Capítulos 1
O Aeroporto Internacional de Florianópolis tinha um ritmo próprio nas primeiras horas da manhã. O cheiro de café fresco misturado ao som distante das turbinas criava uma atmosfera única, quase mágica, para quem sabia apreciar. Mas para Nicole, nas últimas três semanas, aquele lugar tinha se tornado o cenário de uma nova vida.
Ela ainda estava em solo, terminando o seu período de adaptação na base sul como comissária novata. Sua rotina era milimetricamente desenhada: acordar às quatro da manhã, alinhar o uniforme azul-marinho, prender o cabelo preto em um coque perfeito e caminhar até o terminal com seu tablet em mãos, revisando manuais de segurança que já sabia de cor. Nicole gostava dessa previsibilidade. O problema era que, há exatamente sete dias, um detalhe fora de seu controle vinha bagunçando sua concentração.
Ele.
Nicole não sabia o nome dele, mas sabia o horário exato em que ele cruzava o saguão principal em direção ao portão de embarque internacional. Ele era piloto — as quatro faixas douradas reluzindo nos ombros da camisa impecavelmente branca não deixavam dúvidas. Mas não era o uniforme que fazia as pessoas abrirem caminho quando ele passava; era a presença dele. O homem era imponente, alto, forte, com seus 1,94m que se destacavam facilmente na multidão. Os cabelos loiros estavam sempre alinhados e, mesmo de longe, Nicole conseguia notar a seriedade esculpida em suas feições. Ele parecia carregar o peso de um mundo inteiro nos ombros, mas caminhava com uma elegância inabalável.
Naquela terça-feira, Nicole estava sentada em uma das mesas altas do Starbucks do aeroporto, segurando um copo de plástico com as duas mãos apenas para aquecer os dedos frios pelo ar-condicionado. Ela fingia ler um relatório na tela, mas seus olhos teimavam em olhar em direção ao vidro.
De repente, ele apareceu, caminhando ao lado de outro piloto — um homem de sorriso fácil chamado Ricardo. Mas Nicole nem olhou para o acompanhante. Sua atenção foi totalmente capturada pelo loiro. Ele estava distraído, ouvindo o que o amigo dizia, quando, por um breve segundo, virou o rosto na direção da cafeteria.
Nicole prendeu a respiração. Pela primeira vez, ela conseguiu ver a cor exata dos olhos dele: um azul tão profundo e gélido que parecia o oceano em um dia de tempestade. E então, aconteceu. O olhar dele cruzou diretamente com o dela através do vidro. Foi uma fração de segundo, mas o tempo pareceu desacelerar. Nicole sentiu um arrepio imediato subir por sua espinha. Assustada com a própria audácia, ela desviou os olhos rapidamente para a tela do tablet, o coração batendo no peito como se tivesse sido pega cometendo um crime.
Do lado de fora, Felipe parou os passos por um instante, interrompendo o que Ricardo falava.
— Cara? Você ouviu o que eu disse sobre a escala de Montevidéu? — Ricardo perguntou, tocando o ombro do amigo.
Felipe não respondeu de imediato. Ele continuou olhando para a janela do Starbucks. Nas últimas semanas, ele vinha reparando naquela comissária de cabelos pretos e postura impecável. Ela tinha um jeito focado, uma beleza silenciosa que destoava da agitação do aeroporto. Felipe a via passar pelos corredores da tripulação, sempre compenetrada, e se pegava acompanhando o caminhar dela com o olhar mais do que deveria. Ver aqueles olhos escuros encarando-o de volta, mesmo que por um breve instante antes de ela disfarçar, causou uma turbulência estranha em seu peito — algo que ele não sentia há anos.
— Ouvi, Ricardo. Escala de Montevidéu — Felipe respondeu, forçando a voz a sair normal, embora seus olhos demorassem a se desviar da mesa onde ela estava. — Vamos para o briefing. Não quero atrasos hoje.
Ele voltou a caminhar, mas a imagem da comissária de olhos lindos não saiu de sua mente durante todo o trajeto até o avião.
