Capítulo 1
Eu nunca parei para pensar como é estranho olhar para uma fotografia. Um momento capturado para ser eterno, para lembrar o quão feliz pode ter sido o passado.
Agora eu olho para todas as fotos que tiramos juntos, ainda não consigo excluir nenhuma da galeria do celular.
Talvez eu precise de mais tempo, preciso encontrar uma forma de digerir a traição… eu ainda amo Gustavo.
A minha mente trabalha em tantos cenários, de como poderia ter sido, de como nós dois poderíamos ter resolvido juntos… não era preciso ter chego no ponto que ditou o final do nosso relacionamento.
Solto o celular, respiro fundo.
Quero apagar da memória tudo que me faz reviver você.
Olho para a pequena cápsula em minha mão antes de engolir, a única capaz de tranquilizar a minha dor. Minha companheira de sono desde então, em pouco tempo sinto o silêncio invadir meus pensamentos e recebo a tão esperada paz.
Paz que é interrompida quando o som do despertador começa a me chamar para mais um dia repleto de compromissos, eu desligo e durmo mais cinco minutos.
Ele insiste em me chamar, eu olho novamente e durmo mais cinco minutos, quero extrair o máximo de paz, antes de iniciar o dia.
Na terceira vez sou obrigada a levantar, droga!
A vida lá fora não pára porque eu estou me sentindo destruída, ela continua alheia a tudo que aconteceu e que vem acontecendo comigo.
Levanto me sentindo péssima, tomo um banho gelado para acordar as fibras dos meus músculos e ver se tiro um pouco desse peso.
Uma notificação chega no meu celular:
“Reunião com diretor do clube às 10h00min”
Olho para o espelho, me obrigo a colocar o mínimo de maquiagem para não parecer um fantasma de filme de terror.
O caminho até o clube é um caos, sair dez minutos mais tarde que o habitual sempre é a punição do destino para a minha falta de energia matinal.
Chego quarenta minutos atrasada.
As meninas correm pelo campo, iniciaram o aquecimento sem a minha presença.
— Atrasada de novo treinadora! Pedi pras meninas iniciarem a sequência.
Não respondo. Olho pro campo e sinto falta de uma.
— Cadê a Julia?
Ana desvia o olhar, antes de responder.
— Pediu pra sair do time.
— Como assim? Nossa atacante não pode simplesmente sair! Que droga! — Ultimamente a minha vida não estava fácil. Tento conter a minha frustração, preciso repensar a organização do time todo pro jogo de sexta.
— O diretor pediu pra eu te avisar assim que você chegasse que ele estaria te esperando na sala dele!
Fecho os olhos, respiro fundo tentando sem sucesso algum um mísero equilíbrio. Saio em direção à ala sul, subo as escadas e bato na porta.
— Entra!
Me sento na poltrona logo a frente de sua mesa.
— Resolvi antecipar nossa conversa — diz me fitando por um tempo antes de voltar a falar — As últimas duas semanas você vem chegando atrasada, Rubia. Além disso, acabamos de perder nossa atacante.
O diretor respira fundo antes de empurrar a folha com a minha sentença.
— Você está suspensa por trinta dias. A comissão sabe que está sendo um período difícil…
Olho para o papel, me levanto e dou as costas sem esperar ele terminar.
Passo pelo campo de treino como um foguete, não quero falar ou me explicar para ninguém!
Entro no carro, seguro o volante e debruço a minha cabeça sob ele por uns minutos pensando o que fazer.
Sinal de notificação.
Olho para o celular e vejo um anúncio que acabou de chegar no meu e-mail.
“Procurando paz?
Uma casa na zona rural, perfeita para se desconectar de tudo.
Clique no link, para reservar”
O destino estava me forçando uma pausa?
Não penso muito e clico no link que me leva para um calendário, marco para início ainda na data de hoje, preciso de um tempo livre do caos que a minha vida se tornou.
Aperto o botão “reservar”, pronto!
Faziam dias que eu queria desaparecer, e o universo estava me mostrando o caminho.
Passei em casa, joguei algumas roupas na mala, e voltei para o meu carro.
Dirigi uns quarenta minutos, por uma estrada de chão, por um momento achei que estava perdida e não havia uma santa casa ou alma para que eu pudesse perguntar onde estava.
Respirei aliviada quando vi a casa do anúncio.
Uma senhora de cabelos brancos, sorriu ao avistar o meu carro.
Estacionei, peguei a minha mala e fui em direção a entrada principal da casa.
