Elías
Meus dedos estavam apertados firmemente ao redor do volante. Tão apertados que meus nós dos dedos ficaram brancos. Eu sentia cada movimento do motor sob mim, a vibração silenciosa dos pneus no asfalto, o zumbido constante e profundo que percorria meu corpo como uma corrente elétrica.
A estrada se estendia infinitamente à minha frente. À esquerda e à direita, campos secos e colinas suaves passavam rapidamente. O sol estava baixo, banhando tudo em uma luz quente que lentamente tornava o asfalto dourado e avermelhado. O ar tremulava levemente, como se até o dia estivesse ficando cansado.
Então, eu vi.
Uma placa azul na beira da estrada.
Madrid. Cinquenta quilômetros.
Meu olhar permaneceu nela por um breve segundo, mas algo dentro de mim reagiu instantaneamente. Meu coração começou a bater mais rápido. Com mais força. Meu aperto no volante aumentou sem que eu pensasse nisso. Senti todo o meu corpo ficar tenso, como se uma bússola interna tivesse acabado de se fixar em um destino que não podia mais se dar ao luxo de perder.
Eu estava perto de vê-la.
Catalina.
Eu nunca a tinha tocado. Nunca a tinha visto. Eu conhecia apenas a sua voz, a sua risada ao telefone, aquele jeito ousado e confiante com que ela falava, como se o mundo lhe pertencesse. Eu conhecia fotografias. Mas fotos não diziam nada sobre a sensação no peito quando o seu lobo subitamente desperta.
Eu sabia desde o primeiro momento.
Como se meu sangue tivesse reconhecido a frequência dela. Como se meu instinto a tivesse farejado muito antes de minha mente estar disposta a aceitar.
Apenas sua voz tinha aberto algo dentro de mim que não podia ser fechado novamente.
Pisei um pouco mais fundo no acelerador. Não por impaciência. Mas porque eu precisava.
Porque eu tinha ouvido ela ontem. Aquele telefonema maldito.
As palavras dela ainda ecoavam na minha cabeça, cortantes e inesquecíveis.
“Vou encontrar um cara gostoso pra caralho aqui que vai me foder a noite toda como uma deusa.”
Um rosnado subiu pela minha garganta, áspero e profundo. Senti meu lobo interior se rasgar para frente, pronto para se soltar.
“Elías, se acalma”, disse Leo ao meu lado, com os olhos na estrada, a voz firme, mas alerta.
Virei a cabeça para ele, lancei-lhe um olhar fulminante e rosnei novamente, desta vez mais alto.
“Nós vamos encontrá-la. E ela não vai estar procurando outro homem, irmão.”
Ele assentiu uma vez. “Eu sei.”
Eu deveria ter partido ontem. Mas eu ainda estava preso à alcatéia. Deveres que eu não poderia simplesmente abandonar. Responsabilidades que não podiam esperar. No fim, Amaro decidiu que seria melhor se Leo viesse comigo. Por segurança. Para todos os envolvidos.
Eu bufei com o pensamento. Segurança.
O que eu queria agora era apenas uma coisa.
Catalina.
E ela estava exatamente a cinquenta quilômetros de distância.
Por enquanto.
O toque de um telefone quebrou o silêncio dentro do carro. Leo meteu a mão no bolso da jaqueta, tirou o aparelho e atendeu.
“Luna?”, disse ele brevemente.
“Ei, vocês dois. Onde estão agora?”, a voz de Eleonora veio através da estática fraca da conexão. Alerta. Direta. E curiosa.
“Estamos a uns cinquenta quilômetros de Madrid”, respondeu Leo calmamente, lançando-me um breve olhar.
“Elías?”, ela perguntou suavemente.
Leo tocou na tela e colocou a ligação no viva-voz.
Não respondi imediatamente. Meu olhar permaneceu fixo na estrada. Mas meu coração acelerou ao som do tom dela.
“Ainda precisamos discutir como vocês planejam convencer minha irmã gêmea a ir com vocês”, continuou Eleonora, com a voz divertida, porém carregada de preocupação.
Deixei escapar um rosnado baixo.
“Eleonora”, disse eu firmemente, “eu não vou convencer Catalina.”
Silêncio.
Então, uma risada suave veio do alto-falante.
“Claro que não”, ela riu. “Como eu pude pensar que você pediria algo a alguém?”
Leo sorriu ao meu lado e balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
Eu não mudei minha expressão.