...
Duas horas depois, o turno de Nicole havia mudado, e ela finalmente teve permissão para uma pausa mais longa. O movimento no Starbucks havia aumentado. Ela entrou na fila, decidida a pegar um expresso duplo para aguentar o resto da tarde. A cafeteria estava cheia, o som de bicos de vapor e chamadas de nomes ecoando pelo ambiente.
Nicole pegou seu café, virou-se com pressa para checar as horas no relógio de pulso e dar o passo em direção à saída. Ela não viu a figura imensa que vinha na direção oposta, também distraída com um par de papéis na mão.
O impacto foi inevitável.
O ombro de Nicole bateu contra o peito firme do homem. O copo de café inclinou-se perigosamente, derramando o líquido quente direto na mão dela e no tecido escuro da calça dele.
— Ai! Me desc... — Nicole soltou uma exclamação curta, dando um passo para trás com o susto e a ardência na pele.
— Me desculpe, eu estava distraído... — uma voz grave, ressonante e profundamente masculina ecoou acima dela.
Nicole ergueu os olhos, pronta para pedir desculpas, mas as palavras sumiram de sua garganta. Diante dela, a poucos centímetros de distância, estava o piloto loiro de olhos azuis. De perto, ele parecia ainda maior. O perfume dele — uma mistura de madeira com o frescor do mar — invadiu o olfato de Nicole, deixando-a momentaneamente tonta.
Felipe segurou delicadamente o cotovelo dela para garantir que ela não caísse com o impacto. O toque de sua mão grande e quente através do tecido fino da blusa do uniforme enviou uma descarga elétrica pelo corpo de Nicole. Os olhos azuis dele desceram para a mão dela, que começava a ficar vermelha por causa do café quente.
A expressão séria do Comandante suavizou-se instantaneamente, substituída por uma preocupação genuína.
— Você se queimou? — ele perguntou, a voz descendo um tom, soando íntima demais para o meio de uma cafeteria lotada.
Nicole olhou para os dedos dele ainda segurando seu braço, depois para o rosto dele, sentindo as bochechas queimarem mais do que a própria pele atingida pelo café. O primeiro esbarrão havia acontecido, e nenhum dos dois estava preparado para o que aquela conexão começaria a despertar.
O barulho do Starbucks pareceu emudecer ao redor deles. Nicole sentia o coração golpear o peito com tanta força que tinha medo de que ele pudesse escutar. A mão grande de Felipe ainda sustentava o cotovelo dela com uma firmeza gentil, e a proximidade física permitia que ela sentisse o calor que emanava do corpo dele. Olhando para cima, encarando a imensidão daquele homem de 1,94m, ela se sentiu minúscula — mas, pela primeira vez na vida, não achou isso ruim.
— Eu... eu estou bem. Foi só o susto — Nicole conseguiu engolir em seco, forçando as palavras a saírem por sua garganta subitamente seca. Ela tentou dar um passo sutil para trás, mas os dedos de Felipe demoraram uma fração de segundo a mais para soltarem seu braço, como se ele também estivesse relutante em quebrar o contato.
— Tem certeza? A sua pele está ficando vermelha — Felipe insistiu, com a voz grave e mansa.
Sem esperar uma resposta, ele esticou o braço livre até o balcão e puxou um punhado de guardanapos de papel. Nicole ficou estática, observando os movimentos calmos e precisos daquele piloto que ela vinha observando de longe há dias. Quando ele se inclinou um pouco mais na direção dela, o perfume amadeirado dele a envolveu novamente, fazendo suas pernas vacilarem de leve.
— Deixe-me ajudar — ele pediu baixinho.
Felipe segurou a mão de Nicole com extrema delicadeza. A palma da mão dele era quente, levemente calejada pelo manche do avião, criando um contraste absurdo com os dedos finos e frios dela. Ele pressionou o guardanapo de papel contra o dorso da mão dela para secar o café restante. O toque foi tímido, mas carregado de uma eletricidade tão forte que Nicole soltou um suspiro curto, arrepiando-se da cabeça aos pés.
