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Emily estava no térreo do prédio da polícia, parada diante dos elevadores.
Era seu primeiro dia naquela unidade.
Ela havia sido transferida recentemente e, apesar de tentar parecer tranquila, estava bastante ansiosa.
Olhou para o relógio.
Ainda tinha alguns minutos.
— Calma, Emily... — murmurou para si mesma.
Ela ajeitou a camisa social branca do uniforme e conferiu discretamente o próprio reflexo no vidro próximo.
Os cabelos estavam lisos naquele dia, curtos, batendo na altura dos ombros.
A roupa era simples.
Uma camisa social branca com o nome e o símbolo da polícia local no peito e uma saia preta, comportada, que passava dos joelhos.
Emily não gostava de chamar atenção.
Principalmente por ser uma Ômega.
Preferia roupas discretas, cabelos simples e uma postura que não desse motivos para comentários desnecessários.
Ela respirou fundo.
Era apenas um novo emprego.
Um novo prédio.
Novos colegas.
Não precisava ficar nervosa.
Ou precisava?
O som do elevador chegando chamou sua atenção.
Ding.
As portas se abriram.
Emily entrou no elevador e ficou quieta em um dos cantos.
Segurava a pasta contra o peito enquanto observava os números subirem.
Ela ainda estava nervosa.
Tentava se convencer de que seria um recomeço.
Mas então ouviu uma mulher atrás dela.
— É ela?
Um homem olhou para Emily.
— Quem?
— A transferida do quinto andar.
Ele analisou Emily de cima a baixo.
Depois soltou uma risada debochada.
— É.
— A Ômega?
— A própria.
A mulher se aproximou um pouco dele.
— É aquela que engravidou no fim da adolescência?
— Essa mesma.
Emily ficou imóvel.
Os dedos apertaram a pasta.
— Nossa... — a mulher riu. — E ainda conseguiu virar policial?
— Pois é.
— Eu achei que depois de engravidar tão cedo ela teria vergonha de aparecer aqui.
O homem riu.
— Vergonha? Ômega assim não costuma ter muita.
A mulher soltou uma gargalhada.
— Você acha que ela conseguiu essa transferência por competência?
— Duvido muito.
Emily continuou olhando para os números.
Três.
— Aposto que ela é daquelas que dão abertura para qualquer Alfa — a mulher continuou.
— Pelo histórico, não seria nenhuma surpresa.
— Então deve ser fácil.
— Provavelmente.
Os dois riram.
Emily sentiu o rosto esquentar.
Não de vergonha.
De raiva.
Ela queria se virar.
Queria perguntar se eles tinham coragem de repetir aquilo olhando diretamente para ela.
Mas ficou em silêncio.
Não queria começar seu primeiro dia daquela maneira.
— E ainda fica se fazendo de santinha — a mulher comentou.
— Essas Ômegas adoram isso.
Mais uma risada.
Emily respirou fundo.
Dois.
Ela sentia o coração bater forte.
Não iria chorar.
Não daria esse prazer a eles.
— Se eu fosse o chefe dela, não colocaria essa aí perto dos Alfas — o homem comentou. — Vai acabar causando problema.
— Ou procurando um para sustentar outro filho.
A mulher riu.
Emily fechou os olhos por um instante.
Aquilo doía.
Muito.
Ela segurou a pasta com mais força.
Eles não conheciam sua história.
Não sabiam como havia sido difícil criar um filho sozinha. Não sabiam das noites estudando, dos treinamentos, das provas ou de quantas vezes precisou provar que era capaz.
Não sabiam de nada.
Mas tinham decidido que ela era apenas uma Ômega que havia engravidado cedo.
E, para eles, aquilo parecia ser suficiente para julgá-la.
O homem então perguntou:
— Mas afinal, quem é o Alfa responsável pelo setor dela?
— O Tenente Ren Kanzaki.
A mulher soltou uma risada curta.
— Ah, então ela está tranquila.
— Também acho, o Tenente Ren nunca daria abertura para uma Ômega assim.
— Com certeza não.
— Ele é completamente diferente desses Alfas que ficam atrás de qualquer Ômega.
— Ainda bem.
O homem deu de ombros.
— Ren é exigente demais. E, sinceramente? Uma mulher com o histórico dela não teria a menor chance com ele.
— Ainda mais uma Ômega que já tem filho.
Os dois riram novamente.
Emily permaneceu em silêncio.
Ela conhecia o nome Ren Kanzaki.
Só isso.
Nunca havia trabalhado com ele.
Nunca havia conversado com ele.
Mas, pelo jeito como aqueles dois falavam, parecia que o homem era quase uma celebridade dentro daquela unidade.
O Tenente Ren era considerado um dos melhores oficiais da corporação.
Jovem, extremamente competente e conhecido por ser disciplinado.
Filho de uma família tradicional de Alfas, tinha uma reputação impecável.
Era respeitado pelos superiores e admirado pelos policiais que trabalhavam sob seu comando.
E, aparentemente, também era conhecido por não se envolver com Ômegas.
Principalmente com alguém como Emily.
Ding.
O elevador chegou ao andar.
Emily saiu imediatamente.
Caminhou alguns metros pelo corredor antes de parar.
Só então soltou o ar que estava prendendo.
— Respira...
Passou discretamente a mão pelo peito.
Seu coração ainda estava acelerado.
Ela estava magoada.
Estava com raiva.
Mas não queria começar seu primeiro dia daquele jeito.
Endireitou a postura.
