Chapter 1
Desde muito jovem, ainda na mais tenra infância, eu já as via. Não com a frequência perturbadora com que passou a surgir mais tarde, mas sim, elas já estavam ali, silenciosas, etéreas, quase tímidas. Relatei à minha mãe. Visitamos numerosos médicos, especialistas renomados, mas nenhum deles conseguiu oferecer uma explicação racional, tampouco científica, para o que eu testemunhava. Lembro-me com nitidez do doutor Kansey — um neurologista de renome — que, após longos exames, sugeriu a possibilidade de esquizofrenia. Foi a primeira vez que ouvi essa palavra, fornecida de estigma e mistério.
Passei horas incontáveis sendo submetidos a exames de mapeamento cerebral. Horas que se diluíram no tempo, que jamais retornarão. Tempos em que minha infância deveria ser feita de brincadeiras, risos e leveza, mas se houve momentos de tensão e estranheza.
Por que você precisa ser assim? Essa pergunta insistia constantemente em minha mente infantil.Por quê?Não havia resposta. E isso me consome.
Havia, no entanto, algo que me perturbava ainda mais profundamente: o arrepio. Sempre vinha antes de... Um calafrio que me percorria a espinha, como um aviso silencioso de que algo se aproximava. E não era só isso — havia algo mais. Eu sabia, instintivamente, quando uma pessoa era boa ou má, apenas ao olhar em seus olhos. Uma intuição afiada, quase sobrenatural.
Minha mãe costumava dizer que eu possuía uma percepção sensorial muito apurada, quase um dom. Na época, eu não compreendia totalmente o significado disso. À medida que fui crescendo, no entanto, comecei a desenvolver essa habilidade de maneira mais consciente. Hoje, na idade atual, sinto-me seguro em afirmar que possuo, de fato, um sexto sentido — refinado, sensível e inegável.
Eu não apenassentias coisas antes que acontecessem — eu assabia. Mas não com a clareza de uma visão profética ou de uma revelação mística. Era como uma brisa antes da tempestade, uma vibração sutil que prenunciava o que viria. Ainda não consegui compreender completamente essa conexão. Mas ao compartilhar este breve relato, espero, sinceramente, que possamos — juntos — encontrar respostas.
Era uma tarde comum de quarta-feira. O céu estava limpo. Nada parecia destoar da rotina. Até que, de repente, lá estava ela novamente. Desta vez, porém, surgiu com a intensidade de um raio — flash de uma câmera muito forte. Meu coração disparou. E, antes que eu prossiga, perdoe-me pela falta de etiqueta: permita-me apresentar.
Chamo-meLory. Lory Fox. E no auge dos meus 22 anos, posso afirmar, com todas as letras, que sou uma sobrevivente.
Quando eu tinha 14 anos, vivi um dos momentos mais marcantes e traumáticos da minha existência. Tive uma premonição vívida de que a casa desabaria. Foi uma sensação amarga, uma certeza absoluta que me dominou sem explicação lógica. Corri e consegui tirar minha família de dentro da residência. Todos, exceto minha pequena Pitty — um peixinho dourado, meu companheiro silencioso, que ficou sem alterações. Lamentei-me por longos períodos, mas preciso que entenda como tudo aconteceu.
Naquela tarde, meu pai estava exausto, caído na cama após um turno noturno extenuante. Convencê-lo a sair foi quase impossível. Invoquei uma desculpa convidativa — disse que uma aurora boreal inesperada estava surgindo no céu. Mas ele mal consegue pronunciar uma frase. Minha mãe, já de retorno, afirmava que não havia absolutamente nada lá fora.
No entanto, eu senti como se uma mão invisível apertasse meu peito com força. Uma urgência absurda me dominava, como se uma voz silenciosa gritasse dentro de mim:Tire-os daqui, agora!. Minha mente não parava. Um redemoinho de pensamentos, emoções, e aquela sensação maldita de que algo terrível estava prestes a acontecer.
Após muita insistência — como uma gota de água cavando a pedra ao longo dos séculos —, meu pai finalmente se clamou. Saiu da cama com certa relutância e foi para fora. Então, como se o universo tivesse esperado apenas aquele momento exato, os esses sinistros das colunas da casa reverberaram altos e claros. Era o prenúncio. Um aviso tardio de que o pior estava prestes a acontecer. E aconteceu.
