Capítulo 1 — Sem sangue
O iate de Viktor Lendvai estava ancorado a duas milhas da costa, longe o bastante para que nenhuma lente de Valência alcançasse o convés e perto o bastante para que, à noite, as luzes do porto parecessem um colar jogado na água. Tinha sessenta e dois metros, um heliponto na proa e uma tripulação que sabia não ver nada. A lancha que levou Adam encostou na plataforma de popa às quatro da tarde, e um marinheiro de uniforme branco estendeu a mão para ajudá-lo a subir. Adam não pegou a mão.
Dénes subiu atrás dele. Os outros dois homens ficaram na lancha.
Lendvai o recebeu no salão principal, de pé, junto a uma parede inteira de vidro. Tinha setenta anos, o rosto queimado de quem tinha passado a juventude no cais, e uma camisa de linho que custava o salário de um ano dos homens que um dia tinham trabalhado para ele. Atrás dele, numa parede forrada de seda cinza, havia um quadro que Adam reconheceu: uma paisagem de inverno, holandesa, com patinadores num canal congelado. Até três anos antes, estivera num museu de Viena. Depois houve um leilão que nenhum jornal noticiou.
— Sente-se, rapaz — disse Lendvai. — Quer beber alguma coisa?
— Não, obrigado.
— Uma pena. Mandei trazer um Tokaji de mil novecentos e quarenta e sete. Jakob gosta.
— Jakob não veio.
— Estou vendo.
Havia mais dois homens no salão. Um deles Adam conhecia de fotografia: Bence Sárközi, diretor de operações do Grupo Lendvai, magro, de óculos sem aro, com uma pasta de couro no colo. O outro era o advogado, que não levantou os olhos dos papéis espalhados sobre a mesa baixa.
Adam se sentou. Dénes ficou junto à porta de vidro que dava para o convés.
— Vamos direto ao assunto, então — disse Lendvai, sentando-se diante dele. — A concessão do Terminal Leste vence em março. O ministério abre a licitação em dezembro, e o resultado já está decidido desde o verão, como você sabe, porque fui eu quem decidiu com o seu pai, nesta sala, com aquela garrafa. Trinta anos de concessão. Todo contêiner que entrar ou sair do maior porto do país passa pelas minhas mãos. E pelas de vocês.
— Pelas nossas primeiro.
Lendvai sorriu.
— O acordo era vinte e cinco por cento para os Hunyadi, mais o controle da alfândega do terminal. Eu quero rever esse número.
— Para quanto?
— Quarenta.
O advogado continuou mexendo nos papéis. Sárközi ajeitou os óculos.
— Os custos subiram — continuou Lendvai, com a calma de quem explica uma coisa óbvia a uma criança. — Dois ministros em vez de um. Um juiz no tribunal de contas que agora quer uma casa na costa. O sindicato dos estivadores. Eu carrego tudo isso. Vocês carregam o que passa pelos contêineres, e eu nunca perguntei o que é. Quarenta é justo.
— Quarenta não é justo — disse Adam. — Quarenta é o que os Korányi ofereceram.
O salão ficou em silêncio. Lá fora, uma gaivota pousou no corrimão do convés, olhou para dentro do vidro e foi embora.
Lendvai não se mexeu.
— Não sei do que você está falando.
— O senhor Sárközi sabe. — Adam não olhou para Sárközi. — Esteve três vezes em Szentendre desde setembro, numa casa que pertence ao cunhado de Gábor Korányi. Na terceira vez, levou uma cópia dos termos do nosso acordo. Saiu de lá com uma proposta de quarenta por cento e a promessa de que a alfândega do terminal ficaria com o senhor, não conosco.
Sárközi tinha ficado muito branco. Abriu a boca. Lendvai ergueu a mão sem olhar para ele, e Sárközi fechou a boca.
— Foi uma conversa — disse Lendvai. — Um homem de negócios conversa com todo mundo.
— Foi.
— E você veio aqui me acusar de quê, exatamente?
— De nada. — Adam se recostou na poltrona. — O acordo continua de pé. A licitação acontece em dezembro, o senhor ganha, os ministros recebem o que já foi combinado. Só muda o número.
— Para quanto?
— Vinte para o senhor. Oitenta para nós.
