Capítulo 1
Minha rotina maluca ia me levar à exaustão e, quando esse dia finalmente chegasse, eu aceitaria meu destino com prazer. Mas, até lá, eu era forçada a seguir com meu cronograma insano e lotado, que me fazia dar aulas pelo maior número de horas possível. Só assim eu conseguia pagar os treinos, o aluguel da pista, figurinos, competições e muito mais.
Hoje foi um dos meus dias menos ocupados, mas já passava das onze quando saí da pista para finalmente ir para casa. A oportunidade de dar mais uma aula depois do meu treino foi tentadora demais para dizer não. E, embora eu precisasse desesperadamente de cada centavo para conseguir dar conta de tudo, me senti culpada por trabalhar tantas horas hoje.
Estava escuro e frio, e eu sempre achei a Brooklyn Bridge assustadora a essa hora da noite. Assim que o sol se punha, a ponte ficava cheia de alcoólatras, viciados em drogas e muita gente que eu não conseguia identificar ou compreender. Mas, aparentemente, não esta noite.
Esta noite, a Brooklyn Bridge estava completamente deserta... exceto por uma pessoa.
Ele estava vestido inteiramente de preto e seu cabelo era tão escuro quanto o céu noturno. Se não fosse pela faixa de pele bronzeada em seu pescoço, visível sob o luar, eu provavelmente teria passado de carro sem nem notá-lo.
E se não fosse pelo fato de ele ter escalado o corrimão da ponte e estar sentado ali, com as pernas balançando sobre a água, eu provavelmente teria continuado dirigindo sem pensar duas vezes.
Minha respiração estava trêmula quando parei o carro e saí do meu veículo caindo aos pedaços.
"Olá? Você está bem?", chamei, abraçando a mim mesma quando um arrepio percorreu minha espinha. Os dias tinham começado a esquentar, mas as noites continuavam geladas, mesmo com meu suéter fino e um casaco por cima. Se eu estava com frio, aquele homem sentado no corrimão, pronto para se jogar, devia estar congelando. Pelo que pude ver no escuro, ele usava apenas uma calça jeans e uma camisa fina de manga comprida. Nada significativo para protegê-lo do frio.
Se ele me ouviu, não reagiu.
"Seja lá o que você esteja pensando em fazer, por favor, não faça." Aproximei-me com cautela de onde ele estava sentado, sem querer assustá-lo e fazê-lo pular antes da hora. Eu esperava conseguir trazê-lo de volta, mas, pelo porte dele — ele era muito maior do que parecia à distância —, eu não conseguiria puxá-lo apenas com força física.
Eu precisava convencê-lo a desistir, e isso me preocupava. Se eu falhasse, carregaria a vida desse homem na minha consciência para sempre, o que me assombraria e me lembraria de que, sob minha vigília, alguém tirou a própria vida.
Eu vivia com muitas coisas me pesando e me sobrecarregando, mas tive um pressentimento terrível de que isso não seria algo que eu conseguiria simplesmente suportar.
"Qual é o seu nome?", perguntei, embora minha tentativa parecesse inútil. Ele já tinha me ignorado duas vezes, mas eu não podia desistir agora.
Como das vezes anteriores, foi como se ele não tivesse me ouvido. O silêncio nos envolveu por um longo momento, mas, antes que eu pudesse tentar de novo, o brutamontes finalmente virou a cabeça. O movimento foi lento, e não pude evitar um suspiro quando nossos olhos se cruzaram.
Eles eram lindos. Seus olhos eram de um roxo escuro, mas, conforme ele olhava ao redor, pareciam muito mais vibrantes quando o luar batia no ângulo certo. Eu nem conseguia imaginar o quão bonitos seriam sob o sol.
E depois havia o restante dele.
