A primeira fissura
A mansão D’Averyn nunca soube o que era a escuridão absoluta. Mesmo passadas as duas da manhã, com os ventos gélidos de outubro açoitando a fachada de pedra e vidro em Lincoln Park, a residência permanecia acesa, reluzindo contra a penumbra de Chicago como um farol de autoridade inabalável. O ar interior cheirava à cera de abelha cara, ao carvalho envernizado das escadarias e à brisa úmida da chuva que golpeava as janelas do segundo andar. Lorenzo fechou a porta da suíte com a firmeza do ombro, girando a chave na fecha pesada de latão. O estalo metálico ecoou no silêncio do cômodo, isolando-os do resto do mundo. Mark Miller riu contra a sua boca, um som rouco, abafado pela urgência do contato. As mãos de Mark, quentes e calejadas pelos treinos de futebol da escola, já estavam por baixo da camisa preta de algodão de Lorenzo, as unhas curtas cravando-se com força sob as suas costelas. — Seu pai ia ter um colapso se soubesse que eu atravessei o portão dos fundos de novo — murmurou Mark, a respiração pesada roçando o maxilar de Lorenzo. — Meu pai está a mil e dois mil quilômetros daqui, fechando mais um contrato de defesa que ele considera mais importante que a própria existência — respondeu Lorenzo, a voz grave, desprovida de qualquer hesitação. — E você fala demais. Lorenzo o tomou pela nuca e o beijou para calá-lo. Não havia delicadeza naquele gesto; era uma colisão deliberada de dentes, língua e saliva, marcada pelo gosto amargo de cerveja barata que Mark trouxera do caminho e pelo traço acre de menta que ainda queimava na boca de Lorenzo. Mark soltou um gemido profundo que ressoou contra o peito de Lorenzo. As mãos de Mark baixaram com força para a cintura do jeans, puxando Lorenzo até que não restasse um milímetro de ar entre as suas virilhas. O quarto guardava o perfume denso de lençóis recém-trocados e do calor corporal acumulado. A ampla janela da varanda estava milimetricamente entreaberta, permitindo que a brisa cortante da noite agitasse a cortina de veludo escuro e atingisse a pele nua no momento em que Lorenzo puxou a camisa de Mark pela cabeça, jogando-a sem cuidado sobre a poltrona de couro. Mark tinha dezoito anos, ombros largos moldados pelo esporte, o peito coberto por uma fina camada de pelos claros e uma boca habitualmente úmida, acostumada a dominar os espaços por onde passava. Lorenzo, no entanto, o empurrou contra a beirada da cama com uma autoridade calculada. Mark caiu sentado na borda do colchão de mola ensacada, olhando para cima com aquela costumeira mistura de desejo e provocação que Lorenzo conhecia bem. — Tira o resto — ordenou Lorenzo, em pé diante dele, os olhos azuis fitando-o sem piscar. — Pede com calma, D’Averyn — debochou Mark, embora as suas mãos já estivessem no fivela do cinto. — Tira. Agora. Mark obedeceu sem mais réplicas. O cinto de couro estalou, o jeans deslizou pelas pernas e a cueca foi descartada. Seu membro ereto estava rígido, a cabeça avermelhada brilhando sob a luz amarelada dos lustres de cristal. Lorenzo ajoelhou-se entre as pernas dele sem qualquer encenação teatral. Ele não buscava agradar; buscava o calor, a posse e a intensidade do momento. Tocou a base com a ponta da língua, subindo devagar, sentindo o gosto salgado da pele limpa e do suor recente. Mark prendeu o ar na garganta, os dedos cravando-se no edredom. — Porra, Lorenzo… Lorenzo não respondeu. Abriu a boca e o tomou de uma vez só até o fundo, sentindo o peso alcançar a garganta e a reação reflexa fazer seus olhos lacrimejarem ligeiramente. Mark arqueou a coluna e segurou com força o cabelo preto e curto de Lorenzo, puxando os fios com desespero. Lorenzo permitiu o domínio físico; gostava daquela pressão crua, do controle absoluto mantido mesmo enquanto estava de joelhos. Movimentou-se em um ritmo firme, cadenciado, a saliva escorrendo pelo queixo, a mão esquerda presa à base do membro e a direita apertando a coxa musculosa de Mark até deixar marcas avermelhadas na pele clara. Mark praguejava baixo, a voz entrecortada pela respiração desregulada. — Isso… porra… você sabe exatamente o que faz… Lorenzo recuou alguns centímetros, o bastante apenas para articular as palavras com