Chapter 1
Liana ,12 anos
Acordei com uma dor que nunca havia sentido antes.
Era uma pontada incômoda no baixo-ventre, profunda o bastante para me fazer encolher sob as cobertas. Levei uma das mãos à barriga e pressionei o tecido da camisola contra a pele, esperando que a dor passasse. Talvez tivesse comido alguma coisa estragada no jantar. Talvez fosse apenas mais uma daquelas dores que apareciam de vez em quando e desapareciam sozinhas.
Ainda sonolenta, afastei os lençóis.
E o mundo parou.
Uma mancha vermelha se espalhava pelo colchão, bem debaixo de mim.
Por alguns segundos, fiquei olhando para ela, incapaz de compreender o que estava vendo. O vermelho parecia vivo contra o branco impecável da roupa de cama. Pisquei repetidamente, como se a imagem fosse desaparecer quando eu abrisse os olhos outra vez.
Não desapareceu.
― Não... Não, não, não
As lágrimas encheram meus olhos enquanto eu saltava da cama e começava a arrancar a roupa de cama, os dedos trêmulos se atrapalhando com o tecido. Precisava esconder aquilo. Precisava fazer a mancha desaparecer antes que alguém entrasse no quarto.
Meus pais não podiam descobrir.
Não ainda.
Desde os nove anos, eu sabia que seria prometida ao primogênito da família Scarpelli assim que me tornasse uma "mocinha"como minha mãe costumava dizer. Naquela época, eu não compreendia inteiramente o significado daquelas palavras, mas aprendera cedo o suficiente que, para as famílias da Cosa Nostra, o casamento de uma filha não era uma questão de amor. Era uma questão de negócios.
E eu estava destinada a me casar com Darius Scarpelli.
Só de pensar naquele nome, meu estômago se revirava.
Darius tinha quatorze anos, dois a mais que eu, e era um verdadeiro terror.
Minha primeira lembrança dele era a de minha boneca favorita desaparecendo nas águas do rio. Ele a arrancara das minhas mãos e a arremessara na correnteza, depois ficara observando enquanto eu chorava. O pior não fora perder minha boneca, mas vê-lo rir do meu desespero, como se minhas lágrimas fossem a coisa mais engraçada que já havia presenciado.
Eu tinha apenas sete anos.
Ficara tão abalada que adoecera, passando dois dias de cama, com febre. Desde então, tivera certeza de que Darius Scarpelli era um demônio disfarçado de menino.
E, com o passar dos anos, ele só se tornara pior.
Darius nunca perdia uma oportunidade de me atormentar. Sempre encontrava alguma coisa para ridicularizar, alguma fraqueza para explorar, algum comentário cruel capaz de me fazer desejar desaparecer. Estudarmos na mesma escola tornava tudo ainda mais insuportável. Eu nunca sabia quando ele surgiria para transformar um dia tranquilo em mais uma de suas pequenas crueldades.
Agora, porém, havia algo muito pior do que encontrá-lo nos corredores da escola.
O casamento.
Eu sequer queria imaginar como Darius agiria quando o contrato matrimonial fosse finalmente selado. Se já era insuportável agora, o que aconteceria quando ele tivesse o direito de me chamar de esposa?
Eu sabia que ele odiava aquela união tanto quanto eu. Darius jamais escondera seu desprezo pela ideia de se casar comigo. Ainda assim, nenhum de nós tinha poder suficiente para desafiar as decisões de nossas famílias.
Na Cosa Nostra, promessas feitas entre famílias poderosas não eram facilmente desfeitas.
E, aparentemente, nem mesmo a infância de uma menina era motivo suficiente para adiá-las.
Apertei os lençóis contra o peito e espiei o corredor. Não havia ninguém à vista. A casa parecia mergulhada no silêncio da manhã, e aproveitei a oportunidade para sair do quarto.
Precisava chegar à lavanderia antes que alguém me encontrasse.
Meu pai era o temido Don Moretti, um homem acostumado a saber de tudo o que acontecia sob seu teto. Naquela casa, segredos tinham vida curta, e eu não estava disposta a permitir que o meu chegasse aos ouvidos dele.
Caminhei depressa, quase na ponta dos pés, tomando cuidado para não fazer barulho. Os lençóis escondiam minhas mãos, e eu os apertava com tanta força que meus dedos começaram a doer.