Lendvai riu. Foi um riso curto, verdadeiro, de homem que não ouvia uma piada boa havia muito tempo.
— Você ficou maluco, rapaz.
— Os vinte são pela conversa em Szentendre.
— Escuta aqui. — Lendvai se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos. A voz continuava mansa. — Eu negociei com o avô de Jakob. Eu vi Jakob aprender a andar no cais de São Miklós. Eu tenho dois ministros no bolso, um terceiro a caminho, e um barco que vale mais que a colina inteira de Sarlós. Eu não vou discutir porcentagem com o vira-lata que o Jakob tirou de um beco. Jakob me deve o respeito de vir pessoalmente. Liga para ele.
— Jakob está ocupado.
— Então eu espero. Até os marinheiros deste barco sabem quem você é, rapaz. Você pode vestir o terno que quiser, pode sentar na cadeira que quiser. O sangue não vem junto com o sobrenome.
Adam o olhou por um momento. O rosto dele não mudou.
— Dénes — disse.
Dénes descolou da porta de vidro e atravessou o salão. Sárközi viu ele vindo e se levantou de um pulo, a pasta de couro caindo no tapete, os papéis se espalhando. Olhou para Lendvai. Lendvai não olhou para ele.
— Senhor Lendvai — disse Sárközi. — Senhor Lendvai, eu fiz o que o senhor mandou.
Lendvai continuava olhando para Adam.
Dénes pegou Sárközi pelo braço e o conduziu até a escada que descia para os camarotes de baixo. Sárközi não resistiu. Desceu os degraus de costas, ainda olhando para o patrão, até a cabeça dele sumir no vão da escada. Uma porta se fechou lá embaixo.
O advogado tinha parado de mexer nos papéis.
— Ele trabalha para mim há vinte e dois anos — disse Lendvai.
— Eu sei.
— Os filhos dele estudaram com os meus netos.
— Eu sei disso também.
Ninguém disse mais nada. Pelo casco subia, às vezes, um som abafado que podia ser a água batendo, ou um móvel arrastado, ou outra coisa. O iate balançava de leve. O advogado olhava fixo para um ponto no tapete. Lendvai serviu para si mesmo uma dose do Tokaji de mil novecentos e quarenta e sete e não bebeu.
Adam olhou o mar pela parede de vidro. A luz da tarde batia de lado na água e a deixava cor de chumbo.
Passaram-se vinte minutos.
Dénes subiu a escada sozinho. Tinha tirado o paletó e enrolado as mangas da camisa até os cotovelos, e estava enxugando as mãos numa toalha de rosto bordada com as iniciais do barco. Entregou a Adam um celular que não era dele.
— Falou — disse Dénes. — Tem mais dois nomes. Um deles é da alfândega.
Adam guardou o celular no bolso do paletó. Olhou para o advogado.
— Vinte por cento — disse. — Redija hoje. O senhor Lendvai assina amanhã de manhã, no escritório de Jakob, às dez.
O advogado olhou para o patrão. Lendvai demorou. Depois inclinou a cabeça, uma vez.
— E o Bence? — perguntou.
— A lancha leva ele para terra comigo. — Adam se levantou e abotoou o paletó. — Os filhos dele vão continuar estudando com os seus netos. Por enquanto.
Saiu para o convés. O vento do mar tinha esfriado. Na lancha, os dois homens de Dénes esperavam com o motor ligado, e um deles subiu para ajudar a descer o que veio pela escada de serviço, enrolado num cobertor da tripulação, que não andava sozinho mas ainda respirava.
Adam se sentou na proa, de costas para o iate.
A lancha cortou a água em direção ao porto. As luzes de Valência começavam a acender ao longo da costa, uma a uma, os guindastes do Terminal Leste altos e escuros contra o céu como esqueletos de bichos enormes.
— Quer que eu cuide do velho? — perguntou Dénes, sentando-se ao lado dele, sem olhar para ele.
— Não.
— Ele vai falar isso de novo. Para outras pessoas.
— Eu sei.
— Ele já falou para outras pessoas.
— Eu sei, Dénes.
Atrás deles, no fundo da lancha, alguém gemeu debaixo do cobertor. Um dos homens se inclinou e disse alguma coisa em voz baixa, e o gemido parou.