a voz rouca contra a pele da coxa dele: — Cala a boca. E só goza quando eu mandar. Retornou ao ato com mais profundidade, mantendo a sucção contínua e molhada. Mark tremia, as pernas tencionando-se contra o rosto de Lorenzo. O som dos seus gemidos subia de tom, ecoando pelas paredes altas do quarto, mas Lorenzo permaneceu inabalável. Sentiu a pulsação do outro acelerar contra a sua língua, a textura mudar, tornando-se mais densa e salgada. — Eu vou gozar… Lorenzo, caralho, eu vou… — implorou Mark, a voz falhando. Lorenzo não retirou a boca. Manteve as mãos firmes nos quadris dele, engolindo os jatos quentes e intensos enquanto o corpo de Mark se contorcia em espasmos fortes. Quando a resposta do outro cessou, Mark caiu de costas no colchão, a caixa torácica subindo e descendo freneticamente, uma das mãos repousada sobre o peito e a outra pendendo do lençol. Lorenzo colocou-se em pé, limpou o queixo com o dorso da mão e abriu o próprio cinto com movimentos precisos. A calça jeans caiu sobre o carpete. Sua ereção estava rígida a ponto de causar um desconforto incômodo. Mark olhou para ele de baixo, soltando um riso entrecortado pelo cansaço. — Vem aqui. — Fica de quatro. Mark girou o corpo na cama, obedecendo à ordem. Lorenzo abriu a gaveta da mesa de cabeceira de jacarandá, retirou o frasco de lubrificante e espalhou uma quantidade abundante pelos próprios dedos e pela extensão da sua haste. Aproximou-se por trás e introduziu dois dedos sem delongas. Mark abafou um gemido contra os travesseiros. Lorenzo curvou os dedos internamente, encontrando o ponto exato e pressionando-o até ouvir o suspiro agudo de Mark, cujo corpo voltava a reagir ao estímulo. Posicionando a cabeça da sua haste na entrada apertada, Lorenzo empurrou com firmeza de uma só vez. O calor envolvente o acolheu imediatamente. Mark soltou um som gutural, uma mistura indistinta de dor inicial e prazer profundo. Lorenzo segurou a sua nuca com a mão esquerda, inclinando o tronco sobre as costas dele, mordendo a carne firme do seu ombro enquanto estabelecia um ritmo denso de estocadas profundas. O som úmido do impacto entre seus corpos preencheu a penumbra da suíte. A pele de Mark queimava sob o seu peito, gotas de suor escorrendo pela linha da sua espinha. Lorenzo colou os lábios no pescoço dele, lambendo o sal da sua pele e apertando os quadris de Mark com tanta força que os nós dos seus dedos se tornaram esbranquiçados. — Você é meu esta noite — disse Lorenzo contra a orelha de Mark, a voz baixa e imperiosa. — Fala. — Eu sou seu… porra, sou seu… fode mais fundo… Lorenzo aumentou a frequência das estocadas, ignorando os pedidos para seguir apenas a sua própria cadência. A cabeceira de madeira maciça bateu ritmadamente contra a parede. Mark atingiu o orgasmo novamente contra o lençol, sem que ninguém o tocasse, o corpo inteiro sacudido por tremores ininterruptos. Lorenzo manteve-se no interior dele por mais alguns segundos, sentindo a compressão muscular ao seu redor, até que seu próprio corpo cedeu, gozando fundo com a boca pressionada contra o ombro de Mark, soltando um gemido grave e contido. Permaneceram imóveis por longos minutos, as respirações descompassadas mesclando-se no ar frio do quarto. O cheiro denso do ato pairava suspenso no ambiente. No banheiro da suíte, a água escaldante começou a preencher a banheira de mármore escuro, criando uma névoa espessa que cobriu os espelhos do chão ao teto. Lorenzo entrou primeiro, afundando na água quente enquanto relaxava os músculos das costas contra o encosto anatômico. Mark entrou em seguida, sorrindo com um olhar satisfeito, e posicionou-se entre as pernas dele. O clima mudou de cadência. A urgência cedeu lugar a um desejo renovado e submerso. Mark mergulhou a cabeça sob a água, buscando a haste de Lorenzo, que já voltava a ganhar rigidez. Lorenzo puxou os cabelos molhados dele para cima, trazendo-o para a superfície e fazendo-o engolir o seu membro novamente até atingir o ápice. Lorenzo jogou a cabeça para trás contra a borda do mármore, gozando na boca de Mark enquanto a água da banheira transbordava pelas laterais, molhando o piso cerâmico. Mark subiu no seu colo, acomodando-se sobre as suas