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Onde a neve encontra o ouro

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Summary

Algumas neves não deveriam cair. Alguns encontros não deveriam acontecer. No império de Yunshiro, segredos antigos permanecem escondidos sob a beleza dos palácios e o silêncio das montanhas. Jin Wenyuan, um nobre de inteligência afiada, parte em busca de respostas após o misterioso desaparecimento de cartas destinadas à sua família. Durante a viagem, um encontro inesperado o coloca no caminho de Shirogane Akihito, um homem tão enigmático quanto os segredos que carrega. O que deveria ser apenas um encontro passageiro logo os envolve em acontecimentos inexplicáveis: penas brancas surgem em lugares impossíveis, um santuário desaparece dos mapas e a neve começa a cair em pleno outono. Entre desconfianças, mistérios e verdades ocultas, os dois descobrirão que alguns encontros talvez não sejam obra do acaso. E que existem segredos que deveriam permanecer adormecidos.

Genre
Lgbtq
Author
Carol
Status
9 mins ago
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
16+

Um encontro incoveniente


O outono daquele ano chegou acompanhado de ventos frios e folhas avermelhadas que cobriam as estradas de Yunshiro.

Na capital imperial, as pessoas diziam que seria um inverno rigoroso. Os comerciantes aumentavam os preços das mantas, os viajantes apressavam suas partidas e os sacerdotes dos antigos santuários acendiam incensos em homenagem aos espíritos das montanhas.

Jin Wenyuan não acreditava em nenhuma dessas coisas.

Ou, pelo menos, era o que dizia.

- Senhor, se continuarmos nesse ritmo, chegaremos à próxima cidade somente depois do anoitecer.

Wenyuan ergueu os olhos do documento que examinava dentro da carruagem.

- Então chegaremos depois do anoitecer.

O criado sentado diante dele hesitou.

- Mas a estrada da montanha...

- Continua sendo uma estrada, não? Imagino que não tenha criado pernas e fugido durante a noite.

- Eu quis dizer que há relatos de assaltantes naquela região.

- Ah.

Wenyuan voltou a olhar o documento.

- Nesse caso, espero que os assaltantes sejam educados o suficiente para esperar que eu termine de ler.

O criado fechou a boca.

Era uma reação comum entre aqueles que trabalhavam para Jin Wenyuan. Depois de algum tempo, as pessoas aprendiam que discutir com ele era semelhante a tentar convencer um gato a tomar banho: cansativo, pouco produtivo e frequentemente humilhante.

Aos vinte e oito anos, Wenyuan já havia compreendido que a maioria das pessoas falava demais quando estava nervosa e mentia ainda mais quando acreditava estar sendo inteligente.

Naquela manhã, ele recebera a confirmação de que três cartas enviadas por sua família jamais haviam chegado ao destino.

A princípio, parecera um simples problema de correspondência. Contudo, as cartas tinham sido registradas na capital, entregues a mensageiros oficiais e encaminhadas pela rota habitual. Nenhuma havia desaparecido antes.

As três continham informações sobre assuntos familiares.

E todas tinham sido enviadas para a mesma pessoa.

Seu tio.

Wenyuan dobrou o documento cuidadosamente e guardou-o na manga.

Não gostava de coincidências.

Principalmente quando alguém se esforçava tanto para fazê-las parecer naturais.

---

A chuva começou pouco depois do meio-dia.

Primeiro, vieram gotas esparsas, que escureceram a poeira da estrada. Depois, o céu se fechou, e uma cortina de água obrigou a carruagem a parar diante de uma bifurcação.

O cocheiro desceu para examinar o caminho.

- Senhor Jin, a passagem inferior está alagada. Há um pavilhão adiante. Podemos esperar lá até a chuva diminuir.

Wenyuan afastou a cortina.

Ao longe, entre árvores de folhas vermelhas, avistava-se uma pequena construção de pedra junto a uma ponte estreita. Não era particularmente bonita, mas oferecia um teto.

- Parece perfeitamente adequada para impedir que eu morra afogado sem sequer entrar num rio - respondeu.

