Capítulo 1: O início do fim
Capítulo 1: O início do fim
Ato 1:o inicio do caos
Victor estava mexendo no celular. A noite tinha engolido a casa fazia horas. No andar de cima, Gustavo dormia.
Um barulho vindo de fora. Victor olhou pra janela. Não viu nada. Ignorou.
Foi tomar banho. Escovou os dentes. No caminho de volta, subindo a escada, um estrondo cortou o silêncio da casa. Cheiro de fumaça entrando pela fresta da janela. Victor foi ver.
Lá fora, carros de polícia cortavam a rua em disparada, sirenes engasgadas. Gente correndo sem direção. Fogo subindo entre as árvores da floresta ao fundo. E então ele viu aquilo.
Não era humano. Não completamente. A pele tinha uma cor errada, esverdeada, e o que devia ser carne parecia podre, aberta em lugares que não deviam abrir.
Victor não teve tempo de processar o que via. A janela explodiu em cacos e a coisa caiu em cima dele, o corpo gelado prensando o dele contra o chão. Ele se soltou como pôde, achou a torneira quebrada no chão da cozinha e esmagou a cabeça da criatura até ela parar de se mexer.
Correu pro quarto de Gustavo.
-Victor: Acorda. Agora.
Não esperou resposta. Pegou o filho ainda sonolento e desceu correndo, o menino apertado contra o peito, direto pro carro. Acelerou sem pensar duas vezes, subindo na calçada, ignorando o farol vermelho que não importava mais. Uma das coisas pulou na lateral do carro e ficou presa na janela, unhas arranhando o vidro.
-Gustavo: PAI!
Victor sacou a arma e atirou. O tiro acertou, mas o carro não. Sem os olhos na rua por aquele segundo, ele bateu de frente numa parede.
Levantou. Tirou Gustavo do banco, pegou ele no colo e correu. Do lado, alguém tropeçou e caiu, e não levantou mais. Victor não parou pra olhar. Corria com a arma numa mão e o filho na outra, atirando em qualquer coisa que se aproximasse demais.
A floresta apareceu na frente dele. No meio dela, um supermercado destruído, as portas arrombadas.
Ele entrou com Gustavo, sete anos, ainda agarrado ao pescoço dele. Trancou a entrada com as prateleiras, arrastou o filho até os fundos e colocou ele pra dormir num canto escondido. Ficou de guarda o resto da noite, os olhos fixos na porta.
Só quando teve certeza de que estava seguro, ele também dormiu.
Ato 2:Novas Pessoas
Na manhã seguinte, Victor acordou. Foi até a entrada do supermercado, arma em punho, e deu uma olhada pra fora. Não viu ninguém. Não ouviu nada.
No chão, achou uma mochila velha. Pegou. Encheu ela com o que sobrou nas prateleiras, comida enlatada, pacotes de salgadinho, o que desse pra carregar. Uma barra de ferro estava largada perto da entrada; guardou também.
Voltou pros fundos e acordou Gustavo.
-Victor: Gustavo, acorda. Temos que ir.
O menino se espreguiçou, ainda meio dormindo.
-Gustavo: Tá bom, pai.
Victor pegou a arma, ficou de frente pra porta enquanto o filho se aprontava atrás dele com a barra de ferro na mão.
-Victor: Toma cuidado. A gente não sabe como tá lá fora.
Eles caminharam pela floresta, o silêncio quebrado só pelo som dos próprios passos na terra molhada. Depois de um tempo, chegaram numa rua residencial. Vazia. Nenhum carro em movimento, nenhuma luz acesa nas casas. Só o vento arrastando um portão solto que batia de leve contra a moldura, lá longe.
Gustavo apertou a mão do pai.
-Gustavo: Tá quieto demais, pai.
Victor não respondeu. Ele também tinha notado. Continuou andando, a arma baixa mas pronta, os olhos varrendo cada janela quebrada, cada carro abandonado na rua. Passaram por uma casa com a porta aberta e nenhum sinal de vida lá dentro. Passaram por outra com sangue seco na calçada, mas sem corpo.
Nada se movia.
Quando chegaram na esquina, Victor parou. Fez sinal pra Gustavo ficar atrás dele. Espiou com cuidado antes de virar.
A rua do outro lado estava tomada. Dezenas daquelas coisas, amontoadas, algumas ainda se arrastando pra fora das casas vizinhas, atraídas por alguma coisa que Victor não conseguia identificar.
Ele recuou devagar, puxando Gustavo pelo braço.
-Victor: Volta. Agora.
Mas quando se viraram pra voltar pelo caminho de onde tinham vindo, outra horda já estava lá, saindo entre as árvores atrás deles.
Cercados.
Victor atirou até a arma travar vazia. Não tinha mais saída, até que uma voz cortou o desespero de cima.
-Homem desconhecido: Venham, rápido!
Uma corda caiu ao lado deles. Victor hesitou por um segundo, olhou pra horda se aproximando e decidiu. Ajudou Gustavo a subir primeiro, depois subiu atrás.
No telhado, ele encarou o homem que os salvou.
-Victor: Eu agradeço. Qual é seu nome?
-Daniel: Daniel Moraes. Vocês tavam numa baita enrascada, hein? Eu tenho um grupo maior por aqui perto. Se quiserem, são bem-vindos.
Ele sorriu ao falar.
-Daniel: E o seu?
-Victor: Victor Ferraz.
Daniel sorriu de novo.