— Precisamos dele por mais trinta anos — disse Adam.
Dénes não respondeu. A lancha diminuiu a velocidade ao entrar no canal do porto, e o barulho do motor mudou.
...
A casa ficava no alto da colina de Sarlós, no fim de uma rua que não tinha saída nem placa, e o portão abria antes que o carro precisasse diminuir a velocidade. Os pneus rangeram no cascalho. Os dois cães do turno da noite vieram até a metade do caminho, reconheceram o cheiro do carro e voltaram para a sombra das tílias.
Margit esperava na porta, como esperava todas as noites desde que Adam tinha onze anos, com as mãos unidas na frente do avental e a boca já preparada para perguntar se ele tinha comido.
— Comeu?
— Comi.
— Mentira. Tem sopa.
— Depois, Margit.
— Depois a sopa esfria e você não come, e eu jogo fora, e Deus vê. — Ela pegou o paletó dele no ar, antes que ele terminasse de tirá-lo, e o dobrou no braço. — O senhor Jakob está no escritório. Pediu que você subisse quando chegasse.
— Ele jantou?
— O que você acha?
Adam subiu a escada principal. Os degraus eram de mármore escuro, gastos no meio por um século de passos, e o corrimão de nogueira estava sempre um pouco frio, mesmo no verão. No patamar, o retrato da mulher morta continuava onde sempre estivera: uma moça de vinte e poucos anos, de pé junto a uma janela, com um vestido azul-acinzentado e as mãos cruzadas diante do corpo de um jeito que parecia ensaiado. Tinha os olhos grandes e escuros, um rosto fino, e uma expressão de quem estava prestes a rir do pintor.
Adam passou por ela sem diminuir o passo. Era um hábito antigo.
Na primeira noite, tinha parado ali. Tinha onze anos, os pés descalços e sujos, porque os sapatos tinham ficado no carro, ou na rua, ou em algum lugar entre a rua e aquela casa. Margit vinha atrás dele, horrorizada com as pegadas que ele deixava no tapete, dizendo coisas em húngaro que ele não entendia. Eram rezas. E ele tinha parado no patamar, diante daquela moça de vestido azul, porque nunca tinha visto uma pintura de verdade, só as dos ônibus e das paredes da estação, e a moça parecia viva.
Lembrava da mão de Margit no ombro dele, empurrando. Lembrava da água do banho ficando cinzenta. Lembrava, com mais nitidez do que tudo, do cheiro do banco de couro do carro, onde tinha passado talvez uma hora sentado ao lado de Jakob, os dois em silêncio, enquanto lá fora a cidade passava de um jeito que ele nunca a tinha visto: de cima, limpa, com as luzes todas no lugar.
Antes do carro, tinha o beco.
Antes do beco, tinha o homem saindo da casa de apostas da rua Kőfaragó, bêbado de vitória, com um relógio de ouro no pulso que brilhava debaixo do néon como uma isca. O homem tinha tropeçado, e Adam tinha estado lá para segurá-lo, e quando o homem se endireitou o relógio estava no bolso do agasalho de Adam e Adam estava na esquina.
Não sabia que o homem era cobrador dos Hunyadi. Não sabia que os Hunyadi tinham a casa de apostas, nem que tinham a rua, nem que tinham metade dos becos de Valência. Soube quando dois homens o alcançaram três quarteirões depois, e um deles o segurou contra a parede enquanto o outro pegava a mão dele, a direita, e dobrava o dedo indicador para trás até estalar.
Ainda sentia aquele dedo quando o tempo mudava.
Não tinha gritado. Tinha mordido a boca por dentro até sentir gosto de ferro, e os homens tinham trocado um olhar que ele não entendeu, e depois o arrastaram até um carro parado na esquina, e abriram a porta de trás, e lá dentro estava Jakob.
— Quantos anos você tem?
— Onze.
— Por que não gritou?
Adam tinha olhado para ele, para o terno escuro, para as mãos limpas, para o rosto que não parecia zangado nem com pena, só cansado, e tinha respondido a única coisa que sabia ser verdade.
— Ia adiantar?
Jakob o olhou por um tempo que pareceu muito longo. Depois disse ao motorista que fosse para casa.