Ajeitou a camisa branca e segurou a pasta com firmeza.
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Neste mundo, a sociedade é dividida em três categorias biológicas: Alfas, Betas e Ômegas.
Alfas são conhecidos por sua maior força física, feromônios dominantes e posição de liderança. Muitos ocupam cargos de autoridade e, principalmente quando pertencem a famílias tradicionais, possuem grande influência social.
Betas não apresentam as características biológicas mais marcantes de Alfas e Ômegas. São a maioria da população e costumam ocupar diferentes posições na sociedade sem sofrer as mesmas limitações biológicas.
Ômegas possuem características próprias, como feromônios mais sensíveis, períodos de cio e capacidade de gestação. Por causa disso, ainda existe muito preconceito contra eles, principalmente em profissões consideradas perigosas ou dominadas por Alfas.
Mas ser Alfa, Beta ou Ômega não determina sozinho a posição de uma pessoa.
Dentro de cada categoria existem diferenças de classe social, genética e filiação.
Um Alfa nascido em uma família rica e tradicional pode crescer cercado de privilégios, enquanto um Alfa de origem humilde pode enfrentar dificuldades. O mesmo acontece com Betas e Ômegas.
A filiação também possui grande importância. Algumas famílias são conhecidas por produzir Alfas considerados fortes e influentes, enquanto outras possuem características genéticas valorizadas pela sociedade.
Por isso, nesse mundo, não basta perguntar se alguém é Alfa, Beta ou Ômega.
Também é preciso saber de onde essa pessoa veio, quem são seus pais e qual é o seu lugar na sociedade.
E é justamente essa desigualdade que faz com que pessoas como Emily precisem lutar muito mais para serem reconhecidas pelo próprio mérito.
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Alguém bateu à porta.
— Entre.
A porta se abriu e um homem loiro apareceu.
Era Natan, um dos policiais da unidade e amigo de Ren.
— Com licença, Tenente.
Ren levantou os olhos dos documentos.
— Entre, Natan.
Apesar da amizade entre os dois, Natan sabia separar perfeitamente amizade e hierarquia. Diante dos outros policiais, Ren continuava sendo seu superior.
E não era apenas a patente que fazia com que todos o respeitassem.
Ren Kanzaki tinha apenas vinte e sete anos, mas já havia conquistado uma reputação impressionante dentro da corporação.
Era considerado um dos melhores tenentes de sua geração.
Disciplinado, inteligente e extremamente competente, raramente precisava levantar a voz para ser obedecido.
Sua presença por si só já impunha respeito.
Também era impossível ignorar sua aparência.
Ren tinha cabelos negros, traços asiáticos marcantes e olhos atentos. Seu corpo era grande e forte, resultado de anos de treinamento policial.
Era o tipo de Alfa que chamava atenção mesmo quando não fazia esforço para isso.
Filho de uma família japonesa tradicional, Ren havia crescido cercado por expectativas e privilégios.
Mas sua posição dentro da corporação não vinha apenas do sobrenome.
Ele havia conquistado seu posto.
E fazia questão de mantê-lo pelo próprio mérito.
Natan fechou a porta.
— A oficial transferida chegou, Tenente.
Ren deixou a caneta sobre a mesa.
— A oficial Emily?
— Sim, senhor.
— Onde ela está?
— No corredor.
Ren assentiu.
— Obrigado por avisar.
Natan permaneceu diante dele.
— Ela é uma Ômega, Tenente.
Ren ergueu os olhos.
— E?
Natan ficou em silêncio por um segundo.
Ren voltou a organizar os documentos.
— Não me importa se ela é Alfa, Beta ou Ômega. Se está aqui, é porque pertence à corporação. Quero apenas que faça um bom trabalho.
— Sim, senhor.
Natan assentiu.
Ren se levantou e pegou a ficha da nova policial.
— Vamos.
Os dois saíram da sala.
Assim que Ren apareceu no corredor, alguns policiais imediatamente endireitaram a postura.
Conversas diminuíram.
Alguns cumprimentaram.
— Bom dia, Tenente.
— Bom dia.
Ren respondeu educadamente, sem parar.
Natan caminhava alguns passos atrás.
— É ela, Tenente.
Ren olhou na direção indicada.
Emily estava alguns metros distante, segurando uma pasta contra o corpo.
Ren abriu a ficha enquanto caminhava.
A fotografia mostrava uma mulher de aparência simples.
Nada indicava que vinha de uma família influente.
Ele continuou lendo.
Filiação:
Pai — Beta.
Mãe — Ômega.
Ren ficou alguns segundos olhando para aquela informação.
Naquela sociedade, aquilo podia tornar a vida de um Ômega ainda mais difícil.
Emily não vinha de uma família tradicional de Alfas.
Não possuía o mesmo prestígio ou proteção que outras pessoas tinham desde o nascimento.
Ren continuou.
Dependentes: 1.
Ele ergueu os olhos.
— Natan.
— Sim, Tenente?
— O que significa esse dependente?
— O filho dela, senhor.
Ren voltou os olhos para a ficha.
— Ela tem um filho?
— Sim. Dois anos, pelo cadastro.
— E o pai?
Natan hesitou.
— Não consta, Tenente.
Ren o encarou.
— Não consta?
— Ela é mãe solteira. O nome do genitor também não aparece no registro da criança.
Ren ficou em silêncio.
Então olhou novamente para Emily.
Ela estava quieta, observando o movimento do corredor, claramente tentando descobrir onde deveria ir.
Ren conhecia aquela sociedade.
