PRÓLOGO
Alessia 🌹
Oito Anos Atrás — Milão
Eu não sabia que uma vida poderia mudar em um único suspiro.
Que um sorriso pudesse se tornar a última coisa que você memoriza.
Milão, à noite, parece que está exalando.
As luzes douradas e suaves da rua se estendem como fitas líquidas pelos vidros escuros do nosso SUV, enquanto as torres do Duomo desaparecem atrás de nós, como renda contra a escuridão. A cidade pulsa — motores baixos, risadas distantes que vêm das trattorias, o perfume suave de café expresso e de pedra aquecida pela chuva entrando pela janela entreaberta.
Dentro do carro, cheira ao perfume da Mamma.
Flor de laranjeira. Baunilha quente. Segurança.
Ela senta ao meu lado, com as pernas cruzadas elegantemente e uma pasta de couro aberta no colo. Ela folheia as páginas com movimentos rápidos e precisos — propostas de caridade, aprovações de verbas, anotações feitas à mão nas margens. Mesmo quase às nove da noite, ela parece radiante. Blusa de seda creme. Brincos de pérola. A autoridade silenciosa de uma mulher que entra em uma sala e muda a atmosfera ao seu redor.
Aos dezessete anos, estou prestes a partir para Londres.
Universidade. Independência. Uma vida para além dos portões da Tenuta Moretti.
Aperto meu próprio caderno, fingindo revisar detalhes da orientação, mas, na verdade, estou observando-a.
Estudando-a.
Memorizando-a.
"Está animada, mia cara?", ela pergunta sem desviar o olhar, com a voz melódica e calorosa. O italiano envolve as palavras de um jeito diferente — contornos mais suaves, raízes mais profundas.
"Sim, Mamma." Bato a caneta na página, com o nervosismo pulsando sob minhas costelas. "Sinto-me adulta. Mas... o mundo é enorme."
Ela fecha a pasta lentamente, virando-se para mim por completo. Seus olhos castanho-âmbar — o mesmo tom dos meus — buscam meu rosto, como se ela estivesse catalogando-o para mais tarde.
"O mundo é grande", ela concorda. "Mas você também é."
Minha garganta aperta.
Cada segundo ao lado dela parece um passo em direção à mulher que quero me tornar. Elegante, decidida. Poderosa sem ser cruel.
Ela é a primeira mulher que me fez acreditar que havia espaço para alguém como eu — alguém doce e forte ao mesmo tempo.
O celular dela vibra.
Ela o ignora.
Eu não.
"Mamma?", dou um toque gentil nela. "Você devia verificar. E se for o Papà?"
Um pequeno sorriso surge em seus lábios. "Se for o seu Papà, ele vai perguntar a que horas chegaremos e lembrar o motorista de pegar o caminho mais seguro. Como se já não tivéssemos dois carros de segurança atrás de nós."
Dou um sorriso. "Ele é protetor demais."
"Ah, ele é", diz ela, despreocupada. "Mas você sabe, precisamos viver nossas vidas."
O celular vibra novamente.
Ela solta um suspiro dramático e olha para a tela.
Seu rosto inteiro se transforma.
O sorriso se suaviza. Fica íntimo. Radiante.
"Tudo bem", murmura ela. "Dois segundos."
Ela atende.
"Ciao, mi amore", ela diz, e sua voz baixa de um jeito que parece sagrado. "Sim, estamos voltando. Jantar tarde? Só nós dois?" Ela ri baixinho. "Perfetto."
Desvio o olhar, fingindo não testemunhar algo tão íntimo.
Vinte e oito anos.
Uma gravidez acidental aos vinte e dois. Um casamento apressado. Um império construído a partir da terra e da teimosia.
E, ainda assim, eles se falam desse jeito.
Como adolescentes que mal podem esperar para se ver.
Observá-los sempre deixou algo guardado em meu peito. Um anseio que nunca digo em voz alta.
Ela encerra a chamada, com as bochechas coradas.
"Vocês dois não existem", digo.
"Velhos apaixonados", ela brinca.
"Vocês não são velhos."
"Oh?", ela arqueia uma sobrancelha. "Diga isso ao seu Papà."
Nós rimos.
Tudo é fácil com ela. Sem esforço.
Voltamos a falar sobre Londres — sobre as aulas, as fundações que quero criar, os vinhedos que desejo modernizar um dia. Ideias que parecem grandes demais para serem ditas a qualquer outra pessoa.
Ela ouve como se fossem importantes.
Como se eu fosse importante.
Tenho um irmão mais velho, Cosimo. Nove anos mais velho. Recém-casado com sua paixão de infância, Vittoria. O casamento deles ainda permanece em minha memória como bolhas de champanhe — refinado, estratégico, perfeito.
Entre o amor duradouro dos meus pais e o casamento do meu irmão com sua alma gêmea, cresci acreditando que esse tipo de devoção era inevitável.
