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Minha Cura

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Summary

Benjamim, um ex-militar com várias questões pessoais luta contra a possibilidade de qualquer sentimento derrubar a barreira que ele criou para proteger a si e os outros de coisas que nem ele mesmo sabia nomear. Até Catarina desmanchar tudo.

Genre
Romance
Author
Juliana
Status
Complete
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capitulo 1


***

— Benjamin Tobias Hudson. — Olhei o papel nas mãos, como se precisasse me certificar do meu próprio nome. À minha frente, uma mulher olhava para trás, certa de que era eu quem estava sendo solicitado, mas a minha constante distração tinha me tirado daquele momento, embora soubesse de sua importância.

— Sou eu! — respondi de onde estava, sem me mexer um único centímetro, recebendo um olhar de confusão da mulher atrás do balcão de vidro.

Nas paredes daquele lugar havia fotos de ex-militares que perderam suas vidas a serviço do país. Heróis da nação, como sempre seriam conhecidos e lembrados. Aquele certamente seria o meu destino, se eu não estivesse saindo do exército. Apesar de parecer, eu não a encarava como uma decisão completamente sensata. A dúvida ainda pairava na minha cabeça.

No entanto, não havia lugar para homens “mortos” no exército. Eu me lembrava de ter ouvido aquela frase de um dos recrutas no meu primeiro ano nas forças armadas.

Não há lugar para homens mortos no exército.

Para mim, não havia feito tanto sentido no começo. Demorou até que eu entendesse que, na verdade, ele se referia a outro tipo de morte. Que, naquele momento, eu enxergava como sendo a pior.

— Sr. Hudson, está tudo bem? — Respirei fundo, culpando-me novamente por estar distraído, aproximei-me da mulher e lhe estendi o papel com a enorme assinatura do Coronel Wood. — Vinte e quatro anos?

A mulher não tinha um dos braços, mérito da guerra, provavelmente.

— É isso aí! — respondi, tentando ser o mais descontraído possível.

— É bastante tempo para desistir. — Não era uma simples desistência, mas não disse nada.

— Não é mais o meu lugar.

Ela assinou o papel e apontou para uma porta do lado esquerdo com a palavra “Psicóloga” escrita em letras grandes. Olhei para trás, onde uns quatro pares de olhos me encaravam, e caminhei rapidamente sem dizer mais nada.

A psicóloga, como todos, quis saber o motivo da minha saída. Quando, na verdade, o questionamento principal seria por qual motivo eu deveria continuar. Por qual motivo qualquer pessoa deveria dar a sua vida em guerras que nunca teriam fim, cujos inimigos, no fim das contas, eram exatamente iguais aos nossos comandantes.

Apesar de tudo, por mais de vinte anos, o exército foi a minha vida, esta que não tinha mais sentido nenhum depois daquele dia.

Depois de pegar a minha dispensa, dirigi para a casa dos meus pais, um trajeto de mais de cento e vinte quilômetros, os quais percorri num piscar de olhos. Era como se o tempo não passasse mais da mesma forma. As placas pela cidade pareciam as mesmas de anos atrás. Com os mesmos anúncios, até o rádio parecia tocar a mesma música. Tudo o mesmo, menos eu.

Parei o carro num posto de gasolina. Faltavam poucos quilômetros, mas precisava parar para comer alguma coisa e ir ao banheiro. Assim que desci do carro, um homem veio na minha direção. Respirei fundo, tentando parecer normal, ao menos uma vez na minha vida.

— Bom dia! — eram duas da tarde.

Não respondi, passei por ele entrando na loja de conveniência. O lugar estava vazio, e uma música calma tocava no rádio. Peguei pacotes de batata frita e biscoitos, e para beber, uma garrafa de água.

No caixa, uma mulher com uma expressão nada amigável me estendeu a mão para pegar as coisas que eu tinha comigo. Deixei em cima do balcão, dando a ela o dinheiro. Aquele lugar não me parecia bom, como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer momento. Algo inexplicável. Mas aquela sensação me acompanhava há muito tempo, independentemente do lugar.

— Vinte e cinco.

Antes que eu pudesse pegar o troco, alguém entrou, esbarrando em uma prateleira, deixando cair várias garrafas de cerveja.

— Que merda!