Sabia exatamente o que uma Ômega como ela poderia enfrentar naquela unidade.
Ainda mais sendo mãe solteira.
Mas isso não mudava sua postura.
Ele não tinha intenção de tratá-la mal.
Fechou a ficha.
— Certo.
Ren caminhou até ela.
Emily percebeu sua aproximação e ficou imediatamente mais tensa.
Quando ele parou diante dela, ela respirou fundo.
— Prazer, Tenente Ren. Sou a oficial Emily.
Sua voz saiu educada, mas havia um sorriso no rosto.
Ela parecia um pouco tímida, mas claramente estava tentando causar uma boa impressão.
Ren sorriu discretamente.
— Prazer, oficial Emily.
Ele fez um gesto para que ela o acompanhasse.
— Venha comigo. Vou mostrar sua ilha.
— Claro, senhor.
Emily começou a segui-lo.
Ela ainda estava nervosa, mas também estava animada.
Finalmente estava começando em uma nova unidade.
Era uma oportunidade de mostrar seu trabalho, conhecer pessoas novas e provar que aquela transferência tinha sido uma boa decisão.
Mesmo depois dos comentários que havia escutado no elevador, Emily não queria deixar aquilo estragar seu primeiro dia.
Ela segurou a pasta junto ao corpo e olhou discretamente para os corredores.
— É bem maior do que eu imaginava — comentou baixinho.
Ren olhou para trás.
— Já trabalhou em uma unidade desse tamanho?
— Não, senhor.
Ela sorriu.
— Mas estou animada para aprender.
Ren apenas assentiu.
No caminho, alguns cochichos começaram.
— Será que ela vai entrar no cio aqui dentro?
— Com o Tenente por perto?
— Ren é bom demais para uma Ômega dessas.
Ren ouviu.
Natan também.
O policial ficou sério.
— Tenente...
Ren apenas levantou uma mão, pedindo que deixasse aquilo de lado.
Emily também ouviu.
Por um instante, seu sorriso diminuiu.
Mas ela respirou fundo e voltou a olhar para frente.
Não tinha vindo até ali para se preocupar com fofocas.
Tinha vindo para trabalhar.
Quando chegaram à sala, Ren abriu a porta.
— Entre, oficial.
________
Emily se sentou na cadeira diante da mesa.
Ren permaneceu atrás dela, organizando alguns documentos, enquanto Natan ficou de pé ao lado da mesa.
Emily abriu a bolsa.
— Tenente, posso pegar uma água?
— Claro.
— Obrigada.
Ela retirou uma garrafinha de água e, junto dela, uma pequena cartela de comprimidos.
Ren olhou discretamente.
Emily percebeu.
— Ah...
Ela deu um sorriso sem graça.
— São só meus supressores.
Colocou dois comprimidos na mão.
Depois tomou com água.
Ren não disse nada.
Mas observou.
O tremor discreto em suas mãos chamou sua atenção.
Não era apenas nervosismo.
Ela parecia acostumada a fazer aquilo.
Natan também percebeu.
Os dois trocaram um olhar rápido.
Ambos eram Alfas e sabiam muito bem que o uso frequente ou exagerado de supressores podia prejudicar a saúde de um Ômega.
E a quantidade que havia naquela cartela não era pequena.
Emily percebeu os olhares.
Olhou para a própria mão e depois para os dois.
— Não precisam se preocupar.
Ela sorriu, tentando deixar aquilo mais leve.
— Eu tomo direitinho. Sou bem cuidadosa com essas coisas.
Natan olhou novamente para a cartela.
Havia muitos comprimidos faltando.
Ren também percebeu.
Emily guardou rapidamente o medicamento na bolsa.
— É que... — ela soltou uma pequena risada. — Eu prefiro não correr riscos.
— Riscos? — Natan perguntou.
Emily deu de ombros.
— Feromônios.
Ela falou como se fosse algo óbvio.
— Não quero incomodar ninguém.
O sorriso continuava no rosto, mas o tremor em seus dedos entregava o quanto aquela preocupação estava presente em sua rotina.
Ren ficou em silêncio.
Aquilo dizia mais sobre a vida dela naquela corporação do que qualquer informação escrita em sua ficha.
Emily parecia estar sempre tentando garantir que ninguém tivesse um motivo para reclamar de sua presença.
Principalmente por ser Ômega.
Ela ajeitou a bolsa no colo e voltou a sorrir.
— Mas está tudo bem. Eu estou acostumada.
Ren a observou por alguns segundos.
Acostumada.
Aquela palavra não soou bem para ele.
Mesmo assim, manteve a postura profissional.
— Certo.
Emily assentiu.
— Então... podemos falar do trabalho?
Ren ergueu levemente as sobrancelhas.
Ela realmente estava determinada a trabalhar.
— Podemos.
Emily abriu um sorriso maior.
— Ótimo.
Ela puxou uma pequena agenda da bolsa e a colocou sobre a mesa.
— Quero saber como funciona o setor, quais são minhas funções e o que o senhor espera de mim.
Ren a encarou por alguns segundos.
Pela primeira vez desde que havia lido sua ficha, percebeu que talvez Emily fosse bem diferente da imagem que os outros haviam criado dela.
Ela não parecia estar ali procurando privilégios.
Parecia estar ali para trabalhar.
E isso, para Ren, era o que realmente importava.
__________
Ren terminou de explicar as funções que Emily teria naquela unidade.
Não seria muito diferente do trabalho que ela já realizava na outra sede.
