Aprendendo a Ser Esposa

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Resumo

Rita Hartman-Saunders é uma aspirante a escritora que desapareceu silenciosamente na vida de casada por mais de quinze anos. Dean Saunders é um homem poderoso que acreditava que estabilidade era sinônimo de amor. Quando a distância fragmenta a vida que construíram com tanto cuidado, verdades enterradas começam a vir à tona — através da ausência, da memória e de palavras que nunca deveriam ter sido lidas. Aprendendo a Ser Esposa explora a crise conjugal na meia-idade, a intimidade sem linguagem, a devoção sem segurança e a linha frágil entre a posse e a proteção. Esta não é uma história de vilões e santos, mas de duas pessoas que se amaram profundamente e descobriram, tarde demais, o quanto falavam idiomas diferentes sobre esse amor.

Status
Completo
Capítulos
76
Classificação
5.0 4 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1: Prólogo

Quinze anos atrás………

Rita Hartman não pertencia a lugares como aquele. O auditório vibrava com uma importância evidente — sapatos polidos, risadas contidas e o murmúrio baixo de homens que falavam em números e favores. Faixas anunciando O Futuro da Literatura estavam penduradas alto demais, chamativas demais, ambiciosas demais.

Rita sentou-se na terceira fileira, com uma pasta de couro equilibrada nos joelhos. Seus dedos estavam levemente manchados de tinta, e seu coração mantinha uma calma que só vinha de entender as palavras melhor do que as pessoas.

Ela tinha vinte e um anos e acabara de se formar. "Excepcionalmente brilhante", diziam sempre — a maior nota da sua turma na Florida State University, créditos concluídos antes do prazo e uma mente aguçada para a sua idade. Nada disso importava para ela naquele momento.

Ela trabalhava para sua tia — sua madrinha, na verdade — em uma pequena editora que ainda acreditava que histórias podiam ser cuidadas com zelo, em vez de depender de algoritmos. Rita ajudou a organizar aquele seminário. Correu atrás de palestrantes, editou panfletos e escreveu introduções que ninguém leria. Ela estava ali para observar, aprender e desaparecer nas margens, como sempre fazia.

Ela não sabia que, logo atrás dela, o destino acabara de se sentar. Dean Saunders. Ele chegou atrasado.

As portas se abriram sem alarde, mas o ambiente mudou. Não de forma dramática — sem suspiros ou sussurros — mas como uma mudança na pressão do ar. Como se o ambiente tivesse ficado tenso, subitamente alerta. Ele não deveria estar ali.

Pelo menos, era o que ele pensava ao entrar, com as abotoaduras impecáveis e uma expressão indecifrável. O convite fora absurdo — um seminário acadêmico em uma faculdade local, uma obrigação de conselheiro delegada tarde demais para ser recusada. Ele aceitou por hábito, não por interesse. Literatura não era o seu mundo. Para ele, palavras eram instrumentos: contratos, ameaças e promessas que só tinham peso quando impostas.

Ele era o próprio poder condensado. Um empresário de trinta anos. Jovem o suficiente para que seu nome ainda carregasse um ar de descrença — influência demais, rápido demais; boatos demais para alguém que mal tinha deixado a juventude.

As pessoas falavam de Dean Saunders com cuidado, como se dizer seu nome alto demais pudesse invocar algo indesejado. Um homem que virou lenda antes mesmo de se dar ao trabalho de confirmar qualquer boato.

Dean examinou a sala da mesma forma que examinava salas de reuniões e negociações hostis — rápido, eficiente, desdenhoso. Nada ali o interessava. Aquilo era uma obrigação, não uma vontade.

E então ele a viu. Ela estava no corredor lateral, levemente inclinada sobre uma pilha de programas, com a testa franzida em concentração silenciosa. Não havia nada de performático nela.

Sem charme cultivado. Sem sede de ser notada. Ela usava uma blusa creme simples, mangas dobradas até os cotovelos e cabelo preso de forma desleixada — como se tivesse se esquecido de si mesma no meio da manhã e não se preocupado em corrigir.