A mulher me olhava com as mãos para cima. E só então me dei conta de que eu tinha sacado uma arma. Rápido a ponto de eu mal notar.

Guardei o troco imediatamente, peguei a sacola em cima do balcão e saí pela porta sem dizer nada. Do lado de fora, o homem parecia nervoso e com medo. Entrei no meu carro e dirigi para longe, sem parar mais.

Sentia a ansiedade me sufocar mais uma vez e, numa tentativa de dissipar aquele sentimento ruim, comecei a repetir para mim mesmo que tudo tinha acabado.

Em menos de vinte minutos estava estacionando o carro na frente da casa dos meus pais. A última vez que os tinha visitado foi em uma véspera de Natal, mas há dezesseis anos. Nem eu mesmo sabia o motivo de ter demorado tanto, mas depois dos primeiros cinco anos no exército, era como se não houvesse mais o mesmo Benjamin.

— Ben! — A minha mãe não me conhecia mais e, apesar de nos falarmos pelo telefone algumas vezes, eu sentia como se estivesse começando uma farsa.

Desci do carro e deixei que ela me abraçasse, apesar de o contato físico ser algo que tinha começado a me incomodar.

Henry, Christopher e Anthony estavam logo atrás dela. Eu não sabia o que dizer de início, e agradeci quando o meu irmão mais novo veio me estender a mão, para logo em seguida me puxar para um abraço.

— Se não fossem as fotos, eu nem me lembraria mais do seu rosto. — Dei uma risada para quebrar o gelo. Estava começando a me sentir em casa, de fato. Não era como nos campos, mas talvez pudesse dar certo.

Era difícil entender por que algo que me destruiu poderia ser meu maior desejo. No fundo, eu achava que era o único lugar onde eu seria aceito, aliado ao fato de que, por vinte anos, tinha sido o meu lar, e não seria da noite para o dia que tudo mudaria.

— Sentimos a sua falta. — Anthony tinha dezesseis anos quando eu saí de casa. Todos tínhamos idades parecidas, com exceção de Christopher, que era o mais novo.

— Eu também. — Era mentira. Eu não senti a falta de ninguém, até porque tudo o que eu fazia era correr e atirar, todos os dias, sem uma única folga. Não houve tempo para sentir falta do que quer que fosse. E talvez toda a barbárie que eu havia presenciado tivesse arrancado de mim aquela parte também.

— Ah, com certeza. Eu conseguia ver pelas vezes que você ligava. — Henry tinha os braços cruzados na frente do corpo. Parecia comigo fisicamente, mas a personalidade era oposta. Assim como todos os outros. Era como se não fôssemos filhos dos mesmos pais.

— É difícil entender, mas sabemos que era muito ocupado — minha mãe apaziguou.

Um silêncio se formou quando o meu pai desceu as escadas. Ele ainda estava do mesmo jeito desde a última vez, a barba do mesmo tamanho e menos cabelo, talvez.

A minha mãe e os meus irmãos se afastaram imediatamente, formando uma fila para que ele pudesse passar.

— Me pergunto o que aconteceu com os aviões nos últimos dezesseis anos. — Baixei a cabeça, reconhecendo que ele era a única pessoa capaz de me fazer sentir pequeno. — Seja bem-vindo, filho.

Ele me abraçou e, por alguns segundos, fiquei imóvel.

— Eu sinto muito por isso — foi a única coisa que consegui dizer.

A minha mãe preparou uma refeição para todos. Mentiria se dissesse que não senti saudade da comida. E talvez me julgassem insensível por dizer isso, ao passo que mal senti falta deles. Mas a verdade é que eu sempre fui um adolescente diferente e, mesmo tendo tantos irmãos, eu sempre me sentia sozinho. Aprendi a viver daquele jeito, sem esperar que ninguém se importasse comigo. E quando decidi entrar no exército, era a única coisa que parecia certa de verdade.

— E o que vai fazer agora? — Anthony perguntou.

— O que quer dizer?

— Tipo, o que vai fazer? Onde vai trabalhar?

Não respondi de imediato, até porque não fazia ideia da resposta.

— Ainda não sei. Consertar uns carros, talvez. — Meu pai parou o que estava fazendo para me encarar. Era nítido que a saída das forças armadas não era do gosto dele.

Me perguntei por quantos anos ele esperava que eu fosse dedicar a minha vida ao governo. Como se tudo o que eu vivi não fosse o suficiente.

