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Undaril

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Summary

Um rei sem encanto, num mundo onde ninguém mente. Dois herdeiros prometidos um ao outro. E uma floresta de onde ninguém nunca voltou. Há mais de dez mil anos, Undaril fechou suas fronteiras. Quem entra na floresta não volta. Até a noite em que o seu Rei atravessa a raiz de uma árvore e aparece no meio do banquete dos reis. Rhaen tem sardas que ninguém no mundo tem, um sorriso torto e lembranças de uma vida que não era esta. Num mundo de elfos que vivem cinco mil anos, escutam corações e jamais mentem — apenas escolhem com cuidado quais verdades dizer —, ele é o único que não sabe esconder nada. Não tem encanto. Seu coração fala mais alto que qualquer palavra. Leif, o príncipe de gelo de Isveth, e Ailith, a princesa do céu de Iridel, estão prometidos um ao outro há cem anos. Os dois deveriam ver em Rhaen apenas o rei de um reino perigoso. Mas o Rei de Undaril chegou com perguntas, e o mundo inteiro quer respostas. Enquanto as cortes calculam e os tronos se agitam, Leif e Ailith descobrem que um coração pode caber em dois. Ou em três. Porque Rhaen não entende de cortejo, nem de promessas antigas, nem do que os dois querem dele. E alguém, nos cânions vermelhos do sul, passou mil anos esperando a floresta abrir.

Genre
Fantasy
Author
Ametoria
Status
4h ago
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 — O rugido

Chovia.

Não a chuva de que ela gostava, a de domingo, que batia na janela e deixava o mundo do lado de fora. Era a chuva de dia útil, fina e teimosa, que entrava por dentro do casaco e escorria pelas costas, que deixava o cabelo comprido grudado no pescoço em mechas pesadas. Ela tinha esquecido o guarda-chuva. Esquecia sempre.

O metrô estava cheio. Gente demais descendo a escada ao mesmo tempo, gente com pressa, gente molhada, o cheiro de roupa úmida e de café de máquina e de borracha dos degraus. Ela descia apertada entre um homem de terno e uma senhora com sacolas, segurando a alça da mochila com uma mão e o celular com a outra, olhando a hora. Estava atrasada. Estava sempre atrasada.

No bolso de trás da calça, dobrado em quatro, o texto do teste. Ela tinha decorado as falas no ônibus, de manhã, mexendo os lábios sem som, e a mulher do banco ao lado tinha olhado para ela como se olha para uma maluca. Duas páginas. Uma personagem pequena, que entrava, dizia três coisas e saía. Era o quinto teste do mês.

— Rhea!

Alguém chamou lá de baixo. Uma voz de menina, conhecida. Ela ergueu a cabeça, procurando no meio dos guarda-chuvas fechados e das cabeças molhadas, e sorriu, e levantou a mão do celular para acenar.

O pé dela encontrou o degrau.

E o degrau não estava lá.

Não houve tempo para nada. Nem para gritar, nem para soltar o celular, nem para pensar em segurar o corrimão. O mundo virou de lado. A luz branca do teto passou rápido demais. Ela sentiu o corpo sair do chão, leve e pesado de uma vez, a mochila puxando para trás, o cabelo molhado batendo no rosto.

E então, antes do chão, uma mão.

Uma mão fechada em volta do pulso dela. Firme. Quente, ou fria, ela não soube dizer. Uma mão que não era de ninguém da escada, porque não havia ninguém atrás dela, e que não a segurou. Puxou. Puxou para algum lugar que não era para cima nem para baixo, para algum lugar que não tinha direção nenhuma, e o barulho do metrô sumiu, e a chuva sumiu, e a luz branca sumiu, e só ficou a mão, e depois nem ela.

***

O rugido.

Ele acordou com o rugido, como acordava todas as manhãs. Um som baixo e enorme, que não era bem um som, que entrava pelo corpo antes de entrar pelos ouvidos e fazia vibrar a pedra embaixo da cama, a água na jarra, o próprio peito. A água das quedas, do outro lado da cortina, caindo de uma altura que ele nunca tinha conseguido medir, como caía muito antes de ele chegar.

Ficou deitado, de olhos fechados, com o coração ainda disparado do sonho.

