O Refúgio na Floresta

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Resumo

Mara só queria uma pausa em sua vida, não uma perna quebrada e a dependência total de um homem que passou anos evitando pessoas. Rowan vive sozinho por um motivo e, pela primeira vez em muito tempo, esse motivo começa a parecer frágil. E a tempestade lá fora não ajuda, espelhando a tempestade dentro deles. Será que conseguirão sobreviver a ambas?

Status
Completo
Capítulos
45
Classificação
4.9 8 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

A floresta estava tão quieta e calma. Mara notou isso após umas duas horas de trilha, com a subida ficando íngreme. Não era um silêncio absoluto, pois florestas nunca são verdadeiramente silenciosas, mas era uma quietude que fazia cada som parecer amplificado e mais alto. Ela adorou ter escolhido aquela floresta para caminhar.

Mara gostava de fazer trilhas sozinha. Não porque ela não gostasse de pessoas, embora esse pudesse ser um motivo lá no fundo da sua mente, mas porque ela apreciava muito o silêncio que a mata trazia e a honestidade que vinha com ele. Quando ela caminhava pela floresta, não havia expectativas; ninguém precisava de explicações, ninguém fazia perguntas sobre para onde sua vida estava indo ou por que ela tinha feito certas escolhas.

A floresta simplesmente existia. E, se você caminhasse o suficiente, seus pensamentos eventualmente se acalmavam. Pelo menos, essa era a ideia.

Mara passou por cima de um galho caído e ajustou a alça da mochila. — Tudo bem — murmurou para si mesma. — Você veio aqui para espairecer. Então, talvez pare de repassar conversas de três semanas atrás.

A floresta não respondeu. Ela riu com o pensamento de que pudesse responder, ajustou a mochila novamente e continuou andando. A trilha era estreita e levemente úmida por causa da geada derretida. Pinheiros altos se estendiam lá no alto, suas agulhas filtrando a luz da tarde em sombras verdes e suaves.

Estava mais frio do que ela esperava. Já era quase fim de novembro e a geada caía há alguns dias, mas o ar ainda estava suportável. Ela tinha certeza de que o inverno estava claramente à espreita por perto. O aplicativo de clima no seu celular, naquela manhã, mostrava uma alta probabilidade de neve nas próximas horas. Ela já estaria na estrada voltando para casa até lá.

Suas botas estalavam levemente contra o chão da floresta. Um pássaro cantou em algum lugar acima. Mara inspirou profundamente. O cheiro era tão encantador: pinho, terra molhada, ar frio, tudo preenchendo seus pulmões ao mesmo tempo. Muito melhor do que o cheiro do corredor do seu prédio. Melhor do que o cheiro de estresse. Ela sorriu levemente.

— Viu? — ela disse a si mesma. — É por isso que fazemos trilha.

A trilha fazia uma curva ao longo de uma encosta que dava para um vale entre as montanhas. Ela parou por um momento para olhar lá embaixo as árvores que se estendiam infinitamente. Então, puxou o celular do bolso de trás da sua calça de trilha. Sem sinal nos últimos 10 minutos. Ela o guardou de volta.

Era exatamente o que ela queria: sem notificações, sem mensagens, sem ninguém dizendo que ela estava pensando demais em tudo.

Seu sorriso diminuiu um pouco. Ela chutou uma pequena pedra na trilha. Cinco anos. Cinco anos com alguém que acreditava que emoções eram problemas que precisavam ser consertados. Ela foi chamada tantas vezes de emotiva, intensa, exagerada... que começou a repetir isso em seus próprios pensamentos.

Mara balançou a cabeça. — Não — disse ela com firmeza. — Nós não vamos fazer isso hoje! — Ela contornou outra curva e parou para verificar o mapa no celular. Mesmo sem sinal, o mapa estava carregado, mas a trilha era simples o suficiente.

Mais uns vinte minutos e ela chegaria ao mirante. Valeria muito a pena. O vento mudou levemente entre as árvores. Um arrepio estranho percorreu a parte de trás do seu pescoço. Mara olhou em volta, mas nada parecia fora do lugar. Ela observou por alguns segundos a mais e então soltou o ar.

— Parabéns — murmurou. — Você acabou de se assustar sozinha. — Ela riu alto de si mesma e continuou subindo a trilha.

Muito mais adentro da mata, Rowan parou de se mover. Ele estava cortando lenha. O machado ficou suspenso no ar em sua mão quando algo o atingiu: dor. Tão aguda e tão repentina.

Seu peito apertou instantaneamente quando a sensação o invadiu. Um pico brilhante de agonia física, seguido por uma onda de choque. Rowan baixou o machado lentamente. Seria um animal ferido? Nenhuma caça de grande porte costumava ser vista por aquelas partes da floresta. Era por isso que ele gostava de estar ali. Ele fechou os olhos e se concentrou nas emoções que atacavam seu corpo: dor, choque, descrença. Animais não sentiam tal abundância de sentimentos; os deles eram simples e diretos. Ficou claro como o dia que era um humano.

Outra onda de emoções o atravessou: confusão, constrangimento, raiva. Suas sobrancelhas se franziram. A maioria dos humanos parecia tempestades caóticas para ele — muitas coisas ao mesmo tempo, colidindo. Mas aquilo vinha de forma clara, camadas distintas empilhadas umas sobre as outras. Que estranho.

Rowan virou a cabeça levemente em direção à encosta norte. Ele conseguia sentir a direção instintivamente. Outra pulsação o atingiu. Desta vez, a dor explodiu através dele tão bruscamente que ele inspirou pelos dentes. Aquilo era, definitivamente, pelo menos um osso quebrado pela intensidade.

Ele exalou ruidosamente e olhou para o céu. O ar frio trazia o cheiro de neve. Havia uma tempestade se formando e ele sabia bem o que aquilo significava para a pessoa perdida. Ele passou a mão pela barba rústica e se moveu para prender novamente seu cabelo preto na altura dos ombros. Pegou o casaco do longo prego onde estava pendurado na lateral do galpão, vestiu-o e preparou-se para o que viria a seguir.

Rowan se moveu pela floresta de forma rápida, porém silenciosa, com as botas mal fazendo barulho contra o chão. As emoções o guiavam à medida que ficavam mais fortes a cada passo. O medo brilhou brevemente, depois desapareceu.

Interessante. A maioria dos humanos feridos entrava em pânico. Este aqui… não. Em vez disso, havia irritação. Muita. E humor? Esse humano está achando graça em estar com dor? Quem porra ri enquanto quebra os ossos?