Ela riu baixinho de algo que um professor disse — mal se ouviu o som, mais ar do que barulho.

Dean parou de caminhar. Não era desejo. Não era luxúria. Era reconhecimento — súbito e invasivo, como tocar em um fio desencapado que você nem sabia que estava ali.

Ela olhou para cima. Seus olhares se cruzaram. Cinza-azulado contra castanho escuro. Um segundo longo demais. Um momento que não tinha motivo para existir — e, ainda assim, existiu.

Rita sentiu primeiro — não medo, exatamente. Uma percepção. Do tipo que endireitou sua coluna sem permissão, como se a sala tivesse se estreitado ao redor de uma única presença. O homem no corredor não sorriu. Não suavizou a expressão. Sua atenção pressionava o ambiente, inegável.

Ela desviou o olhar primeiro, irritada consigo mesma por ter feito isso. Dean não desviou.

Algo nele mudou — silenciosa e decisivamente. Dean Saunders não quebrava. Ele se recalibrava. O mundo se ajustou ao redor de um novo centro que ele não escolhera, mas que não podia mais ignorar.

Quem é ela? Por que nunca a vi antes? – ele perguntou a si mesmo. E, durante o restante do seminário, as palavras ditas não significaram nada para ele.

Os painéis passaram. Aplausos subiam e desciam. Ideias flutuavam pela sala, intocadas. A atenção dele permanecia fixa na jovem que fazia anotações como se estivesse ouvindo algo sagrado, algo frágil.

Quando ela se levantou para apresentar um palestrante, sua voz era firme, sem floreios — desarmazadamente sincera. “Eu acredito que a literatura sobrevive”, ela disse, “porque ela nos ensina a olhar uns para os outros.”

Dean construíra seu império crescente sendo invisível. Quando o evento acabou — quando as pessoas se levantaram, conversaram e trocaram cartões — ele se moveu antes de pensar. Ele sempre fazia isso. O controle era instintivo. A aquisição seguia naturalmente.

“Rita Hartman”, ele disse, lendo seu crachá como se já fosse familiar.

Ela olhou para ele, calma, mas na defensiva. Olhos inteligentes. Curiosos — ainda que totalmente indiferentes. “Sim?”

Dean Saunders — empresário implacável ou príncipe da máfia, temido, já intocável — sentiu algo perigosamente próximo de admiração. Ele sorriu. Algo raro. Medido. Preciso. Afiado demais para transmitir calor.

“Eu sou o Dean”, disse ele. “Gostaria de conhecer você.”

Rita hesitou. E nessa hesitação, ela não sabia que os quinze anos seguintes de sua vida começavam a ser colocados em movimento. Um casamento apressado para a permanência. Um amor tomado antes mesmo de ser oferecido. Uma mulher estudada por completo, mas nunca compreendida.

Dean Saunders saiu daquele seminário com uma certeza aterrorizante: ele acabara de conhecer a única mulher que seria capaz de destruí-lo. E, mesmo assim — especialmente assim — ele já estava decidindo o que seria necessário para torná-la sua.

Horas depois, as pesadas portas de carvalho do auditório se fecharam atrás dela, mas a vibração da voz de Dean parecia seguir Rita até o seu estúdio apertado de um quarto.

Ela jogou sua pasta de couro na mesa da cozinha, com os dedos ainda formigando pela breve e acidental proximidade com ele. Ela disse a si mesma que era apenas a adrenalina do seminário — o sucesso do evento, o cansaço da semana. Mas, enquanto estava no silêncio de sua casa, o ar parecia diferente. Parecia lotado.

A intrusão começou naquela mesma noite. Às 23h42, seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Era um número desconhecido, mas a mensagem estava desprovida das formalidades digitais usuais. “O modo como você falou sobre a ‘sacralidade da palavra escrita’ — foi a única coisa honesta dita naquela sala hoje. Durma bem, Rita.”