Merecida.
Destinada.
Mamma estende a mão para mim.
"Tenho orgulho de você a cada respiração", diz ela.
Minha respiração falha. "De mim?"
"Mia cara...", ela aperta meus dedos. "Você se tornou uma jovem extraordinária. Você está cheia de sonhos. Você quer conquistar o mundo."
Um riso tímido escapa de mim. "Isso é dramático."
"É preciso", ela rebate. "Se Cosimo é como seu Papà — disciplinado, imponente —, você é como eu."
Inclino a cabeça. "Isso é... infelizmente verdade."
O sorriso dela torna-se cúmplice.
"Você ainda não compreende o seu poder. Você permite que outros brilhem. Mas você brilha ao lado deles." Ela faz uma pausa, estudando-me de um jeito que parece quase profético. "E, deixando de lado uma carreira próspera, um dia alguém será muito sortudo por poder chamá-la de esposa."
Meu estômago dá um nó.
Não é empolgação.
É algo mais pesado.
"Mamma—"
"Oh, fique quieta." Ela retira um fiapo imaginário da minha manga. "Você é brilhante. Compassiva. Você realmente se importa com as pessoas. Isso é mais raro do que diamantes."
O telefone dela vibra novamente.
Papà.
Ela olha para a tela, sorrindo com uma ternura tão profunda que chega a doer assistir.
Eu absorvo isso.
Este casamento.
Esta família.
Este calor envolvendo-me como seda.
Ela inclina-se e coloca uma mecha solta de cabelo atrás da minha orelha.
Um gesto pequeno.
Um gesto comum.
Do tipo que você não percebe que se tornará sagrado.
Lá fora, Milão se dissolve — dourada, fluida, viva.
Por um batimento cardíaco suspenso, nada pareceu tão seguro.
Então—
Um clarão.
Branco e ofuscante.
O som vem a seguir.
Não é um estrondo.
É um rasgo violento — metal gritando como se a própria terra tivesse se aberto.
O SUV dá um tranco lateral.
O vidro explode para dentro como mil diamantes estilhaçando.
O mundo gira.
Meus ouvidos zumbem tão intensamente que não consigo ouvir o meu próprio grito.
"Giù! Abaixo!", grita um dos guarda-costas lá da frente.
O veículo bate de volta no asfalto. Meu ombro colide com a porta. O calor rasga a minha pele.
A mão da Mamma aperta a minha.
Não é medo.
É instinto.
Protegendo-me.
Outro disparo atinge a traseira do carro. O cheiro de borracha queimada e gasolina inunda a cabine. Fumaça. Pólvora. Sangue.
O tiroteio começa.
Rápido. Implacável.
O para-brisa estilhaça. Um dos guarda-costas projeta-se para a frente e desaba — o carmesim florescendo em seu colarinho.
"Mamma—!" Tento puxá-la para baixo comigo.
Os olhos dela encontram os meus.
Arregalados.
Intensos.
"Alessia—"
O corpo dela tem um sobressalto.
Uma vez.
Violento.
O som que escapa dela nem sequer é um grito.
É apenas um suspiro.
Então, os dedos dela soltam-se dos meus.
"Não."
A palavra arranca da minha garganta.
"Não, não, não—"
Outro corpo desaba ao nosso lado. Sangue espirra morno contra a minha bochecha. Minha visão fica turva, nadando em fumaça e luzes piscantes.
Eu tento alcançá-la.
Minha mão encontra seda encharcada de vermelho.
"Mamma!", grito, mas minha voz soa distante — como se eu estivesse debaixo d'água.
A cabeça dela inclina-se ligeiramente para mim.
Seus olhos ainda estão abertos.
Ainda atordoados.
Ainda incrédulos.
Como se nem ela conseguisse compreender que é assim que tudo termina.
Sirenes tocam ao longe.
Meu ombro queima. Meus ouvidos não param de zumbir. Meu coração bate contra as costelas como um pássaro preso.
Pressiono a minha mão contra o peito dela.
Nada.
O calor esvai-se sob a minha palma.
A cidade, que brilhava em dourado momentos atrás, agora parece negra e impiedosa.
A última coisa que vejo antes de tudo desaparecer é o rosto dela, iluminado pelas luzes azuis piscantes — linda, poderosa, perdida.
E eu percebo—
Em um único suspiro, tornei-me outra pessoa.
Eu não sabia disso na época.
Mas aquela noite não levou apenas a minha mãe.
Levou a doçura do meu pai.
Endureceu o meu irmão em algo inquebrável.
Transformou o amor em legado.
E me ensinou que a segurança é uma ilusão cuidadosamente arquitetada por homens poderosos.
Oito anos depois, ainda sinto a mão dela soltando-se da minha.
E ainda acordo tentando alcançá-la.
Uh-oh, I hate Mafia stories, I hope this doesn't turn into one.