Capítulo 1
MANIAC
Nunca minha mente esteve tão tranquila, nem meu corpo tão vivo, quanto quando eu corria ao ar livre. Fones de ouvido. Ar fresco. A luz suave do sol da manhã. O vento no rosto. Depois, aliviava a dor nas panturrilhas com um banho rápido de gelo na academia.
Maniac’s Gym.
Meu orgulho e alegria. O trabalho da minha vida.
Eu tinha o recorde nacional de vitórias no The Boxing Grand Slam, duas vezes seguidas. Depois que essa fase da minha vida acabou, não estava pronto para largar o boxe. Na verdade, acho que nunca vou estar. Então, abri a Maniac’s Gym há dois anos, e desde então minha vida tem sido completa.
Mas eu queria mais.
Um filho da puta ganancioso como eu sempre quer mais.
O The Boxing Grand Slam acontecia a cada cinco anos, e as seletivas seriam no mês que vem. Dessa vez, eu entraria como treinador, não como lutador, mas tinha que admitir: o boxeador que inscrevi — o melhor da minha academia — não tinha a menor chance. Se o Bulldozer, por algum milagre, passasse nas seletivas e chegasse à primeira fase, não via como ele fosse avançar mais. Era bom para um amador, mas não para o profissional.
Eu sabia disso desde o começo, e talvez tivesse sido melhor nem inscrever ninguém. A vontade de colocar a Maniac’s Gym no mapa me impulsionava, mas, conforme a competição se aproximava, comecei a me arrepender. A academia estava aberta há apenas dois anos. Não estávamos prontos. E eu odiava admitir isso.
Ainda tinha quatro semanas para treinar o Bulldozer, mas sabia, no fundo, que não era tempo suficiente. Que ele não estaria pronto a tempo.
Aumentei o volume da música, querendo clarear a cabeça pelo resto da corrida. Costumava correr de oito a dez milhas de manhã, antes de abrir a academia. Até nos dias de descanso. Isso significava acordar antes do sol raiar, mas não me importava. Era a vida de um boxeador, e não mudou nem depois que virei treinador.
Minha mente ficou em paz por uns cinco minutos, até que virei a esquina e meus olhos pousaram em uma morena alta, de rosto em formato de coração, com o narizinho mais fofo que já vi, olhos que eu nunca conseguia decidir se eram cinza ou azuis, e curvas que me tiravam o sono mais noites do que eu gostaria de admitir. Meu olhar foi direto para a bunda redonda dela, ainda mais apetitosa hoje naquele lápis justo, e foi mais difícil do que qualquer luta desviar os olhos. Mesmo assim, eles acabaram subindo para o rosto lindo.
Brooklyn Ackers era a mulher mais linda que eu já tinha visto, e pensei isso desde a primeira vez, dois anos atrás. Foi quando eu tinha acabado de me mudar para Saranac Lake. A academia abriria na semana seguinte, e os empreiteiros estavam correndo contra o tempo com as reformas. Era tarde da noite quando finalmente tranquei o lugar e fui para casa, e foi então que a vi.
Ela caminhava pela rua com um grupinho de amigos, homens e mulheres. Todos estavam entre alegres, bêbados ou completamente chapados. Brooklyn ria, meio tonta, tropeçando na calçada com os saltos na mão, sem conseguir andar direito nem descalça. O cabelo era mais curto na época, mas mesmo assim imaginei como seria espalhado no meu travesseiro. Um dos amigos disse algo, e ela jogou a cabeça para trás, gargalhando. Aquilo me arrancou um sorriso, coisa rara no meu rosto geralmente fechado. Quando virou a cabeça, nossos olhares se encontraram pela primeira vez. Na escuridão da noite, os olhos pareciam azuis, e eu morria de vontade de saber como seriam à luz do sol. Depois disso, nunca mais consegui decidir se eram cinza ou azuis.