A escada de novo. A mão de novo.

Fazia um ano. Mais de um ano, até. E o sonho continuava vindo, nem sempre, mas muitas vezes. Às vezes era só a chuva. Às vezes, só a voz chamando um nome. Às vezes, como hoje, ia até o fim, até a mão no pulso, e ele acordava segurando o próprio pulso com a outra mão, apertando, como se precisasse arrancar dali os dedos que o puxavam, e o pulso doendo no lugar onde a mão do sonho tinha fechado.

Soltou o pulso. Abriu a mão e olhou para ela.

Não era a mão do sonho. Era outra. Os dedos, mais longos e finos. A pele, dourada de um jeito que nunca tinha sido, e lisa, sem a cicatriz pequena no polegar de quando tinha se cortado descascando uma laranja aos doze anos. As unhas, perfeitas, sem nenhuma roída. Era uma mão bonita. Era uma mão de homem.

Era a mão dele. Havia um ano que era a mão dele.

Respirou fundo. O peito subiu, estreito e plano, e desceu. Ainda havia manhãs em que isso o pegava de surpresa, como agora, nos primeiros segundos depois do sonho, quando uma parte dele ainda esperava sentir o cabelo comprido espalhado no travesseiro e encontrava, em vez disso, uma nuca curta e ondulada. Quando abria a boca para dizer alguma coisa e ouvia sair outra voz, mais grave, que não reconhecia como sua até a terceira palavra.

Ninguém tinha explicado. E ele já tinha parado de esperar que alguém explicasse. Nem por que tinha acordado ali, nem por que naquele corpo, nem por que um corpo de homem. Tinha acordado, num dia qualquer, e o mundo inteiro tinha decidido que ele era o Rei de Undaril, e que sempre tinha sido.

O mundo inteiro, menos ele.

Abriu os olhos.

O quarto estava na penumbra de sempre, aquela luz dourada e móvel que atravessava a cortina de água e depois as cortinas de seda e depois a tela de raízes, chegando até a cama já filtrada três vezes, macia como luz de vela. No teto, entre as raízes da árvore antiga que crescia através da pedra, as flores brancas ainda estavam acesas da noite, apagando aos poucos com o dia. O ar era úmido, morno, e cheirava a terra molhada, a musgo, a alguma flor que ele nunca tinha descoberto qual era.

E, por baixo de tudo isso, por baixo do rugido, ele ouviu um coração.

Subindo a escada, do outro lado da passagem do quarto. Um degrau, depois outro. Lento, calmo, paciente, chegando mais perto.

Ele também tinha aprendido isso nos primeiros meses. Que ouvia corações. Que ouvia tudo, se prestasse atenção: a respiração de alguém atrás de uma parede, o farfalhar de um pé descalço numa folha lá fora, o zumbido de um inseto do outro lado do quarto. No começo, quase tinha enlouquecido com isso. O mundo era barulhento demais. Agora, na maior parte do tempo, conseguia deixar o som correr por baixo, como o rugido das quedas. Mas um coração que vinha na direção dele sempre o encontrava.

Conhecia aquele coração.

— Eu ouvi você subir — disse, para o teto.

Os passos dela soaram leves no último degrau, e Maelis entrou pela passagem baixa do outro lado do quarto.

Era alta e magra, de uma elegância tão antiga e tão natural que parecia feita para aquele quarto, e não o contrário. O cabelo era escuro, quase preto, preso numa trança longa e simples que descia pelas costas. Os olhos eram de um castanho tão claro que pareciam âmbar, e no escuro do quarto refletiam a luz das flores do teto, como os olhos de todos ali, como os olhos de um gato à noite. Estava descalça, como todo mundo em Ka'aý, e vestia uma túnica de linho cor de areia e, no pescoço, um fio fino de sementes escuras e polidas, e fazia tudo aquilo parecer roupa de rainha.

Parou ao pé da cama. Olhou para ele de cima a baixo, sem pressa, do jeito que olhava para tudo.

— O Rei dormiu demais — disse.

— O Rei sonhou.

— O Rei sempre sonha. — Maelis cruzou os braços. — E o Rei sempre dorme demais. Em trezentos anos, eu nunca vi o Rei acordar na hora uma única vez. Já devia ter me acostumado.

