Capítulo 1 — Antes de Helena
A primeira vez que Maya viu Paula, nenhuma das duas imaginava que aquela noite seria o começo de cinco anos de suas vidas.
Era uma festa à fantasia.
Maya tinha escolhido uma fantasia de Arlequina. Cabelo preso de qualquer jeito, maquiagem marcada e aquele ar de quem tinha ido à festa muito mais pela diversão do que pela intenção de conhecer alguém.
Paula apareceu vestida de Mulher-Gato.
E talvez houvesse uma ironia bonita naquilo.
Nos quadrinhos, Arlequina e Mulher-Gato nunca foram exatamente o tipo de dupla que alguém esperaria ver apaixonada. Eram personagens de universos diferentes, com personalidades que pareciam não combinar.
Mas, naquela noite, Maya e Paula se olharam e alguma coisa aconteceu.
Foi instantâneo.
Um sorriso de um lado.
Um olhar demorado do outro.
E, quando perceberam, já estavam conversando como se fossem amigas havia anos.
Paula tinha aquele jeito confiante que fazia Maya querer descobrir mais. Maya, por sua vez, tinha uma espontaneidade que fazia Paula rir sem esforço.
Elas tinham muito em comum.
Duas leoninas.
Teimosas. Intensamente apaixonadas pelo que gostavam. Gostavam de viajar, de sair, de descobrir lugares novos, de rir de coisas idiotas e de transformar qualquer programa simples em uma história para contar depois.
Talvez tenham se apaixonado justamente porque se reconheciam uma na outra.
Nos primeiros anos, tudo parecia fácil.
Havia aquela vontade de estar juntas o tempo inteiro. As mensagens durante o dia. Os encontros depois do trabalho. As noites que terminavam tarde demais porque nenhuma das duas queria ser a primeira a dizer que precisava ir embora.
E havia as viagens.
Uma delas foi para a praia.
Maya ainda se lembrava da sensação de acordar cedo e ouvir o barulho do mar antes mesmo de abrir os olhos. Elas tinham viajado sem grandes planos, apenas com algumas roupas jogadas em uma mala e a certeza de que se divertiriam.
Passaram o dia entre areia, água salgada e risadas.
Paula insistia em passar protetor solar em Maya porque dizia que ela sempre esquecia de reaplicar. Maya reclamava, fazia graça, mas acabava deixando.
À noite, caminharam pela praia com os pés descalços, conversando sobre o futuro.
Fizeram planos.
Muitos planos.
Naquele momento, cinco anos pareciam uma eternidade.
E talvez fosse justamente esse o problema.
Com o passar do tempo, a vida ficou confortável demais.
O que antes era novidade virou rotina.
Os programas começaram a se repetir. As conversas ficaram previsíveis. Até os gostos que um dia fizeram com que se aproximassem passaram a parecer uma espécie de espelho cansado.
Elas eram parecidas demais.
Gostavam das mesmas coisas, queriam quase sempre os mesmos programas, tinham opiniões parecidas e até discutiam pelos mesmos motivos.
No começo, aquilo parecia compatibilidade.
Depois, começou a parecer marasmo.
Maya demorou para perceber.
Ou talvez tenha percebido e preferido não dar nome ao que estava acontecendo.
O relacionamento não tinha se tornado ruim.
Esse era justamente o problema.
Não havia uma grande traição. Não havia uma briga capaz de justificar um fim. Não havia um vilão.
Havia apenas duas pessoas que, aos poucos, estavam deixando de se olhar como antes.
O sexo também mudou.
Não havia mais aquela urgência dos primeiros anos. Os encontros íntimos ficaram menos frequentes. O desejo, que antes aparecia quase naturalmente, começou a precisar de esforço.
E Maya sentia falta.
Mas não sabia exatamente do quê.
Talvez sentisse falta de sentir alguma coisa diferente.
De ser surpreendida.
De ter frio na barriga.
De olhar para Paula e sentir que ainda havia alguma coisa ali que ela não conseguia explicar.
Só que amar alguém não significa necessariamente continuar apaixonada pela mesma forma de amor.
E foi isso que Paula percebeu antes dela.
Naquela noite, as duas estavam em casa.
Maya percebeu que Paula estava diferente.
Mais quieta.
Ela a chamou para conversar.
Maya sentou ao seu lado, sem imaginar que aquelas palavras dividiriam sua vida em duas partes: antes daquela conversa e depois dela.
Paula respirou fundo.
— Maya, eu preciso conversar com você.
Aquelas palavras nunca anunciavam coisa boa.
Maya sentiu o peito apertar.
— O que aconteceu?
Paula demorou alguns segundos para responder.
— Eu acho que a gente precisa terminar.
Maya ficou em silêncio.
Por alguns instantes, ela simplesmente não conseguiu entender.
— Terminar?
Paula assentiu.
Os olhos das duas começaram a se encher de lágrimas.
— Eu não quero que você pense que eu deixei de te amar.
Maya sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto.
— Então por quê?
Paula segurou sua mão.
— Porque eu acho que o nosso amor mudou.
Maya não respondeu.
— Eu amo você — Paula continuou. — Mas acho que o que existe entre nós virou amizade. Uma amizade muito bonita, muito forte... mas não é mais o mesmo relacionamento de antes.
E talvez aquela tenha sido a parte mais dolorosa.
Porque seria muito mais fácil odiá-la.
Seria mais fácil se Paula tivesse feito alguma coisa imperdoável.
Mas ela não tinha.
Ela simplesmente estava dizendo que o amor delas havia mudado.
Depois de cinco anos, Maya precisava aprender a viver sem a pessoa que tinha se tornado parte de sua rotina, de seus planos e de sua identidade.
Naquela noite, enquanto chorava ao lado de Paula, Maya ainda não sabia.
Não sabia que aquele término abriria um vazio enorme em sua vida.
Não sabia que se sentiria completamente sozinha.
Não sabia que começaria a questionar quem era sem aquele relacionamento.
E, principalmente, não sabia que, algum tempo depois, em uma tentativa desesperada de preencher aquele vazio, abriria um aplicativo de namoro.
E encontraria Helena.
Maya ainda acreditava que o pior que poderia acontecer depois de perder alguém era ficar sozinha.
Ela ainda não sabia que, às vezes, o verdadeiro perigo está justamente em encontrar alguém quando você está mais vulnerável.