Fiquei hipnotizado na época, e continuo assim até hoje.
Geralmente, durava minutos. Às vezes, mais. E eu sempre ia para casa e pensava nela tarde da noite, quando só havia eu, meus pensamentos e, às vezes, a mão esquerda também. Não podia ser o único homem que se masturbava pensando em Brooklyn Ackers, mas provavelmente era o único que não era conhecido, amigo ou tinha algum contato com ela na vida real.
Cada vez que a via, morria de vontade de conhecê-la. De ser seu amigo. De ser algo mais, mas me mantinha afastado. Me contentava com o pouco que conseguia ver dela, de passagem, porque um homem como eu não merecia uma mulher como Brooklyn Ackers. Não era bom para ela. Eu seria demais para ela aguentar. Como tinha sido para todas as outras mulheres da minha vida.
Obsessivo demais com o boxe.
Controlador demais.
Mandão demais.
Ranzinza demais.
Obsessivo demais.
Aos meus trinta e cinco anos, nunca consegui manter um relacionamento por mais de seis meses. Isso só aconteceu uma vez — as outras não duraram nem quatro meses —, e foi porque passamos quase tudo à distância.
As mulheres gostam de me conhecer. Gostam de desvendar o mistério ranzinza que eu sou, mas, quando me abro de verdade, elas não me querem. Não o verdadeiro eu.
Muitas mulheres passaram pela minha vida, e algumas me magoaram, mas eu sabia que todas juntas não seriam nada comparadas a Brooklyn me deixando. E tinha certeza disso antes mesmo de ela entrar na minha vida.
Doía manter distância, mas sabia que doeria muito mais se ela me deixasse como todas as outras.
Estava claro que eu estava destinado a ficar sozinho, e aceitei meu destino mais ou menos na mesma época em que parei de lutar profissionalmente. Cinco anos sem um relacionamento era bastante tempo, mas eu tinha colocado toda essa energia em cuidar da saúde e depois em montar a Maniac’s Gym.
Quase tropecei nos próprios pés quando uma dor aguda mordeu minha panturrilha.
— Aslan, quantas vezes eu já te disse para não morder minha perna quando quer chamar minha atenção? Você é um cachorro, porra. Late! — rosnei, encarando meu cachorro, que sempre corria comigo e passava o dia todo na academia. Por sorte, tinha um quintal grande e espaço de sobra para o grandalhão se exercitar, além de um monte de gente entrando e saindo para distraí-lo.
Foi nesse momento que Aslan latiu, e meus olhos seguiram quando ele correu na minha frente. Parou atrás de Brooklyn, latindo alto enquanto ela pisava na rua sem olhar para os lados. E eu sabia disso porque, se tivesse olhado, teria visto o Range Rover vindo em alta velocidade, sem garantia de frear a tempo.
Ela estava querendo morrer ou o quê?
O pânico tomou conta de mim, e corri em direção a ela o mais rápido que pude.
Aslan pulou e cravou os dentes na barra da saia dela antes que eu chegasse, puxando-a para trás. Brooklyn deu um grito e tentou empurrá-lo, mas o carro ainda não tinha diminuído a velocidade.
— Para baixo, garoto! Para baixo, Aslan! Agora eu estou aqui! —
Aslan soltou a saia ao ouvir minha voz, mas não sem arrancar um pedaço dela. O tranco a fez cambalear para a frente, e eu passei o braço pela cintura dela por trás, levantei-a no ar e corri de volta para a calçada segundos antes de sermos atropelados. O babaca do Range Rover nem parou para ver se estávamos bem, continuou como se nada tivesse acontecido.