Emily ouviu atentamente, fazendo algumas anotações em sua agenda.
— Entendi.
— Alguma dúvida?
Ela balançou a cabeça.
— Não, senhor. É praticamente o mesmo trabalho que eu já fazia na outra unidade.
— Ótimo.
Ren fechou uma das pastas.
— Posso perguntar por que solicitou a transferência?
Emily sorriu de maneira tranquila.
— Foi principalmente pela região.
— Muito longe?
— Bastante. Eu gastava muito tempo no trajeto. Agora ficou bem mais fácil para mim.
Ren assentiu.
— Entendo.
Não fez mais perguntas.
A resposta parecia suficiente.
Depois de alguns segundos, seu olhar caiu novamente sobre a ficha.
— Vi que você tem um filho.
Emily sorriu imediatamente.
— Tenho.
A expressão dela mudou.
Pela primeira vez desde que entrara na sala, parecia completamente à vontade.
— Ele tem dois anos.
— E com quem ele fica enquanto você está trabalhando?
A pergunta saiu naturalmente, sem julgamento.
Emily respondeu sem hesitar.
— Com meus pais.
Ren assentiu.
— Eles moram perto?
— Sim. Meu pai é aposentado e minha mãe é dona de casa. Então eles conseguem ficar com ele enquanto estou fora.
Ela sorriu.
— Eles adoram.
Ren pareceu satisfeito com a resposta.
— Entendi.
Emily continuou:
— Também tenho um irmão mais velho.
Ren levantou os olhos.
— Irmão?
— Sim. Ele é Beta.
Ela sorriu.
— Casou recentemente.
— Com uma Ômega?
— Não. Com outro Beta.
Ren apenas assentiu.
— Entendo.
Não havia curiosidade excessiva em sua voz.
Ele não perguntou quem era o marido do irmão, quanto tempo estavam juntos ou qualquer outra coisa.
Para Ren, aquilo bastava.
Emily tinha alguém cuidando do filho enquanto trabalhava.
Não havia nenhum problema que ele precisasse resolver.
Ele fechou a ficha.
— Certo.
Emily guardou a agenda dentro da bolsa.
— Então... posso começar?
Ren olhou para ela.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Pode.
Emily sorriu de volta.
—- Obrigada senhor.
__________________________________
A primeira semana passou rápido.
Emily se mostrou uma excelente colaboradora.
Nunca chegava atrasada, mesmo tendo um horário flexível por ser Ômega.
Atendia aos chamados externos com rapidez, organizava os documentos e entregava seus relatórios sempre dentro do prazo.
Sem falta.
Sempre que Ren saía para algum chamado na rua, acabava olhando para a mesa dela antes de deixar o andar.
Emily quase sempre estava concentrada diante do computador.
Às vezes digitava rapidamente.
Outras vezes lia algum documento com a testa levemente franzida.
Mas estava sempre trabalhando.
Ren começou a perceber que ela não precisava ser cobrada.
E isso era algo que ele valorizava.
Mas nem tudo naquela primeira semana havia sido tranquilo.
Na sexta-feira, Ren convocou uma reunião com todos os Alfas do andar.
Havia oito policiais na sala, além dele.
Todos eram adultos, experientes e plenamente capazes de exercer suas funções.
Ainda assim, Ren sentia que precisava ensinar o básico a eles.
Como se nunca tivessem aprendido a se comportar diante de um Ômega.
Ren ficou de pé na frente da mesa.
— Eu convoquei esta reunião para manter a qualidade do nosso departamento.
Os policiais ficaram em silêncio.
— Temos uma nova oficial Ômega
trabalhando conosco. E quero deixar algumas coisas claras.
Um dos policiais cruzou os braços, já com um sorrisinho no canto da boca.
Ren continuou:
— Não quero abusos. Não quero comentários sobre o corpo dela. Não quero provocações relacionadas a feromônios, cio ou qualquer outra característica biológica.
Um dos Alfas levantou a mão, o mesmo de sempre, o mais insolente.
— Tenente, com todo respeito...
Ren olhou para ele.
— Fale.
— Mas existe uma responsabilidade do próprio Ômega também. Se ela entrar em cio aqui dentro, a gente sente. É natural. O Ômega também precisa saber se controlar.
Alguns concordaram discretamente, trocando olhares.
Ren permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Esse argumento é ultrapassado.
O homem ficou quieto por um instante, mas não por muito tempo.
— O fato de você sentir um feromônio não lhe dá direito de fazer absolutamente nada.
Ren apoiou as mãos sobre a mesa.
— Todos aqui são policiais. Todos sabem a diferença entre instinto e escolha.
Sua voz continuava calma.
Mas a sala inteira ficou mais silenciosa.
— Vocês vão tratar a oficial Emily da mesma maneira que tratariam qualquer outro policial beta ou alfa.
Ren encarou cada um deles.
— Assédio sexual não será permitido neste departamento. E eu não vou aceitar que alguém use biologia como desculpa para justificar comportamento inadequado.
O Alfa que havia feito o comentário abaixou os olhos por um segundo, mas logo ergueu de novo, com um sorriso torto.
— Entendido, Tenente... mas, sinceramente, se aquela Ômega entrar em calor aí na sua sala, ela não dura nem dois minutos.
Risadas baixas se espalharam.
— O senhor deve ser um animal no ciclo de cio. Ela é tão pequena... tão fraca. Aquela bucetinha dela deve nem caber o senhor direito.
Outro policial riu alto, batendo a mão na mesa.