Estava prestes a virar o corredor quando esbarrei em alguém.
― Cuidado, *signorina
Ergui a cabeça e senti o sangue gelar.
Vito.
Um dos guardas de maior confiança do meu pai.
Ele me observou por um instante, provavelmente intrigado ao encontrar a filha do Don andando pela casa com um amontoado de roupa de cama nos braços. Então, seu olhar desceu até o tecido.
― Algum problema, *signorina ?
― Nenhum! ― respondi depressa demais. ― Eu só preciso levar esses lençóis para a lavanderia. Estão sujos.
Vito ergueu uma sobrancelha.
― As criadas são responsáveis por isso. A senhorita não deveria estar fazendo o trabalho delas.
― Eu sei, mas... ― Desviei os olhos. ― Não tem problema. Eu mesma posso cuidar disso.
Eu era uma péssima mentirosa. Sempre fora. E, naquele momento, o nervosismo tornava ainda mais difícil fingir naturalidade.
Vito estendeu a mão.
― Entregue-os a mim. Vou pedir a uma das criadas que cuide disso.
Meu coração começou a bater descontroladamente.
― Não precisa. Sério. Eu consigo...
― Eu insisto, *bambina.
Antes que pudesse inventar outra desculpa, ele segurou os lençóis e os puxou das minhas mãos. Tentei me agarrar ao tecido, mas ele era mais rápido e muito mais forte.
Por um breve instante, Vito pareceu não compreender o motivo de tanta resistência.
Então, viu a mancha.
O vermelho vivo sobre o branco do tecido.
Acompanhei o movimento de seus olhos e senti o mundo desabar ao meu redor.
Não.
Por favor, não.
Vi o instante exato em que ele compreendeu. O homem permaneceu em silêncio, segurando os lençóis, enquanto meu rosto ardia e as lágrimas começavam a escorrer pelas minhas bochechas.
Meu segredo havia sido descoberto.
― Oh, *bambina... ― murmurou ele, a voz subitamente mais branda.
Balancei a cabeça, desesperada.
― Por favor, Vito. Não conte ao meu pai.
A súplica saiu tão baixa que mal passou de um sussurro.
Eu não me importava com a dor no ventre, com a mancha no colchão ou com o sangue que ainda não compreendia inteiramente. Naquele momento, só conseguia pensar em uma coisa.
Minha mãe me dissera que, quando me tornasse uma mocinha, precisaria começar a me preparar para o futuro que me aguardava.
E o meu futuro tinha nome e sobrenome.
Darius Scarpelli.
Se meu pai descobrisse que eu havia menstruado, o casamento poderia se tornar uma realidade muito mais próxima do que eu estava preparada para suportar.
Vito olhou para mim, para minhas mãos trêmulas e minhas lágrimas silenciosas.
Prendi a respiração, esperando por uma resposta.
Mas ele não prometeu guardar segredo.
E, pela primeira vez naquela manhã, percebi que talvez não houvesse nada que eu pudesse fazer para impedir que minha vida mudasse para sempre.
♾️
Observei o lençol com a prova da minha mocidade, agora exposto na janela como um troféu, e cravei as unhas na palma da mão.
Era humilhante.
Eu ainda era uma criança, mas minha intimidade estava sendo exibida para todos, como se o sangue que manchava o tecido fosse motivo de orgulho. Queria arrancá-lo dali, escondê-lo em algum lugar onde ninguém pudesse vê-lo. Queria que todos parassem de olhar.
Mas ninguém parecia se importar com o que eu sentia.
Parada diante da enorme casa em estilo toscano onde minha família vivia, desviei os olhos da janela a tempo de ver Darius sair do carro em que sua família havia chegado.
Ele foi o primeiro a notar o lençol.
Seus olhos acompanharam o tecido branco que tremulava ao vento como uma bandeira macabra. Depois, lentamente, seu olhar encontrou o meu.
Estremeci e me aproximei ainda mais de mamãe, que sorria para os recém-chegados como se aquele fosse um dia de celebração.
Os Scarpelli pareciam exultantes. Cercados por seus capangas, aproximaram-se de nós com a confiança arrogante de homens acostumados a serem obedecidos.
― Que notícia maravilhosa, Moretti! ― exclamou o pai de Darius, abrindo os braços. ― Finalmente poderemos selar nossa aliança.