Sua pele tinha aquele bronzeado beijado pelo sol que tantas garotas tentam conseguir com bronzeador artificial, mas nunca conseguem. Isso tornava seus traços muito mais escuros e marcantes. Suas sobrancelhas eram bem feitas, porém escuras e arqueadas de um jeito audacioso, da mesma cor do cabelo preto como a meia-noite, bagunçado. Parecia que ele só passava os dedos pelo cabelo depois de acordar. As maçãs do rosto eram fundas, o maxilar era anguloso e uma barba por fazer decorava seu rosto.
Esse homem era, sem dúvida, o homem mais bonito e mais maravilhoso que eu já tinha visto.
Esqueça isso. Ele era a *pessoa* mais bonita que eu já tinha visto.
No entanto, por mais deslumbrante que ele fosse, não foram seus olhos incomuns e lindos que me chocaram. Foi a vermelhidão ao redor deles. Vermelho demais para ser apenas de choro.
"Todos me chamam de Cello", ele finalmente falou, e notei como cada palavra e sílaba eram pronunciadas perfeitamente. Seus olhos me diziam que ele estava muito chapado, mas ele falava e soava melhor do que eu quando estava sóbria.
Ou a escuridão da noite estava pregando peças na minha visão, ou aquele homem se drogava com frequência.
"É por causa do instrumento?", perguntei. A pergunta era estranha, mas foi proposital. Seja lá o que fizesse Cello querer subir no corrimão e balançar as pernas sobre o vazio, ele precisava de uma distração. Se não, eu temia o que ele faria.
Além disso, com um nome desses, aquela não devia ser a primeira vez que alguém perguntava aquilo.
Ele balançou a cabeça, e eu não ousei insistir. Talvez em outra ocasião. Quando ele não estivesse sentado no corrimão, a poucos momentos de se jogar para uma morte cruel e dolorosa.
"O que há de errado, Cello? Por que você está sentado aí?", perguntei com uma voz baixa e gentil. A última coisa que eu queria era assustá-lo ou fazê-lo pular. Ele já estava perto demais do limite.
"Porque eu não aguento mais", ele sussurrou tão baixo que mal pude ouvir.
"Aguentar o quê?"
Avancei um pouquinho. Primeiro foi um passo minúsculo e, quando ele não recuou, cobri lentamente o resto da distância até ficar ao lado dele. Minhas mãos tremiam enquanto eu me inclinava para descansar os braços no corrimão, ao lado da mão dele. Se Cello notou ou se importou, ele não demonstrou.
"A vida."
"Você quer conversar sobre isso?", perguntei.
Cello ficou em silêncio por um momento, e eu não tive certeza se ele tinha me ouvido.
"Cello?", chamei, com o tom trêmulo e cauteloso.
Embora a minha vida não estivesse em risco ali, eu nunca tinha ficado tão assustada em toda a minha vida.
"Eu nunca falei com ninguém sobre meus sentimentos antes."
"Por que não?"
"Não sei." Ele deu de ombros.
"Você tem alguém com quem conversar, Cello?"
"Tenho mais gente para conversar do que preciso", ele deu uma risada baixa, mas o som era sombrio e pesado. "Mas toda vez que tento, minha garganta fecha e eu travo. Tem tanta coisa que preciso dizer, tanta coisa que quero dizer a eles, mas não consigo. Eu tento toda vez, mas simplesmente não dá."
"Você já tentou falar com um estranho?"
"Você quer dizer, tipo um terapeuta?"
Assenti.
"Já, uma vez."
"O que aconteceu?"
"Sentei na cadeira dele por uma hora e apenas o ouvi fazer as mesmas perguntas, repetidas vezes, de jeitos diferentes. Não consegui falar nada o tempo todo. Me senti um idiota, mas não conseguia conversar com ele. Não conseguia dizer como me sinto ou tudo o que está acontecendo aqui dentro."
"Você já tentou falar com algum desconhecido antes?"
"Um desconhecido?", ele perguntou com uma expressão confusa, mas com os olhos ainda mais tristes.
Doía ver alguém tão destruído e derrotado, mas eu estava determinada a ajudá-lo. Cello e eu podíamos ser estranhos, mas agora estávamos conectados, e eu não ia deixar nada acontecer com ele. Não sob minha vigília.