— A Senhorita deve ser Rubia? — disse abrindo um sorriso de orelha a orelha e abrindo os braços para me receber.
— Eu mesma!
Aquela senhora era tão acolhedora, aceitei o abraço e senti como se estivesse abraçando minha falecida avó.
— Vem, eu vou te mostrar a casa.
Ela me conduziu para dentro da casa, apresentando os cômodos.
A Casa era definitivamente tão acolhedora quanto aquela Senhorinha.
Ao final do tour, peguei minha carteira e tirei as notas para pagar pela estadia.
Ela olhou para o dinheiro e ignorou.
— Rubia, eu não preciso que me pague agora. Essa casa foi criada para para que o hóspede encontre a paz que deseja — disse tocando meu rosto carinhosamente — Percebi, logo que entrou por aquela porta, o seu semblante exausto.
Deixo uma lágrima cair, era impressionante como uma total desconhecida, havia conseguido capturar a minha exaustão emocional.
— Não chore Rubia, esse lugar tem o poder de ajudar a reorganizar qualquer sentimento que esteja fora de ordem — disse enxugando a lágrima do meu rosto.
— Digerir o que não nos faz bem é parte do processo de libertação das almas humanas — concluiu, lambendo a gota que agora molhava seu dedo.
— Agora vou deixar você à vontade, se precisar de alguma coisa é só me ligar — disse apontando o telefone de linha, sob o aparador de entrada.
Ela abanou em despedida e sumiu pela porta de entrada.
Abri a mala à procura dos meus remédios, companheiros fiéis da minha rotina.
Não encontrei.
Lembrei que na correria de arrumar as coisas e fugir para cá acabei esquecendo de trazer.
Eu estava tão cansada, deitei no sofá e apaguei.
Acordo, olho para o relógio, e percebo que havia dormido somente uma hora, uma hora que me pareceram dias.
Realmente, o lugar já estava trazendo o conforto que eu precisava.
Levantei e fui até a cozinha preparar algo para comer, estranhamente já estava me sentindo mais disposta.
A falta de apetite que vinha sendo minha companheira nos últimos dias, havia sido substituída por uma fome avassaladora.
Abri a geladeira e para a minha surpresa, um pote com a minha comida predileta estava lá: arroz de carreteiro.
Esquentei, e quando comi a primeira colherada, uma explosão de sabores e memórias invadiram minha mente…o gosto era idêntico ao que meu avô fazia.
Crack.
Mordo algo duro e o gosto até então familiar, se dissolve dando espaço a um gosto ocre, mineral, putrefato.
Cuspo.
Vejo que é só um pedaço de carne, como todos os outros que já engoli.
“Deve ser a falta dos remédios”
Continuo comendo até não sobrar nenhum grão na panela.
Deixo o prato vazio na mesa de centro e vou até a estante de livros. Meus olhos são atraídos para um em especial.
Retiro o exemplar da estante com cuidado.
A mesma edição do livro, pelo qual Gustavo e eu havíamos disputado.
Sorri.
Foi por causa de um exemplar igual a esse que nos conhecemos.
Ter esse exemplar em minhas mãos me traz a sensação de borboletas na barriga. Eu consigo me sentir como naquele dia, na biblioteca central.
Abro e começo a ler.
Olho para o relógio, já passa das 17h. Aqui é tão tranquilo que me perdi no tempo.
Deixo o livro no sofá e vou preparar um banho.
Abro a torneira da banheira, jogo sais de banho, e quando pego uma toalha encontro algumas velas aromáticas, ascendo.
O cheiro de lavanda invade os meus sentidos, me trazendo à memória o dia em que Gustavo e eu fizemos amor pela primeira vez.
Tiro a roupa, entro na banheira e relaxo, a sensação da água quente, tira o peso que eu estava carregando.
Me visto, vou até a pia, penteio o meu cabelo, uma mecha inteira despenca, caindo na pia. Passo a mão pelo meu cabelo e um maço fica preso entre meus dedos.
Passo a mão no espelho embaçado e quem me olha de volta não parece em nada comigo: os olhos fundos e escuros, as maçãs do rosto encovadas como uma caveira e a pele acinzentada.
Meu coração acelera, respiro fundo, fecho os olhos e ao abri-los o reflexo cadavérico desaparece, o cabelo não está na pia. Só o reflexo de uma Rubia que começa a ganhar alguma cor de vida.
“Um sintoma de abstinência”
Vou para o quarto, e encontro o livro, que eu achava que havia deixado na sala, sob a cama.
Deito, pego o livro e continuo a leitura, até apagar de vez.
