhecia. Era o som que um Espírito fazia quando o hospedeiro era ferido em batalha, um som de alerta, de proteção. Nunca o tinha ouvido assim, alongado, se desfazendo no meio, como uma nota tocada num instrumento que alguém está desmontando.

A imagem tombou. A câmera bateu no chão de lado e ficou ali, gravando o tapete, as pernas de uma cadeira, a parte de baixo da mesa de jantar.

E os pés da garota.

Ela usava sapatilhas de cetim rosa, com fitas amarradas no tornozelo. Sapatilhas de criança, grandes. Os pés não alcançavam o chão por completo, e ela os balançava sob a mesa, devagar, um de cada vez, no ritmo da valsa.

Do lado de fora do quadro, durante quase três minutos, aconteceu o resto. A câmera registrou o som. Pouco som. Um homem pedindo alguma coisa, sem conseguir lembrar o quê. Dell dizendo o nome do irmão. O baque surdo e macio de corpos no tapete grosso. Passos sem pressa. Em nenhum momento, a garota parou de balançar os pés.

Depois, só a valsa.

No minuto dez, os pés pararam. A cadeira foi arrastada para trás. As sapatilhas de cetim atravessaram o quadro e sumiram. Por alguns segundos, a câmera mostrou apenas o tapete vazio e um garfo de sobremesa caído perto da perna da mesa.

Então a imagem girou. Alguém a pegou do chão.

O rosto dela encheu a tela.

Era um rosto bonito. Dezenove anos, pele clara, olhos azul-claros, os traços finos e retos que a Casa Aurelian carregava havia gerações e que estavam pintados em todos os retratos dos corredores do palácio, três andares acima daquela sala. A luz da câmera, forte demais assim de perto, revelava uma cicatriz fina e pálida na têmpora esquerda, meio escondida pelo cabelo.

Ela sorriu para a lente.

Os olhos não acompanharam o sorriso. Ficaram parados, abertos, tranquilos, como os olhos de um retrato que segue a pessoa pela sala sem nunca mudar de expressão.

Não havia cansaço naquele rosto. Nem olheiras, nem tensão no maxilar, nem a magreza de quem dorme mal. Era o rosto de alguém que tinha dormido bem, todas as noites, a vida inteira.

— Você demorou seis meses — disse ela.

A voz era leve, clara, sem nenhuma acusação. Era a voz de quem comenta o tempo.

— Ele estava ficando com fome. E eu estava ficando entediada.

Atrás dela, desfocado, o homem de preto passava pela sala. Abaixava-se de vez em quando junto a um corpo, como quem confere alguma coisa, e se levantava de novo. A sombra dele se derramava pelo tapete em todas as direções.

A garota inclinou a cabeça. Uma mecha de cabelo caiu sobre a cicatriz.

— O bolo era de morango — disse. — Era o que a gente comia no meu aniversário. Lembrei disso hoje.

Disse aquilo do mesmo jeito que tinha dito todo o resto. Uma informação. Um fato sobre o mundo, como a cor do céu ou o nome de uma rua.

Ela olhou para a câmera por mais um momento, o sorriso intacto, os olhos imóveis.

— Boa noite, pai.

Ela pousou a câmera sobre a mesa de jantar, ao lado do prato, virada para a parede de vidro. Os últimos quarenta segundos da gravação mostravam só a cidade de Merran, as luzes sobre o rio, a teia de rachaduras no vidro. Em algum momento, as luzes do apartamento se apagaram. A sombra de muitas formas passou por cima da lente, devagar, e a imagem ficou preta por um instante antes de voltar à cidade.

O arquivo terminava ali. Onze minutos e quarenta segundos.

Ninguém na sala de comando se mexeu.

Os servidores continuaram zumbindo atrás do vidro. Em algum lugar acima deles, o palácio acordava: carros na entrada, a troca da guarda, os sinos da capela marcando seis horas.

— Quarenta homens — disse o general Hask, por fim, porque alguém precisava dizer alguma coisa. — Quarenta Espíritos. O apartamento estava vazio quando a equipe de recolhimento chegou. Nenhum rastro. Nenhuma câmera do prédio registrou a saída.

— Já chega — disse Alaric. A voz saiu rouca. — Desligue isso.

O rei não se mexeu. Atrás dele, o Espírito de armadura tinha mudado de posição em algum momento da gravação. A luz de amanhecer na fresta do elmo estava mais fraca, voltada para o chão.

— Volte — disse Edmund.

Hask olhou para Alaric. Alaric olhou para o pai.

— Majestade...

— Volte até o rosto dela.

O general obedeceu. A imagem correu para trás, a cidade, o vidro, as mãos, até parar no rosto da garota, enorme, congelado no meio de uma frase, a boca entreaberta, a cicatriz na têmpora.

Edmund ficou olhando para a tela por muito tempo.

Ela tinha doze anos na última vez que ele a vira. O cabelo era mais curto, e ela odiava a fita que a governanta insistia em amarrar nele. Na têmpora, onde agora havia a cicatriz, havia uma ferida fechada às pressas, com uma crosta escura.

O rei apoiou as duas mãos na mesa e se levantou. Era um homem grande, e a cadeira rangeu quando ficou livre do peso dele.

— Avise as famílias dos quarenta pessoalmente — disse. — Não por escrito. Você mesmo, general.

— Sim, Majestade.

— E descubra onde comprar um bolo de morango em Merran às três da manhã.

Hask piscou.

— Senhor?

— Alguém vendeu aquele bolo para ela. — O rei não tirou os olhos da tela. — Alguém a viu. Alguém falou com ela. Encontre essa pessoa.

Ele caminhou até a porta. O Espírito de armadura se desencostou da parede e o seguiu, curvando o elmo para passar sob o batente. Alaric continuou parado diante do monitor, a marca vermelha na palma da mão aberta, olhando para o rosto da irmã.

Na porta, o rei parou.

Não se virou. Ficou de costas para a sala, a mão no batente, por tempo suficiente para que Hask achasse que ele tinha esquecido o que ia dizer.

— Céline — disse Edmund, para ninguém.

Depois saiu.

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