— Que bom que ainda gosta de fazer isso. O Henry tem uma construtora, talvez possam trabalhar juntos — minha mãe sugeriu, como se as duas coisas tivessem relação.

— Ah, sim, com certeza seria maravilhoso. — Meu irmão era casado e tinha uma filha. Mas a expressão no rosto dele denunciava uma completa infelicidade.

Eu não era o tipo certo de pessoa para julgar as emoções dos outros, considerando que a minha vida era um completo caos e a minha saúde mental não era um exemplo a ser seguido, mas Henry me exalava tristeza só de olhar.

Christopher me levou para conhecer as mudanças que tinham feito na casa. Ele e Anthony ainda moravam com os nossos pais, e não pareciam pensar em se mudar.

— Podemos dividir o quarto, por enquanto. — Apesar de o tempo distante nos ter afastado, ele era gentil.

— Não se preocupe com isso. Eu vou alugar uma casa até encontrar uma para comprar.

Ele ergueu a sobrancelha.

— Então você não saiu de lá com uma mão na frente e outra atrás, como achávamos que seria.

— Acharam isso? — perguntei, notando como ele parecia achar engraçado.

— Quem larga um posto como o seu nas forças armadas depois de tantos anos? — questionou, sem olhar para mim.

Eu não poderia explicar a eles o real motivo que me fez sair, ou ser expulso, como melhor se encaixava. Talvez nunca fossem entender, até porque eu mal entendia.

— O exército não é um conto de fadas, como você pensa — respondi.

— Não é o que o nosso pai acha. — Ele apontou para onde o homem colocava pedaços de lenha em um saco.

Anthony era muito de conversar, e eu, o oposto disso. Estava fazendo um esforço para ouvi-lo sem demonstrar completo desinteresse.

Ao final do dia estávamos novamente reunidos numa mesa de jantar. Lembrei de como a minha mãe resolvia todas as situações tensas fazendo uma boa comida. Nem sempre dava certo.

— Eu vou até a cidade. Preciso comprar algumas coisas.

Christopher ficou de pé junto comigo e se ofereceu para ir junto. Eu não recusei.

Peguei as chaves do carro e o segui para fora da casa. A minha mãe parecia satisfeita em ver os filhos interagindo normalmente. Tínhamos idade para estarmos casados e com filhos, mas ela ainda parecia se preocupar demais.

— Achei que o Henry viria — comentei, tentando puxar assunto.

— Provavelmente teve que voltar para casa. Sabe, família. Logo você conhecerá a Francesca e a Eloise.

Percorremos a maior parte do trajeto em silêncio, mas ele parecia tentado a conversar. Era estranho pensar que éramos irmãos, mas que havia pouca ou nenhuma conexão entre nós.

— Vai nos contar o que houve? — ele perguntou depois de um tempo. A curiosidade tinha vencido.

— Entendo que estejam curiosos quanto a isso. Mas eu já fiz a minha parte e cumpri o meu dever, chegou a hora de algo diferente.

Ele ergueu a sobrancelha, olhando para mim.

— É só que... foi tão repentino. Ficamos com medo de que tivesse sofrido algum acidente.

Eu tinha. Mas a dor não era física.

— Acredito que não tenham contado, mas o pai está enfrentando alguns problemas com a justiça. — Parei o carro, surpreso. — Ele se envolveu em um acidente de carro no ano passado, e havia algumas irregularidades com o veículo. A outra parte envolvida está se aproveitando disso para nos processar.

Voltei a dirigir em silêncio, sem fazer ideia do que dizer. Eu não sabia da história, mas não poderia cobrar nada considerando que mal liguei para conversar. Entendia perfeitamente o fato de a minha mãe não ter compartilhado aquilo comigo.

— Não entendo como pode ter chegado a isso — falei, depois de um tempo.

— Tudo aconteceu muito rápido. Quando vimos, o caso foi parar na promotoria.

Comprei os itens de que precisava e, depois de mais algumas voltas pela cidade, decidimos retornar.

O meu pai estava do lado de fora quando estacionei o carro. Fumava um cigarro e o ofereceu ao filho mais novo. Christopher aceitou.

— Demoraram.