“Ela vai vir conosco”, eu disse calmamente. “Querendo ela ou não.”
“Em qual clube ela vai estar hoje à noite com as amigas?”, perguntou Leo, com os olhos ainda na estrada.
“Elas vão estar no Caliente”, respondeu Eleonora instantaneamente, brincalhona e divertida. Sua risada calorosa veio pelo telefone.
Por um momento, houve silêncio.
Então ela acrescentou, mal conseguindo conter uma risadinha: “Catalina vai estar usando uma peruca loira ou ruiva.”
Leo riu imediatamente, baixo, mas claramente entretido.
Eu franzi a testa. “O quê? Por que ela está usando peruca?”, perguntei, genuinamente confuso, olhando brevemente para Leo, que ainda sorria.
“Minha irmã gêmea é modelo em Madrid”, explicou Eleonora com facilidade. “Ela é constantemente reconhecida. A peruca foi a melhor solução para não ser encarada como uma propaganda ambulante esta noite.”
Eu sabia que minha companheira era modelo. Eu não poderia ter perdido isso. Eleonora tinha mencionado.
Eu tinha pesquisado algumas coisas. Nada extenso. Apenas o essencial. Algumas fotos. Alguns artigos. Uma entrevista que ela tinha dado uma vez.
Não porque eu quisesse persegui-la. Eu simplesmente queria saber quem ela era.
Como ela era quando não estava falando. Que tipo de pessoa ela poderia ser.
Era só isso.
Mas foi o suficiente para saber que ela não era uma mulher fácil. Não era quieta. Não era cautelosa.
Ela era barulhenta. Direta. Orgulhosa.
E eu estava curioso pra caralho para ver o que aconteceria quando ficássemos frente a frente.
A imagem de Catalina com uma peruca loira ou ruiva, rindo, dançando em uma boate lotada, queimou em meus pensamentos. Senti meu pulso disparar novamente. Minha mandíbula travou.
“Ela vai se destacar. Não importa a cor do cabelo”, murmurei sombriamente.
Leo olhou para mim. “Então, sem plano sutil hoje à noite?”
Eu bufei. “Sutileza acabou. Eu vou pegá-la. Antes que algum idiota sequer pense em olhar na direção dela.”
Do outro lado, Eleonora riu suavemente de novo. “Bom, então. Boa sorte, vocês dois.”
A ligação terminou.
Leo balançou a cabeça, sorrindo. “Acho que esta vai ser uma noite muito longa.”
Eu não respondi.
Porque só restava um pensamento em minha cabeça.
Catalina.
“Vamos primeiro ao apartamento dela e ver se ela está em casa antes que a gente tenha que destruir a boate, Elías”, disse Leo calmamente, observando o tráfego à frente.
Os últimos raios de sol tocaram o para-brisa, tons laranja quentes tremeluzindo no painel. O céu tinha ficado azul-profundo, lentamente afundando na noite. Carros passavam por nós, luzes dispersas brilhando na estrada conforme nos aproximávamos de Madrid. Vinte minutos. Talvez menos.
Pressionei meus lábios. Minha mandíbula estava tensa, meus olhos fixos na estrada. Cada quilômetro parecia interminável.
“Se ela estiver em casa”, murmurei, mais para mim mesmo, “podemos levá-la diretamente. Sem drama.”
Leo deu um sorriso rápido. “E se ela já estiver na boate?”
Senti a faísca familiar acender dentro de mim novamente. Meu lobo estava inquieto. Agitado. Pronto. “Então Madrid vai aprender hoje à noite o que significa ficar entre um lobisomem e sua companheira.”
Leo riu baixo. “Você está completamente perdido, irmão.”
Não reagi. Em vez disso, meus pensamentos giravam. Eu quase podia sentir o cheiro das luzes da boate. Álcool. Suor. Mãos de estranhos. Barulho. E em algum lugar no meio de tudo isso, Catalina. Com cabelo falso e fogo real.
Meu coração bateu mais rápido.
A imagem na minha mente era clara demais. Vívida demais. E perigosa pra caralho.
“Ela nem conhece você”, disse Leo em certo ponto, sem olhar para mim. “E se ela ficar com medo?”
Rosnei baixo e quieto. “Ela vai. Mais cedo ou mais tarde. A alma dela conhece a minha. Não vou forçá-la, Leo. Mas também não vou esperar até que ela caia nos braços de outro homem.”