— Capaz de ela acabar gemendo e pedindo socorro. Coitada.
As risadas aumentaram, mais sujas, mais soltas.
— E o Tenente ainda é solteiro — falou um terceiro, inclinando o corpo para a frente com um sorriso safado. — Pode se divertir à vontade. Ter uma subordinada Ômega assim é tipo um presente. Pode fazer o que quiser com ela. Ômega existe pra isso: abrir as pernas pro Alfa.
Mais risadas.
— E ela já tem filho, né? Então deve saber abrir bem aquelas perninhas e agradar um Alfa direito. Não é nenhuma virgem inocente.
Alguém soltou um assobio baixo.
— Imagina ela em cio, toda molhada, pedindo pro Tenente... puta que pariu.
Ren não riu.
Nem sequer esboçou um sorriso.
O silêncio que veio depois foi muito mais pesado do que qualquer bronca.
Ele endireitou o corpo, cruzou os braços e olhou para cada um deles com uma expressão fria, profissional, sem nenhum traço de humor.
— Isso não se fala.
A voz saiu baixa, controlada, mas cortante.
Os risos morreram de imediato.
— Tenente, a gente só estava—
— Não.
Ren interrompeu sem levantar o tom.
— Vocês estavam falando sobre uma colega de trabalho como se ela fosse um brinquedo. Como se o corpo dela fosse de vocês. Como se o fato de ela ser Ômega desse a qualquer um de vocês o direito de imaginar qualquer porcaria.
O policial que tinha feito o comentário recuou.
— Desculpe, senhor.
Ren manteve o olhar firme.
— Vocês vão parar com isso agora. Não quero mais ouvir nenhuma merda sobre o corpo dela, sobre cio, sobre o que "cabe" ou não cabe, sobre abrir as pernas ou sobre presente.
Ele passou o olhar por toda a sala.
— Emily é uma policial desta unidade. Não é um objeto. Não é uma distração. Não é propriedade de ninguém. E enquanto estiver trabalhando aqui, terá o mesmo respeito que qualquer outro membro desta equipe.
Ninguém se mexeu.
— Se eu ouvir mais uma frase nesse tom, o responsável vai responder disciplinarmente. Entendido?
— Sim, senhor — responderam em coro, baixos.
Ren pegou os documentos sobre a mesa.
— A reunião acabou.
Os policiais começaram a se levantar em silêncio, muito mais constrangidos do que da primeira vez.
Natan foi o último a sair.
Antes de passar pela porta, olhou para Ren e murmurou, quase sem voz:
— Você quase matou o cara com o olhar.
Ren ajeitou a manga do uniforme, a expressão ainda fechada.
— Ele mereceu.
Natan assentiu, sem sorrir dessa vez.
— Concordo.
Ren saiu da sala.
No corredor, seu olhar encontrou Emily.
Ela estava novamente em sua mesa, concentrada no computador.
Como se nada tivesse acontecido.
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Emily chegou em casa no começo da noite.
A casa era pequena e antiga. Os móveis eram simples, alguns já bastante usados, mas aquele lugar ainda tinha uma sensação de aconchego que Emily conhecia desde criança.
Assim que entrou, ouviu a televisão na sala.
— Isso não faz sentido nenhum! — seu pai reclamava.
Ele era um Beta masculino e estava sentado no sofá, segurando o pequeno Nico no colo enquanto discutia com a televisão.
— Vô...
— Eu estou falando sério, Nico. Isso é uma injustiça.
O menino apenas olhava para a televisão, sem entender muito bem a indignação do avô.
Emily sorriu.
— Cheguei.
Nico imediatamente virou a cabeça.
— Mama!
Emily foi até ele.
Seu pai sorriu e entregou o menino.
— Ele estava esperando você.
Assim que passou para os braços da mãe, Nico agarrou seu pescoço.
— Mamaaaa...
Emily o apertou contra o peito.
— Oi, meu amor.
Ele encostou o rosto nela.
— Saudade.
O sorriso dela aumentou.
— Eu também estava com muita saudade de você.
Ela beijou várias vezes a bochecha do filho.
— Meu bebê.
Na cozinha, sua mãe apareceu.
Um Ômega masculino de jeito tranquilo e sereno, ele estava terminando de preparar o jantar.
— Emily, querida, pode me ajudar aqui?
— Claro, pai... quer dizer, mãe. — Ela riu baixinho.
Seu pai olhou da sala.
— Você ainda confunde os dois?
— Às vezes!
Os três riram.
Emily colocou Nico sentado perto da cozinha e foi ajudar o outro pai.
— O que eu faço?
— Pode mexer isso enquanto eu termino de cortar os legumes.
— Deixa comigo.
Ela começou a ajudar, ainda sorrindo.
Nico ficou observando a mãe.
— Mama trabalha.
Emily olhou para ele.
— Trabalha.
— Polícia?
— Isso.
Ele abriu um sorriso orgulhoso.
— Mama polícia!
Emily riu.
— Sou mesmo.
Naquela casa, ela não precisava se preocupar com olhares ou comentários.
Não precisava pensar em sua classificação.
Ali, ela era apenas Emily.
__________________________________
Ren estava na casa dos pais naquela noite.
A família havia preparado um jantar para comemorar o noivado de Aya, sua irmã mais velha.
Aya era uma Alfa.
E estava noiva de um Ômega masculino.
A mesa estava cheia de comida, e todos estavam reunidos.
Ren estava sentado ao lado do pai, comendo tranquilamente.