Eu sabia que cedo ou tarde ele me pressionaria para saber mais sobre a minha vida, o motivo da minha dispensa e como tinha sido viver todos aqueles anos de alojamento em alojamento. O exército sempre foi um sonho dele, mas por algum motivo não tinha dado certo. Provavelmente pelo fato de a minha mãe ter engravidado de mim logo depois que se casaram, e após isso veio um filho por ano. O que tornava tudo mais difícil. Na minha idade, meu pai já tinha quatro filhos e uma vida cheia de responsabilidades.

— Ben precisou pegar mais algumas coisas. — Meu irmão entrou em casa, deixando-nos a sós.

Recusei o cigarro oferecido.

— Estou tentando largar. — As cinco carteiras de cigarro na minha mala não diziam o mesmo.

— O que foram fazer? — perguntou, sem fazer rodeios.

— Nada demais. Christopher me contou algumas coisas.

— Aposto que sim. — Ele bufou.

— Eu esperava qualquer coisa, menos problemas com a justiça.

Meu pai me olhou surpreso por eu ter sido tão direto.

— Não seria um problema se não fosse a pessoa com quem eu me meti. — Olhei para ele, confuso. — Por um descuido, bati no carro de um homem influente que nunca ouviu alguém gritar com ele na vida. Resultado: ele procurou cada sinal de trânsito que eu ultrapassei na vida e quer que a minha habilitação seja suspensa.

— Isso é... eu não sei o que dizer.

— Ele tem uma boa advogada e dinheiro. E eu, um bom defensor público. — Ele riu, mas parecia decepcionado.

Ele me mostrou uma matéria do jornal com a notícia. O homem estava ao lado de uma mulher e acenava para o fotógrafo. Parecia que se tratava de um caso extremamente sério e não de uma simples batida de trânsito.

— Que merda. — O título da matéria dizia que o meu pai era um perigo para a sociedade e que deveria perder o direito de dirigir.

Percebi que se tratava de uma pessoa com muito poder, a ponto de tornar algo tão pequeno e mesquinho num problema gigantesco.

— Não vamos perder tempo falando disso. — Ele me olhou, fazendo um silêncio tenso. Aceitei o cigarro que tinha sido oferecido antes, acendendo rapidamente.

Fiquei olhando para o lado oposto, temendo que ele fosse me perguntar alguma coisa.

— Amanhã eu vou até a cidade procurar um apartamento para alugar.

— Isso é ridículo! Você não precisa ter gastos extras com aluguel quando pode ficar aqui. — Ele apontou para a casa pouco iluminada. A minha mãe ainda estava entretida com o trabalho doméstico. Ela nunca parava nem por um minuto.

— Gosto de ficar sozinho. E não é atraente dividir o quarto com o meu irmão depois de duas décadas.

Ele sorriu.

— Você continua sendo essa pessoa que afasta tudo e todos.

Quis dizer que aprendi aquilo com ele, mas preferi ficar em silêncio.

— Eu vou ter que vir aqui todos os dias, de qualquer forma. A comida da mamãe é incrível.

Não falamos mais nada. Ele continuou fumando em silêncio e, depois de alguns minutos, eu saí.

Ficar no mesmo quarto que o Anthony era equivalente a passar a noite no vagão de um trem. Ele fazia todos os tipos de barulhos possíveis, até uns que eu nunca tinha ouvido na vida. Sem contar o fato de que falava enquanto dormia.

Não consegui dormir e, logo que o Sol surgiu, saí do quarto. A minha mãe já estava de pé e preparando o café. Ela parecia não descansar nunca.

— Bom dia, filho.

Sentei-me à mesa e agradeci quando ela deixou uma xícara de café na minha frente.

— Eu vou sair em alguns minutos. Preciso encontrar um apartamento na cidade.

Ela fez a mesma cara que o meu pai.

— Benjamin, isso não é necessário. Essa casa é grande e você não vai precisar se preocupar com organização ou com roupas lavadas. — Ela falava como se aquela fosse a única vantagem de morar ali.

— Eu gosto do meu espaço e, quanto à organização, não se preocupe.

Apesar de perceber que ela não queria deixar aquele assunto de lado, não falamos mais nada. Peguei as chaves do meu carro e saí depois de me despedir.

O centro da cidade era quase impossível de transitar. Perdi muito tempo em engarrafamentos e agradeci quando achei um estacionamento público. Encontrei uma imobiliária logo na primeira esquina; era pequena, mas com um bom anúncio.