Acordo me sentindo revigorada. Já é dia.
Procuro pelo livro mas não o encontro…estranho. Olho debaixo da cama, dos travesseiros, nas gavetas dos criados mudos, nada.
TOC, TOC
Abro a porta e fico sem reação.
— Gustavo? O que você está fazendo aqui?
— Oi Rubia — diz abrindo um sorriso que me faz esquecer de vez tudo que havia se passado entre nós.
Abro a porta, ele entra e se senta no sofá. Sento no sofá à frente dele.
— Como você descobriu que eu estava aqui?
— Ontem eu fui até o seu apartamento e não te encontrei…você esqueceu de desligar a localização do aplicativo se segurança.
Estranho, eu jurava que havia desativado.
— Eu vim até aqui porque eu preciso entender como chegamos a esse ponto.
— Porque Gustavo? Isso não vai mudar o que aconteceu…
— Pode não mudar o que aconteceu, mas muda a forma como vamos seguir daqui pra frente.
Por um segundo sinto a textura do sofá fofinho, ficar áspero.
Meu coração acelera, ter Gustavo sentado na minha frente querendo conversar depois de semanas de silêncio, parece mentira.
— Eu sei que você está sofrendo, eu também estou, Rubia.
Tento lembrar em que momento nosso relacionamento esfriou…mas não consigo.
— Eu não sei Gustavo, talvez quando o trabalho começou a tomar conta das nossas agendas.
Gustavo se levanta, e senta ao meu lado, sinto o calor do corpo dele me envolver.
— Eu sinto falta de você, eu quero recomeçar. Mas antes preciso finalizar as pendências do passado — diz beijando meu pescoço, o toque dele faz meu corpo falhar, sinto uma leve tontura, minha respiração pesa.
Por um momento sinto cheiro de umidade, mofo que logo é substituído pelo perfume amadeirado de Gustavo.
Olho nos olhos dele e vejo uma intensidade que eu nunca havia presenciado.
Ele está diferente, o olhar: voraz.
“Talvez possamos recomeçar”
— Cheguei cedo, já tomou café?
Balanço a cabeça negativamente.
— Vou preparar algo para você comer.
Gustavo sempre cuidava de mim, fico feliz em ver que ele realmente está disposto a recomeçar.
Em poucos minutos, ele coloca uma panqueca no meu prato.
Como, por um segundo sinto um gosto azedo, mas logo o doce toma conta do meu paladar.
— Lembra do dia que nos encontramos na biblioteca e brigamos por causa de um livro?
Paro de mastigar.
— Apesar da briga, aquele continua sendo o melhor dia da minha vida, Rubia. Pois foi o dia que eu te conheci.
Engulo, e a comida desce arranhando a minha garganta como se fosse terra.
Tusso, quando Gustavo empurra o livro pra mim.
— De onde você tirou…onde encontrou esse livro?
— Estava na gaveta dos talheres, encontrei quando fui pegar a espátula.
Pisquei tentando lembrar, compreender, como o livro foi parar lá.
— Coincidência essa casa ter o motivo exato pelo qual iniciamos nosso namoro.
Ele se aproxima, sinto o cheiro de lavanda, ele beija a minha testa.
O toque dos lábios dele envia um tremor pelo meu corpo, sinto minhas pernas perderem a força. Quase caio, mas ele me segura.
— Você está bem?
— Sim, eu só não esperava ver você aqui. Vou continuar comendo, acho que a minha pressão oscilou.
Ele fica olhando eu comer. Por alguns minutos o silêncio recai sobre o ambiente.
Quando termino ele me leva até o quarto e deitamos na cama. Conversamos sobre momentos felizes que vivemos.
Nos beijamos, um beijo lento, com sabor “felizes para sempre”.
Nos afastamos. Percebo o olhar doce que Gustavo me lançava muda completamente para um olhar sombrio.
— Engraçado você não lembrar, eu sei exatamente onde tudo começou a esfriar.
Ele faz uma pausa.
— Lembra daquela noite em que você disse que ia ficar até mais tarde no clube? Você estava tão cansada quando chegou, mas seu cheiro estava diferente.
Sinto um frio me atingir, não queria que o clima de antes fosse interrompido.
Saio da cama, vou para a sala e acendo a lareira, para afastar a brisa gelada que entrava pela janela.
O fogo pareceu aquecer o ambiente, mas quando Gustavo entrou na sala a temperatura caiu novamente.
O olhar dele, cortante.
— Eu entendo, Rubia. Eu não era o suficiente para sua fome, por isso fui descartado. Mas tem algo que eu gostaria de saber, porque ela, Rubia?