— Seu filho da puta! — gritei para o carro. — Olha por onde anda, caralho! —
— Que porra é essa? — Brooklyn gritou nos meus braços. As unhas cravaram no meu braço, que estava em volta da cintura dela, mas não doeu mais do que uma picada. Na verdade, mal percebi, de tão certo que ela parecia ali, colada no meu peito. O cheiro doce de morango do xampu dela, misturado com algo terroso e fresco, invadiu meus sentidos, e eu já sabia que estava viciado. Tinha me mantido longe dela todos esses anos por esses mesmos motivos, e agora que a senti nos meus braços uma vez, sabia que estava perdido.
Sabia que nunca mais esqueceria essa sensação.
— Me solta! — Brooklyn berrou, cravando as unhas com mais força e chutando minhas pernas, acertando minhas panturrilhas, mas os dentes do Aslan doíam mais do que o salto da bota dela. — Socorro! Socorro! Estou sendo sequestrada! Por favor, preciso de ajuda! —
— Sequestrada? — zombei, colocando Brooklyn no chão.
Ela se afastou de mim na mesma hora, colocando vários metros de distância entre nós.
— Fica longe! — gritou, com os olhos arregalados. Enfiou a mão na bolsa, procurando desesperadamente por algo, mas não encontrou nada. — Tenho spray de pimenta. Vou te cegar se chegar mais perto. —
— Você vai me pagar por salvar sua vida cegando-me com spray de pimenta? Acabei de te salvar, Tigresa. Achei que fosse ficar pelo menos um pouco agradecida — ri, enfiando o dedo na coleira do Aslan para mantê-lo ao meu lado. Brooklyn já estava assustada, e ele tinha arrancado um pedaço da saia dela. Não queria arriscar que a assustasse de novo, mesmo que as intenções dele fossem tão nobres quanto as minhas quando a tirei da rua.
— Salvar minha vida? — zombou. — A única coisa que você e seu vira-lata fizeram foi estragar minha saia. — O rosto dela corou, e gemi por dentro, mais uma imagem para o banco de memórias. — Como vou trabalhar com a bunda de fora? —
— Não sei. Por que não vira de costas e me mostra o estrago, Tigresa? — provoquei.
Os olhos dela escureceram, parecendo mais azuis que cinza, e as bochechas ficaram ainda mais vermelhas. Eu morria de vontade de saber se o rubor se espalhava por outras partes do corpo dela, além do rosto.
— Tigresa? —
Xinguei a mim mesmo por ter deixado escapar. Dois anos atrás, quando a vi pela primeira vez, dei esse apelido a ela porque era linda, majestosa e confiante. Como uma tigresa. Ficou, e desde então era assim que a chamava na minha cabeça.
— Você tem o espírito de uma tigresa. Daí o apelido — expliquei. — Agora que já esclarecemos isso, que porra você estava pensando ao atravessar a rua sem olhar? Teria sido atropelada se eu não estivesse aqui para te impedir. —
— Não teria sido atropelada. O carro teria parado — protestou, fazendo biquinho, parecendo mais fofa do que qualquer coisa que eu já tinha visto. As coisas que eu faria para ver aquele rosto todas as manhãs.
Arqueei uma sobrancelha, duvidando. — Como parou para ver se estávamos bem depois da quase batida? —
Brooklyn apertou os lábios, mas não disse nada. O rosto endureceu, e bufou quando não encontrou o que procurava na bolsa.
— E aí? Cadê o spray de pimenta? — provoquei.
— Devo ter deixado em casa — murmurou, quase inaudível. — Deve estar na minha outra bolsa. —
— Bom, de que adianta lá, né? — ri. — Você é linda, Tigresa. Deslumbrante. Uma mulher como você deveria carregar isso o tempo todo, porque suas habilidades de defesa pessoal são uma merda. —
— Como é? —
— O quê? Acha que chutar minhas canelas e cravar as unhas no meu braço é uma boa defesa? Sinto muito te dizer, Tigresa, mas você não deixou nem um arranhão na minha pele. Porra, o meu cachorro morde mais forte que você chuta. E ele nem estava tentando me machucar. —
— Isso é porque você é um puta montanha — resmungou. — Qual é a sua altura, afinal? —
— Um e noventa e quatro. —
Os olhos dela se estreitaram, desconfiados. — Não acredito. —
— Ouço muito isso — falei. — Sei que pareço mais alto, mas juro que só tenho um e noventa e quatro. Se tiver uma fita métrica na bolsa, pode medir. —
— Você não tem graça. —
— Você me magoou, Tigresa. —
— Para de me chamar assim. —
— Por quê? —
— Não gosto. —
— Que pena, porque eu gosto, Tigresa. Então, vai ficar assim. — Contive um sorriso, principalmente porque sabia que só a deixaria mais irritada, o que não era ruim, já que ela ficava ainda mais linda brava.