Tudo foi.
Do nosso lar restaram apenas destroços e lembranças de partidas. Conseguimos resgatar alguns retratos antigos, imagens que hoje guardamos como relíquias de um tempo que não volta mais. Mas a verdade é que precisávamos recomeçar. Reconstruir não apenas a casa, mas também nossa confiança.
Lembro-me com clareza do olhar do meu pai direcionado à minha mãe — não um olhar de desespero, mas espanto de curioso, como se algo dentro dele intuísse que aquilo tudo faz parte de um enigma maior. Em seguida, ambos voltaram-se para mim. Eles sabiam, mesmo que silenciosamente, que eu tinha sentido antes que tudo acontecesse. A vizinhança inteira já estava na rua, observando os escombros e oferecendo ajuda com palavras gentis e olhares comovidos. O seguro da casa se encarregou de nos providenciar um novo lar e de arcar com a indenização, o que facilitou nossa mudança para a residência em que moramos até hoje.
Ah, sim... Perdoe-me novamente. Às vezes minha mente é como um redemoinho incontrolável de ideias e memórias — começa por um caminho e, quando me dou conta, já está em outro. Retomando: estávamos falando daquela quarta-feira. E não, o desabamento da casa não ocorreu nesse dia. Foi apenas um dos muitos eventos que manifestaram esses meus sentidos aguçados, ainda misteriosos até para mim.
A quarta-feira em questão foi um dia denso, inquietante, quase insuportável em sua estranheza. Preciso recorrer a todo o meu repertório vocabular para tentar expressar o que vivi.
Como mencionei, o primeiro sinal foi um clarão arrependido — como o flash de uma câmera fotográfica disparada diretamente em meus olhos. Um branco incandescente preencheu minha visão. Meu coração disparou, palpitou descompassado, e chegou a fibrilar, tamanha a intensidade do susto. Estava na sala, deitada, apenas contemplando o teto em completo devaneio. De repente, tudo ganhou uma tonalidade alaranjada, como um filtro sépia aplicado sobre a realidade — algo nostálgico, perturbador, e anacrônico.
Pensei:Será que estou ficando cega?
Aquilo não era, de forma alguma, normal. Cogitei a possibilidade de um problema de saúde mais grave, algo a ser investigado com urgência. Mas, afinal, o que é “normal”? Quem determinou a linha tênue entre o natural e o anormal? O que consideramos “real” pode não passar de uma construção coletiva, frágil e subjetiva.
Desculpe. Já estou divagando novamente — é algo recorrente em meu universo mental.
Logo em seguida, veio o déjà-vu. Um daqueles tão vívidos e precisos que fazem a espinha arrepiar. Minha mãe entrou na cozinha e caminhou até a sala, carregando uma bandeja com uma garrafa de água e dois copos de vidro. Provavelmente, subiria ao andar superior para realizar sua leitura habitual. Ela sempre foi uma leitora incansável, e eu admiro por isso. Nunca consegui manter o ritmo de leitura dela — um livro por semana! Eu lia devagar, mas mantinha a esperança de que, com persistência, um dia conseguiria desbravar tantas páginas quanto ela. Cada livro é um novo sabor — e eu queria devorá-los todos.
Foi então que senti como se uma pedra invisível tivesse sido lançada com força contra minha cabeça. Levei instintivamente a mão à nuca, como se fosse possível tocar a dor abstrata. E no instante seguinte, vi: ela caiu. A bandeja, a água, os copos — tudo se espatifou no chão em câmera lenta. Minha mãe escorregou... no vazio.
Levantei-me num ímpeto e corri até ela.
—Mamãe! Mamãee!— gritei em desespero.
Havia sangue. Muito sangue escorrendo da parte de trás da cabeça dela. Um estilhaço, talvez. O desespero me cegava. Meu relógio de pulso, por sorte, tinha a função de chamadas de emergência. Apertei o botão com as mãos trêmulas e acionei o socorro. Corri até a cozinha, molhei um pano rapidamente e pressionei sobre o fermento. Eu não tinha preparo para lidar com aquilo, mas fiz o que meu instinto mandava: proteger, amparar, sustentar. Minha cabeça latejava. Uma dor aguda se espalhou no meu cérebro, como se algo dentro de mim acontecesse para matar.