-Daniel: E o pequeno?
-Victor: Gustavo Ferraz.
-Victor: Seu grupo, são pessoas confiáveis?
-Daniel: Até agora ninguém se matou.
Ele riu ao dizer isso.
-Victor: É muito longe daqui?
-Daniel: Uma parte do grupo tá nesse prédio. O resto fica a uns dois quilômetros ao norte.
-Victor: Vocês têm transporte ou foram a pé?
-Daniel: Temos um caminhão e um carro. Mas chega de papo, vamo lá embaixo.
Victor seguiu Daniel escada abaixo, Gustavo logo atrás.
Lá embaixo, mais três pessoas esperavam.
-Victor: Então... qual o nome de vocês?
Depois de um silêncio, um rapaz de cabelo puxado pro lado falou.
-Lucas: Meu nome é Lucas.
Ao lado dele, um homem grande e musculoso encarou Victor sem gentileza.
-Bruno: Não te interessa.
-Daniel: Esse é o Bruno. Ele é meio assim mesmo, depois você se acostuma.
-Renan: Sou Renan.
-Bruno: E o seu, novato?
-Victor: É Victor. Victor Ferraz.
Silêncio. Victor olhou pra todos, e foi Bruno quem quebrou o silêncio de novo.
-Bruno: Vocês tão ouvindo isso?
Todos pararam. Segundos depois, um bando daquelas coisas começou a bater na porta, socando o vidro.
-Gustavo: Pai...
Victor segurou a mão do filho com força.
-Daniel: Puta merda!
-Renan: Vamo pro caminhão! Bruno e eu vamos na frente, Victor e Gustavo ficam na caçamba, Daniel vai no carro com o Lucas!
Todo mundo correu pegando o que dava. As coisas quebraram as janelas e invadiram o prédio atrás deles. No meio da correria, Gustavo escorregou e caiu.
-Gustavo: PAI!
Victor puxou o filho no último segundo e, sem tempo pra pensar, atirou na cabeça da criatura mais perto. Os dois conseguiram chegar ao caminhão.
-Victor: Qual é o nome dessas merdas?
-Renan: Eu não sei. Só sei que correm.
-Victor: Corredores, então. Quantas pessoas tem no grupo de vocês?
-Bruno: Onze, sem contar a gente. Quinze com a gente.
Silêncio.
-Renan: Bruno... você não contou o Victor nem o filho dele.
-Bruno: Exato.
Ato 3:sejam bem-vindos
Depois de uma longa estrada, o grupo chegou ao acampamento no meio da tarde. Quando Victor e Gustavo desceram do caminhão, uma senhora se aproximou.
-Marta: Oi, eu me chamo Marta Pires. Sou ex-professora. E qual é o nome de vocês?
Victor hesitou um segundo antes de responder.
-Victor: É Victor. Victor Ferraz. E esse é meu filho, Gustavo Ferraz.
Marta sorriu.
Victor se acomodou numa barraca. À noite, com Gustavo já dormindo, ele saiu e foi se sentar ao lado dos outros, perto da fogueira.
-Victor: Eu ainda não conheci vocês direito. Qual é o nome de cada um?
-Eduardo: Eduardo.
-Cláudio: O meu é Cláudio.
-Tânia: Eu sou Tânia.
-Rogério: Rogério Bastos. Sou o mecânico daqui.
Felipe está isolado no canto e não fala nada.
-Sandra: Eu sou Sandra, a enfermeira daqui.
Ela deu um sorriso.
-Igor: Igor Valente. Mas vocês vão me conhecer como camisa 10 do Remo.
Igor sorriu, confiante e cheio de ego.
-Paulo: Meu nome é Paulo, mas pode me chamar de Sérgio se quiser.
-Letícia: Meu... meu nome é Letícia Rocha.
Ela falou com medo e timidez.
-Henrique: Henrique Motta. Prazer.
-Victor: Bom, eu agradeço que vocês nos ajudaram.
-Bruno: Não se acostuma muito, cowboy.
Victor encarou Bruno.
Daniel pegou um violão.
-Paulo: Canta, Daniel. Tu sabe muito bem tocar esse bagulho.
-Letícia: Toca...
Daniel sorriu e começou a tocar. Todos ficaram em silêncio.
A voz dele saiu baixa no começo, rouca, quase um sussurro que ganhava corpo devagar. Falava de um lugar que não existia mais, de coisas que ficaram pra trás no meio do caminho e nunca mais foram recuperadas. A melodia era simples, quase triste demais pra ser bonita, mas ninguém conseguia desviar a atenção dela.
A cena cortava entre os rostos ao redor da fogueira enquanto ele cantava. Bruno, os olhos fixos no fogo. Paulo, balançando a cabeça devagar. Gustavo, dormindo na barraca, longe do som mas ainda dentro daquele momento. Victor, o primeiro sorriso genuíno dele desde que tudo começou.
A letra falava de um homem que carregava o próprio nome como peso, que via tudo que amava ir embora e não sabia mais separar o que doía de verdade do que só parecia doer. Falava de recomeçar, de voltar no tempo, de encontrar um caminho diferente se pudesse.
Quando Daniel terminou, ninguém aplaudiu. O silêncio que ficou era mais sincero do que qualquer aplauso teria sido.
A câmera, se pudesse existir ali, teria subido até o céu enquanto a última nota morria no ar.
Agora era noite. Todo mundo dormia, menos Henrique, que estava acordado, fumando um cigarro. Ele ouviu gemidos vindos do escuro.