Uma corretora chamada Mary me mostrou dois apartamentos. Pequenos, mas do tamanho ideal para uma pessoa sozinha. Odiava rodeios e escolhi o primeiro que vi. O aluguel era barato e o apartamento era bonito, não precisei pensar muito.

— Sem contar que já é mobiliado, facilitando para você. — Ela me estendeu os papéis e eu assinei.

Pela felicidade no rosto da mulher, não parecia ser tão comum fechar um negócio tão rápido no ramo em que ela trabalhava.

— Pode se mudar quando quiser. Conheço um rapaz que trabalha com mudanças e é bem barato.

Peguei o cartão que ela me ofereceu e fui embora. Demorei a achar o meu carro novamente. Apesar de a cidade ainda ser a mesma, muitos anos tinham se passado e era como se não houvesse mais lembranças daquele lugar.

Dirigi por alguns minutos até achar o lugar de que eu precisava. Parei o carro na primeira vaga que vi, descendo logo em seguida.

— Senhor! — Ignorei o chamado de início, porque não tinha certeza se era comigo. — Não está escutando?

Olhei para trás e uma mulher saía de um carro, vindo na minha direção. Parecia furiosa.

— Estacionou em uma vaga para pessoas com deficiência. — Ela apontou para onde o meu carro estava e logo em seguida para uma placa que indicava o que ela dizia. Eu não tinha visto, realmente.

— O que vim fazer é rápido. E não vejo ninguém com deficiência aqui.

Ela me olhou ultrajada. Como se o que eu tinha dito fosse o pior absurdo que já tinha ouvido.

— Só pode ser brincadeira. — A mulher colocou as mãos na cintura e olhou ao redor. — Tire esse veículo agora ou eu ligo para a polícia.

— Pode ligar.

Novamente a expressão dela entregava surpresa. O rosto não me era estranho.

— Olha, quer saber? Saia da minha frente. — Dei um passo para o lado, e ela passou pisando duro como se o chão tivesse culpa da situação.

Ela entrou exatamente no mesmo prédio que eu. Torci para que não tivesse que esbarrar com aquela mulher lá dentro.

— Posso ajudar, senhor? — A recepcionista levantou os olhos da tela do computador ao me ver. Aproximei-me do balcão.

— Preciso falar com a Dra. Cury.

— Tem hora marcada? — ela perguntou folheando o que parecia ser uma agenda.

Em cima da cabeça dela havia um enorme letreiro com os dizeres “Escritório da Promotoria”.

— Não! — Fui sincero. Até porque não havia outra resposta a não ser essa.

— Sinto muito, senhor...?

— Hudson!

— Sr. Hudson, é necessário ter hora marcada.

Respirei fundo, passando a mão pela barba.

— Certo. O que eu preciso para marcar hora?

A mulher pediu o meu documento e levou cinco minutos para fazer uma espécie de cadastro. Ao me devolver, entregou junto uma folha de papel para que eu assinasse.

— Qual seria o assunto a ser tratado? — ela perguntou.

— Eu vim...

— Amanda, poderia pedir para levarem o café?

Não concluí a fala, pois a atenção da mulher foi para a porta atrás de mim. Virei-me para olhar na mesma direção. Ironicamente, a mulher do estacionamento estava parada na porta e me encarava com uma sobrancelha erguida.

— Sim, Dra. Cury. Acredito que não vá demorar. — A mulher não respondeu, ainda me fuzilava com o olhar. — Este senhor...

— Ben Hudson. — Caminhei até ela e estendi a mão, que ficou pairando no ar por alguns instantes até ela apertar. Pareceu ser uma decisão difícil.

— Como eu posso ajudá-lo, Sr. Hudson? — A recepcionista saiu do posto dela, nervosa.

— Eu vim obter algumas informações a respeito de um caso, uma ocorrência de trânsito.

Ela me olhou, confusa.

— Além de estacionar em lugares indevidos, você também avança sinais. Que surpresa! — A mulher sabia muito bem ser irônica.

— O caso é do meu pai — justifiquei, tentando fazê-la perder um pouco da péssima impressão que eu tinha causado.

— Certo. Sinto não poder ajudá-lo, mas caso não tenha notado, aqui é o escritório da promotoria, e não uma delegacia. Não lidamos com esse tipo de coisa.

