Capítulo-01
Eu me lembro como se fosse ontem.
Estava correndo daquela chuva pesada de março de 1982 — tão forte que a água parecia perfurar minha jaqueta. Entrei na primeira porta que vi aberta; era uma cafeteria renomada do bairro, a John’s Café. Eu me lembro bem desse nome.
Adentrei o local com os sapatos encharcados, soltando estalos molhados contra o piso limpo a cada passo. O som ecoava de forma desconfortável, e a única coisa que eu queria era poder tirá-los dos pés. Minha jaqueta estava igualmente molhada, se não mais. Caminhei até a mesa mais próxima e me sentei, jogando o pano pesado no assento ao lado na esperança de que secasse ao menos um pouco.
Suspirei fundo e murmurei para mim mesmo:
— Pelo menos encontrei este lugar... parece aconchegante.
Olhando ao redor com mais calma, senti uma elegância serena vinda do ambiente. Transmitia a sensação de um negócio familiar — o que fazia sentido, já que o nome não devia ser por acaso. O espaço exalava cheiro de café fresco de qualidade, tinha bancos estofados em um bom couro sintético e luzes de tom amarelado que descansavam os olhos.
Logo abaixo do meu nariz, sobre a mesa, repousava o cardápio. Era bonito, feito de um plástico rígido de ótima qualidade, com opções variadas e bem distribuídas, sem exageros. Peguei o menu e passei os olhos pelas páginas.
— Um café expresso com leite e creme... acho que o simples vai cair bem.
— Atendente! — chamei calmamente, aguardando com paciência.
Logo veio uma moça de estatura mediana, vestindo um avental impecavelmente cuidado. Seu cabelo, negro como a noite, caía solto cobrindo parte do rosto, mas brilhava sob a iluminação quente da casa. Quando ela me olhou, vi olhos grandes, cor de mel, que carregavam uma serenidade e uma gentileza que eu não encontrava há muito tempo.
— Um café expresso com leite e creme, por favor — pedi, ainda um pouco impressionado com a presença dela.
Ela respondeu com uma voz tão doce que parecia harmonizar com o silêncio do lugar:
— Certo! O seu café estará servido em alguns minutos. Aguarde, por favor.
Assenti com a cabeça de forma cordial, concordando com a espera. O movimento na cafeteria era leve, o que me deixava calmo; nunca fui muito amigo de barulho ou multidões nos lugares que frequento.
Cerca de dez minutos depois, a bela atendente retornou, trazendo a xícara com delicadeza e depositando-a suavemente sobre a mesa.
— Aqui está, senhor. Perdoe-me o atraso. Espero que aproveite e, qualquer coisa, estou à disposição.
Tamanha educação me impressionou, ainda mais nos dias de hoje. Agradeci em tom baixo e ela voltou ao seu posto. Dei um pequeno gole: o sabor estava perfeitamente equilibrado. Deliciei-me com a bebida até a última gota. A vontade era pedir outra rodada, mas me segurei.
"Preciso voltar para casa, já são sete da noite."
Levantei-me devagar, peguei minha jaqueta — que ao menos teve tempo de secar levemente —, vesti-a e fui até o balcão.
— Boa noite. Cinco dólares, correto?
ela assentiu serenamente:
— Sim, senhor.
Levei a mão ao bolso da calça e tirei minha carteira de couro. Ao abri-la, o fecho deu um leve click no silêncio do balcão. Puxei uma nota de cinco dólares e a entreguei na mão dela.
— Muito obrigada! Volte sempre — disse ela, com um entusiasmo genuíno. — Como estava o café?
Esforcei-me para fixar meu olhar diretamente nos olhos dela, sustentando o contato sem desviar:
— Estava ótimo. Nunca pensei que um expresso simples com creme pudesse ser tão bom.
Ela soltou uma risada curta e divertida:
— Para ser sincera, nem sou tão fã de expresso com creme, mas tentei o meu melhor. Você é divertido... muito diferente dos clientes que costumam passar por aqui. Espero ver você de novo. Quem sabe me dar a graça da sua presença fora do meu expediente?
Fiquei lisonjeado.
— Se não for incômodo, poderíamos marcar algo sim. Você tem papel e caneta?
Ela se apressou atrás do balcão e voltou com um pequeno bloco de notas e uma caneta azul. Seu tom de voz agora transparecia uma ansiedade animada:
— Aqui está.
Comecei a anotar meu número de telefone nas folhas pequenas.
— Me ligue quando puder. Agora preciso ir... e obrigado pelo ótimo café.
Ela se despediu acenando. Empurrei a porta de vidro, fazendo o sininho prateado badalar acima da minha cabeça, e pisei na calçada molhada. Os carros passavam cortando as poças e levantando água. Acenei para a rua e um táxi encostou. O motorista era um homem moreno, de estatura alta.
— Rua Grove, 402 — disse a ele, antes de entrar no carro e partir.
Desci na frente do prédio, agradeci ao motorista e lhe entreguei uma nota de vinte dólares pelo deslocamento. Subi até o meu andar. A luz do corredor estava tranquila hoje, diferente das piscadas bruscas que costumavam acontecer nessa época do ano.
Apartamento 06.
Puxei a chave do bolso esquerdo e a introduzi na fechadura. A porta se abriu para o meu lar simples, mas aconchegante: um pequeno sofá macio encostado na parede de frente para a TV, meu toca-discos na prateleira ao lado e, abaixo dele, uma cesta repleta de vinis — uma das poucas coisas que me faziam relaxar, além da minha pequena adega improvisada com bons vinhos e uísques guardados há tempos.
Caminhei pelo pequeno corredor em direção ao quarto. Minha cama de solteiro tinha um bom colchão, lençóis quentes e travesseiros confortáveis. Tirei a jaqueta e a pendurei em um mancebo branco. Despi-me e fui para o banheiro tomar um banho quente.
A fumaça inundou o cômodo, embaçando os espelhos. Sequei-me, vesti roupas leves, me deitei na cama e adormeci rapidamente, entregue ao cansaço de um dia cheio.