-Henrique: Tá transando no escurinho, Igor?
Ele riu ao falar.
Ninguém respondeu. Henrique se assustou um pouco e chegou mais perto.
-Henrique: Tá pra fazer menos barulho, Sandra? Ninguém quer ouvir vocês transando.
Depois de alguns segundos, um corredor pulou em cima de Henrique e o matou brutalmente, arrancando o estômago dele. Henrique gritou de dor. Victor levantou rápido e falou pra Gustavo, que tinha acordado assustado.
-Victor: Fica aí.
Todos acordaram.
Victor pegou uma arma e matou o corredor ainda em cima de Henrique. Tânia chorou. Henrique era seu amigo. Bom... provavelmente o único que ela tinha.
Ato 4:hora da mudança
-Daniel: As hordas ouviram esse tiro?
-Bruno: Porra, Victor.
-Victor: Tá bom. Peguem suas coisas, acordem as crianças e vão pro caminhão. Lucas, Felipe e Daniel dirigem, Tânia vai no carro. O resto na caçamba.
Todos entenderam.
Marta acordou as crianças, e logo estavam todos prontos. Antes de ir, Daniel falou.
-Daniel: Tem uma loja de materiais a uns três quilômetros daqui.
-Victor: Perfeito. Vai na frente com o carro e mostra o caminho, a gente fica logo atrás.
Daniel acelerou e foi na frente. Felipe olhou pra trás.
-Felipe: Já tem corredores aqui. Pisa fundo.
Os corredores perseguiram o caminhão, mas não conseguiram acompanhar o ritmo.
Depois de uma longa estrada, todo mundo chegou pouco antes de amanhecer.
Entraram na loja de materiais.
-Victor: Tranquem as portas e barriquem as janelas. Nenhum corredor entra aqui.
Todos começaram a trabalhar, arrastando móveis e prateleiras contra as entradas.
Quando terminaram, Paulo falou.
-Paulo: Acho que eles não vão conseguir chegar até aqui. Dá pra descansar um pouco.
-Victor: Você tem razão. Descansem. Eu fico de vigia.
Todos foram dormir. No meio da noite, Felipe acordou e sentou ao lado de Victor.
Silêncio longo.
-Felipe: Sabe, eu respeito suas decisões.
Ele soltou uma risada baixa.
-Felipe: Você tá sendo melhor líder do que o Cláudio já foi.
-Victor: Eu agradeço. Me desculpa por não conseguir salvar o Henrique.
-Felipe: Não tinha nada que a gente pudesse fazer. Ele só tava lá, como sempre, fumando o cigarro dele, pensando no acampamento, tentando manter a gente seguro, caralho.
Depois de um silêncio, Felipe se levantou e foi deitar. Victor, sem ver nada de suspeito no horizonte, também foi dormir.
Na manhã seguinte, Victor viu Gustavo ainda dormindo, mas não o acordou. Saiu da barraca em silêncio e percebeu que os outros já estavam de pé.
-Victor: Bom, eu sei que não tenho muita autoridade aqui, mas eu olhei os suprimentos. Não vão durar mais que dois dias. Precisamos ir buscar mais. O grupo vai ser eu, Daniel, Felipe e Paulo. O resto fica pra ajudar a manter a segurança daqui. Bruno fica no comando.
O grupo se preparou e foi até o carro. Felipe entrou pela janela. Antes de sair, Victor foi falar com Tânia.
-Victor: Você pode cuidar do Gustavo enquanto eu tô fora?
-Tânia: Claro.
-Victor: Ótimo.
Victor sorriu e entrou no carro. Daniel dirigiu até o supermercado mais próximo. Depois de quinze minutos, chegaram. Todos desceram.
Victor olhou pra placa do mercado.
-Victor: Supercrisan. É bem grande, deve ter sobrado algo. Paulo e Daniel olham o mercado. Felipe olha a farmácia. Eu vou até o armazém pegar umas coisas.
-Paulo: Que tipo de coisas?
-Victor: Coisas úteis.
Victor foi até os fundos do mercado. Lá, encontrou um sedã velho, azul, a pintura descascada, os vidros quebrados. Se abaixou, olhou embaixo do carro. Nada. Abriu o porta-malas com dificuldade, a dobradiça emperrada. Dentro, um macaco hidráulico velho, um triângulo enferrujado, algumas ferramentas soltas.
Pegou o macaco, ainda com dificuldade, e levou até a lateral do carro. Encaixou na carroceria e começou a girar a manivela. O metal rangeu alto, um som que não devia estar fazendo aquele barulho ali. A roda subiu devagar, revelando a parte de baixo do veículo.
Era o que ele queria: uma mola de suspensão de alta tensão.
Pegou uma barra de ferro e tentou soltar a mola. Depois de alguns segundos de esforço, ela cedeu.
Victor pegou a peça, pensou por um momento no que fazer com ela, guardou na mochila e foi olhar o armazém. Não encontrou muita coisa, mas pegou o que dava. Depois, todos se reuniram de volta no carro.
-Felipe: Vamos?
-Victor: Boa. Já pegaram tudo?
-Paulo: Sim.
-Daniel: Sim.
-Victor: Então vamos.
Voltaram pra loja de materiais, arrumaram o que trouxeram, e todo mundo comeu um pouco dos enlatados.
-Gustavo: Foi tudo certo lá, pai?
-Victor: Sim, filho.