Ele se sentou na cama, puxando o lençol de seda verde até a cintura, e passou as mãos no rosto.

Trezentos anos. Era isso que Maelis achava. Era isso que todo mundo em Undaril achava. Que ele governava ali havia três séculos, que tinha sido escolhido pelo trono num tempo que só os mais velhos lembravam, que tinha estado em cada festa, em cada estação de chuvas, em cada coisa que tinha acontecido em Ka'aý nos últimos trezentos anos. E não estavam mentindo. Ele tinha aprendido, no primeiro mês, que ninguém em Undaril mentia, nunca. Eles acreditavam. Lembravam. Para eles, era verdade.

Para ele, era um ano. Um ano e uns meses.

Nunca tinha dito isso a ninguém. Ninguém nunca tinha perguntado. E, enquanto ninguém perguntasse, ele não precisava responder.

— Então — disse, e endireitou as costas, e ergueu o queixo, e pôs no rosto a expressão que tinha ensaiado por dias no reflexo da piscina, a expressão do Rei de Undaril, calma, distante, um pouco entediada, a de quem já viu tudo e não se impressiona com nada. — Que horas são, Maelis?

Maelis olhou para ele.

Olhou para o queixo erguido. Para as costas retas. Para a expressão ensaiada, um pouco entediada. Olhou por um tempo longo demais.

— Tarde, meu Rei — disse, por fim. Não sorriu. Mas alguma coisa nos cantos da boca dela se mexeu.

Ele assentiu, satisfeito. Tinha funcionado. Estava ficando bom nisso.

Levantou-se. O chão de pedra era morno sob os pés descalços, úmido da névoa que entrava pela cortina de água, e ele atravessou o quarto até a piscina natural que descia em degraus até a beira da queda. Ajoelhou-se na borda. Jogou água no rosto. Estava fria, limpa, com gosto de pedra.

No reflexo, quando a água parou de tremer, ele se viu.

Ainda era estranho, às vezes. Menos do que no começo. O rosto que olhava de volta da água era bonito, ele sabia disso, de um jeito que fazia as pessoas pararem para olhar. Mas não era bonito como os outros rostos de Ka'aý. Os outros elfos eram perfeitos. Os dois lados do rosto exatamente iguais, a pele sem uma marca, os traços tão equilibrados que pareciam ter sido medidos. O dele não. O sorriso saía torto, um lado mais alto que o outro. Uma sobrancelha era um pouco mais grossa. E havia as sardas.

Ninguém em Ka'aý tinha sardas. Ninguém em Undaril. Ele tinha perguntado, uma vez, de um jeito que achou que fosse discreto, e a moça que trazia a fruta de manhã tinha olhado para ele com uma cara tão perplexa que ele nunca mais perguntou. As sardas eram dele. Só dele. Espalhadas pelo nariz e pelas maçãs do rosto, como se alguém tivesse jogado um punhado de areia dourada na cara dele e esquecido de limpar.

Eram as mesmas sardas de antes. As únicas coisas que tinham vindo junto.

Tocou o nariz com a ponta do dedo molhado. Depois se levantou, de costas para a água, antes que o reflexo o fizesse pensar demais.

Maelis já estava estendendo uma túnica para ele. Verde-escura, de linho fino, com um bordado dourado tão discreto nas bordas que só aparecia quando a luz batia.

— A de ontem estava boa — disse ele.

— A de ontem o Rei usou ontem. — Maelis não abaixou o braço. — E anteontem. E no dia anterior. Em Ka'aý, todo mundo repara.

— Em Ka'aý, todo mundo anda pelado na água.

— Exatamente por isso todo mundo repara no que o Rei veste quando sai dela.

Ele pegou a túnica. Vestiu. Maelis ajeitou a gola com dois dedos, rápidos, impessoais, e deu um passo para trás para olhar o resultado. Ele aproveitou e endireitou as costas, a expressão do Rei de Undaril de volta ao rosto.

— Melhor? — perguntou.

— Muito melhor, meu Rei — disse Maelis.

E ele acreditou.

***

Maelis tinha trezentos anos de prática em não rir na cara do próprio Rei. Algumas manhãs eram mais difíceis do que outras.

Aquela era uma das difíceis.