Felipe ergueu os olhos azuis ao ouvir o suspiro dela, e seus olhares se conectaram de uma forma que nenhum dos dois conseguiu disfarçar. Ele viu a pele arrepiada nos braços dela e engoliu em seco, fascinado com a intensidade daquela garota de cabelos pretos que parecia tão certinha e controlada.
— Acho que estraguei seu uniforme antes mesmo do seu voo — Nicole quebrou o silêncio, tentando usar um tom profissional para recuperar a dignidade, embora suas bochechas estivessem queimando. Ela apontou para a calça escura dele, onde uma mancha úmida de café se destacava.
Felipe olhou para a própria calça e soltou uma risada curta, um som rouco e gostoso que fez o estômago de Nicole dar voltas.
— Uniformes a gente lava. O importante é que a tripulação não se machuque — ele respondeu, piscando levemente um dos olhos azuis, o que desarmou completamente a pose de comandante sério que ele ostentava no saguão. Ele soltou a mão dela devagar, embora seus dedos tenham deslizado pela pele dela até o último instante. — Sou o Comandante Felipe. E você é...?
— Nicole — ela respondeu, sentindo o nome soar diferente saindo de seus próprios lábios diante dele. — Sou comissária novata. Acabei de chegar à base sul.
— Nicole... — Felipe repetiu o nome dela quase em um sussurro, testando o som. Um sorriso contido surgiu no canto de sua boca. — Bem-vinda à aviação de Floripa, Nicole. Espero que nossos caminhos se cruzem mais vezes pelos corredores. E, da próxima vez, prometo pagar um café inteiro para você. Sem derramar.
Nicole sorriu de volta, um sorriso tímido que fez os olhos de Felipe brilharem ainda mais.
— Vou cobrar, Comandante.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, a voz estridente de Ricardo ecoou da porta do Starbucks, quebrando o feitiço:
— Felipe! Cara, o despacho operacional está chamando no rádio. Temos que ir para a aeronave agora.
Felipe fechou os olhos por um segundo, visivelmente frustrado com a interrupção. Ele olhou para Nicole uma última vez, memorizando cada traço do rosto dela, o contraste dos cabelos pretos com a pele clara.
— Preciso ir. Até logo, Nicole.
— Bom voo, Comandante — ela respondeu.
Nicole ficou parada, observando as costas largas dele se afastarem pelo saguão em direção ao portão de embarque. Sua mão, onde ele havia tocado, ainda formigava. O plano de vida milimetricamente calculado de Nicole tinha acabado de sofrer a sua primeira grande turbulência — e ela mal podia esperar pelo próximo encontro.
...
O som agudo da despressurização ecoou na cabine de comando assim que as turbinas do Airbus A320 foram cortadas na posição de parada do pátio de Florianópolis. Felipe puxou o freio com um movimento firme e relaxou os ombros contra o encosto da poltrona de couro. Havia sido uma escala pesada: um bate-volta de madrugada para Congonhas, enfrentando o teto baixo e o cansaço acumulado de quem havia assumido o primeiro voo às quatro da manhã.
Ele removeu o fone de ouvido, deixando-o pendurado no manche, e passou a mão pelos cabelos loiros, desalinhando-os de leve. Seus olhos azuis, embora cansados, guardavam um brilho diferente da seriedade habitual.
— Cara, aquela aproximação em São Paulo com a pista molhada foi tensa, mas você estava com a cabeça em outro lugar na volta, não estava? — Léo, o copiloto e seu melhor amigo, perguntou enquanto guardava as cartas de navegação na mala de voo. Léo tinha um jeito observador e conhecia Felipe há anos, o suficiente para notar quando a mente do comandante oscilava.
Felipe soltou uma risada curta, olhando pelo para-brisa da aeronave em direção ao pátio onde os funcionários de rampa começavam a descarregar as bagagens.