Desceu da carruagem com a ajuda do criado, ajeitou as mangas de seu manto cor de vinho e caminhou até o pavilhão.

O lugar estava vazio.

Ou assim pareceu nos primeiros instantes.

Wenyuan retirou as luvas, sacudiu algumas gotas de água dos cabelos e sentou-se no banco de madeira junto à parede. Colocou sobre o assento ao lado uma pequena bolsa de documentos e, finalmente, permitiu-se fechar os olhos.

Durou pouco.

Passos soaram na entrada.

- Com licença.

Wenyuan abriu um olho.

Um homem estava parado sob a entrada do pavilhão, segurando uma caixa de madeira escura contra o peito. Vestia camadas de tecido branco e azul-pálido, presas por um cinto prateado. Seus longos cabelos negros estavam parcialmente presos por um ornamento discreto, enquanto algumas mechas úmidas caíam junto ao rosto.

Era um homem de beleza incomum.

Wenyuan percebeu isso imediatamente.

Também percebeu que o desconhecido olhava para ele com a expressão de alguém que acabara de encontrar uma pedra no meio do caminho.

- O banco está ocupado - disse Wenyuan.

O homem baixou os olhos para o assento.

Depois, para o manto de Wenyuan, que cobria parte da madeira.

- Eu estava me referindo ao meu manto.

Wenyuan acompanhou o olhar dele.

Havia um tecido branco cuidadosamente dobrado sob sua própria bolsa, quase escondido entre as sombras.

Ele ergueu as sobrancelhas.

- Ah. Então é seu.

- Sim.

- Deixado num banco público.

- Num banco vazio.

- Uma distinção bastante importante.

O desconhecido inspirou devagar, como se estivesse reconsiderando alguma decisão importante sobre a própria vida.

- Poderia, por gentileza, retirar seus pertences?

Wenyuan sorriu.

- Poderia.

Não se moveu.

Por um momento, os dois se encararam.

O homem de branco tinha olhos escuros e tranquilos, mas havia neles uma irritação crescente. Wenyuan, por sua vez, parecia estar desfrutando de cada segundo.

Finalmente, ele recolheu a bolsa e o manto, liberando o lugar.

- Pronto. Espero que a sua viagem continue sendo tão agradável quanto sua chegada.

- E espero que o senhor aprenda a distinguir um assento vazio de um assento abandonado.

O sorriso de Wenyuan aumentou.

- Que observação interessante. Vou tentar me lembrar dela na próxima vez que encontrar um banco.

O desconhecido sentou-se, mantendo a caixa de madeira sobre os joelhos.

Não respondeu.

Wenyuan considerou aquilo uma pequena vitória.

Pelo menos até perceber que o homem havia escolhido o único lugar do pavilhão de onde poderia observar diretamente a estrada.

Um viajante cauteloso, então.

Ou alguém que esperava por outra pessoa.

Wenyuan não perguntou.

Ainda.

---

A chuva diminuiu gradualmente, transformando-se num murmúrio sobre as pedras da ponte.

O desconhecido abriu a caixa apenas o suficiente para verificar seu conteúdo. Wenyuan não conseguiu enxergar o que havia dentro, mas notou o cuidado com que ele conferiu o fecho antes de torná-la a fechar.

- Transportando algo valioso? - perguntou.

O homem não ergueu os olhos.

- Não é da sua conta.

- Uma resposta bastante convincente.

- Não sabia que precisava convencê-lo de alguma coisa.

Wenyuan soltou uma risada breve.

- Você sempre conversa assim com estranhos?

- Somente com aqueles que fazem perguntas inconvenientes.

- Então devo me sentir especial.

- Como preferir.

O silêncio voltou a ocupar o pavilhão.

Wenyuan examinou o desconhecido discretamente. As mãos dele eram finas, os dedos longos e as unhas bem cuidadas. Ainda assim, pequenas marcas atravessavam a pele de suas palmas, sinais de treino repetido, de atrito e esforço.

Não eram mãos de alguém que passava a vida inteira sentado entre livros.

O modo como se mantinha sentado também chamou sua atenção. As costas permaneciam retas sem parecer rígidas, e seus movimentos eram tão econômicos que quase não produziam ruído.