Foi Margit quem enfaixou o dedo naquela noite, e foi Margit quem disse, enquanto enfaixava, sem olhar para ele, que ele ia dormir no quarto azul porque o outro estava fechado. Adam não tinha perguntado que outro. No dia seguinte, ao passar pelo corredor da ala leste, viu a porta fechada no fim do corredor, e no chão, ao lado dela, um par de tênis pequenos, brancos, com os cadarços desamarrados, como se alguém os tivesse tirado ali e fosse voltar para buscá-los.
No outro dia, os tênis não estavam mais lá.
Ninguém falava do menino. Adam aprendeu o nome dele como se aprendem as coisas proibidas numa casa: aos pedaços, pela metade, nas conversas que paravam quando ele entrava na cozinha. Benjamin. Bérgamo. A senhora Erzsébet levou. Tão pequeno. Tão magrinho. Parecido demais com ela, coitado. Uma vez, Margit chorou lavando a louça, e a cozinheira da época, uma mulher grande chamada Zsófia, disse em voz baixa que pelo menos agora havia um menino na casa, e Margit respondeu com uma frase que Adam não entendeu, porque estava em húngaro, e que ele nunca teve coragem de pedir que traduzissem.
Aos treze anos, numa tarde em que Jakob estava viajando, Adam foi até o fim do corredor da ala leste e girou a maçaneta.
A porta estava trancada.
Nunca mais tentou.
Agora atravessava esse mesmo corredor sem olhar para ele, porque o escritório ficava na outra ponta da casa, e o caminho mais curto não passava por ali.
...
Jakob estava de pé junto à janela, de costas, quando Adam bateu e entrou.
O escritório era a peça mais escura da casa. As paredes eram forradas de madeira até o teto, e as estantes guardavam livros que Adam nunca tinha visto Jakob ler e que ele mesmo tinha lido quase todos, aos quinze e dezesseis anos, nas noites em que não conseguia dormir. Havia uma lareira que só era acesa em dezembro, uma poltrona de couro que tinha sido do pai de Jakob, e uma mesa grande o bastante para que dois homens sentados um diante do outro precisassem levantar a voz.
Jakob se virou. Tinha cinquenta e dois anos, o cabelo escuro raleando nas têmporas, e o rosto fechado de sempre, que não mudava quando ele dava uma ordem nem quando recebia uma notícia ruim. Os Hunyadi eram assim nas fotografias antigas espalhadas pela casa: escuros, de queixo duro e olhos fundos, homens que pareciam ter saído do mesmo molde.
— O Lendvai — disse Jakob.
— Assina amanhã, às dez. Aqui.
— Conta.
Adam contou. Os quarenta por cento, Szentendre, a casa do cunhado de Gábor Korányi, Sárközi descendo a escada do iate de costas. Os dois nomes que tinham saído do celular, um deles da alfândega. Os vinte por cento. Contou sem enfeitar e sem omitir, e Jakob ouviu de pé, com uma das mãos no encosto da poltrona do pai, sem interromper.
— O Sárközi está vivo? — perguntou Jakob, no fim.
— No hospital de São Rókus. Caiu da escada do iate.
Jakob assentiu, como quem confere uma conta.
— Eu tinha mandado você segurar os vinte e cinco.
— Ele foi conversar com os Korányi. Isso tem preço.
— O Viktor vai ficar com raiva de você.
— Já estava.
— Ele falou do sangue.
Não era uma pergunta. Adam não perguntou como Jakob sabia. Talvez Dénes tivesse ligado do carro. Talvez não tivesse sido preciso.
— Falou.
— E você?
— Disse que o senhor estava ocupado.
Alguma coisa passou pelo rosto de Jakob, rápida demais para ser chamada de sorriso.
— Quando atiraram no meu pai na saída da igreja de São Estêvão, foi o Viktor quem carregou o corpo até o cais — disse Jakob. — Eu tinha nove anos. Ele escondeu minha mãe e eu três dias no porão do primeiro barco dele, um cargueiro velho que fedia a peixe, até os homens que atiraram estarem todos mortos.
— Eu sei.
— Sabe. — Jakob se sentou na poltrona. Indicou a cadeira do outro lado da mesa, e Adam se sentou também. — Então sabe por que ele ainda tem um barco.
— Sei.
— Bom.
