Chapter 1 - Manual de sobrevivência para um dia de merda
Um belo dia para o meu celular se espatifar no chão, assim como os sobreviventes brinquedos da minha sobrinha. Parabéns, Nathalie — aplausos subconscientes.
Não são nem nove horas da manhã e cá estou eu, andando por Nova York em busca do celular mais barato do mundo. Afinal, desempregada, à beira do despejo e agora sem um aparelho celular... essa sou eu, praguejando em meu subconsciente, a caminho da milésima loja de eletrônicos com meus míseros duzentos dólares à espera de um milagre tecnológico.
A vitrine da loja onde entrei parecia saída de um catálogo futurista: painéis digitais exibiam os modelos mais recentes com animações coloridas, e caixas de som espalhavam uma música ambiente suave — quase chique demais pro meu bolso quebrado. O aroma de café recém-passado tentava disfarçar o leve cheiro de plástico novo e ar-condicionado.
— Bom dia, em que posso ajudar?
Arregalei os olhos ao perceber a simpática loira parada ao meu lado. Imersa em pensamentos, não a vi ali nos últimos cinco, dez ou quinze minutos (?). Claramente, preciso parar de me perder dentro da minha própria cabeça.
Balancei a cabeça, tentando me recompor, e lancei um sorriso envergonhado para a atendente.
— Bom dia... estou à procura do... hã... telefone mais barato que você tem a oferecer. Eu acho.
Claro, era uma ótima hora para parecer uma tola.
— Claro! Vou buscar o aparelho mais em conta que temos na loja. Enquanto isso, fique à vontade para se sentar ou dar uma olhada nos demais aparelhos. Quem sabe um acessório?
Ela apontou, primeiro, para duas poltronas à esquerda, com uma bela mesa de centro entre elas, uma cafeteira de cápsulas modernas ao lado e várias revistas de tecnologia empilhadas. Depois, indicou uma vitrine repleta de capinhas, fones de ouvido e acessórios pendurados — uma explosão de cores neon e brilho que me fez lembrar de festas que já não frequento.
Mal tive tempo de responder e ela já havia sumido. Fui até a máquina de café, salivando por uma bela dose de cafeína para tentar salvar o meu dia.
Mas, como a alegria de pobre dura pouco, ao lado dos copos descartáveis havia uma enorme placa com os valores dos cafés disponíveis. Obviamente, nenhum deles cabia no meu orçamento. Que novidade.
Será que também devo pagar pelo assento?
Antes que eu cogitasse isso, achei melhor continuar andando pela loja. Foi quando parei em frente à vitrine que exibia o novo lançamento: o iPhone 16.
— Se me permite dizer, o lilás combina mais com você — disse uma voz masculina ao meu lado. Sabe-se lá há quantos minutos ele estava ali.
Deus, eu claramente preciso parar de viajar na maionese e me atentar ao que acontece ao meu redor.
Olhei para o lado, tentando identificar de quem veio o comentário, e me perguntando se eu estava babando tanto assim a ponto de parecer indecisa quanto à cor de um telefone que eu não posso pagar nem se trabalhasse um ano inteirinho.
E uau... agora eu com certeza devo estar babando.
Se eu dissesse que este homem é o meu número, estaria mentindo. Mas não posso negar: ele é um baita de um gostoso. Um belo terno, claramente feito sob medida, barba por fazer, cabelos pretos e uma pele tão branca que facilmente interpretaria um vampiro em uma série de TV. Contudo, o cara parecia garoto-propaganda de academia. Ou modelo.
— Ah, não... Isso claramente não cabe no meu bolso no momento — e talvez nunca. Mas a esperança é a última que morre.
Voltei a vislumbrar os incríveis modelos, suspirando e imaginando se um dia teria sucesso suficiente para comprar um daqueles...
— Aqui está, senhorita. O aparelho telefônico mais barato disponível na loja... — disse a atendente, tirando os olhos do aparelho e se surpreendendo ao ver o cara misterioso ao meu lado. — Bom dia... Sr. Cross. Não sabia que o senhor estaria aqui hoje.
Hmmm. Sr. Cross. Ao menos agora eu já sei o sobrenome dele — ou o que quer que esse codinome seja.
— Hillary — disse ele, cumprimentando-a, antes de fazer um leve aceno com a cabeça e caminhar em direção ao caixa.
— Sim, este está perfeito. Quanto custa? — perguntei, pegando o aparelho de suas mãos e analisando-o. Lógico que não era um sonho de celular, mas serviria para o que eu preciso.
— Custa quinhentos dólares. Você quer que eu embale?
Quinhentos dólares. Isso doeu quase tanto quanto um soco no estômago.
Nesse momento, uma outra atendente chegou ao lado de Hillary e sussurrou algo em seu ouvido. Seus olhos arregalados não me pareciam uma boa notícia — embora dificilmente pudesse ser pior do que os quinhentos dólares dos quais eu ainda nem havia me recuperado.
— Senhorita, tenho o prazer de informar que você foi escolhida para ser premiada com um voucher de 70% de desconto em qualquer aparelho da loja. Você gostaria de escolher outro modelo?
Isso só pode ser uma pegadinha. É agora que entram as câmeras e dizem: “Ah-hã, você foi pega!”
Devem ter se passado cerca de três minutos até que eu recobrasse a consciência, averiguando a presença de câmeras ou algum apresentador de TV ao meu redor.
— Não, eu vou levar este aparelho mesmo. Desculpe a desconfiança, mas... vocês oferecem esses descontos com frequência? — perguntei ainda surpresa.
— Não, mas este voucher foi um pedido direto do CEO da empresa. Você deve ser uma garota de sorte! — respondeu ela, me dando uma piscadela antes de se dirigir ao caixa para embrulhar o telefone e emitir a nota de pagamento.
Caminhei até o caixa, fiz o pagamento dos cento e cinquenta dólares, peguei a sacola e agradeci imensamente às atendentes. Pedi que, por favor, agradecessem também ao suposto CEO pelo desconto.
Saí da loja mais do que surpresa com o tal desconto, desconfiada de que alguém que acordou com o pé esquerdo — como eu hoje — pudesse, de repente, estar tendo um golpe de sorte. Mas também aliviada por finalmente encontrar um telefone que pude pagar.
Voltei para casa, me joguei no sofá e decidi configurar meu novo telefone. E voilà... isso não é possível. Só pode ser um engano.
Dentro da sacola havia um iPhone 16 lilás e um bilhete com os dizeres:
— Lilás combina com você.
Encostei a cabeça no sofá, atordoada com o bilhete e o telefone. Será que eu deveria voltar à loja? Isso foi um engano? Será que o Sr. Gostoso tem algo a ver com isso? Ou será que, coincidentemente, alguém mais acha que lilás — e um presente de dois mil dólares — combinam comigo?
Milhares de perguntas invadiram minha mente, e meu subconsciente gritava:
— O Sr. Gostoso CEO resolveu te presentear pelo seu dia difícil. Vamos lá, só aceite.
Ok. As atendentes revisaram a sacola algumas vezes. Impossível que isso seja um engano.
Se eu soubesse que meu dia horrível terminaria com um iPhone lilás e um bilhete enigmático de um homem absurdamente bonito... talvez eu tivesse me arrumado melhor.
A pergunta que não quer calar:
Por que eu, Sr. Gostoso?