"Eu."
"A gente acabou de se conhecer."
"Melhor ainda", sorri, fingindo empolgação embora o medo ainda pesasse no meu estômago. "Eu sou uma estranha."
"Eu sei, mas o que isso tem a ver com alguma coisa?"
"Você esteve falando comigo esse tempo todo. Você sentiu sua garganta fechar?"
Ele hesitou por um momento antes de responder: "Não."
"Você sentiu como se sua boca fosse travar?"
"Não."
"Então tenta comigo."
Cello ficou em silêncio por um momento enquanto me observava. Seus olhos perfuraram meu rosto, correndo por ele e me vigiando com cuidado. Eles demoraram nos meus lábios por um segundo e, por instinto, passei a língua para umedecê-los. Era constrangedor o quanto eles estavam secos agora, mas lábios secos eram a menor das minhas preocupações.
O olhar dele não era desconfortável. Pelo contrário, era quente, e eu me permiti aproveitar. Embora Cello tivesse um brilho engraçado nos olhos. Eu queria perguntar o que ele estava pensando, mas não queria forçar a barra.
"Você é um anjo?"
"O quê?", perguntei, confusa.
"Você é um anjo?", ele repetiu, com os olhos fixos em mim, como se estivesse me vendo sob uma nova luz.
"Não. Não, claro que não", gaguejei, confusa e insegura.
"Se você não é um anjo, então qual é o seu nome?"
"Davina, mas todo mundo me chama de Vina."
"Davina", ele murmurou em um tom baixo e rouco, testando meu nome na ponta da língua. Senti vergonha por um arrepio ter percorrido minha espinha com o jeito que ele disse, e forcei-me a desviar o olhar. "É um nome bonito. O que significa?"
"É filipino. Significa Deusa."
"Que lindo. Você é filipina?"
"Sim, meus dois pais são." Ou eram. Minha mãe tinha falecido quando eu era criança, mas Cello não precisava saber disso. Ele já tinha problemas demais.
"Eu sou italiano. Bom, meio italiano."
"E o que compõe a outra metade?"
"Não sei", murmurou Cello, baixando a cabeça. O cabelo caiu sobre seus olhos — as janelas da alma dele. "Minha mãe morreu quando eu era jovem."
"Sinto muito por ouvir isso."
"Só tenho uma lembrança dela. Fora isso, não me lembro de nada." Ele deu de ombros, tentando agir como se não fosse grande coisa, embora fosse exatamente o contrário.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu coração se partir por esse estranho e por tudo que ele estava enfrentando. Era quase insuportável.
"Por que você não volta para este lado para podermos conversar?", sussurrei, suplicando com o olhar para que ele concordasse. "Por favor, Cello."
Cello levantou a cabeça levemente, e seus olhos encontraram os meus mais uma vez. Sua beleza devastadora tirou o ar dos meus pulmões, e precisei me lembrar de respirar.
"Ok."
Aquela única palavra me trouxe uma onda de alívio, que logo foi substituída por ansiedade quando ele se levantou, apoiando os braços no corrimão atrás de si. Por um momento, pensei que ele tinha mudado de ideia e ia pular. Antes que eu pudesse gritar para ele parar, Cello passou o braço direito para segurar o corrimão atrás da mão esquerda e girou lentamente até ficar de frente para mim, do outro lado do parapeito.
Certo, essa foi a parte mais difícil. Ele só precisava passar a perna por cima do corrimão e cair para o lado da ponte. Era simples. Ele faria isso em um segundo, mas os microssegundos que se passaram pareceram horas. Dias. Anos.
Eu torcia e rezava internamente, observando com olhos arregalados enquanto ele levantava a perna direita e a passava por cima do parapeito. Ele era alto e forte, então aquilo seria fichinha para ele.
Ele se impulsionou para levantar a outra perna, mas parou.
Sua mão escorregou e seu tronco foi projetado para trás.
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Layla Knight
07.04.2023