Era o que Jakob dizia. Bom. Adam tinha dez anos de bons guardados, e nenhum deles valia mais do que o anterior, e nenhum deles era menos do que precisava ser.
Falaram do resto. Os Korányi tinham comprado dois galpões na zona norte, perto do terminal de cargas, através de uma empresa de fachada tão mal feita que parecia um recado. Um juiz que devia favores aos Hunyadi estava doente e ia se aposentar antes do fim do ano. Um contador de Gábor Korányi tinha aparecido boiando no canal do Danúbio Velho fazia duas semanas, e ninguém sabia se tinha sido a própria família, se tinha sido a Fekete Kéz a mando de alguém, ou se o homem simplesmente tinha bebido demais e escorregado.
— Ninguém escorrega no Danúbio Velho com as mãos amarradas — disse Adam.
— Às vezes escorrega.
Jakob serviu dois dedos de conhaque para cada um. Não brindaram. Beberam olhando para lugares diferentes da sala.
Em dez anos, Jakob nunca tinha dito a Adam que tinha orgulho dele.
Nunca tinha dito que ele era seu filho, embora o nome Hunyadi estivesse em todos os documentos de Adam desde os doze anos, em letra de cartório, carimbado e registrado. Nunca tinha posto a mão no ombro dele em público. Nas reuniões, Adam se sentava à direita de Jakob, e era isso que Jakob tinha a dizer sobre o assunto, e todo mundo em Valência tinha entendido, inclusive Viktor Lendvai, inclusive os marinheiros dele.
Também nunca tinha falado do outro.
Adam olhou, como às vezes olhava sem querer, para a gaveta da esquerda da mesa, a única que ficava trancada. Jakob percebeu o olhar. Não disse nada. Terminou o conhaque e se levantou.
— Amanhã, às oito. O Ferenc, da prefeitura, vem tomar café.
— Às oito.
— Come a sopa da Margit. Ela me encheu o saco a tarde inteira.
...
O envelope chegou às sete e vinte da manhã seguinte.
Foi deixado na guarita do portão por um rapaz de moto, de capacete fechado, que não desceu da moto nem tirou as luvas. Estendeu o envelope pela janela da guarita, esperou que o guarda o pegasse, e foi embora pela mesma rua sem saída por onde tinha vindo, sem pressa, como um entregador de farmácia. A moto não tinha placa traseira. O guarda só percebeu isso depois.
Dénes trouxe o envelope até a sala do café da manhã segurando-o pelas pontas. Era pardo, grosso, do tamanho de uma folha comum, sem nada escrito por fora. Já tinha passado pelo aparelho da guarita.
— Papel — disse Dénes. — Só papel.
Jakob estava com a xícara a meio caminho da boca. Pousou-a no pires.
— Abre.
Dénes rasgou a aba com a faca de manteiga e virou o envelope sobre a toalha.
Eram fotografias. Impressas em papel brilhante, de boa qualidade, como as que se mandavam fazer numa loja de revelação. Seis, sete. Escorregaram umas sobre as outras e se espalharam entre o pão e a manteigueira de prata.
Adam viu a primeira antes de Jakob, porque caiu do lado dele.
Uma rua de pedra, estreita e em ladeira, com fachadas antigas cor de ocre e vasos de gerânio nas janelas. Uma confeitaria com toldo listrado. Saindo pela porta da confeitaria, com uma caixa de papel amarrada com fita numa das mãos, um rapaz.
Era magro. Foi a primeira coisa que Adam pensou. Magro de um jeito que a roupa não escondia, embora a roupa tentasse: camisa clara, um colete de tricô por cima, um paletó leve aberto. O cabelo era castanho-escuro, comprido o bastante para cair na testa e cobrir metade das orelhas, desarrumado como se ele tivesse acabado de passar a mão por ele. Tinha o rosto fino. Tinha os olhos grandes e escuros, e uma expressão de quem estava prestes a rir de alguma coisa.
Adam conhecia aquela expressão. Tinha passado por ela todas as noites, na escada, durante dez anos.
O rapaz estava rindo de verdade, na fotografia. Olhava para alguém ao lado dele, um sujeito alto, de óculos escuros e camisa polo, que segurava a porta da confeitaria aberta. Adam olhou para o sujeito alto e o reconheceu um segundo depois.
