Capítulo 1
Belize
O mundo humano
Daisy Logan virou-se na cama e suspirou suavemente. O som dissipou-se no ar morno e salgado do bangalô. Sua bochecha afundou no travesseiro de algodão frio, e a luz do início da manhã aqueceu seus ombros através das cortinas finas. Por um momento, ela permaneceu imóvel, deixando-se flutuar entre o despertar e o sonho, suspensa no balanço suave das ondas sob o assoalho.
Esta semana inteira tinha sido uma das mais mágicas, indulgentes e ridículas de sua vida. Tudo nela parecia irreal, da melhor maneira possível: o horizonte infinito de águas azul-turquesa, os jantares ao pôr do sol, as manhãs preguiçosas entrelaçada nos braços de Lucius e a quietude íntima que só surgia quando o resto do mundo desaparecia.
Ela não queria que terminasse. Odiava que tivesse que acabar. O paraíso tinha data de validade, pelo visto. A realidade, de forma irritante, não tinha.
Daisy esticou um braço pela cama, tateando instintivamente por ele. Seus dedos encontraram apenas lençóis frios. Mas a ausência dele não a preocupou. Ela apenas sentiu um aperto leve ao acordar sozinha.
Lucius às vezes perambulava. Ele gostava de ver o nascer do sol. Dizia que isso o fazia sentir como se estivesse à frente do dia, antes que o mundo começasse a exigir coisas dele. Ultimamente, ela acordava com frequência e o encontrava fora por alguns minutos, apenas para vê-lo retornar com café, doces ou aquele sorriso suave e quase tímido que ele guardava só para ela.
Ela se apoiou nos cotovelos e piscou, olhando para as portas de vidro abertas. O oceano brilhava como diamantes espalhados; cada onda parecia incendiar-se sob o sol nascente. Uma brisa leve agitava as cortinas, levantando-as em arcos preguiçosos e graciosos.
Era lindo ali. Lindo demais. O tipo de beleza que faz você querer congelar o tempo.
Lucius a surpreendera com essa viagem para o aniversário de cinco anos deles. Sem dicas, sem preparativos e sem nenhum comportamento suspeito ou atencioso antes. Em vez disso, ele simplesmente apareceu no apartamento dela certa manhã, beijou-a de forma alucinante e disse para ela arrumar um traje de banho.
Ela riu e brincou, dizendo que ele era dramático, mas ele apenas deu de ombros daquele jeito quieto e charmoso, dizendo: “Apenas confie em mim.”
E ela confiou. Sempre confiava.
Mas algo dentro dela, um pequeno tremor que ela não conseguia explicar, a perturbava desde que tinham chegado. Não era um aviso. Nem um pressentimento ruim. Era mais como uma coceira leve sob a pele, uma inquietação que não tinha nada a ver com Lucius e tudo a ver com... outra coisa. Algo para o qual ela não encontrava palavras.
Talvez fosse porque ela se sentia bem demais ali. Viva demais. Parecia uma versão de si mesma que ela quase conseguia lembrar, mas não reconhecia.
Daisy colocou as pernas para fora da cama, deixando seus pés tocarem as tábuas de madeira fria. O bangalô balançava suavemente, suspenso sobre uma água tão clara que ela conseguia ver as sombras dos peixes passando preguiçosamente lá embaixo. Uma paz morna e sonolenta a envolveu.
Ela respirou fundo. Sal. Calor. Café. Café?
Um sorriso surgiu em seus lábios exatamente quando passos soaram no convés.
Lucius.
Ela soube um batimento cardíaco antes de vê-lo surgir, sua silhueta preenchendo a porta com o cabelo loiro bagunçado e duas xícaras nas mãos. Ele estava descalço, beijado pelo sol, sorrindo para ela como se ela fosse a única coisa pela qual ele ficara feliz em acordar.
Seu peito apertou com afeto, conforto, desejo... e algo agridoce que fez sua garganta arder.
Ela o amava. Com certeza.
Mas começava a entender que amar alguém e ficar com essa pessoa para sempre não eram a mesma coisa.
E ela não sabia por que seu coração parecia saber disso antes de sua mente.
Lucius entrou no quarto com aquele sorriso morno e sonolento, o tipo que sempre deixava o peito de Daisy apertado. A luz do sol deslizava por seus ombros, destacando as linhas finas nos cantos de seus olhos, as quais ele insistia serem “prematuras”, mas que ela secretamente adorava.
“Bom dia, encrenca”, ele disse suavemente, sua voz grave e familiar que sempre fazia o estômago dela revirar. Ele estendeu uma das xícaras. “Pensei que você ia querer isso antes de nos acabarmos com croissants.”
Daisy aceitou o café com um suspiro de gratidão, envolvendo-o com as duas mãos enquanto ele se inclinava para beijar sua têmpora. Os lábios dele permaneceram ali por mais tempo do que ela estava preparada, e o afeto gentil fez seu coração se contrair; uma dor quente se instalou sob suas costelas.