Tirei o celular do bolso e mostrei a matéria a ela. A mulher leu e ficou muda por alguns instantes. Ela deu um passo para o lado, apontando para o interior da sala. Entrei rapidamente.

— Sente-se. — Apontou para uma cadeira. A sala era bonita e cheirava a livros. A cadeira confortável parecia ser de um excelente material. Toda a mobília era antiga, mas com ótimo aspecto.

— Me desculpe por mais cedo. — Ela franziu a sobrancelha, sentando-se na minha frente.

— Você é filho do Sr. Hudson, então. — Balancei a cabeça positivamente. — Não sabia que ele tinha outro filho.

— Eu estive fora nos últimos vinte anos. — A expressão dela demonstrou surpresa.

— O que precisa saber sobre o caso?

— O porquê de ter vindo parar aqui, quando foi apenas uma batida de carro que nem causou tanto estrago assim.

Ela não respondeu imediatamente. Primeiro arrumou o cabelo que nem estava bagunçado.

— Quem deveria determinar o estrago é quem teve que lidar com ele, e acredito que não tenha sido você. — A resposta não pareceu ser o que ela queria dizer. Percebi uma tentativa de ser fria. Não deu certo.

— Eu sei disso. Mas o meu pai está enfrentando um processo judicial que nem pode pagar por algo tão pequeno. Me parece injusto — retruquei.

— Injusto? É juiz, por acaso?

Respirei fundo, tentado a ser tão estúpido quanto ela estava sendo.

— Se eu fosse, uma idiotice dessas não seria levada a sério. E o fato de isso ter virado um caso da Promotoria Pública me cheira a privilégio.

Ela riu ironicamente.

— O meu pai bateu no filho do presidente, é isso?

— Sendo no filho do presidente ou no filho de quem quer que seja, ele agiu de forma errada e foram descobertas outras irregularidades na ficha dele. A justiça está cumprindo o seu papel.

— Nem você acredita nisso.

— Quem pensa que é para dizer no que acredito ou não? — Ela se levantou, apoiando as mãos na mesa e olhando dentro dos meus olhos. O contato visual não durou muito, e a mulher virou o rosto para o outro lado.

— Certo, me desculpe! Eu não quis dizer nada. É só que... acredito que a promotoria tenha problemas maiores para lidar, e se conhecesse o meu pai, saberia que ele não é uma má pessoa.

— Não se trata disso, Sr. Hudson. — Ela voltou a se sentar. — Entendo e concordo que esse caso não precisaria ter chegado até aqui, mas chegou. E deve ser tratado como qualquer outro.

— É justo um homem perder um dinheiro que nem tem simplesmente por ter se distraído e batido na traseira de um carro de um milhão de dólares?

O olhar dela se abriu mais ainda.

— Não — respondeu, parecendo ponderar a situação. — Sinto muito por isso, mas não posso ajudá-lo.

Levantei-me e fui na direção da porta, decido a ir embora.

— Obrigado por me receber.

— Sr. Hudson, espere!

A mulher me estendeu um cartão dourado.

— Não vai querer se meter com Flinn Osborne sozinho.

— Quem é esse? — perguntei, não me lembrando de onde conhecia aquele nome.

— Pai do Clay Osborne. O dono do carro de um milhão de dólares.

Olhei novamente para o cartão que ela tinha me dado. Amysia Shaw Chase. Era o nome da primeira-dama. Havia um telefone e um endereço.

— Eu lamento que pessoas com poder possam fazer coisas assim. Mas infelizmente não consigo mudar o sistema, não sozinha. — Ela parecia realmente decepcionada com aquilo. — Apesar de o seu pai tê-lo dado uma péssima criação, não me parece alguém que mereça passar por uma coisa dessas simplesmente por ter batido num carro.

Dei uma risada e estendi a mão para ela novamente; daquela vez não houve relutância em apertar.

— Obrigado, Dra. Cury. E me desculpe por aquilo, não costumo roubar vagas de estacionamento.

Ela riu e se levantou, caminhando na direção da porta.

— Se for procurar a Dra. Chase, não diga que fui eu quem o indicou.

— Eu não direi. Não quero prejudicá-la.