A tontura e um prazer terrível tomaram conta de mim. Era como se meu corpo estivesse rejeitando aquela realidade. Quis ficar ali, com minha mãe, aguardando os socorristas — meus heróis desconhecidos — como uma vítima espera a polícia após um crime brutal. Mas meu corpo não resistiu.
Desmaiei.
Mesmo inconsciente, percebi que não mergulhava no escuro habitual dos desmaios. Não. Era aquela cor — o laranja pálido — que persistia diante dos meus olhos fechados. Uma tonalidade nauseante. Será que eu estava morrido? Será que, nesse lugar onde agora estava, a morte era laranja?
De repente, tudo ficou em suspenso. A dor havia cessado. Ojoo desaparecera. Eu me senti... leve. Plenário. Mas confuso. Olhava ao redor — se é que se pode “olhar” em um espaço sem forma — e eu vi imersa em um infinito alaranjado. Um espaço sem chão, sem céu, sem direção. Um espaço sem tempo.
Pensei:Será que algum sistema no meu cérebro quebrou? Será que minhas sinapses entraram em curto, como fios de uma casa antiga durante um temporal?E, com esse pensamento, lembrei da minha antiga casa. E do meu peixinho, Pitty. Estaria ele em algum lugar desse mundo etéreo?
Tudo parecia durar uma eternidade... Mas talvez não tivesse passado de alguns segundos.
Talvez eu tenha sido deitada numa maca de hospital. Talvez estivesse sendo escaneada novamente. Talvez meu cérebro estivesse tentando me proteger da realidade.Mantenha a calma, quero dizer.Respirar.
Mas, então... algo inesperado aconteceu.
Abri os olhos e percebi: eu nunca havia saído do sofá. Minha mãe nunca caiu. Tudo havia sido... um sonho? Uma premonição não consumada? Um surto?
Ela entrou novamente na sala, exatamente como antes, com a bandeja nas mãos. Senti o choque do déjà-vu de novo.
—Deixa eu te ajudar, mamãe!— falei, apressada.
Ela sorriu, surpresa.
— Que filha prestativa! —disse, enternecida.
Tomei a bandeja de suas mãos e levei até seu quarto. Ela enviou novamente, com um olhar orgulhoso, embora talvez desconfiado. Será que pensei que eu queria algo em troca? Talvez. Mas tudo bem.
A verdade é que nem eu entendi o que aconteceu.
E você, leitor... também não deve ter entendido.
Mas, acredite: isso foi só o começo.
Eu sinto que talvez você esteja me julgando, então preciso falar sobre isso. Afinal, o que faz uma garota de 22 anos largada no sofá em plena tarde? Em primeiro lugar, não mencionei que dia da semana era, então não se apresse em imaginar que não faço nada da minha vida. Senti-me julgado apenas com a mera possibilidade de que alguém, talvez você, estivesse me julgando. Mas estamos em tempos modernos, e, se quisesse, poderia muito bem ter mandado meu namorado trabalhar enquanto eu estava em casa —risos. Não, eu não tenho namorado. Imagina só, com esse meu sexto sentido aflorado, seria um desastre previsível. Péssimo! Talvez por isso mesmo eu seja mais só. Gosto de estudar com frequência, sobre qualquer assunto, e ler... ler muito, especialmente as obras do meu querido John S. Meinlem. Devo adicionar mais alguns risos aqui também, você não concorda?
Já leuo Universo Enigma? Se você gosta da minha história até aqui, deveria incluí-lo imediatamente no seu catálogo de leitura. É sério — risos novamente.
Mas vamos retomar o fio da meada. Bendita seja a nossa modernidade!
Posso contar algo antes de continuar? Claro que posso. Afinal, sou eu quem está narrando —rs.