Ela o seguiu pelas passagens que saíam dos aposentos, três passos atrás, como era o costume, pela trilha de pedra que contornava a queda por dentro da montanha até sair na luz do dia. Ele ia na frente, de túnica verde, descalço, com as costas retas, fazendo a cara de Rei. Ela sabia o momento exato em que ele a punha, sem precisar ver: o coração dele dava um tranco pequeno, o tranco de quem se prepara para saltar, e só depois as costas endireitavam e o queixo subia.

Em trezentos anos, ele nunca tinha descoberto que o próprio coração o anunciava.

Era a coisa mais estranha do Rei, e Maelis tinha tido tempo de sobra para catalogar as estranhezas dele. A beleza que não era como a de ninguém. As manchas douradas no rosto, que ele chamava por uma palavra que ela nunca tinha ouvido, e que ele tocava às vezes, distraído, como quem confere se ainda estão ali. O jeito de rir, alto demais, com o corpo inteiro, sem nenhum cuidado. As palavras esquisitas que escapavam dele quando estava cansado ou assustado. A mania de comer com as mãos, sentado no chão, no meio de quem estivesse por perto, e de perguntar o nome de cada um, e de lembrar.

Mas a mais estranha de todas era aquela.

O Rei de Undaril não sabia esconder nada.

Não para quem passasse por ele num corredor. Para esses, o Rei era só estranho: bonito, inquieto, difícil de entender. Mas Maelis não passava por ele num corredor. Estava ao lado dele havia trezentos anos, perto o bastante para ouvir o coração dele por baixo do rugido das quedas, e de perto o coração do Rei falava. Disparava quando ele estava nervoso, tropeçava quando ele dobrava a verdade para si mesmo, desacelerava quando ele estava feliz. O cheiro dele mudava junto, mas nunca uma coisa só de cada vez: medo enroscado em curiosidade, vergonha misturada com riso, uma tristeza de manhã cedo, depois dos sonhos, que ela nunca conseguia separar do resto. Era confuso, desorganizado, difícil de desembaraçar. Mas era tudo verdadeiro, e estava tudo ali, para quem soubesse olhar de perto.

E por cima de tudo isso, ele fazia a cara de Rei. Convencido de que ninguém via.

Todo elfo que Maelis conhecia passava a vida escondendo o que sentia por baixo do encanto, das palavras escolhidas, das verdades contadas na ordem certa. Era o que se fazia. Era o que ela própria fazia, todos os dias, sem pensar, com cada pessoa que cruzava o caminho dela, como respirava. Era tão natural que ela já nem sabia mais quando estava fazendo.

O Rei não fazia nada disso. Não tinha encanto nenhum. Nem um fio. Andava pelo mundo como uma janela aberta, com o vento entrando e saindo, e achava que era uma parede.

Os primeiros séculos tinham sido exasperantes. Maelis lembrava bem. Lembrava de ter tentado ensinar, no começo, de ter perdido a paciência, de ter desistido. Lembrava de cada vez que ele tinha feito a cara de Rei diante de um ancião, e de ter visto o ancião sentir o coração disparado do Rei e sorrir por dentro, como ela sorria agora.

Mas, em algum momento, nesses trezentos anos, sem saber bem quando, ela tinha parado de achar exasperante.

Ninguém mais no mundo era assim. Ninguém em Ka'aý, ninguém em Undaril, ninguém que ela já tivesse conhecido em toda a sua longa vida. Um Rei que não escondia nada. Que tinha medo de verdade, e vergonha de verdade, e alegria de verdade, e não sabia que quem chegasse perto podia sentir. Era como encontrar uma flor que não tinha espinho num lugar onde todas as flores tinham.

Ela nunca diria isso a ele. Era trabalho dela garantir que ele se comportasse como um Rei, não dizer a ele que gostava do Rei exatamente por ele não saber se comportar como um.

Saíram para a luz.