-Marta: A comida tá ótima, pessoal.
-Igor: Verdade.
Victor e Daniel trocaram um sorriso.
Algumas horas depois, com todo mundo já alimentado, Victor ficou sozinho, parado na frente de uma mesa. Colocou a pistola em cima dela, pegou a mola de suspensão e começou a trabalhar numa melhoria pra arma.
Mais tarde, Igor e Bruno estavam juntos, encostados perto do portão.
-Igor: Tá quieto demais.
Bruno deu um meio sorriso provocador.
-Bruno: Tá com medo até do silêncio?
Pra provar que tinha coragem, Igor pegou uma barra de ferro e bateu no portão meio aberto.
CLANG.
Ele riu e bateu de novo, mais forte.
CLANG.
Do outro lado do portão, alguma coisa respondeu. Não com fala. Com um gemido arrastado e rápido.
O sorriso de Bruno desapareceu.
-Bruno: Para com essa porra.
Tarde demais.
Três corredores começaram a sair por baixo do portão entreaberto. Bruno chutou a cabeça do primeiro, mas não adiantou muito. Igor pegou um caco de vidro grande e conseguiu matar um deles, mas os outros dois passaram e foram na direção de Bruno.
Felipe apareceu correndo e matou um com uma flechada na cabeça. Bruno, sem alternativa, deu um tiro no último, o som ecoando pela loja, pelas estradas, pela cidade inteira.
A cena cortou pra uma horda de corredores virando a cabeça na direção do barulho, e começando a correr pra lá.
De volta à loja, Victor deu uma bronca em Igor.
-Victor: Porra, Igor. Não tinha necessidade daquela merda de barulho.
-Daniel: Gente...
Silêncio pesado.
Um corredor bateu na janela. Depois outro. Depois um grupo inteiro socando o vidro ao mesmo tempo.
-Victor: TODO MUNDO DE PÉ! AGORA!
-Marta: Vem, Gustavo.
Gustavo foi com Marta até o caminhão.
-Lucas: Eles sentem. Eles sempre sentem.
-Victor: Porta dos fundos! VAI, PORTA DOS FUNDOS!
Todos correram. Eduardo travou ao ver os corredores se aproximando, os olhos fixos num ponto que não existia mais ali, alucinando com o corpo do Henrique morto no chão. Victor gritou o nome dele, mas Eduardo não se mexeu. Felipe tentou ir ajudar, mas os corredores já estavam quebrando as janelas. Victor puxou Felipe pra dentro à força e fechou a porta, trancando.
A porta tinha uma janelinha. Victor não olhou. Felipe olhou, e viu o corpo de Eduardo sendo despedaçado do lado de fora.
-Victor: Vamos. Não temos muito tempo.
Todos correram até o caminhão, alguns pro carro. Os corredores arrombaram a porta atrás deles e invadiram a estrada.
-Victor: VAI!
Paulo acelerou o caminhão. Gustavo ficou olhando pra trás, o rosto colado no vidro traseiro, tentando acreditar que ainda existia um futuro do outro lado daquilo.
Tela preta.
Ato 5: Uma Semana
Uma semana depois, Victor já tinha tomado a liderança oficialmente. Gustavo tinha crescido um pouco, só um pouco mesmo. Tirando isso, nada mudou. Ninguém tinha morrido. Tudo, dentro do possível, seguia normal.
O grupo entrou numa casa, armas apontadas, varrendo cada cômodo. Vazia. Sentaram pra comer um pouco.
-Bruno: Tá uma merda viver assim, Victor. A gente precisa descansar de verdade.
-Victor: Não dá. Eles podem aparecer a qualquer hora. Só paramos quando acharmos um lugar seguro de verdade.
-Gustavo: Eu já tô cansado, pai.
-Victor: A gente aguenta mais um pouco, filho.
Victor olhou pela janela e viu um papel pregado numa árvore do lado de fora.
-Victor: Fiquem aqui. Já volto.
Ele saiu da casa pra ler o que estava escrito.
O papel trazia duas frases em destaque, "Exército brasileiro" e, logo abaixo, "Aqueles que chegam sobrevivem". Um texto menor completava, prometendo que ainda existia um lugar organizado, um resto de exército tentando reconstruir alguma coisa, um convite pra quem quisesse se juntar a eles.
Victor leu duas vezes, surpreso.
-Victor: Exército brasileiro?
Reparou numa seta desenhada ao lado do texto, apontando pro norte.
Voltou pra dentro e mostrou o papel pro grupo.
-Bruno: "Aqueles que chegam sobrevivem"? Que mentira do caralho.
-Renan: Vale a pena tentar.
-Victor: Eu não confio muito, mas é a nossa única chance. A gente já tá indo de um lugar pro outro há uma semana. Arrumem as coisas. Vamos partir.
Victor saiu da sala, foi olhar o horizonte lá fora. Felipe se aproximou.
-Felipe: Você tem certeza disso? Nesse mundo a gente não pode confiar em qualquer papel pregado numa árvore.
Victor respondeu sem olhar pra ele
.
-Victor: É uma tentativa. Nossa única tentativa.
-Felipe: Hum.
Ele se afastou.
Na estrada, todos caminhavam em direção à base militar ao norte. Lucas se aproximou de Daniel.
-Lucas: Daniel... como você consegue ser tão confiante?
-Daniel: Eu não sou. Só acho melhor acreditar que vai dar certo do que ficar pensando que vou ser massacrado por mortos-vivos.