Desde cedo ouvimos de nossos antepassados: “Estudam para serem grandes na vida.” Pois bem, aos 18 anos, com o ensino médio completo e antes de ingressar na faculdade, perceberam algo curioso — as pessoas que mais ganhavam dinheiro muitas vezes sequer aperfeiçoaram os estudos formais. Eram, na verdade, sobreviventes astutos desta fauna social imprevisível, dominando com maestria os caminhos por onde o dinheiro circula. E esse dinheiro, claro, flui com precisão quase matemática por entre as áreas de maior interesse econômico mundial. Foi graças à minha fome por livros, desde a infância, que tive essa percepção — ainda que superficial.
Mesmo assim, decidi cursar duas faculdades simultaneamente: Administração e Contabilidade. Sim, duas. Como disse, amo estudar.
Antecipei materiais, corri contra o tempo e, ao final, recebi meus belos diplomas. Em seguida, estagiei na Escola Heptagonal — pagavam uma miséria, mal dava para comer decentemente. Naquela época, senti a necessidade de agir com mais firmeza, de buscar algo que realmente trouxesse retorno financeiro. Afinal, nesta fase da vida, estamos inseridos em um mundo onde o dinheiro, convenhamos, podemos sim oferecer um pouco mais de dignidade e conforto. Concorda comigo? Ele ajuda, é claro.
Mas não me entenda mal: não sou consumidor. Longe de mim encher a casa com bugigangas inúteis que logo perdem a função. No entanto, sempre defendo o direito de poder pedir uma comidinha em casa, um docinho de vez em quando... é meu direito, você sabia?
E foi nesse contexto que, munida de algum conhecimento e de muita curiosidade, resolvi abrir minha própria loja virtual. O desejo também surgiu das dúvidas que faziam no trajeto de ônibus até meu estágio. Sim, eu era excelente no que fazia — e, quando decidi sair, ah, isso é outra história, já conto.
Como, no vai e vem das ruas, percebi que muitas lojas físicas abriram e fecharam em poucos meses. Estudei a mídia de lucro de cada uma, notei que lojas de acessórios, roupas e adornos tinham melhores margens, especialmente quando mexiam com os sentidos femininos. Produtos que custavam centavos na China aqui se transformavam em peças de luxo a R$89,00. Sim, esse era o meu objeto de estudo: comportamento de consumo.
Mas, mesmo com toda essa margem, muitas lojas ainda fechavam. Notei que eu mesma havia mudado: já não ia mais às lojas, tampouco aos shoppings. Se saía, era para assistir a algum filme — e, com os preços absurdos, isso se tornava cada vez mais raro. Adotei os serviços destreaminge deixei a ansiedade de lado.
No meu trabalho, falávamos mais sobre livros do que sobre séries ou filmes. Por isso, nunca me senti pressionado a acompanhar modismos culturais. A cultura organizacional da Escola Heptagonal era fascinante. Dizem que trabalhar no Google é encantador — eu diria que lá também era.
Foi então que, após analisar todo esse cenário, abri minha lojinha virtual. O começo foi difícil. Investi pesado nos produtos e, no início, o retorno era ínfimo. Lembro-me do dia em que vendi R$100 e descobri que meu lucro foi de... R$3,29. Isso mesmo. Após os impostos, deu para comprar uma bala de morango. Tudo bem, era só o começo.
Um ano depois, minha loja já me rendeu mais do que o estágio. As vendas cresceram mês após mês. Era a hora de sair. E foi neste ponto — o tal momento que prometi contar — que decidiu pedir o desligamento. O diretor Lino me chamou à sala e explicou como funcionava a política de efetivação. Disse que vinha acompanhando meu trabalho e que me indicava para a carga de Especialista, com possibilidade de promoção a Analista. Naturalmente, o salário seria proporcionalmente mais digno — e satisfaria meus pequenos desejos, como aquele doce esporádico ou uma pizza no fim de semana.
Ele me ofereceu isso com carinho. Mas eu recusei.
Expliquei o que estava fazendo, minha loja, meu sonho. Ele ficou feliz, me apoiou, disse que me ajudaria no que fosse necessário para minha felicidade eterna. Que fofura! Amo aquele lugar. O especialista coreano Seung-Hyun, que trabalhou comigo, até hoje me manda mensagens quando tem algum problema financeiro. Eu o ajudei, de graça. Ele é muito gentil. Acredito que ele confie mais em mim por conta dos meus traços asiáticos — tenho olhos que misturam um pouco do europeu com o oriental. Eu acho fofo, sim!