Capítulo 1. A Noiva Rica
— A senhora tem certeza de que não quer ver o modelo de cima? — perguntou o vendedor pela terceira vez.
— Tenho — respondeu Lia.
Ela estava sentada do outro lado da mesa com as costas retas, as mãos uma sobre a outra em cima da bolsa, e um copo de água com gás que tinha pedido ao chegar e que o vendedor tinha ido buscar pessoalmente, porque a concessionária não tinha água com gás e ele não quis admitir isso a uma moça com aquelas pérolas.
O carro que ela tinha escolhido estava no fundo do salão, entre um pilar e uma planta artificial. Era um hatch prata, o modelo de entrada, sem teto solar, sem rodas especiais, sem nada que alguém fosse lembrar dez minutos depois de ter visto. Lia tinha escolhido a cor depois de quarenta minutos parada na calçada em frente à concessionária, contando os carros que passavam. Prata ganhava de branco por pouco. Ninguém, em quarenta minutos, tinha virado a cabeça para olhar um carro prata.
— É que, com todo o respeito, a senhora... — O vendedor olhou para a bolsa dela, depois para os brincos, depois para o próprio crachá, como se o crachá pudesse ajudar. — A senhora não parece uma cliente do modelo de entrada.
— Por isso mesmo — disse Lia.
Ele não entendeu, e ela não explicou.
Lia tinha vindo preparada. Na bolsa havia uma folha dobrada em quatro com a comparação de consumo urbano e rodoviário de três modelos, o custo médio das revisões nos cinco primeiros anos, o valor do seguro em quatro seguradoras e uma coluna, à direita, intitulada *probabilidade de ser lembrado*. O hatch prata vencia em todas, menos no seguro, onde perdia por pouco para um sedã bege que ela descartou porque sedãs bege eram, nos livros, o carro do detetive.
— Eu gostaria de um desconto — disse ela.
— A senhora vai pagar à vista?
— Vou.
— Então... — Ele fez uma conta na calculadora e virou a tela para ela, com a expressão de quem oferece um presente.
Lia olhou o número, abriu a folha dobrada em quatro, conferiu uma linha e disse um número menor.
O vendedor riu, depois parou de rir, depois foi falar com o gerente.
Enquanto ele não voltava, Lia bebeu um pouco da água com gás e olhou para o hatch prata entre o pilar e a planta.
Ela tinha lido mais de cem romances em que um herdeiro rico abandonava a noiva rica para ficar com uma moça pobre e esforçada. Em todos, a noiva rica terminava mal. Caía numa fonte diante de duzentos convidados. Era deixada sozinha num terraço, na chuva. Era gravada, filmada, comentada, exilada para países frios. Nenhuma, em mais de cem livros, terminava em paz. E Lia tinha conferido, uma noite, com caderno e caneta, que preenchia todos os requisitos da personagem: família tradicional, noivado arranjado, pérolas, água com gás, e um noivo que olhava para ela como se olha para um porta-guarda-chuva no hall de entrada, sabendo que estava ali, caso chovesse.
Felix Brenner era herdeiro único. Felix Brenner era arrogante. Em algum lugar da cidade, cedo ou tarde, Felix Brenner ia esbarrar numa florista.
Lia não pretendia estar no terraço quando isso acontecesse.
Havia, nos livros, uma única mulher rica que ninguém humilhava. Quando ela entrava num salão, as pessoas baixavam a voz. Mandavam flores. Seguravam a mão dela com as duas mãos. Ninguém nunca, em nenhum livro, tinha empurrado uma viúva numa fonte.
Viúva era melhor que noiva abandonada.
Tecnicamente, para ser viúva, era preciso estar casada. Lia tinha pensado nisso por cerca de um minuto e concluído que era um detalhe de redação. A ideia central continuava correta: destruir o noivo primeiro e o noivado depois.
O vendedor voltou com o gerente. O gerente olhou para Lia, para as pérolas, para a folha dobrada em quatro, e aceitou o número dela sem discutir, com a expressão de um homem que sabe reconhecer uma batalha perdida.
Lia saiu da concessionária dirigindo a vinte quilômetros por hora no estacionamento, que era o limite indicado na placa, e parou completamente antes de entrar na avenida, embora não viesse ninguém. Deu seta. Esperou. Entrou.
Atrás dela, um carro buzinou.
Lia conferiu o velocímetro, conferiu a placa de sessenta, manteve os sessenta. Tinha tirado a carteira na primeira tentativa, sem nenhum ponto descontado, e o instrutor da autoescola tinha dito, no último dia, que nunca vira alguém tão fiel à apostila. Lia tinha entendido aquilo como um elogio. O instrutor talvez não tivesse dito como elogio, mas não era problema dela.
O motorista da família a tinha deixado na biblioteca municipal às duas da tarde, como ela pedira, e voltaria para buscá-la às sete, no mesmo lugar. Era o primeiro ponto do planejamento, e o mais simples: tudo o que o motorista não visse, o motorista não poderia contar.
A primeira parada depois da concessionária foi uma loja de airsoft, no segundo andar de uma galeria, entre uma loja de capinhas de celular e um estúdio de tatuagem. Lia subiu a escada com a bolsa junto ao corpo e entrou.
O atendente tinha uma barba comprida e uma camiseta de algum jogo. Ele olhou para ela do mesmo jeito que o vendedor da concessionária tinha olhado, mas mais devagar.
— Posso ajudar?
— Eu gostaria de uma réplica de pistola — disse Lia. — A mais realista que vocês tiverem.
Ele piscou. Depois, como acontece com todo homem a quem perguntam sobre o assunto que ele mais conhece, esqueceu a estranheza e se iluminou.