pernas. Beijaram-se com intensidade, os gostos mesclados à essência do sabonete importado. Lorenzo o penetrou mais uma vez, o movimento amortecido pela resistência da água, mas ainda assim profundo. Mark ritmou a elevação do próprio corpo sobre ele até que ambos alcançassem o limite juntos, com Mark ocultando o rosto no peito de Lorenzo e este mantendo os dentes cravados no pescoço do outro, abafando os sons no espaço saturado de vapor. Foi então que o contato mudou de natureza. Ainda buscando recuperar o fôlego, Mark segurou o rosto de Lorenzo com as duas mãos úmidas. Os polegares repousaram nas maçãs do seu rosto; as palmas, quentes e encharcadas, pressionaram-lhe a pele com uma afeição despretensiosa. No exato segundo em que a pele nua das palmas de Mark tocou as bochechas de Lorenzo, o mundo ao redor desvaneciu. Não foi uma vaga intuição nem um sobressalto da imaginação. Foi uma ruptura violenta na sua consciência, como se uma sequência de imagens incandescentes tivesse sido projetada diretamente no centro do seu cérebro. A visão irrompeu com nitidez cirúrgica: Mark em um quarto desconhecido, sob o teto descascado e lençóis florais baratos. Uma jovem de cabelos ruivos vibrantes estava sobre ele, movendo-se enquanto gemia o seu nome. Mark ria com a mesma gargalhada despreocupada que usara minutos atrás na mansão D'Averyn, murmura na orelha dela: "Ele não vai saber de nada, Lorenzo é cego demais para essas coisas". A cena saltou para o banheiro do colégio: a mesma garota ajoelhada diante dele entre as divisórias de metal. Mudou para o banco traseiro de um SUV preto à noite, a mão de Mark subindo pela coxa dela sob um sinal vermelho. E, por fim, a lembrança nítida de Mark no telefone na terça-feira passada, olhando para o relógio e mentindo com voz calma: "Estou estudando na biblioteca com o pessoal, Lorenzo, a gente se fala amanhã." Toda a sequência de dissimulações, cada palavra falsa, cada toque velado e cada risada irônica que Mark dera pelas suas costas desfilou diante de Lorenzo em um segundo contínuo e devastador. Lorenzo projetou o corpo para trás com tanta violência que uma onda de água quente saltou da banheira, atingindo o chão com um estampido alto. — Que porra foi essa?! — gritou Mark, assustado com o movimento repentino, piscando para afastar o vapor dos olhos. — Ficou louco, Lorenzo? Lorenzo saiu da banheira imediatamente. A água escorria pelo seu torso definido, pelos cabelos negros grudados na testa e sobre os olhos azuis, que agora ostentavam um brilho rígido e desprovido de qualquer calor. Ele apanhou a toalha felpuda sobre o suporte de bronze, enxugando-se com gestos secos e mecânicos, sem conceder um único olhar ao outro. — Veste a sua roupa e sai da minha casa — disse Lorenzo, a voz modulada em uma calmaria gélida. Mark franziu a testa, pasmo, rindo sem compreender: — O quê? Do que você tá falando, cara? A gente estava… — Você se deitou com a garota ruiva do terceiro ano — interrompeu Lorenzo, girando o rosto na direção dele, as palavras cortantes como lâminas. — No quarto dela com lençol floral. No banheiro do prédio B da escola. No carro do pai dela na terça-feira passada. E mentiu olhando no meu rosto todas as vezes que eu perguntei onde você estava. O rosto de Mark empalideceu instantaneamente. A cor escorreu das suas bochechas. A mentira automática que se formava em seus lábios morreu antes de virar som. — Como… como você sabe disso? Você mexeu no meu celular? Você mandou alguém me seguir? — Sai. Agora. A discussão que se seguiu no quarto foi desprovida de qualquer elegância. Mark esbravejou, acusando Lorenzo de ser um paranóico doente, um louco manipulador que inventava histórias para controlar a vida dos outros. Lorenzo não ofereceu explicações. Não havia vocabulário humano capaz de traduzir a experiência de ter a memória alheia incrustada na própria mente por meio de um toque. Vestiu a calça preta e uma camisa de botão enquanto Mark recolhia os suas pertences do chão com as mãos trêmulas, praguejando para esconder a humilhação. Lorenzo acompanhou-o até o topo da escadaria. No corredor do primeiro andar, um dos seguranças da casa fingiu inspecionar uma moldura para não encarar