A primeira vez que escolhi por mim
Elizabeth Duarte tinha 22 anos quando entendeu, de uma vez, que tinha passado a vida inteira escolhendo pelos outros.
Na cidade pequena do interior de Goiás onde cresceu, todo mundo sabia quem ela era antes mesmo de ela saber. Era a filha prestativa, a irmã que resolvia, a vizinha que ajudava. Ela gostava de cuidar das pessoas, de verdade. Só que, um dia, olhando pela janela da cozinha enquanto o café passava, ela se perguntou uma coisa simples e assustadora: e eu, quando é que eu vivo para mim? O que levou a outro questionamento: será que eu sei fazer isso?
A resposta veio em forma de coragem. Apaixonada pelas novelas turcas, Elizabeth passava as noites vendo aquelas ruas, aqueles parques, o Bósforo ao fundo, e pensando que aquele mundo parecia ao mesmo tempo tão distante e tão possível. Quando pesquisou como poderia fazer isso, viu que não seria tão difícil quanto imaginava.
O primeiro passo foi o passaporte. Ela preencheu o formulário no site da Polícia Federal, pagou a taxa, agendou o atendimento e foi até o posto com seus documentos. Dias depois, quando o passaporte azul chegou em suas mãos, ela ficou um bom tempo olhando as páginas em branco, como se cada uma fosse uma porta se abrindo.
Depois veio a descoberta que tirou o maior peso do peito dela: para entrar na Turquia como turista, brasileiros não precisam de visto prévio, só do passaporte válido, da passagem de volta e de um lugar para ficar. Eram até 90 dias para começar. Noventa dias para tentar, para respirar, para descobrir se aquela vida nova era mesmo dela. Depois, ela resolveria o resto.
Então logo fez as malas, comprou uma passagem, juntou as economias que vinha guardando aos poucos e alugou um quarto pequeno do outro lado do mundo. Istambul. A mãe chorou na despedida, mas a abençoou e disse: vai com Deus, minha filha.
Na chegada, tudo era diferente. Os anúncios do aeroporto numa língua que ela não entendia, o frio entrando pela gola do casaco, o cheiro de especiarias e pão fresco misturado no ar. Elizabeth sentiu medo, claro. Mas, junto com o medo, veio uma sensação que ela nunca tinha sentido antes: liberdade.
Os primeiros dias foram de aprendizado. Aprender a pegar o transporte certo, a dizer merhaba sem travar, a pedir um café apontando para o cardápio e rindo de si mesma. O quarto era pequeno, mas era dela. A janela dava para uma rua movimentada, e à noite ela ficava ali, olhando as luzes, com o coração apertado de saudade e, ao mesmo tempo, leve.
Numa tarde em que precisava respirar, ela foi caminhar até um parque perto de casa. Havia tulipas coloridas por todos os lados, árvores altas e, ao fundo, a silhueta de Istambul sob um céu dourado. Elizabeth sentou num banco, fechou os olhos por um segundo e agradeceu baixinho pela coragem de ter vindo até ali.
Estar conhecendo de perto tudo aquilo que só via na novela, e agora ela estava lá, fazendo tudo isso por ela, ela podia sentir o próprio coração se enchendo de orgulho, e dessa vez, era dela mesma.
Foi quando ouviu uma voz ao lado.
— Posso sentar aqui? O parque está cheio hoje.
Era um rapaz de casaco simples, com um copo de café na mão e um sorriso tranquilo. Ele sentou na outra ponta do banco, sem invadir o espaço dela, e ficou um tempo em silêncio, só olhando as tulipas como ela.
A conversa começou sem pressa. Sobre o parque, sobre o frio, sobre como é estranho estar longe de casa e, mesmo assim, se sentir em paz. Ele falava devagar, com um jeito calmo que deixava Elizabeth à vontade. Pela primeira vez em dias, ela riu de verdade.
— Eu sou a Elizabeth — disse ela, enfim. — Vim do Brasil. Do interior.
— Do Brasil? — ele repetiu, impressionado. — Isso é muito longe. E muito corajoso.
— E você? — perguntou ela.
Ele hesitou. Foi só um segundo, quase imperceptível, mas Elizabeth percebeu. Ele olhou para o copo de café, depois para ela, e respondeu:
— Alex.
Só Alex. Sem sobrenome, sem história. Ele logo mudou de assunto, perguntando o que ela mais tinha gostado em Istambul até ali. Elizabeth achou estranho, mas não desconfiou de nada grave. Apenas guardou aquele nome na memória, como quem guarda uma pergunta para depois.
O sol começou a baixar, pintando o céu de laranja. Alex se levantou, jogou o copo no lixo e sorriu para ela antes de ir.
— Se você voltar amanhã, eu trago dois cafés.
Elizabeth ficou ali mais um pouco, sozinha no banco, sentindo o vento frio no rosto. Quando voltou para casa, naquela noite, ela abriu um caderno e escreveu uma frase só:
Hoje, longe de casa, me senti perto de mim.