Saí de lá tendo como próximo destino o endereço que continha no cartão. Embora não tenha conseguido falar diretamente com a Dra. Chase, uma assistente muito gentil repassou o meu caso para o irmão dela. O escritório era grande e tinha muitas salas, impossível não se perder.

A mulher que me acompanhava bateu na porta e esperou a ordem de entrada. Estranhei o fato de aquilo ser tão fácil, considerando que a minha expectativa era ficar horas em salas de espera. Ainda eram dez da manhã; tinha tempo para chegar em casa antes do almoço e me mudar para o novo apartamento.

— Sr. Müller, este senhor deseja falar-lhe. — A mulher tinha um sotaque que não pude determinar. Ela saiu da sala, deixando-nos a sós.

— Ben Hudson. — Estendi a mão para ele, que não esboçou nenhuma reação. Ao lado dele havia uma bengala e, do outro lado da sala, um cão dormia tranquilamente. Recolhi a minha mão imediatamente ao me dar conta da situação.

— As pessoas sempre têm essa reação. — Ele riu. — Jake Müller.

— É um prazer!

— O que o trouxe aqui? Apesar de que soube que veio pela minha irmã. — Ele riu.

Expliquei o caso a ele, que ouviu tudo atentamente enquanto digitava ferozmente num computador. Um silêncio de quase três minutos se instaurou, e agradeci quando ele finalmente se virou para mim.

— De todas as pessoas nesta cidade, o seu pai se meteu com a pior delas. — Ele riu. — Amy não poderá pegar o caso por se tratar do filho de Flinn Osborne, oponente direto do marido dela nas eleições. Conflito de interesses.

— Entendo!

— Por sorte, eu odeio esse homem tanto quanto qualquer outra pessoa. — Ele fez uma rápida ligação e voltou-se para mim novamente. — O seu pai está sendo representando por um defensor público pago pelo Osborne para sabotar o caso. Não teria chances de qualquer forma. Vamos pegar o caso e ver o que podemos fazer. Porra, é só a merda de uma batida de trânsito, como isso virou um problema tão grande?

— É essa pergunta que estou me fazendo.

Deixei o escritório me sentindo menos angustiado. O problema não estava resolvido, mas algo seria feito, felizmente.

Quando cheguei à casa dos meus pais, havia um carro diferente estacionado na frente. Não entrei de imediato, fiz a volta e comecei a caminhar pelo enorme quintal. Lembrava a minha infância e todas as coisas que eu tinha vivido ali. Boas e ruins.

Conseguia ouvir algumas risadas de uma criança, seguidas da voz de uma mulher que não era a da minha mãe. Aproximei-me o suficiente para ver, ao fundo do gramado, uma mulher alta, de cabelos ruivos, brincando com uma menininha.

As duas se divertiam jogando bola e rolando no chão. Do outro lado, podia ver Henry as observando com os braços cruzados e uma expressão séria no rosto.

— Benjamin! — Anthony me chamou, e eu caminhei até onde ele estava sentado, tomando uma cerveja. — Onde esteve?

— Tratando de alguns assuntos importantes — respondi brevemente.

— Filho! — Minha mãe mal se continha de felicidade. — Precisa conhecer nossa querida Eloise.

Ela me puxou pela mão, indo na direção da menina que brincava alegremente com a mulher.

— Francesca!

As duas pararam de brincar, olhando na minha direção. A menina tinha o sorriso de Henry, mas era a cara da mulher.

— Eloise, venha conhecer o seu tio. — Ela caminhou timidamente na minha direção.

— Você é o irmão do papai?

Balancei a cabeça.

— É um prazer conhecê-lo. — A ruiva me estendeu a mão. Tinha um sorriso no rosto.

— O prazer é meu.

Henry olhava tudo do fundo, sem mover um músculo.

O almoço foi servido minutos depois. A minha mãe parecia muito feliz em ver toda a família reunida e, apesar de ser algo diferente para mim, no fundo me fez sentir bem. Ao fim, enquanto retiravam a mesa, o meu pai saiu para fumar. Segui-o junto de Anthony.

— O que é isso? — ele perguntou quando lhe entreguei um papel.

— É o seu novo advogado. — Ele me olhou confuso. — Jake Chase Müller.

— Chase? Como o presidente? — Balancei a cabeça positivamente. — Como conseguiu isso?