Um artista, talvez.

Um espadachim?

Ou alguma combinação inconveniente dos dois?

- Você vem da região norte? - perguntou Wenyuan.

Dessa vez, o homem olhou para ele.

- Por quê?

- Suas roupas. O corte é diferente do usado na capital.

- E o seu manto indica que gosta de chamar atenção.

Wenyuan olhou para as próprias vestes cor de vinho e dourado.

- Naturalmente. Seria uma tragédia possuir bom gosto e escondê-lo.

O desconhecido desviou o olhar.

Wenyuan juraria ter visto o canto de sua boca se mover.

Talvez fosse apenas uma contração.

Uma pena que ele não tivesse como provar.

- E você? - perguntou o homem após alguns instantes.

- Eu o quê?

- Sempre faz perguntas sem se apresentar?

Wenyuan inclinou ligeiramente a cabeça.

- Depende. Sempre responde a perguntas com outras perguntas?

- Quando a primeira pessoa parece incapaz de compreender uma resposta simples.

- Nesse caso, receio que tenhamos muito em comum.

O desconhecido finalmente soltou um pequeno suspiro.

Não parecia impressionado.

Wenyuan decidiu, com certa satisfação, que não gostava dele.

Era uma conclusão prematura, sem dúvida.

Mas não deixava de ser uma conclusão.

---

Foi então que a primeira coisa estranha aconteceu.

Uma pena branca pousou sobre o banco entre os dois.

Nenhum deles a viu chegar.

Wenyuan percebeu-a quando o vento a empurrou contra sua manga. Retirou-a do tecido com dois dedos e examinou-a sob a luz cinzenta que atravessava o pavilhão.

Era longa, inteiramente branca, com uma haste fina e delicada.

- Uma pena - comentou. - Que descoberta extraordinária.

O homem de branco ficou imóvel.

Wenyuan percebeu a mudança antes mesmo de erguer os olhos.

A expressão do desconhecido havia perdido toda a irritação. Seus dedos apertavam a caixa de madeira com força suficiente para embranquecer os nós.

- Onde a encontrou?

Wenyuan olhou para a pena.

- No meu manto. Ela parece ter decidido que sou uma companhia mais interessante.

- Estou falando sério.

A mudança de tom fez Wenyuan erguer o rosto.

Pela primeira vez desde que chegara, o desconhecido parecia verdadeiramente perturbado.

Wenyuan voltou a examinar a pena.

- Caiu aqui, levada pelo vento. Não imaginei que fosse motivo para alarme.

O homem estendeu a mão.

- Posso vê-la?

Wenyuan hesitou por um instante antes de entregar o objeto.

O desconhecido segurou a pena pela haste e a aproximou dos olhos. Virou-a cuidadosamente, examinando a superfície sob diferentes ângulos.

- Há algum problema? - perguntou Wenyuan.

- Não sei.

- Uma resposta reconfortante.

O homem ignorou o comentário.

- Viu algum pássaro passar por aqui?

Wenyuan olhou para o céu carregado.

- Além daqueles que costumam voar quando chove? Nenhum que tenha solicitado minha atenção.

O desconhecido fechou os olhos por um breve instante.

Quando voltou a abri-los, havia recuperado parte da compostura.

- Não toque nela novamente.

Wenyuan ficou em silêncio.

Depois, sorriu lentamente.

- Agora fiquei curioso.

- Isso não é uma boa ideia.

- Curiosidade raramente pede permissão.

- E é por isso que tantas pessoas acabam mortas.

O sorriso de Wenyuan desapareceu por um instante.

A frase fora pronunciada sem dramatização, quase como uma observação cotidiana.

Ele estudou o rosto do desconhecido, procurando algum indício de brincadeira.

Não encontrou nenhum.

- Você costuma ameaçar desconhecidos que lhe devolvem penas?

- Somente quando eles não entendem o perigo de certas coisas.

Antes que Wenyuan pudesse responder, um som distante atravessou a montanha.

Era um sino.

Grave, prolongado, vindo de algum lugar além das árvores.

O homem de branco se levantou imediatamente.