Ryo também estava ali, mais quieto, acompanhando a conversa.
A mãe de Ren, porém, não parecia tão feliz quanto os outros.
— Aya, você tem certeza disso?
Aya suspirou.
— Mãe, eu já disse que sim.
— Você sabe que a gestação para um Ômega masculino pode ser complicada.
— Eu sei.
— Então por que está fazendo isso?
Aya pousou os talheres.
— Porque eu amo ele.
A mãe ficou em silêncio por alguns segundos.
— E vocês pretendem ter filhos?
Aya franziu a testa.
— Não.
A expressão da mãe mudou imediatamente.
— Como assim, não?
— Nós não queremos filhos.
— Aya!
O pai de Ren continuou comendo tranquilamente, como se aquela discussão já fosse conhecida.
Ren também permaneceu calmo.
Não parecia surpreso.
Sua mãe respirou fundo.
— Vocês precisam pensar na família.
Aya cruzou os braços.
— Eu estou pensando na minha vida.
— Você é a filha mais velha.
— E daí?
— Você sabe muito bem o que isso significa. Precisamos de herdeiros.
Aya olhou para a mãe, cansada.
— Eu não sou uma máquina para produzir herdeiros.
O silêncio tomou conta da mesa.
Ryo abaixou os olhos para esconder um pequeno sorriso.
Ren continuou comendo.
Seu pai apenas tomou um gole de bebida.
— Ela tem razão — disse ele calmamente.
A mãe olhou para o marido.
— Você também?
— A família não vai acabar porque Aya não quer filhos.
— Não é tão simples.
— Para mim é.
Ren ficou em silêncio, observando a discussão.
Aquela era a vida dele fora da polícia.
Uma família tradicional.
Rica.
Influente.
Cheia de regras e expectativas.
Seu pai era respeitado.
Sua mãe também.
Aya e Ryo tinham suas próprias responsabilidades.
E Ren, mesmo sendo jovem, já havia conquistado uma posição importante na polícia.
Eles tinham conforto, dinheiro, segurança e prestígio.
Uma vida tranquila.
Privilegiada.
Mas isso não significava que fossem uma família perfeita.
Eles brigavam.
Discordavam.
Às vezes passavam horas discutindo.
Ainda assim, no fim do dia, continuavam juntos.
Ren olhou para Aya.
Ela parecia irritada, mas também parecia feliz.
Estava prestes a se casar com quem amava.
E, para Ren, aquilo era o que realmente importava.
Ele voltou a comer tranquilamente.
A vida dele era muito diferente da de Emily.
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Naquela manhã, o Tenente Ren não apareceu no prédio.
Todo mundo sabia o motivo.
Ele estava de licença.
Em calor.
Alfas também passavam por aquilo. Assim como os Ômegas entravam no cio, os Alfas tinham seus próprios períodos de calor.
Medicamentos podiam diminuir os sintomas, mas não eliminavam completamente o ciclo.
Por isso, Ren ficaria alguns dias afastado.
E, como sempre, começaram as conversinhas.
Emily, porém, estava concentrada no trabalho.
Ela digitava tranquilamente quando alguém se aproximou de sua mesa.
Uma garota ruiva deixou alguns arquivos sobre a mesa.
— Aqui estão os documentos da sala da frente.
Emily levantou os olhos.
— Ah, obrigada!
A ruiva sorriu.
— Eu sou Ana, aliás.
Emily abriu um sorriso ainda maior.
— Emily.
— Eu sei. Você é a nova oficial.
— Sou!
Finalmente alguém estava falando com ela sem fazer comentários pelas costas.
Emily ficou até animada.
— Você trabalha naquela sala?
— Sim. A da frente.
— Ah, então somos praticamente vizinhas.
Ana riu.
— Praticamente.
As duas começaram a conversar.
Perguntaram sobre o trabalho, sobre a rotina da unidade e sobre como Emily estava se adaptando.
Ela respondia sempre sorrindo.
Até que uma mulher loira, de cabelos cacheados, que conversava alto do outro lado da sala, entrou na conversa sem qualquer cerimônia.
— Emily.
Ela olhou.
— Sim?
A mulher inclinou a cabeça, o sorriso já carregado de maldade.
— Como é fazer sexo com um Alfa? Conta logo. Você deve ter uma experiência e tanto, né? Já que tem filho e tudo.
O sorriso de Emily desapareceu.
Ana arregalou os olhos.
— Ei! Não pergunta uma coisa dessas aqui. Você não tem o mínimo de vergonha?
— Ué, por quê? Todo mundo fica se perguntando a mesma coisa. Uma Ômega sozinha, com filho, trabalhando num departamento cheio de Alfa... a gente não é boba.
Algumas pessoas próximas começaram a prestar atenção, trocando olhares.
Emily ficou completamente sem reação.
A mulher continuou, a voz mais alta, propositalmente:
— Eu fiquei curiosa de verdade. Você tem um filho, então deve saber como é levar um alfa. Deve doer pra caralho, né? Ou você já acostumou?
Ana olhou para Emily, indignada.
— Você não precisa responder essa porcaria.
Emily abaixou os olhos, o rosto esquentando.
A loira soltou uma risadinha baixa e cruel.
— Ainda mais agora que o Tenente está em calor... coitada da Ômega. Deve estar se molhando só de imaginar ele trancado em casa, todo suado, precisando de alguém pra aliviar.
Algumas pessoas riram, abafado.
Emily sentiu o peito apertar.
— Eu...
Sua voz morreu.