o jovem visitante que descia os degraus aos tropeços. A porta principal de carvalho maciço bateu com um som abafado. De volta ao banheiro da suíte, Lorenzo apoiou as duas mãos na bancada de mármore e encarou as próprias palmas no espelho. Suas mãos pareciam exatamente as mesmas de sempre: os nós dos dedos firmes, a pele clara, as linhas da vida marcadas. Contudo, ele sentia um formigamento residual, como se a epiderme guardasse a voltagem de um raio. Aquilo não fora uma suspeita confirmada pela sorte. Ele não adivinhara. Ele vira. Ele estivera presente na memória de Mark enquanto o tocasse. Lorenzo não dormiu durante o restante da madrugada. Passou as horas sentado na poltrona do quarto, vendo a chuva diminuir lá fora até que o céu de Chicago adquirisse um tom cinzento e opaco. Na manhã seguinte, no corredor movimentado do colégio particular onde estudava, a confirmação do fenômeno veio de forma avassaladora. Uma aluna do segundo ano, apressada para a aula de química, esbarrou lateralmente nele, e a pele do seu pulso roçou acidentalmente na dele. Um estalo instantâneo na mente de Lorenzo: a garota chorando no quarto enquanto rasgava o gabarito de uma prova roubada da mesa do professor e escondia os pedaços sob o colchão para acusar a colega de classe. Lorenzo recuou dois passos, colando as costas contra os armários metálicos, o coração batendo desordenadamente contra o peito. Pouco depois, no treino da tarde, o treinador de natação aproximou-se para parabenizá-lo pelo tempo na piscina e colocou a mão espalmada sobre o seu ombro nu. Outro disparo visceral: o treinador em um motel de beira de estrada no fim de semana, transferindo dinheiro da conta da equipe para a conta de uma ex-aluna enquanto desligava a ligação da esposa que perguntava pelo horário de retorno. Lorenzo deixou o treino imediatamente, sem dar explicações. No dia seguinte, Lorenzo D’Averyn apareceu na instituição vestindo um par de luvas de pelica preta, perfeitamente ajustadas aos seus dedos e pulsos. Quando os colegas perguntaram o motivo da mudança repentina, ele limitou-se a responder que se tratava de uma preferência estética e de uma proteção contra o ressecamento da pele devido ao frio de outono. Ninguém questionou. Os D’Averyn eram proprietários de uma das maiores corporações de tecnologia e segurança militar do país; estranhezas e hábitos aristocráticos eram prontamente aceitos sem contestação. No final daquela mesma semana, os pais de Lorenzo retornaram da viagem de negócios em Nova York. A mansão recuperou o seu tom habitual de autoridade quando o SUV blindado da família cruzou o portão de ferro trabalhado. Victor D'Averyn e Helena D'Averyn não eram figuras comuns. Victor carregava a postura rígida de um homem que lidava diariamente com os altos escalões do Pentágono, ostentando um terno sob medida, cabelos grisalhos impecavelmente penteados e um olhar analítico que parecia dissecar qualquer ambiente. Helena, elegante em um conjunto de alfaiataria azul-marinho, exalava uma sobriedade aristocrática, com seus olhos azuis — idênticos aos de Lorenzo — refletindo uma inteligência fria e contida. Lorenzo aguardava-os no salão principal, de pé ao lado da lareira apagada. As luvas de pelica preta cobriam-lhe as mãos. Assim que Helena atravessou o hall, seus olhos focaram imediatamente na figura do filho. Não houve a distância formal que costumavam manter perante os funcionários. Helena caminhou a passos rápidos até Lorenzo, com uma expressão onde a rigidez habitual deu lugar a uma ternura profunda e incondicional. — Meu querido — disse ela, a voz suave carregada de um afeto genuíno —, que saudade de você. Helena aproximou-se e o envolveu em um abraço caloroso. Lorenzo, ao contrário da postura arredia que mantinha para o resto do mundo, não se esquivou. Ele permitiu o contato, fechando os olhos enquanto sentia os braços da mãe envolverem suas costas e o beijo carinhoso que ela depositou em sua bochecha. Desde a infância, o amor dos pais por Lorenzo era o único ponto inabalável naquele universo de aparências e poder. Victor aproximou-se em seguida, o rosto severo desarmando-se em um sorriso orgulhoso, e abraçou o filho com firmeza, beijando-lhe