Durante vinte minutos, ele trouxe caixas. Lia examinou cada réplica com as duas mãos, de olhos atentos, como a mãe examinava pratarias em leilões. Perguntou o peso de cada uma. Perguntou se o acabamento descascava. Perguntou qual era mais silenciosa ao ser manuseada. Perguntou, por fim, qual delas cabia numa bolsa daquele tamanho, e pôs a própria bolsa no balcão para referência.
O atendente olhou para a bolsa, que custava mais do que tudo o que havia naquela loja, e depois para ela.
— É para jogar? — perguntou.
— É para ter — disse Lia.
Ele pensou nisso por um momento, decidiu que não era da conta dele e trouxe mais uma caixa.
A escolhida era preta, fosca, pesada o suficiente para parecer verdadeira e leve o suficiente para não deformar o forro da bolsa. Lia pagou, agradeceu, pediu que ele não colocasse na sacola com o logotipo da loja, e saiu com a caixa dentro de uma sacola lisa de papel, que trouxera de casa exatamente para isso.
A última parada era uma loja de segurança e camping a três quarteirões dali, escolhida porque vendia, num lugar só, quase tudo o que estava na lista. Comprar tudo junto reduzia o número de lugares onde alguém poderia lembrar de uma moça de pérolas.
Lia pegou um carrinho.
Pôs no carrinho um taser, depois de ler a embalagem inteira duas vezes. Um spray de pimenta, e depois outro, porque era sensato ter reserva. Um pé de cabra de tamanho médio. Três rolos de silver tape. Depois, seguindo o que tinha anotado como *necessidades futuras*, pôs também uma lanterna de cabeça, um par de luvas pretas, uma corda de náilon, uma lona azul dobrada, um kit de primeiros socorros e um canivete com doze funções, das quais ela pretendia usar no máximo três.
Na fila do caixa, pensou um pouco e acrescentou uma capa de chuva. Os livros insistiam muito na chuva.
A moça do caixa passou os itens um a um. O taser. O spray. O outro spray. O pé de cabra. A silver tape, três vezes. Quando chegou à lona azul, parou e olhou para Lia.
Lia sorriu, o sorriso pequeno e educado que a mãe tinha passado anos aperfeiçoando nela.
— Mudança — disse.
A moça do caixa assentiu, aliviada por ter recebido uma explicação, qualquer explicação, e passou a corda de náilon sem olhar.
Às seis e quinze, o hatch prata estava estacionado numa vaga mensal de um estacionamento coberto a dois quarteirões da biblioteca, pago por um ano adiantado, em dinheiro. No porta-malas, tudo estava organizado em duas caixas plásticas com tampa, etiquetadas à mão: *FERRAMENTAS* e *DIVERSOS*. A lona azul estava dobrada por cima, em quatro, com as pontas alinhadas.
Na bolsa, entre a carteira, o batom e um lenço bordado com as iniciais dela, ficaram o simulacro, o taser e um dos sprays de pimenta. Lia tinha testado três arrumações diferentes até encontrar uma em que a bolsa fechasse sem esforço e continuasse com o mesmo formato de antes. O formato importava. Uma bolsa deformada era uma bolsa que alguém notaria.
Às sete em ponto, o carro da família parou na frente da biblioteca. O motorista abriu a porta para ela.
— Boa leitura, senhorita?
— Muito proveitosa — disse Lia.
O jantar foi servido às oito e meia, como todas as noites, na sala de jantar onde caberiam vinte pessoas e onde, naquela noite, estavam quatro.
O pai lia alguma coisa no celular, discretamente, segurando o aparelho abaixo da linha da mesa, o que a mãe fingia não ver. Otávio comia como se estivesse sozinho num restaurante de que gostava muito. A mãe cortava o peixe em pedaços exatamente iguais.
Lia estava sentada muito ereta, os brincos de pérola nas orelhas, um copo de água com gás à direita do prato. A bolsa estava apoiada na cadeira ao lado, onde sempre ficava.
— O que você fez hoje, querida? — perguntou a mãe.
— Fui à biblioteca.
— Que bom.
— Ela vive na biblioteca — disse Otávio, sem levantar os olhos do prato. — Qualquer dia vão cobrar aluguel.
O pai guardou o celular, olhou para Lia por cima dos óculos e empurrou na direção dela, pela toalha, uma caixinha de veludo azul.
— Vi na vitrine — disse ele. — Lembrei de você. Só não conta o valor para a sua mãe.
A mãe suspirou, do jeito que suspirava sempre que ele dizia aquilo, que era um suspiro de quem já tinha desistido de perguntar havia muitos anos.
Lia abriu a caixinha. Dentro havia um par de brincos de pérola, maiores do que os que ela estava usando, com um brilho rosado.
— Obrigada, pai. São lindos.
— Os Brenner vêm jantar no sábado — disse a mãe. — Você vai usar esses. E, Cecília. — Ela pousou os talheres, o que significava que a frase seguinte era importante. — Lembre-se: uma noiva nunca espera ser cumprimentada.
— Sim, mãe.
A mãe a observou por um momento, com uma atenção que ultimamente aparecia com mais frequência, como quem procura um fio solto num tecido conhecido. Não encontrou nada. Voltou ao peixe.
Lia fechou a caixinha de veludo e a colocou com cuidado dentro da bolsa, ao lado do taser.
Depois pegou o copo de água com gás, bebeu um gole pequeno, pousou o copo exatamente no mesmo círculo úmido de onde tinha saído, e ficou ouvindo Otávio contar uma história sobre uma reunião em que ninguém tinha entendido nada, com o rosto educado e interessado de sempre.
Ninguém na mesa olhou duas vezes para a bolsa.
Sábado, pensou Lia. Os Brenner, no sábado.
— Que interessante — disse ela, quando Otávio terminou a história.








