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Eu me mexo na cama e me viro para encarar Grey, meu namorado. Estamos juntos há mais de cinco anos, desde a época da faculdade. Espero encontrá-lo dormindo, mas, ao abrir os olhos, sou cegada pela luz do celular dele.
Pisco duas vezes ao ver o que está na tela. É a foto de uma garota nua. Ele bloqueia o celular rapidamente e o coloca atrás do travesseiro.
“Deixa eu ver”, murmuro, com o coração batendo forte enquanto tento pegar o aparelho.
Ele segura minha mão no ar com um sorriso no rosto. “Relaxa, não é nada”, diz ele com um sorriso nervoso.
Pisco várias vezes; está acontecendo de novo.
“Eu sei o que vi. Você está fazendo isso de novo”, digo, com a voz embargada pela mágoa.
“Não estou negando o que você viu. Estou dizendo que não é nada com que você deva se preocupar”, responde ele.
As palavras dele são uma mentira, porque percebo que agora estou preocupada.
“Por que você sempre faz isso comigo?” As lágrimas ameaçam cair, mas eu as seguro. Chorar só faz com que ele se importe menos.
“Do que você está falando? Não fiz nada”, ele pega o celular novamente. Ele desbloqueia e bloqueia o aparelho nervosamente, mas a imagem da garota permanece gravada na minha mente.
Uma sensação de desesperança me consome. Ele disse que pararia, e por um tempo parou. Eu disse que não o perdoaria de novo, e perdoei.
Balanço a cabeça e me sento, encostando-me na cabeceira. A luz fraca do abajur projeta sombras nas paredes brancas do nosso quarto, uma ironia diante da nossa relação.
“Eu não aguento mais isso, Grey”, sussurro.
Ouço ele suspirar.
“Me desculpa. Eu estou tentando”, ele responde.
Quando éramos apenas amigos, o hábito dele de flertar com garotas online e em sites adultos não me incomodava muito. Na verdade, eu até dava sugestões quando começamos a namorar, e ele assumiu o compromisso de parar.
Parou, depois recomeçou, parou, recomeçou, parou...
Eu fungo, ele levanta o olhar e, no escuro, percebe que estou chorando. Ele suspira, irritado, levanta-se, caminha até onde carregamos nossos celulares e deixa o aparelho lá.
“Eu nunca vou entender o que você quer que eu faça. Não fui eu quem postou as fotos.” Ele volta para a cama e se deita.
Eu sei que não era apenas uma foto aleatória da internet. Eu sei o que vi. Era uma janela de chat aberta onde ele tinha recebido uma foto nua e talvez outras que eu nem vi.
“Se eu não sou o suficiente para você, vá ficar com essas mulheres com quem você gosta de conversar.” Caio na armadilha que prometi evitar, a de discutir com ele.
Nessas situações, fico sempre emotiva demais. É meu primeiro relacionamento e prometi a mim mesma que seria o último e que faria dar certo. Enquanto isso, ele mantém a calma e trata o assunto como se fosse bobagem. Isso me deixa louca.
“Por que você é tão intensa? Estou sempre aqui com você. Por que eu estaria procurando alguém se já tenho você?” Ele diz com um tom de diversão.
Será que sou intensa? Ou são esses sentimentos sorrateiros de insegurança quando vejo como ele olha para elas? Nunca encontrei provas reais de que ele traiu.
Suspiro e volto a me deitar. A cama parece um campo de batalha, e o ar está pesado com a tensão não resolvida.
Deito-me de frente para a parede e, depois de um tempo, sinto a mão dele deslizar pela minha cintura e me puxar para perto, com os dedos subindo para o meu seio e acariciando-o.
Ele sopra ar na curva do meu pescoço. A outra mão dele desce para a minha bunda, e sinto seu membro ereto me cutucando. Nunca vou entender como ele consegue ficar excitado durante ou depois de uma briga. Já comigo, o toque dele só me causa repulsa.