Lucas ficou surpreso, mas não falou mais nada.
Depois de horas de caminhada, o grupo percebeu que a noite estava chegando.
-Victor: Já vai anoitecer. Vamos acampar aqui. De manhã a gente retoma a caminhada.
Ato 6: Exército Brasileiro
Alguns começaram a montar as barracas. Felipe se sentou um pouco afastado, afiando a faca em silêncio. Tânia olhou pra ele de longe, mas não disse nada, só deixou pra lá.
Depois que todos comeram o que sobrou da comida, o dia terminou. Na manhã seguinte, Victor acordou o grupo.
-Victor: Acordem. Precisamos ir. Agora.
Todos se levantaram, ainda cansados, mas se levantaram.
-Igor: Ainda tá muito longe daqui, cowboy?
-Victor: Eu não sei ao certo. Só sabemos que é pro norte. Mas levando em conta o que já caminhamos, não deve estar muito longe.
-Felipe: Tem razão.
Retomaram a marcha rumo ao norte. Depois de alguns minutos, finalmente avistaram a base militar do Exército brasileiro, uma muralha grande, reforçada, com um portão de ferro e aço que parecia realmente seguro. Um guarda apareceu no alto da muralha, arma em punho.
-Guarda: Nome completo e motivo pelo qual estão aqui.
-Victor: Estamos
O guarda cortou seco.
-Guarda: Nome completo.
-Victor: Victor Ferraz.
-Guarda: Motivo?
-Victor: Estamos sem lugar pra ficar há semanas. Se vocês tiverem suprimentos e segurança, a gente pode ajudar trabalhando ou saindo em patrulha.
-Guarda: Esperem aqui.
O guarda desceu e sumiu de vista.
-Felipe: Você confia nele?
-Victor: Não.
Minutos se passaram. O portão se abriu. De dentro saiu um homem com uma arma apoiada no ombro, cercado por vários soldados. Ele olhou pra todo o grupo, devagar, até o olhar parar em Gustavo. Um sorriso torto se formou no rosto dele.
-Homem: Caralho... olha só. Família. Atleta. Gente cansada.
Ele fez uma pausa, os olhos ainda em Gustavo.
-Homem: Ou vocês são muito sortudos, ou muito burros.
Os soldados ergueram as armas.
-Victor: Meu nome é Victor Ferraz. E com quem eu tô falando?
O homem se inclinou levemente, interessado.
-Logan: Logan Pierce. Memoriza. Quem esquece meu nome aqui costuma morrer rápido.
Lucas engoliu em seco.
-Victor: A gente tá procurando um lugar seguro. Podemos trabalhar, fazer patrulha, o que for.
-Logan: Trabalhador aqui a gente tem de sobra.
-Igor: E quem é você? O chefe?
-Logan: Não.
Ele deu um sorriso ameaçador.
-Logan: Eu sou o cara que mata idiota que nem você.
Igor se assustou. Logan deu dois passos à frente.
-Logan: Aqui a gente tem regras. Desobedeceu? Morreu. Rebelião? Morreu. Mentiu?
Ele sorriu torto, os olhos fixos em Victor.
-Logan: Morre mais devagar.
Silêncio.
Gustavo apertou a mão do pai.
-Gustavo: Pai...
Logan encarou o menino e se abaixou, ficando na altura dele.
-Logan: Quantos anos?
-Victor: Não fala com el
Logan cortou seco.
-Logan: Cala a boca. Perguntei quantos anos.
-Gustavo: Sete.
-Logan: Sete anos e já sabe que não pode abaixar a arma.
Ele se endireitou, voltando a ficar de pé.
-Logan: Esse mundo tá indo rápido demais.
Encarou Victor e fez um sinal com a mão. Os soldados baixaram as armas.
-Logan: Vocês entram. Mas não se acostumem muito.
Ele sussurrou, quase só pra si mesmo.
-Logan: Se sobreviverem.
Os soldados abaixaram as armas de vez. Logan entrou com dois deles como escolta, enquanto os outros cercavam o grupo pra guiá-los pra dentro.
-Felipe: Esse cara não é normal.
-Victor: Ninguém mais é.
Eles entraram. O lugar era seguro, sem corredores, sem mortos, nem sinal de sangue no chão. Mas uma coisa chamou a atenção de Victor.
-Victor: Por que tá todo mundo em fila?
-Igor: Ah, é base militar. Deve ser marcha.
-Victor: Mas por que eles têm marcas?
-Igor: Para de tentar achar defeito em tudo. Esse lugar é o melhor que a gente já conseguiu nesse apocalipse inteiro.
Victor desconfiou, mas deixou passar.
-Soldado: Vocês ficam sob vigilância até falarem com o coronel.
-Felipe: E onde é que tá esse coronel?
-Soldado: Ele saiu numa missão. Volta amanhã, ao amanhecer.
-Felipe: Que merda.
Depois de olharem o resto do lugar, um soldado os guiou até uma cabana vazia.
-Soldado: Podem ficar aqui por enquanto. Ao amanhecer, o coronel quer ver você, Victor.
O grupo se acomodou. À noite, Lucas foi falar com Victor.
-Lucas: Victor... eu achei meio estranho esse lugar.
-Victor: É o melhor que a gente tem.
Todos foram dormir.
Ato 7:Augusto Tequa
No dia seguinte, Felipe acordou Victor.
-Felipe: Victor, acorda. Você tem que ver isso.