Ana percebeu imediatamente.
— Emily, deixa isso pra lá. Vamos ignorar.
Emily respirou fundo, tentando se controlar.
— Eu vou ao banheiro.
Ela se levantou rapidamente.
— Mas...
Emily já estava saindo, a cabeça baixa.
Alguns olhares acompanharam seus passos, cheios de julgamento.
No banheiro, ela entrou em uma cabine e fechou a porta.
Sentou-se.
Ficou alguns segundos olhando para o chão.
Tentava respirar normalmente.
Ela não queria chorar.
Não queria dar aquele gosto para ninguém.
Então ouviu a porta se abrir.
Duas mulheres entraram conversando alto, sem nenhum cuidado.
Emily ficou imóvel.
— Você percebeu como ela ficou estranha?
Parecia que ia vomitar.
— A Emily? Claro. Ela vive sorrindo, toda de boazinha, mas é só alguém mencionar Alfa que a cara muda. Deve ter alguma história podre aí.
A outra riu, sem disfarçar.
— Eu ouvi dizer que o filho dela nem tem pai registrado. Nada. Zero.
— Sério?
— Sério. Nem no documento. Então ou ela não sabe quem é o pai, ou o cara simplesmente sumiu depois de gozar nela.
As duas riram baixo, maldosas.
Emily apertou as mãos sobre o colo até doer.
— Você sabe como são os ciclos dos Ômegas — continuou uma delas, a voz carregada de desprezo. — Quando entram no cio, viram puta. Perdem completamente a cabeça. Ficam pedindo, gemendo, se esfregando em qualquer Alfa que aparecer.
— Principalmente quando tem cheiro de Alfa por perto. Devem ficar completamente, desesperadas.
— Às vezes acabam se jogando em qualquer um. Nem conhecem o cara direito. Só querem ser fodidas.
A outra soltou uma risada alta.
— E o pior é que um Alfa só engravidar uma Ômega se quiser de verdade. Se não quiser, não engravidam. Então, se o pai do filho dela simplesmente sumiu...
A outra completou, a voz ainda mais cruel:
— Usou e descartou. Não quis saber de criar filho com uma Ômega qualquer que se entregou no cio.
As duas riram de novo.
— Coitada. Deve ter se jogado de quatro pra algum Alfa desconhecido e agora fica aqui fingindo que é trabalhadora dedicada.
— Nem me fala. Ômega assim só serve pra isso mesmo.
Emily sentiu o peito apertar com força.
A pior parte era que elas não estavam completamente erradas.
Ela realmente não sabia quem era o pai de Nico.
Não sabia onde ele estava.
Não sabia sequer se algum dia voltaria a vê-lo.
Mas ouvir aquilo da boca de outras pessoas, com tanto ódio e desprezo, fazia uma ferida antiga parecer muito maior.
Mais suja.
Mais vergonhosa.
Emily respirou fundo, tentando segurar o soluço.
Esperou as duas saírem.
Só então deixou algumas lágrimas escaparem.
Passou rapidamente a mão no rosto, com raiva de si mesma.
— Para...
Sussurrou para si mesma, a voz embargada.
Ela não queria que aquilo estragasse seu dia.
Não queria que aquelas pessoas definissem quem ela era.
Depois de alguns minutos, Emily se levantou.
Lavou o rosto com água fria.
Olhou para o próprio reflexo, os olhos ainda vermelhos.
Respirou fundo mais uma vez.
E voltou para o trabalho, o rosto fechado, sem olhar para ninguém.
_____________________________________
Dois anos antes.
Emily tinha vinte anos.
Morava em um dormitório destinado aos cadetes e passava a maior parte do tempo estudando.
Sempre fora assim.
Cadernos organizados.
Livros empilhados.
Horas de estudo.
E os supressores sempre guardados na bolsa.
Ela sabia que, como Ômega, precisava ter ainda mais cuidado.
Naquela noite, Emily estava estudando quando a porta do quarto abriu de repente.
Sua colega entrou rindo.
Estava bêbada.
E não estava sozinha.
Uma mulher vinha atrás dela.
Emily levantou os olhos.
Alfa.
O cheiro chegou antes mesmo que ela conseguisse pensar direito.
Emily imediatamente se levantou.
— Eu vou sair um pouco.
Sua colega riu.
— Emily, relaxa.
— Eu já volto.
Ela pegou a bolsa e saiu.
Havia vários oficiais circulando pelo prédio naquela noite.
Alguma coisa estava acontecendo.
Emily ouviu comentários sobre um Alfa que aparentemente estava entrando no ciclo.
Ela ficou inquieta.
— Meu Deus...
Abriu a bolsa e pegou o frasco dos supressores.
Tomou o medicamento.
Mas alguma coisa estava errada.
Sua visão começou a ficar estranha.
As pernas ficaram pesadas.
O corredor parecia maior do que antes.
O calor subiu pelo corpo dela de forma rápida e cruel, como se o remédio tivesse falhado completamente.
Emily respirou fundo, já sentindo a umidade entre as pernas.
— Preciso voltar para o quarto.
Ela caminhou.
Ou achou que caminhou.
Abriu uma porta.
Entrou.
Só percebeu que havia errado quando viu um homem sentado diante de uma escrivaninha.
Ele levantou os olhos.
Emily ficou parada.
Por alguns segundos, apenas o encarou.
O cheiro dele a atingiu em cheio.
Forte.
Quente.
Alfa.
Ele se levantou rapidamente.
— Você está bem?