o topo da cabeça com afeição paternal. Lorenzo aceitou cada abraço e cada gesto de carinho. Era o único lugar onde não precisava erguer muros. Entretanto, durante o jantar na extensa mesa de jantar de mogno, o silêncio da refeição foi interrompido por Helena, cujo olhar atento pousou sobre as mãos do filho, ainda cobertas pelo couro escuro. — Lorenzo — começou ela, cortando um pedaço do filé com precisão —, você esteve de luvas durante todo o jantar. A casa está perfeitamente aquecida. O que está acontecendo? Lorenzo pousou os talheres sobre o prato de porcelana. Ele sabia que não poderia sustentar uma mentira diante dos dois. Olhou para o pai, depois para a mãe, e tomou ar antes de falar. — Aconteceu algo no início da semana — começou Lorenzo, a voz pausada e firme. — Com o Mark. Ele estava aqui na suíte. A gente discutiu depois que ele me tocou no banheiro… E quando a pele dele encostou no meu rosto, eu não vi apenas uma imagem. Eu vi a memória exata de tudo o que ele fez nas últimas semanas. Eu vi as traições dele, os lugares onde esteve, as mentiras que contou, cada detalhe do passado e do presente dele como se eu estivesse lá. Victor e Helena estancaram os movimentos. O silêncio na sala tornou-se absoluto, interrompido apenas pelo estalar sutil do vento nas janelas. — Depois disso — continuou Lorenzo, levantando as mãos enluvadas —, aconteceu de novo na escola. Com uma garota no corredor. Com o treinador na piscina. Qualquer pessoa que encosta na minha pele nua me entrega toda a sua história. Eu vejo o passado e o presente de cada um. É insuportável. Por isso estou usando as luvas. Victor trocou um olhar denso com Helena. Não havia surpresa ou choque nos rostos dos pais — apenas uma profunda e dolorosa gravidade. Helena suspirou, uma expressão de pesar cobrindo suas feições elegantes, e colocou a mão sobre a mesa. — Nós sabíamos que este dia chegaria, meu filho — disse Victor, a voz baixa, carregada de uma solenidade que Lorenzo nunca tinha ouvido antes. — Mas esperávamos que a sua linhagem se mantivesse adormecida por mais tempo. Lorenzo franziu o cenho: — Do que vocês estão falando? Linhagem? Helena levantou-se da mesa, caminhou até o filho e retirou devagar a luva da mão direita dele. Lorenzo tentou recuar por instinto, temendo o estalo mental que o atormentara durante toda a semana, mas a mãe segurou a sua mão nua com firmeza, unindo a sua palma à dele. Lorenzo prendeu a respiração, esperando a avalanche de visões. A mente dele se abriu, mas o efeito foi completamente diferente. Lorenzo sentiu o passado da mãe: a infância dela em uma antiga propriedade na Europa, os anos de estudo rigoroso, as decisões difíceis que tomara ao lado de Victor para proteger a família, e a vida presente dela, incluindo os detalhes das reuniões em Nova York. Ele viu tudo o que ela fora e o que ela era naquele momento. Porém, por mais que tentasse avançar, o futuro de Helena permanecia uma cortina em branco, uma bruma impenetrável. Ele podia ver o passado e o presente dela, mas o amanhã era invisível. — Você não consegue ver o meu futuro, consegue? — perguntou Helena suavemente, acariciando os dedos do filho com carinho paternal. — Não… — murmurou Lorenzo, impressionado. — Eu vejo tudo o que você viveu até este segundo. Vejo o seu presente com clareza absoluta. Mas não vejo o seu futuro. Victor aproximou-se, retirou a outra luva de Lorenzo e segurou a mão esquerda do filho com força e afeto. Novamente, a visão fluiu: a juventude de Victor, a fundação da corporação, os segredos de Estado que ele guardava no peito, o presente dele ali, naquela sala. Mas, assim como ocorrera com a mãe, o futuro do pai era uma escuridão impenetrável. — Por que com vocês é diferente? — perguntou Lorenzo, o olhar oscilando entre os dois. — Por que o toque de vocês não me agride? Por que só com vocês eu não vejo o futuro? — Porque nós somos o seu sangue, Lorenzo — explicou Victor, inclinando-se e abraçando o filho pelos ombros, um gesto carregado de proteção. — A fissura que despertou em você é uma herança genética de uma ordem antiga da qual a nossa família faz parte. O toque em estranhos ativa o Dom de forma descontrolada, expondo a