Victor se levantou e, junto com Felipe, foi olhar pela janela. Lá fora, Logan estava de pé, arma apoiada no ombro, um homem ajoelhado na frente dele.
Logan deu um sorriso torto.
-Logan: Achou mesmo que ia conseguir fugir daqui?
Ele deu um soco na cara do fugitivo.
-Logan: Fala!
Abriu um sorriso ainda maior, ameaçador, e bateu de novo. E de novo. E de novo.
-Fugitivo: P-por f-favor...
Logan só parou quando um homem de aparência sessentona saiu da base principal.
-Coronel: Já chega, Logan. O que nossos convidados vão pensar de nós?
Logan encarou o coronel por dois segundos, sério, depois abriu um sorriso intimidador e olhou de volta pro fugitivo.
-Logan: Some da minha frente, seu monte de merda.
O fugitivo saiu correndo, escorregando, quase caindo. Logan se virou de novo pro coronel.
-Coronel: Falando nisso, onde estão nossos convidados?
-Logan: Sei lá. Mandei um figurante fazer esse trabalho.
-Coronel: Figurante? São soldados, Logan. Tenha respeito.
-Logan: Tô pouco me fudendo pra esse respeito.
O coronel o encarou.
-Coronel: Tenente!
O tenente Tuco se aproximou, batendo continência.
-Tuco: Precisa de algo, senhor?
-Coronel: Acho que o Logan precisa se consertar de novo.
-Tuco: Senhor, sim, senhor.
Tuco fez sinal com a mão. Dois soldados foram atrás de Logan, mais dois seguiram um pouco atrás dos outros. Logan encarou o coronel antes de entrar numa base militar menor que a principal.
-Coronel: Agora, cadê nossos convidados, Tenente?
-Tuco: Estão ali, senhor.
Ele apontou pra trás do coronel.
Victor encarou o homem.
-Victor: Qual é seu nome, coronel?
-Coronel: Coronel Augusto Tequa. Prazer conhecê-lo, Victor.
-Victor: Então já sabe nossos nomes.
-Coronel: Eu sei muita coisa, filho.
-Victor: Sabe se podemos ficar?
-Coronel: Isso é óbvio. Mas tem seu preço. Se quiser negociar, eu estarei no meu escritório. Agora voltem a marchar e cumprir suas obrigações, soldados!
Depois de alguns minutos no escritório, Victor voltou e reuniu o grupo.
-Victor: Consegui um acordo. A gente fica, mas vamos ter tarefas aqui. Uma parte vai fazer missões externas, buscar armas, suprimentos e outras coisas. A outra parte fica cuidando de tarefas internas, rondas, patrulhas perto da base. Quem não quiser se envolver com arma faz serviço mais simples, limpeza, cozinha. Já defini o grupo de missões externas: Felipe, Daniel, Igor e Bruno. O grupo interno é Renan, na ronda. Paulo, motorista do caminhão de suprimentos. Rogério, mecânico daqui mesmo. O coronel disse que podem sair na hora que quiserem, principalmente o grupo externo, só precisam registrar antes de ir. Nunca sozinho. Sempre em grupo, e só nas missões que forem designadas. Por hoje é isso.
Assim que Victor terminou, um tenente apareceu.
-Tenente: Precisamos do grupo de suprimentos. Vão até o shopping Villagio e limpem tanto o shopping quanto as proximidades. Cuidado, tá lotado de corredores. Liberados.
Felipe pegou o casaco e a besta. Bruno checou se a arma tinha munição e já foi em direção a um dos carros militares. Daniel tirou uma pistola da mochila e colocou no coldre. Igor se aproximou.
-Igor: Passa uma aí, Daniel.
Daniel entregou uma pistola. Igor olhou o carregador, guardou no coldre.
-Igor: Uma doze também servia.
-Daniel: Não tenho comigo. Depois da missão, fala com algum tenente pra ver se consegue arma do arsenal. Vamo logo pra missão.
Todos entraram no carro militar, Bruno dirigindo. No caminho, Igor avistou um corredor. Deu um sorriso confiante, ergueu a arma e atirou na perna dele. O corredor continuou se mexendo, andando como uma pessoa normal, mas sem conseguir correr mais.
Igor guardou a arma. Daniel encarou ele.
-Daniel: Pra que desperdiçar uma bala assim?
-Igor: Pra minha diversão.
Daniel virou o rosto, visivelmente irritado com o desperdício, mas preferiu não abrir discussão.
Quando chegaram ao shopping Villagio, Felipe falou baixo.
-Felipe: Eu vou com Bruno pela esquerda. Vocês vão por cima. Cuidado.
Se separaram em duas duplas. Felipe entrou com Bruno, a besta apontada pra porta enquanto Bruno abria devagar com uma barra de ferro na mão. Vazio. Entraram, andando em silêncio entre as prateleiras. Bruno recolhia suprimentos enquanto Felipe cobria a retaguarda.
Um corredor apareceu, andando de um jeito estranho. Felipe atirou com a besta, rápido e silencioso, foi recuperar a flecha. Bruno continuou pegando o que dava.
Do outro lado, Daniel e Igor. Daniel deu um apoio com as mãos pra Igor alcançar uma abertura no segundo andar. Depois que Igor subiu, ele estendeu a mão pra puxar Daniel. Assim que Daniel chegou lá em cima, ouviram gemidos. Daniel já sacou a arma, mas percebeu que Igor nem tinha recarregado.