Empurro a mão dele. “Preciso dormir. Tenho trabalho”, digo.
Ele tenta trazer a mão de volta, mas eu a afasto. Ele se vira para o outro lado com um movimento brusco, e eu fico acordada até ouvi-lo cair no sono; então, saio da cama e vou até onde o celular dele está.
Respiro fundo.
Meu coração bate muito rápido. Eu sei o que estou procurando, sei exatamente o que vou encontrar. Ele sempre pergunta se estou procurando motivos para ir embora ou para ficar toda vez que mexo no celular dele. Nunca tenho uma resposta clara. Talvez porque tenha medo do que posso achar, ou porque deixá-lo significa enfrentar um futuro sozinha.
Pego o aparelho lentamente, ando na ponta dos pés até o banheiro, sento-me no vaso sanitário e desbloqueio o celular. Tenho todas as senhas dele. Ele mesmo me deu.
Essa é outra coisa sobre Grey: ele é um homem honesto. Ele admite seus erros e os repete. Ele te dá acesso ao celular e aos seus outros pertences; o que você faz com o que encontra, o problema é seu.
Verifico as abas abertas. Redes sociais, vários sites de namoro, aplicativos de mensagem. O mais recente é o Telegram, onde ele estava conversando com a garota que enviou os nudes. Parece que eles se falam há uns dois meses. Sinto meu coração afundar.
Eu deveria apenas parar, arrumar minhas malas e desaparecer na noite. Mas a mágoa me deixa sem ação.
Verifico o WhatsApp dele; o status está oculto, de modo que não consigo ver do meu celular. Procuro por mensagens arquivadas ou bloqueadas. Não tenho a senha. Isso é novidade.
Limpo uma lágrima. É tão fácil pensar no que você faria em certas situações até chegar a hora de agir.
Já encontrei o que procurava. E agora? Além das mensagens, fica claro que nunca houve contato físico com nenhuma dessas garotas.
Penso em ligar para minha melhor amiga e desabafar, mas como? Se eu sou a rainha de fingir que está tudo mil maravilhas? Estou sozinha, sem família. Ele é tudo o que me restou.
Já fiz isso várias vezes, e em cada uma sinto a mesma merda de sentimento depois. Não sei por que pensei que desta vez seria diferente. Nunca é.
Grey me amava, ele mostra isso às vezes. Talvez, se eu aguentar mais um pouco, ele volte a ser o cara que conheci no começo e não quem ele é agora.
Bloqueio o celular dele, levanto-me, saio do banheiro e devolvo o aparelho para onde estava.
Sei que não vou conseguir dormir. Vou até o meu computador e o ligo. Enquanto ele inicia, destranco minha gaveta, uma caixa de madeira cheia de segredos e das minhas muitas identidades. Removo um arquivo que Grey pensa que eu já tinha jogado fora.
Se ao menos... penso enquanto revisito meu passado.
O arquivo se chama JOJO. Passo os olhos pelas fotos, relatórios e depoimentos de testemunhas. Cada detalhe está gravado na minha memória, mas ainda assim não consegui encerrar o caso.
Dou um pulo quando ouço meu alarme tocar. Solto um gemido enquanto a dor viaja da nuca aos ombros. É o que ganho por dormir em cima de uma mesa dura. Percebo que há um cobertor me cobrindo, meu pequeno frasco ao lado e um bilhete. Provavelmente, Grey fez tudo isso.
Lá vem ele de novo.
Eu não sei o que há de errado comigo, por que continuo fazendo as coisas que faço. Por que eu machuco você e a mim mesmo. Esgotei todas as desculpas que uma pessoa pode aceitar. Não é nada, você é a única para mim. Eu não sou perfeito. Só me diga como ser melhor para você e tenha paciência comigo.
Eu te amo, Jessie.
Fecho meus olhos. Não entendo por que ele continua fazendo isso, ou por que eu continuo aqui.