A caixa de madeira foi presa contra seu corpo, e seus olhos se voltaram para a estrada que desaparecia entre a neblina.

Wenyuan também se levantou, embora com menos pressa.

- Há algum templo por aqui?

O desconhecido não respondeu.

O sino tocou novamente.

Dessa vez, Wenyuan teve a estranha impressão de que o som vinha de muito mais perto.

Olhou para a ponte.

Por um breve instante, jurou ter visto uma figura parada do outro lado, vestida com algo tão branco quanto a pena.

Piscou.

A ponte estava vazia.

- Você viu aquilo? - perguntou.

O homem de branco virou o rosto para ele.

- Viu o quê?

Wenyuan sustentou seu olhar.

Era possível que tivesse sido apenas um efeito da chuva, da neblina ou do cansaço. Havia passado a manhã inteira examinando documentos e mal dormira na noite anterior.

Ainda assim, não gostou da maneira como o desconhecido fizera a pergunta.

Como se já soubesse a resposta.

- Nada - respondeu finalmente.

O homem o observou por mais alguns segundos.

Então guardou a pena dentro da manga.

- Preciso partir.

- Naturalmente. Seria inconveniente permanecer num lugar onde objetos misteriosos caem do céu.

O desconhecido caminhou até a entrada do pavilhão.

Antes de sair, porém, parou.

- Se estiver viajando para a cidade de Lianzhou, não use a estrada oriental.

Wenyuan franziu o cenho.

- E por que eu deveria seguir o conselho de um homem que se recusa a dizer o próprio nome?

- Porque a ponte da estrada oriental desabou ontem.

Wenyuan ficou imóvel.

- Como sabe disso?

O desconhecido olhou para ele por cima do ombro.

- Passei por lá.

- Então deveria ter começado por essa parte.

- O senhor não perguntou.

E, com isso, desapareceu na chuva.

Wenyuan permaneceu no pavilhão, olhando para o lugar onde o homem estivera.

Depois de alguns instantes, soltou uma risada sem humor.

- Insuportável.

Recolheu a bolsa, ajeitou o manto e chamou o criado.

Ainda tinha documentos para examinar, cartas desaparecidas para investigar e uma cidade inteira para atravessar.

Não tinha tempo para homens misteriosos, penas brancas ou sinos vindos de templos que talvez nem existissem.

Era o que dizia a si mesmo quando voltou à carruagem.

E continuaria dizendo, até muito depois de a chuva cessar.

---

Naquela noite, Wenyuan chegou a uma hospedaria nos arredores de Lianzhou.

O quarto era simples, aquecido por um pequeno braseiro. Sobre a mesa, o criado havia deixado chá quente e os documentos que o senhor pedira para organizar.

Wenyuan retirou o manto, soltou parte dos cabelos e sentou-se para trabalhar.

Foi quando percebeu algo estranho.

Uma pequena marca branca atravessava a manga de sua roupa, bem no lugar onde a pena havia tocado o tecido.

Ele esfregou a mancha com o polegar.

Não saiu.

Aproximou a manga da chama da lamparina.

Por um instante, a marca pareceu brilhar com uma luz fria, quase prateada.

Então desapareceu.

Wenyuan permaneceu imóvel.

Lá fora, o vento percorreu as telhas.

E, muito longe dali, um sino tocou pela terceira vez.

Wenyuan apagou a lamparina.

Pela primeira vez em muitos anos, decidiu que talvez fosse melhor não investigar alguma coisa imediatamente.

A decisão durou aproximadamente sete segundos.

Depois, acendeu a luz novamente, pegou uma folha de papel e escreveu no alto:

PENA BRANCA - PAVILHÃO DA PONTE.

Abaixo, acrescentou:

Encontrar o homem de branco. Descobrir seu nome.

Pensou por um instante.

Então escreveu uma terceira linha.

E descobrir por que ele parecia ter mais medo da pena do que eu.

Dobrou o papel e o guardou junto aos documentos.

Do lado de fora, a chuva havia parado.

Mas, sobre os telhados de Lianzhou, alguma coisa branca começou a cair.

E não era chuva.

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