-Daniel: Não vai recarregar?
-Igor: Não preciso recarregar pra matar essas porras.
Daniel entrou devagar, Igor logo atrás, arma despreparada. Chegaram numa porta.
-Daniel: Fica do lado e abre rápido, mas em silêncio.
Igor obedeceu, mesmo hesitando um pouco. Quando a porta abriu, Daniel apontou a arma, mas não tinha nada ali além de um corredor sem metade do corpo, ainda vivo no chão. Igor estava recolhendo suprimentos quando viu a criatura, pegou a arma e se aproximou. Daniel já estava puxando a faca pra matar em silêncio, mas Igor atirou primeiro.
-Daniel: Por que você fez isso? Agora eles vão vir pra cá.
-Igor: Se acalma. Essas coisas são fáceis de matar.
-Daniel: Se você acha fácil, é porque realmente não entende. Vamo, rápido, sair daqui.
-Igor: E se eu não quiser?
-Daniel: Vamo, Igor. Não tem tempo pra discussão idiota.
-Igor: Se acalma. Tô ouvindo só dois gemidos, vai ser fác-
Antes de terminar a frase, um corredor apareceu vindo da escada e pulou em cima de Igor. Daniel ficou paralisado por um segundo, mas assim que ouviu o som de mais corredores correndo, começou a correr sem pensar duas vezes.
Ato 8: Villagio
Felipe e Bruno ouviram o disparo. Felipe encarou Bruno.
-Felipe: Deu merda.
Bruno pegou tudo que conseguiu carregar e começou a correr com Felipe. Quando estavam quase saindo pela porta, um grupo de corredores apareceu na frente. Um deles pulou em cima de Felipe. Bruno atirou, acertando a criatura, e estendeu a mão pra ajudar Felipe a levantar.
Felipe correu pra um corredor à esquerda. Bruno se trancou numa sala que achou no caminho. Felipe podia ter fugido, mas decidiu voltar. Pegou um molotov, acendeu e jogou nos corredores mais próximos, queimando alguns deles.
-Felipe: VEM!
Bruno correu na direção dele, mas outro grupo de corredores surgiu do outro lado. Os dois continuaram correndo pelo corredor, Bruno ainda atirando, até a arma travar vazia.
-Bruno: Merda!
Ele sentiu o medo subir, mas não disse nada. Os dois se trancaram numa sala que dava acesso a uma escada pro segundo andar. Já podiam ouvir mais corredores se aproximando, e os de baixo começando a quebrar a porta. Sem tempo pra pensar, correram e pularam pela janela.
Na queda, Felipe cortou o braço, e uma barra de ferro perfurou de leve a perna dele. Bruno o ajudou a se levantar e o arrastou até o carro. Os corredores, atraídos pelo barulho, começaram a correr na direção deles.
Quando chegaram perto do veículo, ouviram uma voz.
-Daniel: ESPEREM!
Bruno já tinha ligado o motor. Acelerou na direção de Daniel, estendeu a mão pela janela. Daniel conseguiu subir no carro em movimento, e Bruno pisou fundo.
-Bruno: Cadê o Igor?
-Daniel: Ele... ele ficou.
-Felipe: Merda. Deixamos uma mochila, perdemos balas, e ainda perdemos mais uma pessoa. Que merda, que merda, QUE MERDA!
Na terceira vez, Felipe socou o porta-luvas do carro.
-Bruno: Calma, Felipe. Pelo menos a gente conseguiu sair daquela porra.
-Felipe: Eles ainda tão nos seguindo?
Daniel olhou pra trás. A horda ainda vinha atrás do carro.
-Daniel: Sim.
-Felipe: Pega uma bomba e um molotov, se tiver. Mata esses arrombados.
Daniel pegou os dois e jogou na horda, matando boa parte dela.
Ato 9:mais um dia
Bruno dirige até a base militar, buzinando forte para abrirem o portão. O portão se abre, Bruno acelera e só freia ao entrar. Logo em seguida, o portão se fecha. Bruno desce rápido com Daniel e os dois ajudam a levar Felipe até um médico. Bruno fala com um soldado.
-Bruno: Tem um médico aqui?
-Soldado: Base militar 2, Bloco A, sala 20.
Bruno vai com Daniel e levam Felipe até lá. Daniel e Bruno colocam Felipe na cama e Felipe fala:
-Felipe: É só um corte.
-Bruno: Um ferro atravessou a porra da sua perna.
O médico chega e começa a fazer uns curativos, dando uns remédios para Felipe tomar.
-Grawe: Ele vai ficar bem. Meu nome é Grawe Oliveira.
-Daniel: Prazer, eu sou Daniel.
-Grawe: Prazer.
Depois, Daniel e Bruno chegam perto da cabana, e Marta pergunta:
-Marta: Cadê o Felipe?
-Bruno: Tá se recuperando.
Gustavo se aproxima.
-Gustavo: E o Igor?
Ninguém responde. Depois de alguns segundos de silêncio pesado, Daniel vai para longe. Gustavo tenta não chorar, e não chora, mas quase. Tânia chora. Lucas fica com muito medo e treme. Renan abaixa a cabeça. Marta chora. Paulo não está ali. Victor olha para o céu. Ao longe, a cena corta e mostra Logan em cima de um telhado, sentado, com uma cartela de bingo em uma mão e um lápis na outra. A cartela tem todos os nomes do grupo de Victor, além do nome do Coronel e do próprio Logan. No bingo já estão riscados "Figurante", "Coronel" e "Victor". Logan pega o lápis, risca "Igor" e fala baixo, com um meio sorriso:
-Logan: Bingo.