— Esse é o Matteo Ferrante — disse.
Jakob não respondeu. Tinha puxado para si as outras fotografias e as olhava uma a uma, devagar, e não as passava adiante.
Adam pegou a segunda pela borda.
Um terraço de café, numa praça com uma fonte ao fundo. Uma mesa redonda cheia de copos, um cinzeiro transbordando, guardanapos amassados. Matteo Ferrante de novo, com o braço apoiado no encosto da cadeira ao lado. Um rapaz loiro, de camisa de linho aberta, rindo com a cabeça jogada para trás. Uma moça morena, de óculos de sol no alto da cabeça, com a mão pousada no antebraço do filho de Jakob.
— Sandro Albani — disse Adam. — E a irmã. Chiara. O pai deles cuida do aeroporto de Bérgamo e de tudo o que sai dele. Estive com ele no casamento da filha do Ottavio, faz dois anos.
— Eu sei quem é o Albani.
O filho de Jakob estava sentado no meio deles. Não fumava. Era o único da mesa que não tinha um cigarro na mão ou no cinzeiro à frente. Tinha um copo de alguma coisa clara com gelo, que segurava sem beber, e estava dizendo algo, e os outros três estavam virados para ele. Os três. Matteo, com o queixo apoiado no punho. Sandro, ainda rindo, mas olhando. Chiara, com a mão no braço dele.
Adam ficou um tempo olhando aquela mesa. Depois pôs a fotografia de lado. Rapazes ricos de cidade pequena gostavam de quem tinha um sobrenome maior que o deles. Era só isso.
A terceira foto, Jakob passou para ele sem olhar. Uma senhora de cabelo branco preso num coque, de casaco escuro e bengala, saindo de uma igreja pela porta lateral, com o braço apoiado no braço do rapaz. Ele se inclinava para ela, para ouvir o que ela dizia. Ela era pequena e ereta e tinha o queixo dos Hunyadi.
Na quarta, o rapaz estava no banco do carona de um conversível vermelho parado num sinal, com a cabeça encostada no banco e os olhos fechados contra o sol. Foi tirada de longe, de cima, talvez de uma janela. Na quinta, era noite, e a câmera mostrava a fachada de uma casa grande de pedra clara, com as janelas do térreo apagadas e uma única janela acesa no segundo andar. Na janela, sentado no parapeito, com as costas apoiadas no batente e um livro aberto sobre os joelhos, ele lia.
A sexta, Jakob não passou.
Adam viu Jakob olhar para ela. Viu o rosto de Jakob ficar parado de um jeito diferente, como uma superfície de água que para de repente quando o vento cessa. Viu Jakob virar a fotografia com a imagem para baixo e pousá-la sobre a toalha. A mão dele ficou em cima dela, aberta.
Os dedos não estavam firmes.
Adam desviou os olhos para a janela. Lá fora, um dos jardineiros passava a tesoura nas sebes do caminho, e o barulho das lâminas chegava abafado através do vidro. Contou cinco cortes. Seis. Quando voltou a olhar, a mão de Jakob estava firme.
— Dénes — disse Jakob. — Sai um minuto.
Dénes saiu e fechou a porta.
Jakob empurrou a fotografia virada na direção de Adam, por cima da toalha, entre a cesta de pão e o açucareiro. Adam a desvirou.
Era um quarto, à noite. A luz vinha de fora, um pouco de lua ou de poste através da cortina, e deixava tudo cinzento. Uma cama. Um corpo na cama, de lado, encolhido debaixo de um lençol, com um braço para fora e a mão aberta perto do rosto. O cabelo escuro espalhado no travesseiro. Dormia.
A foto tinha sido tirada do pé da cama. De dentro do quarto.
Adam virou a fotografia de novo e a pôs ao lado das outras, na mesma ordem em que tinham caído.
— Atrás de alguma? — perguntou. — Alguma coisa escrita?
— Nada.
— Nenhuma exigência.
— Nada, Adam.
Ficaram em silêncio. O café esfriava nas xícaras. Do lado de fora, a tesoura do jardineiro continuava cortando.
— Os Korányi — disse Adam, por fim. — Querem a zona norte. Os galpões foram o primeiro aviso, isso é o segundo. Com o menino na mão, eles pedem o terminal de cargas, e o senhor dá.