Meu pai apertou a mão do outro Don, e os dois trocaram os tradicionais beijos no rosto. Eram homens que comandavam impérios construídos sobre sangue, lealdade e medo, mas, naquele momento, pareciam apenas velhos amigos prestes a fechar um negócio particularmente lucrativo.
― Um dia de festa, sem dúvida ― respondeu meu pai.
Os dois riram.
Eu não conseguia compreender o que havia de tão alegre.
Depois dos cumprimentos, fomos conduzidos para o interior da casa. O perfume das flores frescas misturava-se ao aroma da comida preparada pelas criadas, e a luz do sol atravessava as altas janelas, iluminando os móveis antigos e os quadros de nossos antepassados.
Tudo parecia perfeito.
Tudo, menos eu.
Não soltei a mão de mamãe nem por um instante. Sentia o olhar de Darius sobre mim a cada passo, como uma presença incômoda que eu não conseguia afastar.
Quando finalmente criei coragem para olhar em sua direção, encontrei-o observando-me com aquele sorriso torto que eu aprendera a detestar.
Ele inclinou a cabeça, apontando discretamente para a janela.
Meu rosto queimou.
Darius soltou uma risadinha pelo nariz antes de se virar para acompanhar o pai.
Eu o odiei naquele instante com uma intensidade que uma menina de doze anos sequer deveria conhecer.

A reunião aconteceu na biblioteca de meu pai.
Era o cômodo mais imponente da casa, com estantes de madeira escura que alcançavam o teto, uma enorme lareira de mármore e retratos de homens Moretti que haviam morrido muito antes de eu nascer. Meu pai dizia que cada um deles havia contribuído para construir o império que agora estava sob seu comando.
Naquela tarde, eu tive a impressão de que todos os homens retratados nas paredes estavam me observando.
Os dois Dons sentaram-se diante da lareira, cada um acompanhado de seus conselheiros. Minha mãe permaneceu ao meu lado, elegante em seu vestido claro, enquanto eu segurava sua mão,tentando ocupar o menor espaço possível.
Darius ficou perto da janela, com as mãos nos bolsos da calça. Parecia entediado, como se preferisse estar em qualquer outro lugar.
Pela primeira vez naquele dia, concordei com ele.
Eu também queria estar em qualquer outro lugar.
― Hoje é um dia importante para nossas famílias ― começou meu pai, servindo-se de uma dose de uísque. ― Construímos nossos impérios separadamente, mas sabemos que uma aliança entre os Moretti e os Scarpelli nos tornará ainda mais fortes.
O pai de Darius assentiu.
― Nossos pais já compreendiam o valor da lealdade. Agora cabe a nós garantir que nossos filhos herdem mais do que nossos nomes. Devemos garantir que herdem também nossos laços.
Olhei para mamãe.
Ela mantinha um sorriso discreto, mas havia algo em sua expressão que não consegui decifrar. Talvez tristeza. Talvez resignação.
Eu queria perguntar se ela também achava tudo aquilo absurdo.
Queria saber se, quando deixara o Brasil para se casar com meu pai, alguém havia decidido seu futuro por ela.
Mas permaneci calada.
Naquela casa, crianças não interrompiam os Dons.
― A promessa foi feita há muitos anos ― continuou o pai de Darius. ― Nossos filhos foram destinados um ao outro antes mesmo de compreenderem o significado de uma aliança.
Meu estômago se contraiu.
Eu conhecia aquela história. Já a ouvira inúmeras vezes, sempre contada como se fosse um conto de fadas. A diferença era que, no nosso conto, a princesa não escolhia o príncipe, e ninguém se importava se ela era feliz para sempre.
― Há apenas uma questão a resolver ― disse meu pai. ― 17 anos é muito jovem,queremos mudar a idade para futuro casamento.
Pela primeira vez, senti um pequeno alívio.
Talvez ele não quisesse que eu me casasse tão cedo. Talvez, apesar de todas as tradições, meu pai compreendesse que eu ainda precisava de tempo.
O pai de Darius soltou uma risada baixa.
― Naturalmente. Podemos negociar isso.
Os homens trocaram olhares cúmplices.
― Proponho que o casamento aconteça quando Liana completar vinte e um anos ― declarou meu pai. ― Até lá, ambos terão tempo para amadurecer e compreender suas responsabilidades.
Vinte e um anos.
Fiz as contas mentalmente.
Nove anos.