Não respondo, começo a sentir um tremor nas mãos, minha respiração acelera.
TOC, TOC.
Gustavo abre a porta.
Julia.
— Oi Rubia — ela diz com um sorriso amarelo.
— O que ela tá fazendo aqui Gustavo?
— Achei que trazer a peça que faltava, funcionaria como um incentivo, um tempero a mais. Já volto.
Encaro Julia por alguns minutos.
Gustavo traz três copos e uma garrafa de vinho. Ele enche as taças e entrega uma pra mim, outra para Julia e fica com uma para ele.
Ele olha para o vinho na taça na mão dele.
— Sabe Julia, esse vinho aqui é o mesmo que bebemos quando Rubia e eu começamos a morar juntos.
Ele ergue a taça. Julia o acompanha.
— Um brinde à nós, que fomos enganados!
Ambos bebem.
Sinto meu coração pulsar no pescoço, o tremor agora avança pras minhas pernas.
— O que foi Rubia? Não lembro dessa timidez toda quando nos divertiámos no pós jogo — diz Julia.
Gustavo se aproxima de Julia, passa a mão em seu rosto. Os dois ficam se analisando.
— Você ama Julia assim como me ama, Rubia.
— Não, eu não amo a Julia.
Sinto o chão sob o meus pés frio como gelo.
— “Eu te amo Julia” era isso que você sussurrava no meu ouvido. Mas se não me ama, como define o que nós tivemos?
A voz de Julia era tão cortante quanto a de Gustavo.
— Sexo, apenas isso…eu já te disse isso!
— Apenas sexo…pelo menos foi bom Rubia? Trocar a nossa história por um momento de tesão? — Gustavo fala calmo.
Começo a sentir minha visão embaçar, o gosto do vinho fica amargo demais…tento me levantar, mas sinto uma fraqueza tomar conta do meu corpo. Caio sob o tapete.
— Responde o Gustavo, Rubia. Admita que você destruiu as nossas vidas por uma aventura!
Minha mente viaja para o exato momento em que Gustavo nos encontrou no vestiário do clube…o olhar de decepção e raiva.
Saí correndo atrás dele para explicar, o que na verdade não tinha explicação.
Desde aquele dia, Julia parou de me olhar nos olhos, eu fiz ela acreditar que era especial, mas a verdade era que eu só queria aliviar a tensão e ter um pouco de prazer.
Desde aquele flagra, Gustavo ignorava qualquer tentativa de contato comigo.
Abro os olhos novamente, estou em outro lugar, uma casa abandonada, escura, cheirando a mofo. Olho para os meus braços, estão finos, cadavéricos, não tenho forças para me movimentar. Eu não consigo respirar, o ar não entra.
Pisco novamente e volto para a sala.
Gustavo e Julia me olham esperando a confissão.
— Eu admito! Destruí a vida de vocês dois…e eu me culpo por isso desde então!
Eles sorriem satisfeitos, se aproximam um do outro e se abraçam.
Os corpos de Julia e Gustavo começam um a entrar no outro, fundindo-se, até voltarem a ser um corpo só.
Agora, estava a minha frente a figura simpática e acolhedora da senhora que me recepcionou no dia anterior.
— Obrigada Rubia, considere a locação, paga. Fazia muito tempo que eu estava com fome de “culpa e arrependimento”! E você me presenteou com um banquete digno de Deuses!
Fecho meus olhos, sem forças para mais nada, silêncio total.
Alguns dias depois.
“A Polícia Civil encerrou hoje as buscas nas matas da região sul. O corpo da treinadora do time feminino, Rubia, foi encontrado em estado avançado de decomposição próximo às ruínas de uma casa antiga. Segundo relatórios liberados da autópsia Rubia faleceu de inanição”
Julia olha incrédula para a notícia.
Ela havia saído do time, pois não aguentava sentir a indiferença de Rubia, como se os momentos que compartilharam de carinho e paixão, nunca tivessem existido.
A esperança que tinha de reencontrar Rubia com vida, desde que soube de seu sumiço, agora era substituída por uma tristeza sem tamanho.
Mesmo que seus sentimentos não fossem correspondidos, Julia estava disposta a ser o que Rubia quisesse que ela fosse. Desde que estivesse presente em sua vida.
O celular dela vibra, a tirando ela daquela imersão, do que elas poderiam ter sido.
Ela olha, um anúncio.
Procurando conforto?
Uma casa na zona rural, perfeita para curar corações partidos.
Clique no link, para reservar”
FIM

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