Leo me olhou de soslaio. “E como exatamente você planeja fazer isso?”
Acelerei, ultrapassei uma van de entrega branca, mudei de faixa.
“Vou mostrar a ela quem eu sou. E quem ela é. E então ela vai sentir. Como eu senti.”
Leo recostou-se, cruzou os braços e não disse mais nada. A seriedade em seu olhar não era mais zombeteira. Era de alerta.
Eu sabia que era perigoso. Talvez até insano. Mas eu não tinha escolha. O vínculo estava lá. Inegável. E crescia mais forte a cada quilômetro.
O tráfego aumentou. Os faróis se refletiam no para-brisa, correntes de luz se estendiam como veias brilhantes pelas ruas. Já tínhamos deixado os subúrbios para trás há muito tempo. Madrid não era mais apenas um nome em uma placa. Estava ao nosso redor. Barulhenta. Viva. Enorme.
Eu não apenas via a cidade. Eu a sentia.
Tinha cheiro de verão, concreto, calor e vida. Prédios altos se erguiam de ambos os lados, embora não estivéssemos no centro da cidade, mas em um bairro mais tranquilo um pouco afastado. Elegante. Bem cuidado. Você podia sentir isso instantaneamente.
Não tinha certeza se gostava disso.
Leo olhou para o painel. “Quatro minutos.”
Não respondi. Apenas observei.
O bairro era moderno, mas não frio. Árvores margeavam a rua, jardins bem cuidados escondiam-se atrás de muros baixos, até o asfalto parecia recém-colocado. Os prédios eram elegantes, nada de blocos de concreto ou varandas apertadas. Este era um lugar onde as pessoas viviam com segurança. E bem.
Entre em uma rua lateral, passei por um pequeno parque florido, então um complexo residencial apareceu à frente. Três andares. Reboco branco. Grandes fachadas de vidro. Varandas de vidro fosco.
Estacionei diretamente em frente ao prédio. O motor silenciou.
Leo abriu sua porta ao mesmo tempo que eu. O ar lá fora estava quente. Parado. Apenas o zumbido distante da cidade pairava como ruído de fundo.
Nossos passos soavam abafados no pavimento enquanto caminhávamos em direção à entrada. Antes de chegarmos lá, algo se moveu.
Um homem saiu das sombras ao lado da porta. Ombros largos. Uniforme escuro. Rádio no cinto. Seu olhar deslizou sobre nós imediatamente, calmo, mas claramente alerta.
Ele cruzou os braços sobre o peito. “Boa noite.”
Eu estava prestes a falar, mas Leo foi mais rápido. Calmo. Controlado. Com aquela dominância natural na voz que imediatamente o fazia parecer algo mais do que um visitante comum.
“Estamos procurando por Catalina.”
O segurança piscou, estreitou os olhos levemente. Por um momento, ele não disse nada. Então Leo ergueu o queixo e encontrou o olhar dele diretamente.
O tom do homem mudou. “Ela foi buscada há cerca de uma hora.”
Tudo dentro de mim se contraiu.
“Por quem?”, perguntei, mais bruscamente do que pretendia.
O homem não desviou o olhar, mas vi sua postura mudar. Um toque de cautela. Talvez até respeito.
“Duas mulheres. Ambas muito chamativas. Uma loira, a outra com cabelo ruivo. Elas estavam rindo. Parecia uma noite de farra.”
Fechei os punhos. A imagem se formou instantaneamente. Catalina em algum lugar nesta cidade. Sorrindo. Rindo. Em uma boate cheia de homens desconhecidos. Sem saber que eu estava a caminho.
Leo deu um passo atrás levemente e olhou para mim. “Caliente?”
Assenti.
Sem mais palavras. Sem hesitação.
Viramos, caminhamos de volta para o carro, entramos. Eu nem tinha colocado o cinto quando o motor rugiu de vida.
Leo recostou-se no banco. “De alguma forma, tive a sensação de que você estava esperando que ela ainda estivesse aqui.”
Eu não disse nada.
Porque, no fundo, eu esperava exatamente isso. Esperava abrir a porta dela, olhar diretamente nos olhos dela, levá-la comigo antes que tudo ficasse complicado.
Mas o destino tinha outros planos.
E ela estava lá fora. Na noite. Em uma cidade cheia de possibilidades.
Agora só restava uma.
Eu.