Eu teria de esperar nove anos.
Nove anos até que minha vida deixasse de me pertencer.
Deveria ter ficado aliviada. Nove anos pareciam uma eternidade para uma menina de doze, tempo suficiente para terminar os estudos, crescer e talvez descobrir uma maneira de escapar daquele destino.
Mas, ao olhar para Darius, percebi que ele não parecia nem um pouco satisfeito.
― Vinte e um? ― repetiu ele, afastando-se da janela. ― Preciso esperar nove anos para me casar com ela?
Seu pai lançou-lhe um olhar de advertência.
― Darius.
― Estou apenas perguntando.
― E eu estou lhe dizendo para se comportar.
Ele apertou a mandíbula, mas se calou.
Tive vontade de sorrir. Era raro ver alguém repreendê-lo, e a satisfação durou até que seus olhos encontraram os meus.
O sorriso morreu antes mesmo de nascer.
― Vinte e um anos é uma idade razoável ― concordou o pai de Darius. ― Mas precisamos garantir que não haja dúvidas sobre o compromisso. Até lá, nenhuma das famílias poderá negociar outro casamento para seus herdeiros.
Meu pai apoiou o copo sobre a mesa.
― Concordo.
― E a união será irrevogável ― acrescentou o outro Don. ― Nossos filhos se casarão, independentemente das circunstâncias.
Aquelas palavras fizeram meu peito apertar.
Independentemente das circunstâncias.
E se eu não quisesse?
E se Darius continuasse me odiando?
E se, durante aqueles nove anos, eu descobrisse que existia uma vida diferente daquela que haviam escolhido para mim?
Nenhum daqueles homens parecia considerar essas possibilidades.
― Então estamos de acordo ― declarou meu pai.
O pai de Darius estendeu a mão.
― Aos Moretti e aos Scarpelli. Que nossa aliança perdure por gerações.
Meu pai apertou a mão dele.
Os dois sorriram, satisfeitos, enquanto os conselheiros assentiam em aprovação. Uma garrafa de vinho foi aberta, e alguém sugeriu um brinde.
Foi assim que meu futuro foi decidido.
Sem que me perguntassem o que eu desejava.
Sem que me dessem a oportunidade de dizer não.
Eu estava sentada ao lado da minha mãe, segurando sua mão com tanta força que meus dedos doíam, enquanto dois homens celebravam a promessa de entregar nossa vida um ao outro.
― Venha cá, Darius ― chamou seu pai.
O garoto se aproximou com uma expressão contrariada.
― Cumprimente sua futura esposa.
Senti o sangue fugir do meu rosto.
Darius parou diante de mim e estendeu a mão, como se estivéssemos nos apresentando em um salão de festas, e não selando um acordo que nos prenderia pelo resto da vida.
Olhei para aquela mão por alguns segundos.
Não queria tocá-la.
Ainda assim, mamãe apertou meus dedos suavemente, lembrando-me de que todos estavam observando.
Respirei fundo ,me levantei e coloquei minha mão na dele.
A palma de Darius estava quente. Seus dedos se fecharam ao redor dos meus, e ele se inclinou ligeiramente, aproximando o rosto do meu.
― Nove anos, Moretti ― sussurrou, baixo o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir. ― Aproveite enquanto pode.
Meu coração disparou.
Ergui os olhos, encontrando o sorriso cruel que conhecia tão bem.
― Porque, quando chegar a hora, você vai ser minha.
Soltei sua mão como se tivesse tocado em fogo.
Darius sorriu e se afastou, satisfeito com o efeito de suas palavras.
Eu queria chorar. Queria correr para o meu quarto, arrancar o lençol da janela e me esconder até que todos fossem embora.
Em vez disso, permaneci sentada, imóvel, enquanto os adultos brindavam à nossa união.
Naquela tarde, os Moretti e os Scarpelli selaram um acordo.
Meu pai ganhou um aliado. O pai de Darius garantiu o futuro de sua família.
E eu ganhei um noivo.
Um garoto cruel que parecia sentir prazer em me fazer sofrer.
Naquele momento, jurei a mim mesma que jamais me apaixonaria por Darius Scarpelli.
Se o destino insistia em me transformar na esposa dele, eu encontraria uma maneira de sobreviver àquele casamento.
E, se precisasse, passaria os nove anos seguintes planejando minha fuga.