linha do tempo completa deles, incluindo o destino que eles ainda vão cumprir. Mas o sangue direto atua como um filtro e um escudo. — O seu Dom não pode devorar a mente daqueles que o geraram — acrescentou Helena, trazendo o rosto do filho para perto do seu e beijando-lhe a testa com ternura infinita. — Comigo e com o seu pai, você sempre terá um porto seguro. A nossa presença guarda a sua mente. Nós somos a sua âncora neste mundo. O efeito colateral despertou agora porque o seu corpo atingiu a maturação biológica dos dezoito anos e a sua carga emocional recente serviu como gatilho. Lorenzo absorveu cada palavra, sentindo o alívio profundo de poder tocar os pais sem a sobrecarga de visões do amanhã. Ele encostou a cabeça no peito do pai e sentiu o abraço protetor da mãe ao seu redor. Naquele círculo familiar, o dom não era uma maldição, mas uma revelação. — O mundo lá fora é um campo minado de intenções ocultas, Lorenzo — disse Victor, mantendo a mão firme no ombro do filho. — A partir de hoje, você precisará aprender a dominar o que carrega. As luvas serão a sua armadura até que você aprenda a fechar a sua mente por vontade própria. — Nós amamos você mais do que a própria vida, meu filho — murmurou Helena, beijando a bochecha dele mais uma vez, o olhar repleto de um amor incondicional. — E nunca deixaremos você enfrentar isso sozinho. Lorenzo aceitou os abraços e os beijos dos pais, sentindo o calor verdadeiro daquela conexão. Pela primeira vez desde o incidente no banheiro, ele não se sentiu um monstro ou um ser quebrado. Na segunda-feira seguinte, o ar na escola permanecia denso. Lorenzo caminhava pelos corredores de piso polido usando um sobretudo escuro e suas luvas de pelica preta. A postura dele era serena, dominada por uma nova compreensão do seu papel. Ele não era mais apenas o herdeiro milionário dos D’Averyn; era alguém que caminhava entre as sombras dos segredos alheios. No pátio central, sob a névoa fria da manhã, Mark Miller surgiu de trás de uma das colunas de concreto. Ele parecia desgastado, com olheiras profundas sob os olhos e a fúria estampada no rosto. Ele avançou na direção de Lorenzo e o agarrou com força pelo pulso — na pequena faixa de pele nua que ficava exposta entre a manga da jaqueta e o início da luva. O contato abrupto disparou o flash imediato na mente de Lorenzo: Mark em uma roda de amigos no estacionamento no dia anterior, gesticulando e dizendo com escárnio: "O D’Averyn enlouqueceu de vez. Tá usando luvas pretas e achando que adivinha a vida dos outros. O cara é um surtado cheio de grana." Lorenzo não recuou. Não demonstrou dor ou surpresa. Ele apenas girou o pulso com uma técnica fria, libertando-se do aperto de Mark sem esforço, e deu um passo à frente. Ficou a poucos centímetros do rosto do garoto. Seus olhos azuis gélidos fixaram-se nos de Mark com uma intensidade magnética e aterrorizante. — Se você voltar a encostar um único dedo na minha pele nua — disse Lorenzo, a voz modulada em um tom baixo, calmo e terrivelmente cortante —, eu quebro a sua mão em três lugares diferentes. E garanto a você que não é uma metáfora. Mark deu um passo para trás por instinto. O tom de voz de Lorenzo não continha raiva infantil; continha a certeza absoluta de quem enxergava através de todas as fraquezas humanas. Pela primeira vez, Mark sentiu um medo primitivo e real diante de Lorenzo. Ele deu meia-volta sem pronunciar uma única palavra e desapareceu na multidão de alunos. Lorenzo ajeitou a luva preta no pulso esquerdo, ajustando o couro com precisão sobre a pele. Caminhou em direção ao prédio principal com o queixo erguido e passos firmes. A primeira fissura havia se aberto no tecido da sua realidade. Ele era jovem, era homossexual, fora traído por quem julgava conhecer e agora carregava o fardo de ver a verdade nua e crua cravada na pele de cada ser humano. Mas ele não pediria desculpas a ninguém por existir, nem recuaria diante do abismo que se abria sob os seus pés. Lorenzo D'Averyn ajustou a segunda luva, sabendo que aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história muito maior que estava prestes a começar.








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