Ka'aý se abriu diante deles do jeito que se abria todas as manhãs, e que Maelis nunca, em toda a sua vida, tinha se cansado de ver. O anel de cachoeiras, imenso, de horizonte a horizonte, despencando no abismo de névoa. Os pavilhões abertos de madeira escura nas encostas e nas ilhas de pedra, com os telhados de cobre verde brilhando molhados ao sol. As pontes de raízes cruzando a névoa de uma ilha a outra. Gente nas pontes, gente nos terraços, gente nadando nos canais lá embaixo, crianças mergulhando das varandas com gritos que o rugido engolia. Uma mulher passou por eles com flores enfiadas no cabelo e uma fruta mordida na mão, viu o Rei, sorriu e disse alguma coisa que fez o Rei rir alto, o riso inteiro, sem cuidado, e esquecer a cara de Rei por completo durante uns três passos.

Depois ele lembrou e a pôs de volta.

Maelis olhou para a névoa para não sorrir.

Foi no meio da manhã, quando o Rei estava sentado no chão do pavilhão grande com os pés num dos canais, ouvindo um elfo de cabelo comprido, deitado de lado na beira do canal, reclamar que as cheias do rio do norte tinham levado a flor preferida dele, que Maelis sentiu o silêncio.

Não era silêncio inteiro. O rugido das quedas nunca parava. Mas por baixo do rugido havia sempre outros sons, os pássaros, os insetos, as vozes, as crianças nos canais, e, de repente, todos eles pararam juntos. Os pássaros calaram. As crianças nos canais pararam de gritar e olharam para cima. O elfo da flor parou no meio da frase.

Maelis se virou para a borda do pavilhão, para onde todos estavam olhando, e sentiu o frio subir pela nuca antes de ver.

Na água do canal mais largo, logo abaixo do pavilhão, onde a névoa das quedas encostava na superfície, havia alguma coisa.

Uma cabeça. Um rosto saindo da água. Um rosto bonito demais, quase como o de um elfo, de pele cor de folha molhada, com o cabelo escuro escorrendo pelos ombros como algas. Os olhos eram amarelos, com a pupila fina e vertical de uma cobra. Ela subiu um pouco mais, devagar, e Maelis viu os ombros, os braços longos demais, o tronco. E, abaixo da cintura, onde a água ficava escura, um corpo que não terminava. Que continuava, e continuava, se dobrando sob a superfície do canal em curvas grossas e lentas, muito mais compridas do que qualquer corpo devia ser.

Uma Norat.

Maelis não via uma Norat tão perto de Ka'aý fazia mais de cem anos. Elas ficavam na borda. Sempre na borda, onde a floresta encontrava o mundo, chamando quem não devia entrar. Ninguém em Undaril se aproximava delas, e elas não se aproximavam de ninguém. Era a regra mais antiga de todas, mais antiga que qualquer elfo vivo: não responder a uma voz que chama.

E a Norat não estava chamando ninguém. Estava parada na água, olhando para o pavilhão. Olhando para o Rei.

Maelis sentiu o puxar. Aquela coisa que não era um som, que vinha da Norat como calor vem do fogo, que dizia *venha*, *venha*, sem palavra nenhuma. Ela tinha quase quatro mil anos e tinha aprendido a resistir a qualquer encanto do mundo, e ainda sentiu as pernas quererem andar. Fincou os pés no chão. À volta dela, os outros elfos do pavilhão tinham dado um passo para trás, todos ao mesmo tempo, sem perceber.

O Rei não deu passo nenhum para trás.

Tirou os pés do canal. Levantou-se. Maelis ouviu o coração dele disparar, rápido, rápido, e sentiu o medo nele, misturado com alguma outra coisa que ela não soube dizer. E ele andou até a beira do pavilhão. Até a borda de madeira, logo acima da água onde a Norat esperava.

— Meu Rei — disse Maelis, baixo.

Ele não se virou. Mas levantou uma das mãos, um pouco, ao lado do corpo. *Espera.* Ela esperou.

O Rei se agachou na beira do pavilhão. A Norat subiu na água até ficar com o rosto a um braço do dele.

E falou.

Maelis não entendeu as palavras. Era uma língua que ela nunca tinha ouvido, mais antiga que a forma antiga dos juramentos, mais antiga que qualquer coisa que os anciãos de Ka'aý soubessem. Uma língua de sons molhados e sibilantes, como água correndo sobre pedra lisa, como folhas se arrastando no chão. A Norat falava baixo, e o Rei ouvia, agachado, imóvel, com o coração disparado, e de vez em quando assentia.

