Prólogo
Acordei sobressaltada, com o coração disparado e a respiração presa na garganta. Por alguns instantes, permaneci imóvel, tentando compreender onde estava. O quarto continuava mergulhado na penumbra, e a chuva batia contra a janela, insistente, como se quisesse entrar.
Levei uma das mãos ao peito e respirei devagar. As paredes conhecidas, o cheiro de madeira úmida e o rangido antigo da casa me trouxeram de volta à realidade.
Tinha sido apenas um pesadelo.
Virei o rosto para a cama estreita ao lado da minha. Um gemido baixo rompeu o silêncio, seguido pelo som irregular de alguém tentando encontrar uma posição menos dolorosa. Brendon se remexeu sob as cobertas, os ombros encolhidos contra o frio.
Afastei o cobertor e me levantei. O assoalho gelado mordeu a sola dos meus pés enquanto eu atravessava o quarto até ele.
— Brendon? — sussurrei, tocando de leve seu ombro.
Ele abriu os olhos, ainda sonolento, e tentou me oferecer um sorriso que não chegou a se formar por inteiro.
— Não queria te acordar.
— Você não me acordou. Eu já estava desperta.
Era uma mentira pequena, dessas que contamos para poupar quem amamos de carregar mais uma preocupação. Brendon sabia disso, mas não insistiu. Aos dezessete anos, aprendera cedo demais a reconhecer o peso das coisas que eu tentava esconder.
Quando tinha seis anos, uma febre terrível o deixara entre a vida e a morte. Ele sobreviveu, mas suas pernas nunca voltaram a ser as mesmas. Os curandeiros diziam que a doença havia deixado marcas profundas demais; desde então, caminhar exigia esforço, e a dor piorava quando o frio se infiltrava nos ossos.
Eu tinha oito anos quando aquilo aconteceu. Dois anos depois, a mesma doença que se espalhara por Eryndral levou nossos pais. A lembrança deles permanecia em pequenos detalhes — uma voz que eu quase conseguia ouvir, mãos que já não podia alcançar —, mas a vida não nos dera tempo para permanecer de luto.
Ficamos sob os cuidados de nossa tia. Ao menos era assim que ela gostava de descrever a situação quando alguém perguntava. Na verdade, ela nos acolhera por causa da herança que nossos pais deixaram. Em menos de dois anos, gastou tudo com roupas, adornos e caprichos que nunca trouxeram qualquer benefício para nós. Mesmo depois de perder cada moeda, recusava-se a aceitar que já não vivíamos como antes.
Ela não trabalhava, não ajudava a manter a casa e tampouco se preocupava em esconder o incômodo que nossa pobreza lhe causava. Preferia permanecer alheia às dificuldades, como se ignorá-las fosse suficiente para fazê-las desaparecer. Naquela noite, continuava recolhida em seu próprio quarto, indiferente à chuva, ao frio e à dor que mantinha Brendon acordado.
Puxei melhor a coberta sobre as pernas dele e procurei o pequeno frasco de tônico na mesinha. Restava tão pouco que o líquido mal cobria o fundo. Balancei o vidro, embora soubesse que isso não faria surgir mais remédio.
— Está acabando? — perguntou Brendon, acompanhando meu olhar.
Escondi o frasco na palma da mão.
— Ainda dá para mais algumas doses.
— Marcela.
O jeito como ele disse meu nome me fez fechar os olhos por um instante.
— O quê?
— Você não precisa gastar o pouco que temos comigo. Talvez o curandeiro esteja te enganando. Talvez esse tônico nem faça diferença.
— Ele ajuda a aliviar sua dor.
— Por um tempo. E custa dinheiro que a gente não tem.
Sentei-me na beirada da cama. A madeira rangeu sob meu peso, misturando-se aos estalos que vinham das paredes. A casa era velha demais para nos proteger do vento e úmida demais para manter o frio do lado de fora. Às vezes, ouvíamos pequenos arranhões entre as tábuas e sabíamos que os ratos haviam encontrado outro caminho para dentro.
— Você não é um peso para mim — falei, segurando a mão dele. — Nunca foi.
Brendon baixou os olhos. Seus dedos estavam frios entre os meus.
— Você trabalha o dia inteiro. Vai para a floresta, monta aquela barraca, tenta pagar as dívidas… E ainda precisa cuidar de mim. Eu devia conseguir fazer alguma coisa.
— Você faz.
Ele ergueu o rosto, cético.
— O quê?
— Continua aqui. Continua tentando, mesmo quando dói. E me lembra por que eu não posso desistir. Isso já é muita coisa.
Por um momento, ele não respondeu. Depois apertou meus dedos, de leve, como se tivesse medo de que até aquele gesto exigisse mais força do que possuía.
— Não quero que você acabe perdendo tudo por minha causa.
— Você não vai me perder — prometi. — Não vou abandonar você, Brendon. Seja lá o que acontecer, nós vamos enfrentar juntos.
Eu queria que a promessa bastasse. Queria poder encher o frasco de tônico, consertar o telhado, afastar a umidade das paredes e comprar comida suficiente para que nunca precisássemos contar as moedas antes de cada refeição. Mas promessas não aqueciam uma casa, e amor, por mais forte que fosse, não pagava dívidas.
Quando Brendon finalmente se acomodou, ajeitei as cobertas ao redor dele e esperei até que sua respiração se tornasse mais tranquila. Só então voltei para minha cama. A chuva seguia castigando a janela, escorrendo pelo vidro em caminhos tortos.
Nossa casa parecia menor durante as tempestades. Cada rangido da madeira lembrava que ela estava envelhecendo mais depressa do que nós conseguíamos repará-la. Ainda assim, era o único teto que tínhamos, e eu faria o possível para mantê-lo de pé.
Na rua dos comerciantes, quase no fim da fileira de barracas, ficava o meu pequeno negócio: algumas tábuas reaproveitadas, uma lona remendada e ganchos de metal onde eu pendurava a carne que conseguia trazer da floresta. Não era bonito, nem muito seguro, mas era meu. Era o que nos mantinha vivos.
Eu caçava sempre que o tempo permitia. No inverno anterior, porém, a estação fora cruel. A caça rareara, os caminhos ficaram perigosos e os compradores passaram a economizar até nas coisas de que precisavam. As vendas despencaram. Para manter a casa e comprar o remédio de Brendon, eu pedira dinheiro emprestado — e cada dia que passava parecia acrescentar mais uma pedra ao peso que carregava.
Amanhã teria de me levantar antes do amanhecer. Precisava chegar à floresta cedo, encontrar alguma caça e voltar com o suficiente para que a barraca não ficasse vazia. Talvez a chuva desse trégua. Talvez os comerciantes voltassem a comprar. Talvez, por uma vez, o dia fosse menos difícil do que eu esperava.
Fechei os olhos, agarrando-me à esperança frágil de que o amanhã pudesse ser melhor.
Sem saber que, em algum lugar além das árvores, algo antigo havia começado a despertar. E que a floresta não se esqueceria daquilo que eu ainda não compreendia.








