A Fé em Tempos de Fome

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Resumo

Annie O’Roarke perdeu tudo. Seu marido, sua casa e sua família. Estamos em 1847, na Irlanda. A Grande Fome da batata assolou a terra. O povo está faminto e desesperado por um alento. Conseguirá Annie encontrar o amor novamente? Será que a sua fé em Deus a sustentará?

Status
Completo
Capítulos
57
Classificação
4.9 9 avaliações
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

A chuva não parava há três dias.

Ela se agarrava à palha do telhado, escorria pelas paredes de pedra e se infiltrava até os ossos da cabana, como se tivesse vindo para ficar para sempre. Lá dentro, o ar estava denso, com cheiro de terra úmida, caldo ralo e algo mais que Annie O’Roarke não conseguia nomear.

Patrick estava morrendo.

Ele estava deitado na cama estreita perto da lareira, embora nenhum fogo ardesse ali desde que a turfa acabara dois dias antes. Sua respiração tornara-se curta; cada inspiração era um esforço silencioso, cada expiração, uma rendição. Annie sentava-se ao lado dele, com a mão envolta na sua, embora a mão de Patrick já tivesse perdido o calor há muito tempo.

"Annie...", ele murmurou.

"Estou aqui", ela respondeu rapidamente, inclinando-se mais para perto. "Estou bem aqui, Patrick."

Os olhos dele se abriram apenas pela metade, sem foco, mas em busca de algo. "Mam... onde está a Mam?"

No outro lado do cômodo, Kathleen O’Roarke enrijeceu, mas não se virou.

"Estou aqui", disse ela, embora sua voz fosse áspera, como se as próprias palavras a ofendessem. Ela estava diante da pequena mesa, raspando o fundo de uma panela enegrecida com força desnecessária. "Estive aqui o tempo todo."

Annie olhou para a sogra e depois de volta para Patrick. "Ela está aqui", sussurrou suavemente. "Descanse agora."

Mas Patrick parecia não ouvi-la. Seu olhar vagou novamente, para algum lugar além do teto baixo, além das paredes de pedra fria, além do alcance de qualquer coisa que Annie pudesse seguir.

"Eu pensei...", ele disse fracamente, "que haveria mais tempo."

A garganta de Annie apertou. Ela pressionou a mão dele contra sua bochecha. "Eu também."

Do outro lado do cômodo, Kathleen soltou um suspiro pesado e bateu a colher na mesa.

"Tempo?", ela disparou. "Que bem o tempo nos fez? Olhe ao seu redor." Ela então se virou, com os olhos brilhantes — não de lágrimas, mas de algo mais afiado. "A terra se foi. A comida se foi. E agora..." A voz dela falhou por um instante. "Agora isto."

Annie não disse nada. Não havia nada a dizer que não quebrasse algo ainda mais.

Patrick se mexeu novamente, mais fraco agora. "Mam... não fique zangada."

As palavras pareceram atingir Kathleen com mais força do que qualquer golpe. Sua boca se abriu e logo se fechou. Por um breve segundo, algo mais suave passou pelo seu rosto — mas desapareceu tão rápido quanto surgiu.

"Não estou zangada", disse ela, embora seu tom não tivesse suavizado. "Eu... eu só estou dizendo o que é."

Annie baixou a cabeça.

"O pão nosso de cada dia nos dai hoje..." ela sussurrou, quase sem pensar.

Kathleen soltou uma risada amarga. "Pão? Não sobrou nem uma migalha nesta casa, garota. É melhor pedir outra coisa."

Annie não respondeu. Sua voz continuou, baixa, mas firme.

"...e perdoai-nos as nossas dívidas..."

A respiração de Patrick falhou.

Annie levantou o olhar rapidamente. "Patrick?"

O aperto dele fortaleceu-se fracamente ao redor dos dedos dela, depois relaxou. O peito de Patrick subiu mais uma vez —

— e parou.

O silêncio que se seguiu não foi repentino. Ele surgiu lentamente, como névoa, preenchendo cada canto do quarto até não restar espaço para mais nada.

"Patrick?", Annie sussurrou novamente, embora já soubesse.

Ela inclinou-se para mais perto, procurando em seu rosto qualquer sinal — qualquer movimento — mas não havia nada. Apenas a imobilidade. Apenas a quietude.

Sua mão tremia contra a dele.

Do outro lado, Kathleen não se moveu.

Por um longo momento, ela apenas ficou ali, observando. Então, com uma inspiração profunda, ela se virou e começou a recolher a pouca louça da mesa, empilhando-as uma sobre a outra com uma precisão rígida.

"É isso, então", disse ela secamente.

Annie ergueu a cabeça, com os olhos arregalados. "Kathleen..."

"O que você quer que eu faça?", Kathleen respondeu bruscamente, embora ainda não olhasse para ela. "Gritar? Arrancar meus cabelos? Isso vai trazê-lo de volta?"

"Não...", a voz de Annie quebrou. "Mas ele era seu filho."

"E ele se foi", respondeu Kathleen, finalmente virando-se. Seu rosto estava pálido, a mandíbula travada. "E nós ainda estamos aqui."

As palavras pairaram entre elas, pesadas e inflexíveis.

Annie olhou de volta para Patrick — para a imobilidade que um dia fora riso, calor, vida — e algo dentro dela se despedaçou.

"Eu vou ficar com ele", disse ela baixinho.

Kathleen deu um aceno curto. "Faça isso."

Ela caminhou até a porta, puxando o xale firmemente ao redor dos ombros.

"Onde você vai?", perguntou Annie.

"Ver o Padre Donnelly", respondeu Kathleen. "Ele precisará vir."

A porta rangeu ao abrir, deixando entrar uma rajada de ar frio e úmido.

Ela pausou apenas por um momento antes de sair para a chuva.

"E Annie", acrescentou ela sem se virar, "não adianta desperdiçar o pouco que nos resta. Vamos enterrá-lo amanhã."

A porta se fechou atrás dela.

Annie estava sozinha.

Ela se virou novamente para Patrick, com a mão ainda repousando na dele, embora não restasse calor para segurar. A chuva batia suavemente contra o teto, constante e implacável.

Por um tempo, ela não disse nada.

Então, lentamente, ela baixou a cabeça.

"O Senhor é o meu pastor", sussurrou ela, com a voz trêmula, mas determinada. "Nada me faltará..."

As palavras pareciam frágeis em sua boca, como algo que poderia quebrar se fosse dito muito alto.

"Deitar-me faz em verdes pastos..."

Seus olhos se fecharam.

Lá fora, não havia pastos verdes — apenas a praga, a lama e a fome. Lá dentro, havia apenas a perda.

Ainda assim, ela continuou.

"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte..."

Seus dedos apertaram levemente a mão de Patrick.

"Não temerei mal algum."

A chuva caiu com mais força contra o telhado.

Annie respirou de forma lenta e instável.

"Porque Tu estás comigo."

E embora a cabana estivesse fria, o futuro incerto e a dor aguda o suficiente para roubar o ar de seus pulmões —

ela se apegou às palavras.

Porque eram tudo o que lhe restava.

E, talvez, tudo de que ela precisava.