— Dá para notar tanto assim? — Felipe perguntou, virando o rosto para o amigo.
— Você errou a frequência do centro na primeira chamada de Curitiba, o que não acontece nunca — Léo brincou, cruzando os braços. — Vai me dizer o que mudou de terça-feira para cá?
Felipe suspirou, apoiando o cotovelo na janela lateral da cabine. A imagem da comissária de cabelos pretos e olhos expressivos invadiu sua mente pela centésima vez naquele dia.
— Eu finalmente falei com ela, Léo — Felipe confessou, a voz descendo um tom, preenchida por uma admiração genuína que surpreendeu o copiloto. — No Starbucks, antes do briefing. Foi um esbarrão bobo, derrubamos café, mas... quando segurei o braço dela para ela não cair, parecia que o mundo tinha parado. O nome dela é Nicole. Ela acabou de ser transferida para a nossa base.
Léo ergueu as sobrancelhas, surpreso com o impacto que a novata tinha causado no amigo, que geralmente era tão blindado e focado apenas no trabalho e nos problemas familiares.
— Nicole... A comissária nova que a Ana não para de elogiar? — Léo sorriu. — Cara, se cuida. O pessoal do Despacho Operacional já está comentando que tem uma novata chamando a atenção nos corredores. Mas fico feliz por você. Só tem um problema... a Roberta já sabe que ela existe?
A menção ao nome de Roberta fez o semblante de Felipe fechar instantaneamente. A leveza sumiu de seus olhos, substituída pela sombra do segredo que ele carregava nos ombros.
— A Roberta não tem nada a ver com a minha vida, Léo. Ela sabe disso, mas finge que não entende para manter as aparências na empresa por causa do pai dela — Felipe respondeu, a voz rígida. — Eu só quero fazer o meu trabalho e proteger o Gabriel. Mas aquela garota, a Nicole... tem algo nela que me faz querer esquecer todos os meus problemas.
— Então vai atrás, irmão. Mas com calma. Escala de aviação é um ovo, e com a Roberta na cola, todo cuidado é pouco — Léo aconselhou, dando um tapa amigável no ombro de Felipe antes de pegar sua mochila. — Vamos desembarcar, o pessoal da limpeza já está subindo.
...
Enquanto Felipe passava pelo desembarque da tripulação com a mente cheia de pensamentos, do outro lado da cidade, no bairro do Campeche, o cenário era de calmaria forçada.
O apartamento de Nicole refletia exatamente a personalidade dela: tudo organizado por cores, livros alinhados e o cheiro suave de flor de cerejeira no ar. Ela havia acabado de sair de um banho quente para tirar a exaustão de um voo de reserva onde acabou não sendo acionada, mas passou horas no aeroporto esperando. Vestindo um moletom confortável e com uma caneca de chá nas mãos, ela olhava para a janela que dava para a praia, vendo o céu de Floripa ganhar tons de cinza no fim da tarde.
Ela pegou o celular e, sem conseguir segurar a ansiedade por mais nenhum minuto, discou o número que sabia de cor. No segundo toque, a voz animada de Ana ecoou pelo viva-voz.
— Alô? Nic! Mulher, me diz que você não foi acionada para aquela reserva maluca da madrugada.
— Não fui, Ana. Estou em casa, inteira, mas com a cabeça fervendo — Nicole desabafou, sentando-se no sofá e puxando as pernas para junto do corpo. — Você precisa vir aqui no meu apartamento agora. Eu preciso te contar uma coisa antes que eu enlouqueça.
— Menina, não me mata de curiosidade! O que aconteceu? Tem a ver com o trabalho?
— Tem a ver com o Starbucks de terça-feira... — Nicole baixou a voz, como se alguém pudesse ouvir. — E com o Comandante Felipe.
Do outro lado da linha, ouviu-se um grito abafado de Ana e o barulho de chaves batendo.
— Não se mexe daí! Estou pegando o carro e chego em quinze minutos. Quero todos os detalhes, Nicole!