Cinco anos, e ele ainda a beijava como se ela fosse importante.
Ela olhou para ele, passando os dedos pelo maxilar dele. “Você é bom demais para mim.”
Ele soltou um riso curto. “Fala sério. Você me aguentou por meia década. Esta viagem mal arranha a superfície do que você merece.”
Ela riu, de forma leve e sincera. Ele sentou-se ao lado dela na cama, ombro a ombro, enquanto bebiam o café e observavam a manhã se estender sobre a água.
Eles não precisavam conversar. Raramente faziam isso em momentos assim. O silêncio deles sempre fora tranquilo. Ela nunca tinha tido isso com ninguém antes dele. Qualquer outra pessoa fazia o silêncio parecer algo que ela precisava preencher. Com Lucius, era simplesmente uma companhia agradável; a forma como o amor deveria ser sentido.
Ele tocou o joelho dela com o seu. “Último dia. Qual é o plano? Quer entrar na água de novo?”
“Você só quer me ver naquele biquíni”, ela acusou, sorrindo.
“É verdade”, ele admitiu sem vergonha. “Mas também quero ouvir você rir como fez ontem. Não a vejo tão despreocupada há muito tempo.”
O peito de Daisy apertou-se novamente com a mesma dor quente que a acompanhava a semana toda. Ela estendeu a mão e passou os dedos sobre os nós dos dedos dele. “Então vamos aproveitar ao máximo.”
E aproveitaram.
Passaram horas na água cristalina, flutuando, mergulhando e provocando um ao outro. Lucius não era um grande nadador, mas tentava por ela, rindo toda vez que ela escapava por pouco de seu alcance. A certa altura, ele a puxou pela cintura e a trouxe para perto, ambos sem fôlego e encharcados.
“Peguei você”, ele murmurou, com a testa encostada na dela.
“Você me deixou escapar duas vezes.”
“Você está escorregadia”, ele disse, beijando a bochecha dela. “Ou talvez eu esteja apenas lento esta manhã.”
Ela riu, com os dedos entrelaçados atrás do pescoço dele. “Lento? Você? Desde quando?”
O rubor suave em suas maçãs do rosto fez o coração dela disparar.
Era por isso que ela o amava. Não pelos momentos perfeitos. Não pelos grandes gestos. Mas pelos momentos tranquilos e calorosos que a faziam sentir que ela era alguém que valia a pena escolher.
Mais tarde, caminharam de mãos dadas pelo píer, parando a cada dez passos para apontar peixes, conchas ou o modo como a luz do sol brilhava sob as tábuas. Ele comprou uma flor de uma moradora local perto das docas, colocando as pétalas brancas atrás da orelha dela. Daisy praticamente derreteu.
“Linda”, disse ele, passando o polegar pelo maxilar dela.
“Você é suspeito para falar.”
“Com certeza.”
Almoçaram na praia, com os dedos dos pés enterrados na areia quente, dividindo pratos como sempre faziam, porque Daisy nunca conseguia decidir o que queria e Lucius sempre a deixava roubar da comida dele.
Ele a alimentou com um pedaço de manga. Ela deu a ele uma mordida de peixe grelhado. E em algum lugar entre as risadas, o sol e o afeto fácil, seu coração se apertou novamente.
Aquele homem a amava. E ela o amava.
Era isso que tornava a mudança silenciosa dentro dela tão confusa. Tão impossível de nomear.
Nada estava errado. Tudo estava bem. Mas algo nela sussurrava que não poderia mantê-lo para sempre.
Não porque ele não fosse o bastante. Ele era mais do que o bastante. Mas porque algo em seus ossos dizia que seu caminho se bifurcaria de uma maneira que ela ainda não conseguia ver.
Ela não entendia. Não queria isso e desejava poder silenciar esse pensamento.
Mas cada vez que ela olhava para Lucius, cada vez que ele sorria para ela daquele jeito suave, o sentimento a puxava novamente.
Quando o sol começou a se pôr, voltaram para o bangalô e lavaram o sal da pele, sem pressa. Lucius limpou a areia das pernas dela. Ela beijou as gotas de água da clavícula dele. Eles se moviam um ao redor do outro como pessoas que aprenderam a conhecer cada detalhe um do outro.
Aquela noite parecia diferente.
Não de um jeito ruim. Nada com Lucius parecia ruim. Mas havia uma suavidade nele que ela não conseguia ignorar. Havia reverência no modo como ele a olhava. Como se estivesse memorizando-a.
Daisy tentou não tirar conclusões precipitadas, tentou não deixar o peito apertar toda vez que o polegar dele tocava seus nós dos dedos ou quando ele colocava uma mecha de cabelo atrás de sua orelha. Ele beijou seu ombro enquanto ficavam no convés, observando o sol desaparecer abaixo do horizonte, com os braços dele envoltos, soltos, em sua cintura.