Prólogo
(por EmeBranzoni)
"Guardiões das Memórias, chegou a hora de abrir o primeiro arquivo..."
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A mulher à minha frente tremia.
Não de frio. Nem de medo. Era outro tipo de tremor.
O tipo de quem está prestes a saltar no escuro — sem saber se há chão, sem saber se quer mesmo esquecer o que a trouxe até ali.
Seu nome era Lúcia. Uns trinta e poucos anos. Os olhos castanhos tinham o peso de quem já chorou demais. Ela mal piscava, como se, a qualquer momento, o passado pudesse escorrer pelos cílios e cair no chão.
Um passado que ela viera apagar.
— Está pronta? — perguntei.
Ela assentiu com a cabeça, mas sua mão agarrou o apoio da cadeira como se algo dentro dela gritasse não.
Eu vi isso acontecer muitas vezes.
Mas nunca acostumei.
Conectei os fios, ativei a luz âmbar da interface neural.
Uma linha fina de códigos piscou na tela enquanto as ondas cerebrais dela dançavam, revelando os fragmentos da dor: um quarto vazio, risos de uma criança, um par de sapatinhos vermelhos esquecidos no canto da sala.
E um nome:
Rafael.
Era o filho dela.
Não perguntei mais nada. Nunca pergunto.
As memórias são pessoais demais. E por mais que eu as veja passar, eu apenas as arquivo —
Não sou um juiz. Não sou um confessor.
Sou apenas a lâmina que corta o laço entre a alma e a lembrança.
A máquina vibrava suavemente enquanto isolava os rastros emocionais, bloqueando as conexões sinápticas que prendiam Rafael ao corpo de Lúcia.
Quando terminou, desliguei o equipamento.
O silêncio era absoluto.
Ela piscou, como se acordasse de um sonho antigo.
Apertou os lábios.
— Acabou?
Assenti.
Ela ficou de pé devagar, tonta, mas serena.
Ia se virar para sair, mas parou.
Virou-se para mim com um olhar vazio e, ao mesmo tempo, gentil.
— Eu não sei o que pedi pra apagar… — disse com a voz embargada. — Mas… obrigada por ter feito.
E sorriu.
Um sorriso limpo.
Doloroso.
Foi então que ela começou a cantar.
Suave, baixinho, quase imperceptível.
Era uma canção de ninar.
A melodia tremia em sua garganta como uma memória que o cérebro esqueceu, mas o corpo ainda sabia de cor.
Ela não lembrava do filho.
Mas lembrava da canção.
E foi ali que tudo mudou para mim.
Porque pela primeira vez em todos esses anos…
Eu me perguntei o que acontecia com as memórias depois que eu as apagava.
Se desapareciam por completo.
Ou se ficavam flutuando no ar, esperando alguém lembrar por elas.
Naquela noite, enquanto eu encerrava os arquivos do dia, algo em mim não se fechou com os relatórios.
Eu fui até o terminal antigo, o que fica trancado na sala de segurança, onde guardamos os vestígios que não se apagam de verdade.
E procurei por um nome...
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This has me really curious as to what happens next!