Maelis não sabia que o Rei entendia aquela língua. Em trezentos anos, nunca tinha ouvido falar disso. Olhou para as costas dele e sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que havia coisas no próprio Rei que ela não conhecia.

A Norat falou por muito tempo. Depois parou. Ficou um momento olhando para o Rei com aqueles olhos de pupila fina. E afundou, devagar, sem um ruído, e a água do canal se fechou sobre ela como se nunca tivesse havido nada ali.

Os pássaros voltaram a cantar.

O Rei ficou agachado na beira do pavilhão mais um tempo. Quando se levantou, o coração dele ainda batia rápido, mas outra coisa tinha mudado no cheiro dele. Não era mais só medo. Era alguma coisa mais quente, mais firme, que Maelis demorou a reconhecer, porque nunca a tinha sentido nele antes.

Raiva.

Ele se virou para o pavilhão. Para Maelis, para o elfo da flor, para os elfos que tinham dado um passo para trás.

— Os de fora estão acampados na borda do norte — disse. A voz dele saiu firme, grave, sem cara de Rei nenhuma. — Viajantes. Falaram demais perto da floresta, achando que ninguém escutava. Elas escutaram.

Ninguém disse nada.

— Vai ter um baile — continuou o Rei. — No reino das nuvens, ao norte. Um baile grande, com todos os reis do mundo. E no meio do baile os reis vão se reunir para falar da floresta. Um deles quer abrir uma passagem por Undaril. Para o bem de todos, ele diz. O rei da pedra vermelha.

O silêncio no pavilhão ficou pesado.

Abrir uma passagem por Undaril. Maelis sentiu a frase como sentiria uma mão estranha no próprio pescoço. Undaril estava fechada desde antes de ela nascer. Desde antes de a mãe dela nascer. Ninguém entrava. Ninguém saía. Era assim que tinha sido, era assim que era, era assim que Undaril existia. E reis de fora, num salão em cima das nuvens, iam decidir se isso continuava.

— Eles vão decidir isso sem nós — disse o elfo da flor, devagar. — Undaril nunca vai aos bailes.

— Não — disse o Rei. — Nunca vai.

Ficou um momento calado, olhando para a névoa das quedas.

Depois se virou para Maelis.

E Maelis soube, antes que ele abrisse a boca, porque o coração dele contou primeiro. Batia daquele jeito que batia quando ele estava prestes a fazer uma coisa que todo mundo ia achar loucura e que ele já tinha decidido fazer de qualquer jeito.

— Desta vez, vai — disse o Rei.

— Ninguém convidou o Rei — disse Maelis.

— Eu sei.

— Undaril não sai da floresta há mais tempo do que qualquer um aqui consegue lembrar.

— Eu sei.

— A corte não sabe mais como se comporta um rei lá fora. Os outros reinos vão olhar para nós como olham para bicho que sai do mato.

— Então a corte vai ter que lembrar. — Ele se endireitou, e a cara de Rei voltou ao rosto dele, decidida. Mas desta vez, Maelis reparou, o coração dele concordava com a cara. Pela primeira vez em trezentos anos, batiam no mesmo ritmo. — Eles vão falar da minha casa, Maelis. Não vão fazer isso sem mim na sala.

Maelis olhou para ele por um longo momento.

Pensou em todas as razões pelas quais aquilo era uma péssima ideia. Eram muitas. Pensou na corte de Ka'aý, que guardava as maneiras de um tempo que ninguém lembrava direito, e que ia ter de pôr tudo isso para fora diante dos reis do mundo inteiro, pela primeira vez em gerações. Pensou nas roupas. Nas reverências. Pensou no Rei, sem um fio de encanto, com o coração falando mais alto que qualquer coisa que ele dissesse, num salão cheio de gente que passava a vida escondendo o que sentia.

Ia ser um desastre.

— Como o Rei quiser — disse.

E saiu do pavilhão, a passos rápidos, já fazendo a lista de tudo o que precisava ser lembrado, tecido e ensinado antes que o Rei de Undaril saísse da floresta pela primeira vez em trezentos anos, e fizesse a cara de Rei diante do mundo inteiro.

Só lá fora, na ponte de raízes, com a névoa no rosto e ninguém olhando, Maelis se permitiu sorrir.




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