Capítulo 1 — O Fogo de Outras Vidas
O calor da fogueira deveria ser o suficiente para me aquecer, mas o que sinto é um tipo diferente de queimação. É aquela sensação de estar sendo observada. Quando levanto a cabeça, meus olhos encontram os seus do outro lado das chamas.
Com o reflexo do fogo seu olhar parece em brasas, consumindo qualquer barreira que eu tente levantar. Meu peito aperta. O ar fica denso, difícil de puxar, uma saudade profunda toma conta de mim. É como se eu conhecesse cada traço do seu rosto, mas não sei de onde.
Alguém toca seu ombro, te obrigando a desviar o olhar. O transe quebra, e eu finalmente volto a respirar. Uma onda de calor intensa sobe pelo meu pescoço e o casaco agora parece quente demais.
Água, preciso de água para tentar apagar o incêndio dentro de mim! Sinto seu olhar retornar atravessando minha alma, acendendo pontos do meu corpo que eu ainda não sabia que existem.
Um casal de músicos começa a tocar e cantar, casais começam a dançar. O som das risadas e da música, fazem com que o som da natureza à nossa volta se torne apenas um ruído de fundo.
Um homem esbarra em minha cadeira, pede desculpas e segue com sua namorada para a roda de dança. Aceito uma xícara de vinho do monitor do acampamento, esperando que o álcool acalme meus nervos. Quando volto a olhar para onde ele estava, o vazio me atinge. Ele sumiu.
Uma pontada de decepção fura meu peito. Bebo mais um gole de vinho, tentando ignorar o desapontamento, mas ao erguer a cabeça, ele está ali. Exatamente na minha frente.
O susto me faz engasgar com o vinho. Ele ri — um som profundo que envia uma descarga elétrica pela minha coluna. Ainda sorrindo, ele estende a mão para mim. No momento em que meus dedos tocam os seus, o choque é imediato. A sensação é de estar tomando um choque, o formigamento nas pontas dos dedos subindo lentamente e se espalhando por todo o meu corpo. Um único toque, e meu corpo inteiro entra em alerta.
Ele me puxa com uma firmeza possessiva, que me deixa tensa por meros segundos antes do meu corpo colar no seu e aquecer no mesmo instante. O mundo agora tem o cheiro do seu perfume e o calor da sua pele, o som da sua respiração. A força da sua presença é esmagadora.
— Tudo bem? — sua voz sobe pela minha pele.
Consigo apenas balançar a cabeça, incapaz de formular uma palavra. Meu coração bate tão forte contra as costelas que tenho certeza de que ele consegue senti-lo.
Uma música lenta e desconhecida começa a tocar, mas ela ecoa dentro de mim como algo familiar. Ao encarar seus olhos, sinto um déjà-vu tão intenso que meus pelos se arrepiam. Ele me aperta mais contra si, e sinto que, seja lá o que for isso, ele também está sentindo.
Consigo ver isso em seu olhar, na forma como seu corpo parece tenso com minha aproximação, na respiração que faz seu peitoral subir e descer.
A música termina, mas o tempo continua parado para nós. Só percebo que paramos de nos mover quando ouço os aplausos ao redor. Minha cabeça estava descansando no seu peito, ouvindo o ritmo do seu coração, que parece tão frenético quanto o meu.
Me afasto bruscamente, o rosto queimando de vergonha. Ele sorri — aquele sorriso que me derrete por completo. Devolvo o sorriso, enquanto minha mente luta contra meu coração para soltar sua mão… lentamente, sentindo cada milímetro de pele se desprendendo da sua. Quando o contato termina, um aperto de perda física esmaga meu peito.
Volto para minha cadeira, o coração ainda na garganta. Bebo o restante do vinho para aplacar a secura na boca, observando as pessoas ao longe. O cansaço e a tontura do álcool começam a pesar. É hora de ir dormir.
Ao chegar na cabana e me deitar, meu corpo começa a tremer violentamente. O frio é insuportável, mas quando toco minha própria pele, sinto que estou em chamas.
"É apenas febre", tento me convencer enquanto fecho os olhos. "Amanhã estarei melhor."
Mas no fundo, sei que essa "febre" é o começo de algo que nada vai conseguir apagar.