Ela não respondeu.
As pernas tremiam.
O homem se aproximou, preocupado.
— Você é uma Ômega.
Emily tentou recuar, mas o corpo não obedeceu.
— Eu...
Ele percebeu imediatamente o que estava acontecendo.
— Você precisa sair daqui.
A voz dele ficou séria, quase rouca.
— Eu sou Alfa.
Emily começou a respirar mais rápido.
O calor era intenso.
Doloroso.
Desesperador.
Ela nunca tinha passado por aquilo.
Nunca tinha sentido o próprio corpo perder o controle daquela maneira.
As calças já estavam molhadas por dentro.
O homem deu um passo para trás, tentando manter a distância.
Mas o cheiro dela o atingiu.
O ciclo dele também parecia ter começado naquele instante.
O ar ficou pesado.
Emily lembra apenas de fragmentos depois disso.
O cheiro forte de café misturado ao aroma dele.
A escrivaninha.
Cabelos curtos e lisos.
Pele muito clara.
Um corpo grande e forte, quente demais contra o dela.
A voz rouca perguntando se ela estava bem... e depois não perguntando mais nada.
Ela lembra de ser empurrada contra a mesa.
De mãos grandes segurando seus quadris.
De roupas sendo puxadas com pressa.
Do peso dele sobre ela.
Da penetração.
Lembra com uma clareza dolorosa do momento em que ele entrou.
Grossa.
Quente.
Forçando caminho dentro dela de uma só vez.
O estiramento intenso, quase doloroso, enquanto o corpo dela se abria para acomodá-lo.
Ela gemeu, as unhas arranhando a madeira da escrivaninha.
Ele enterrou fundo.
E então... começou a crescer ainda mais.
O nó.
Emily lembra da sensação nítida do pênis inchando dentro dela, ficando maior, mais grosso, pressionando todas as paredes sensíveis até travar completamente.
O nó se expandindo, selando os dois juntos.
Ela sentiu o corpo dele tremer.
Ouviu o grunhido baixo e gutural perto do seu ouvido.
E então o calor líquido.
O sêmen jorrando dentro dela em jatos fortes, quentes, enchendo-a enquanto o nó a prendia no lugar.
Ela lembra de se sentir completamente cheia.
De sentir o excesso escorrendo mesmo com o nó ainda preso, o líquido quente escorrendo pelas coxas, molhando a mesa e o chão.
Lembra de gemer, de se contorcer, de sentir o corpo dele empurrando ainda mais fundo enquanto continuava gozando.
Depois... quase nada.
Só calor.
Só o cheiro.
Só a sensação de ser preenchida e usada até o corpo dela ceder completamente.
Quando conseguiu recuperar alguma consciência, estava juntando as próprias roupas com mãos trêmulas.
Sentia apenas o desconforto intenso entre as pernas, a sensação pegajosa do sêmen ainda escorrendo dela, e uma enorme confusão na cabeça.
Ela não conseguia entender o que tinha acontecido.
Vestiu-se rapidamente, as pernas ainda tremendo.
Saiu daquele quarto.
Encontrou o caminho de volta para o dormitório.
E dormiu.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal.
O corpo havia se acalmado.
Mas Emily não.
Ela ficou sentada na cama por vários minutos tentando reconstruir a noite.
Não conseguiu.
Não sabia o nome dele.
Não sabia onde ele estava.
Não sabia sequer se aquele homem era um policial.
Poderia ser um civil que estava no dormitório.
A única coisa de que tinha certeza era que ele era Alfa.
Ou pelo menos era isso que sua memória dizia.
E que ele a tinha preenchido completamente.
Dois meses depois, Emily estava fazendo uma prova prática para conseguir finalmente trabalhar nas ruas.
Estava nervosa.
Até que começou a passar mal.
No hospital, recebeu a notícia.
Ela estava grávida.
Emily ficou em silêncio.
— Grávida?
A palavra pareceu não fazer sentido.
Depois veio o choque.
As lágrimas.
Ela levou as mãos ao rosto.
Tentou se lembrar daquela noite.
Tentou desesperadamente.
Mas tudo que encontrou foram aqueles pequenos fragmentos.
O café.
A escrivaninha.
O cabelo curto.
A pele clara.
O corpo forte.
A penetração.
O nó crescendo dentro dela.
O sêmen escorrendo quente pelas coxas.
Nada além disso.
Ela não sabia quem era o pai de Nico.
Não sabia o nome.
Não sabia onde encontrá-lo.
Não sabia se ele sequer sabia que ela estava grávida.
Emily teve a opção de interromper a gravidez.
Pensou sobre isso.
Chorou.
Teve medo.
Mas, no fim, não conseguiu.
Não teve coragem de se despedir de alguém que já existia dentro dela.
Então decidiu seguir em frente.
Sua família a ajudou.
Mesmo com os julgamentos.
Mesmo com os comentários.
Mesmo com algumas pessoas dizendo que aquilo destruiria seu futuro.
Emily voltou a estudar.
Refazendo provas.
Reorganizando sua vida.
Quando finalmente conseguiu entrar para a polícia, escolheu trabalhar inicialmente no escritório.
Era mais seguro.
Mais previsível.
Ela queria poder voltar para casa todos os dias.
Queria estar presente.
Queria ver Nico crescer.
E, acima de tudo, queria construir uma vida que não dependesse do homem que havia desaparecido daquela noite.
Dois anos haviam passado.
E Emily ainda não fazia ideia de quem ele era.








