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AMOR FORA DO ROTEIRO

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Summary

Uma atriz famosa, um herdeiro sob pressão e uma crise capaz de destruir um império gastronômico. Quando seus caminhos se cruzam, ambição, conflitos e sentimentos inesperados ameaçam mudar tudo

Status
12h ago
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
16+

Marcas do passado

Ela tinha dezenove anos quando aprendeu que amor não se guarda.

Foi numa tarde de sábado, num apartamento pequeno demais para tanta briga. Ela lembra do barulho da mala sendo arrastada pelo corredor, do cheiro de cigarro que ficou na cortina por semanas, do jeito que o homem que dizia amá-la olhou para ela antes de fechar a porta: como se ela fosse um problema que ele finalmente tinha resolvido.

Ele não voltou. E ela nunca mais acreditou muito em quem prometia ficar.

Dezoito anos depois, Graciele Almeida estava parada no centro do estúdio, sob a luz branca e implacável dos refletores, com o rosto molhado de lágrimas que não eram dela.

— Corta! — a voz do diretor cortou o silêncio. — Perfeito, Graciele. Perfeito.

O estúdio explodiu em aplausos. Técnicos, figurantes, a equipe inteira. Graciele piscou uma, duas vezes, e em três segundos o choro secou como se nunca tivesse existido. Ela passou a mão pelo rosto, ajeitou o cabelo e sorriu — aquele sorriso dela, de quem sabe exatamente o efeito que causa.

— Vocês aplaudem assim toda vez, gente — ela disse, pegando a garrafa de água que alguém lhe estendeu. — Vou começar a achar que estão me bajulando.

— Você acabou de fazer uma cena de despedida em plano-sequência, sem corte, sem dublê, chorando de verdade — respondeu o diretor, aproximando-se. — Se isso não é motivo pra aplauso, eu não sei o que é.

Graciele deu de ombros, mas o sorriso dela se abriu um pouco mais. Ela sabia. Ela sempre soube.

Meia hora depois, já fora do figurino e dentro de um casaco de cashmere que custava mais do que o salário mensal de metade da equipe ali, ela atravessava o corredor em direção à saída. Foi quando uma mão familiar tocou seu braço.

— Você tá voando, hein?

Graciele virou o rosto e encontrou Bia. Beatriz Campos, melhor amiga desde os tempos da escola de teatro, a única pessoa no mundo que a chamava de "Gra" e que ainda tinha coragem de dizer verdades na cara dela.

— Sempre voo — respondeu Graciele, sem falsa modéstia. — Você me viu lá dentro. Tava impecável.

— Tava. Como sempre. — Bia caminhou ao lado dela, as duas descendo a escada do prédio. — Você atua como ninguém, Gra. Sério. Todo mundo sabe disso.

— Você vai me dizer alguma coisa ruim agora. Tô sentindo.

— Não é ruim. — Bia parou no último degrau. Graciele parou também, um degrau acima, olhando para ela. — É só uma pergunta.

— Fala.

Bia hesitou. Ajeitou a alça da bolsa, olhou para o chão, depois de volta para a amiga.

— Você vai continuar assim?

Graciele franziu a testa.

— Como assim, continuar assim?

— Sozinha. — A palavra saiu baixa, quase um sussurro. — Depois de tudo o que aconteceu com o Rafael. Depois de tudo o que você descobriu sobre ele. Você vai continuar com a mesma cabeça? Vai continuar achando que não dá pra confiar em mais ninguém?

O rosto de Graciele não mudou. Mas algo nos olhos dela fechou, como uma porta que alguém bate de leve, mas que fica trancada por dentro.

— Bia.

— Eu só quero saber se você tá bem, Gra. Só isso.

— Eu tô ótima. — Graciele desceu o último degrau e passou por ela. — Tô melhor do que nunca, aliás. Acabei de gravar a melhor cena da minha carreira, tenho três contratos esperando assinatura, e amanhã eu vou naquele leilão de joias que eu te mostrei semana passada.

— Gra...

— Não quero falar sobre isso. — Ela parou de costas, sem se virar. — Não quero falar sobre homens, não quero falar sobre confiança, não quero falar sobre o passado. Eu quero viver a minha vida do jeito que eu gosto. E o jeito que eu gosto, Bia, é gastando o meu dinheiro e sendo feliz sozinha.

Ela se virou, então. O sorriso estava de volta, perfeito, ensaiado, brilhante.

— E eu sou muito boa nisso.

Bia suspirou, mas não insistiu. As duas se abraçaram rápido, um beijo no rosto, e Graciele entrou no carro que a esperava na calçada. Antes de fechar a porta, ela ainda disse, com aquele deboche que era só dela:

— Semana que vem eu te levo pra ver as joias. Você vai passar mal com o que eu vou comprar.

Bia riu, sem graça, e assistiu o carro sumir na esquina.

Do outro lado da cidade, num prédio de mármore e vidro fumê, Nataniel nogueira estava sentado na cadeira da sala de reuniões com os olhos fixos numa planilha que ele já tinha lido três vezes.

— Os números estão bons, senhor.

Cristopher estava de pé ao lado dele, tablet na mão, postura impecável de quem sabia exatamente o valor do próprio salário.

— Bons como? — Nataniel não levantou os olhos.

— Reservas lotadas para as próximas seis semanas. O faturamento do trimestre subiu onze por cento em relação ao ano passado. A avaliação da crítica gastronômica saiu ontem e o Guernoi foi o único restaurante da cidade a manter as cinco estrelas.

Nataniel assentiu, devagar. Fechou a pasta.

— A minha avó vai ficar satisfeita.

— A senhora Anastácia vai ficar muito satisfeita — corrigiu Cristopher, com um meio-sorriso.

Nataniel ergueu os olhos para ele. Não sorriu de volta.

— Você tem alguma coisa pra me dizer, Cristopher?

— Não, senhor. Só o que está nos relatórios.

— Então pode ir.

Cristopher fez uma pequena reverência e saiu da sala. A porta fechou com um clique silencioso.

Nataniel ficou sozinho. Olhou pela janela de vidro fumê, lá embaixo, a cidade pulsando na luz do fim da tarde. Ele estava a uma semana de assumir oficialmente o comando do restaurante que sua avó tinha construído com as próprias mãos. Uma vida inteira de trabalho. Um nome que valia mais do que qualquer dinheiro.

Ele deveria estar tranquilo.

Não estava.

Do outro lado da cidade, numa casa grande demais para duas pessoas, Ariana servia uma taça de vinho para o filho e sorria como quem já sabia o final da história.

— Finalmente — disse Natanael, recostando-se no sofá, o copo girando entre os dedos. — Finalmente eu vou poder ter o cargo que eu sempre quis naquele restaurante.

Ariana ergueu a própria taça.

— É só uma questão de tempo, meu filho.

— Quanto tempo?

Ela bebeu um gole devagar, os olhos brilhando à luz do abajur.

— O suficiente.

Natanael sorriu. Um sorriso que não tinha nada de inocente.

— Eu esperei a vida inteira por isso, mãe. A vida inteira.

Ariana pousou a taça na mesa e olhou para ele com a mesma determinação fria que carregava desde que o irmão tinha herdado tudo o que ela achava que era dela por direito.

— E agora — ela disse — ninguém vai ficar no seu caminho.

Continua...

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