— O Gábor não manda fotografia. O Gábor manda um dedo numa caixa.
— Então a Fekete Kéz.
— A Fekete Kéz não avisa. Faz o serviço e some, e você fica sabendo pelo jornal. — Jakob passou a mão pelo rosto, uma vez, de cima a baixo. — Alguém pagou a Fekete Kéz para seguir o menino. Isso eu acredito. Mas quem mandou as fotos para cá não foi a Fekete Kéz.
— Alguém que quer que o senhor saiba.
— Alguém que quer que eu saiba.
Adam olhou para as fotografias espalhadas sobre a toalha. A confeitaria. O terraço. A igreja. O conversível. A janela. O quarto.
— E o Ferrante? — perguntou. — Bérgamo é dele. Ninguém entra numa casa em Bérgamo sem o Ottavio saber. E o filho dele está em metade dessas fotos.
— O Ottavio sabe que o menino é meu.
— Então o Ottavio sabe que alguém está tirando fotos do seu filho dentro do quarto dele, e não ligou para o senhor.
Jakob ficou quieto. Era a primeira vez, que Adam lembrasse, que aquelas duas palavras eram ditas em voz alta naquela casa. Seu filho. Jakob não as corrigiu.
— Se quisessem só levar o menino, já tinham levado — continuou Adam. — Quem tirou essa última foto podia ter feito o que quisesse. Não fez. Mandou para cá. Estão esperando o senhor fazer alguma coisa.
— Estão.
— Então o senhor manda alguém. Eu vou. Levo o Dénes e quatro homens, tiro o menino e a senhora Erzsébet de lá hoje à noite e trago os dois para cá. O senhor fica em Valência. Se for uma armadilha, é para o senhor, não para mim.
Jakob olhou para ele. Era um olhar que Adam conhecia bem, o mesmo do banco de trás do carro, dez anos antes: longo, sem raiva e sem pena, de quem está pesando alguma coisa numa balança que só ele vê.
— Se alguém mandou essas fotos — disse Jakob —, é porque já decidiu. A pergunta não é se vão fazer alguma coisa. É quando. E eu não vou ficar sentado nesta casa, tomando café, esperando a próxima caixa chegar na guarita.
— É exatamente o que eles querem.
— Eu sei o que eles querem. — Jakob se levantou. A cadeira arrastou no assoalho. — É meu filho, Adam.
Adam não disse nada.
Jakob foi até a porta e a abriu. Dénes estava do outro lado, no corredor, com as mãos às costas, olhando para um ponto qualquer na parede.
— Seis homens — disse Jakob. — Os seus melhores. Nada de gente nova, ninguém que tenha entrado na família nos últimos dois anos. Quero o avião pronto em duas horas. Ninguém liga para Bérgamo. Nem para a minha mãe. Telefone se escuta.
— E o Ferrante, senhor?
— O Ferrante fica sabendo quando eu estiver lá.
Dénes assentiu e se afastou pelo corredor, já tirando o celular do bolso.
Jakob ficou um momento parado na porta, de costas para a sala.
— Você vem comigo — disse, sem se virar.
— Eu ia de qualquer jeito.
Jakob saiu.
Adam continuou sentado. Recolheu as fotografias uma a uma, alinhou as bordas batendo o maço de leve contra a toalha, como um baralho, e as guardou de volta no envelope pardo. Todas, menos uma.
Ficou com a da confeitaria.
Olhou-a de novo, agora sem pressa. A rua de pedra em ladeira, o toldo listrado, Matteo Ferrante segurando a porta, a caixa de papel com fita na mão do rapaz. O pulso fino saindo da manga do paletó. O riso aberto, virado para o amigo, de quem nunca tinha precisado medir o que mostrava, nem para quem.
Adam pensou no iate. Em Sárközi descendo a escada de costas, olhando para o patrão até a cabeça sumir no vão. No que tinha subido depois pela escada de serviço, enrolado num cobertor.
Aquele rapaz não teria durado uma tarde.
Adam ficou olhando até a voz de Margit chamá-lo do corredor, perguntando se ele ia levar mala ou se ia viajar como um selvagem. Então guardou a fotografia no bolso interno do paletó, do lado esquerdo, e foi fazer a mala.