Ela encarou a tela, com o coração batendo em um ritmo frenético contra as costelas. Ela não dera seu número a ninguém hoje. ‘É ele? Aquele homem intrigante? Não. Não pode ser’, pensou ela.

Ela nem sequer tinha lhe dito seu nome, mas ele o lera em um crachá de plástico. Um frio de inquietação a percorreu. Não era um gesto romântico. Era uma demonstração de alcance. Ele estava lhe dizendo, sem usar palavras, que não existiam muros altos o suficiente para mantê-lo afastado.

Na manhã seguinte, a invasão de sua vida escalou do digital para o físico. Um entregador chegou às 8h. Ele não tocou a campainha, apenas deixou o presente perto da porta. Quando ela abriu para sair em direção ao escritório da tia, viu a caixa perto do batente.

Era uma caixa embrulhada em papel cinza-carvão. Dentro, havia uma edição de primeira mão de Middlemarch — seu romance favorito, um detalhe que ela não mencionara a uma alma viva no seminário. Enfiado na capa, havia um bilhete manuscrito em papel encorpado: “Encontrei uma versão tão bem cuidada quanto os seus pensamentos. – D.S.”

“Ele é apenas um empresário com dinheiro demais”, Rita sussurrou para si mesma, empurrando o livro para a prateleira. Mas ela não conseguia ignorar o modo como suas mãos tremiam.

No terceiro dia, os presentes tornaram-se mais pessoais, mais invasivos. Uma caixa daquele chocolate amargo específico que ela só comprava em uma pequena loja do outro lado da cidade. Uma caneta-tinteiro esculpida em obsidiana, com o peso perfeito para sua mão. Depois, vieram os telefonemas.

Ele nunca ligava durante o dia, quando ela estava ocupada. Ele esperava pela vulnerabilidade da noite. “Como estava o manuscrito que você estava editando hoje?”, sua voz emergia com sedosidade do telefone.

Sem um “olá”, sem um “é uma boa hora”. Apenas a suposição aterrorizante de que ele já fazia parte do seu monólogo interno.

“Como você sabe o que eu estava fazendo, Sr. Saunders?”, Rita perguntou, com a voz tensa enquanto caminhava de um lado para o outro na sua pequena sala.

“Eu faço questão de saber as coisas que me interessam, Rita”, ele respondeu. Havia uma vibração baixa e melódica em seu tom que fazia a pele dela se arrepiar. “E você me interessa mais do que qualquer contrato que eu já tenha assinado. Você tem o hábito de morder o lábio quando está frustrada com um parágrafo. Você deveria parar. É uma distração.”

Rita congelou, olhando para a janela. As persianas estavam fechadas, mas ela se sentiu subitamente nua. Ele não estava apenas ligando. Ele estava mapeando-a. Da mesma forma, ele estava aprendendo a topografia de seus hábitos, seus medos e suas alegrias, não para compartilhá-los, mas para possuí-los.

Em outro dia, ele enviou um carro ao seu escritório para levá-la para almoçar; ela pegou o ônibus. Ele enviou um vestido de estilista para uma gala para a qual ela não fora convidada; ela o deixou no corredor. No entanto, para cada limite que ela impunha, Dean simplesmente passava por cima com a paciência silenciosa e aterrorizante de um homem que conhecia o final do livro antes mesmo da protagonista.

Em seu apartamento, cercada por seus “tributos” — os lírios que cheiravam a poder, os livros que pareciam barras de ouro — Rita percebeu que não estava sendo cortejada. Ela estava sendo sitiada. Dean Saunders não estava esperando que ela abrisse a porta; ele estava lentamente trocando as fechaduras.

Toda vez que ela fechava os olhos, via seu olhar escuro e inabalável. Ele dissera que queria conhecê-la. Ela percebeu agora que, para Dean, “conhecer” alguém era sinônimo de “conquistá-la”. E, enquanto as mensagens continuavam a soar no meio da noite, Rita Hartman, a garota que amava as palavras, descobriu que estava perdendo a capacidade de dizer o seu próprio “não”.