— Estou falando sério. Para com isso. —
— Não dá. Desculpa… Tigresa — sorri, sem conseguir resistir.
Os olhos dela faiscaram de raiva, e apontou uma unha rosa-bebê, afiada, para mim. — Como você se atreve? Seu… seu… grandalhão! —
— Grandalhão é pouco, Tigresa — zombei, cruzando os braços sobre o peito.
— Você é nojento. —
— Talvez, mas você é ingrata. —
— Você não me conhece. —
Olhei para ela com firmeza. — Tem razão. Não conheço, mas sei que salvei sua vida, e você ainda não me agradeceu. —
— Tá bom. Desculpa. — Brooklyn apertou os lábios, e eu sabia que ela estava fazendo de tudo para não revirar os olhos. — Você vai se desculpar comigo? —
— Por que eu me desculparia com você, Tigresa? — perguntei, curioso com o raciocínio dela.
— Porque seu cachorro rasgou minha saia e agora minha bunda está aparecendo. —
— Já falei que posso dar uma olhada para você — ofereci de novo, com um sorriso ainda maior.
Dessa vez, ela revirou os olhos. — Não tem graça. —
— Tá bom. Desculpa o Aslan ter estragado sua saia — pedi desculpas, sem sentir nem um pouco. — Quanto custou? Eu compro uma nova. —
— Não precisa. Vou trocar de roupa antes de chegar no trabalho. — Apertou os lábios de novo. — E obrigada por me tirar da rua. Você tem razão. Você salvou minha vida. —
— Muita coisa na cabeça? —
— Um pouco — murmurou. — Preciso ir. Obrigada de novo. —
— Quando quiser, Tigresa. —
Brooklyn me deu um sorriso forçado antes de se virar para atravessar a rua de novo. Dessa vez, olhou para os dois lados antes de cruzar, e, quando tive certeza de que estava segura e não correria o risco de ser atropelada de novo, meus olhos caíram na bunda dela. Ela tinha razão. O Aslan tinha estragado tudo, e a bochecha esquerda estava toda à mostra, incluindo um vislumbre do fiozinho vermelho da calcinha.
— Devia estar bravo com você, Aslan, mas não consigo te dar bronca — ri, afagando a cabeça do grandalhão. — Quando chegarmos em casa, te dou um petisco. —
Brooklyn ou sentiu meu olhar nela, ou foi o vento batendo na bunda de fora, mas bateu a bolsa contra o traseiro e andou o resto do caminho assim até uma cafeteria da região.
Mais uma imagem para o banco de memórias.
— Vamos, Aslan. Não podemos passar o dia babando em mulheres bonitas — murmurei.
Por mais irritante que tivesse sido o encontro, não consegui tirar o sorriso do rosto enquanto terminava as dez milhas e encerrava a corrida na academia.
Só porque eu tinha decidido que Brooklyn estava fora do meu alcance não significava que não podia apreciar a visão dela sempre que a via. Era uma pena que nunca fosse o suficiente, e talvez nunca fosse. Eu tinha razão em me manter afastado esse tempo todo, mas agora que uma linha tinha sido cruzada e tínhamos interagido, temia não conseguir voltar ao que era antes.
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Layla Knight
24.06.2023