— Não acho justo que uma bobagem como essa tenha que causar tanto problema. Por sorte, ele concorda comigo e decidiu pegar o seu caso.

— Assim? De graça? — ele perguntou, incrédulo. — Ou você está gastando dinheiro com isso? Olha, filho...

— Apenas assine o papel, não se preocupe com o resto.

— Então foi isso que foi fazer na cidade? — Anthony perguntou.

Não respondi. Aceitei a cerveja que ele me oferecia.

— Henry não parece feliz. — Apontei para onde o nosso irmão estava. Olhava a filha brincar, mas sem sair do lugar.

— Ele e Francesca têm um casamento conturbado. Nosso irmão é uma pessoa muito difícil.

Olhando para ela, não dava para dizer que enfrentava qualquer tipo de problema. Talvez fosse boa em fingir.

Não fiquei para o jantar. Peguei as minhas malas, que nem tinham sido desfeitas, e me despedi da minha mãe, com a promessa de que voltaria para o jantar todos os dias. Eu ainda não sabia exatamente o que fazer, mas teria muito tempo para pensar.

— Ben! — Henry me interceptou antes de entrar no carro.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, vendo-o se aproximar.

— Pode trabalhar comigo na construtora. Eu sei que sabe mexer com isso.

— Olha, Henry. A minha presença não parece agradá-lo muito, e trabalhar junto não é uma boa ideia — fui sincero.

— Você é meu irmão. Eu não o odeio.

— Não disse que me odiava, apenas que não vai com a minha cara.

— O que esperava? Ficou dezesseis anos sem pisar aqui, como se não fôssemos dignos da sua visita. — Ele finalmente estava falando tudo o que queria desde o momento em que pus os meus pés ali.

— Parece fácil para você falar. Não espero que me entenda, e que nunca passe por nada parecido com o que eu passei.

— Seja lá o que tenha o feito tão mal, podia ter vindo embora. Somos a sua família.

Respirei fundo, não imaginando como entrar naquele assunto justamente com ele.

— Foi o que eu fiz, larguei tudo e estou aqui. Com a minha família. Para você pode ser tarde demais, mas para mim não.

Entrei no carro e parti. Em menos de vinte minutos estava na frente do meu novo prédio. O porteiro pediu o meu documento para confirmar alguns dados e eu subi até o oitavo andar, onde ficava o meu apartamento novo. Depois de anos dormindo em qualquer lugar, aquele era quase o paraíso para mim.

Havia móveis, mas algumas coisas ainda faltavam. Decidi ocupar a minha cabeça com aquilo para não pensar muito.

O meu celular tocava incessantemente e, quando olhei no identificador de chamadas, o nome de um dos meus amigos do exército surgiu na tela.

— Ben! Há dias que venho tentando falar com você — reclamou. — Espero que esteja bem.

— Eu estou. Obrigado por ligar.

— Como tem sido a vida sem tantos problemas?

— Tranquila! Nunca me senti tão leve quanto neste momento.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Tristan está bem, me disse que tentou ligar para você.

— Eu não quero falar sobre isso. Fico feliz que ele esteja bem, de verdade. Mas preciso tentar não pensar nisso.

Desliguei o telefone, voltando a deitar na cama. Não era nada confortável. Teria que providenciar outra imediatamente.

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karenfancp: I have noticed a few typos, the story line is good. I can’t put this down.

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The zatorian

ktkirata: The story is really interesting. How the character described in the story is like you can see them and picture how they move, talk and feel in the every plots. Well done writer and keep it up.

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Bear Shifter Secrets

Felicia: This is the 2nd book im reading of this writer. And I enjoyed it just as much as the first, Marked while we slept. Worth the read. Very good writer

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The Orc's Pet

JyotiRekha: Great plot Describe the life of orcos moe

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An Irish Match

user-tS2KGSfVD3: Beautifully written. Excellent character development and a setting in Ireland, with all it's beauty, never hurts. With spice for those who like it.

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Ruthless Lord

Merrell Bunting: Beautiful story, a bit heavy on the spice for me but a really good read.

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Monster's Second Chance

Angela Mullen-Akporiaye: I like the banter between Aldrich and Lucy. She’s sassy and kind. He’s vulnerable and strong. There’s a verisimilitude in the way that they relate. And when he came looking for her, she didn’t shrink. Bravo!

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