A cena corta e fica em tela preta, com Logan sorrindo.
Depois da perda, Daniel fica no canto limpando a arma, várias vezes. Victor percebe e vai falar com ele.
-Victor: Daniel, eu sei que você se culpa, mas não tinha o que fazer.
Daniel fala, quase chorando.
-Daniel: Tinha sim... tinha tanta coisa que eu podia ter feito, e eu corri feito um merda.
-Victor: O Igor atraiu as hordas. Foi imprudência dele.
-Daniel: Mas foi minha também. Quando o corredor pegou ele, eu podia ter atirado nele, pegado o Igor e corrido... mas não. Eu fui um covarde de merda que fugiu.
-Victor: Não tinha o que fazer com a imprudência dele, não se culpe por isso... ele escolheu esse caminho.
Antes de ir, Victor coloca a mão no ombro de Daniel.
-Victor: Se cuida.
Victor dá um tapinha nas costas de Daniel e vê Gustavo falando com outra criança, mas a criança está toda suja e com uma roupa velha, quase um trapo. Gustavo se despede da criança e vai falar com o pai.
-Gustavo: Pai, eu fiz um amigo. O nome dele é Vinícius.
-Victor: Que legal, filho.
-Gustavo: Sim, ele falou pra eu ir vê-lo ali de novo amanhã.
-Victor: Bom.
Victor estranha a roupa da criança, mas não fala nada.
-Victor: Já vai anoitecer, vai pra cabana, Gustavo.
-Gustavo: Tá bom.
Gustavo vai para a cabana. Victor observa por um instante e depois também vai dormir. À noite, Renan acorda com barulhos altos vindos das outras cabanas. Ele espia pela janela e vê um soldado acordando um homem na cabana vizinha. O soldado o pega e leva para um lugar mais isolado. Renan percebe que a pessoa implora para não ir, mas não entende o motivo. Na manhã seguinte, Renan vai falar com Victor.
-Renan: Victor, eu vi um soldado levar um cara ontem... não tô gostando muito daqui, sabe? Não tenho muita confiança.
-Victor: Deve ter sido um rebelde que fez algo errado...
-Renan: Victor... o soldado foi buscar ele na cabana.
Victor olha, tenta entender, e depois fala:
-Victor: Obrigado por me falar isso.
Victor sai e vê Gustavo conversando com a mesma criança de ontem. Sorri ao ver que o filho está fazendo novos amigos. Depois vai até a cabana vizinha para checar se o que Renan disse é verdade. Quando chega lá, não vê nada, só sangue no chão. Victor olha para a parede, tentando pensar.
A cena corta e mostra Felipe com o médico Grawe.
-Grawe: Você está se recuperando, não vai demorar muito para você poder sair.
-Felipe: Ainda bem.
Grawe continua dando um remédio para Felipe, até que Victor entra no quarto.
-Victor: Como tá, Felipe?
-Felipe: Ótimo... já tô pronto pra matar um infectado, mas o Grawe aqui não quer me liberar.
-Grawe: Ele tem que descansar. Esse ferimento na perna é sério... se abrir de novo, talvez ele não consiga mais correr.
Victor espera um pouco antes de falar.
-Victor: Quantos dias de repouso?
-Grawe: Pelo menos três.
-Victor: Merda. Mas descansa, Felipe, você já fez bastante naquele shopping pegando suprimentos.
-Felipe: Valeu.
Victor sai dali e vai para fora. Quando sai, vê que parte do grupo está apavorada: o Coronel está no meio da base, com o mesmo fugitivo de outra vez, agora ajoelhado.
-Fugitivo: Eu... eu imploro, por favor, não faz is-
Logan aparece e atira na cara do fugitivo, saindo sem falar nada. O Coronel então fala:
-Coronel: Vão fazer suas tarefas agora. E lembrem-se: levem essa morte como aviso para cada um de vocês... uma vez Exército Brasileiro, sempre Exército Brasileiro.
Lucas vê Logan saindo dali e indo para um lugar isolado. Com curiosidade, o segue. Vê Logan entrar em um lugar estranho e descer umas escadas. Lucas encontra uma pequena grade na parede, se aproxima e vê um homem dentro de uma jaula, chorando. Ouve o barulho da jaula abrindo.
-Logan: Olha só, meu escravo favorito.
-Prisioneiro: N-não, eu não quero.
-Logan: Simon, Simon, você já sabe como funciona. Não me obriga a me arrepender antes disso.
-Prisioneiro: Por favor... Logan...
Logan espera um pouco, bate na cara do escravo, pega-o pelo pescoço e começa a levá-lo para fora. Lucas se esconde rápido para não ser visto. Logan sai segurando Simon e o leva a um lugar mais isolado. Lucas observa de longe e tenta segui-los. Quando vê, não acredita: Logan pega um ferro em brasa e começa a marcar as costas do prisioneiro.
-Simon: Para! Por favor, paraaaa!
Depois de alguns segundos, Logan para e fala:
-Logan: Você sabe como as coisas funcionam aqui, Simon. E mesmo assim tentou escapar.
Simon não fala mais nada, só fica no chão gemendo de dor. Logan o pega pelo pescoço e o leva de volta à jaula. Lucas, em choque, não consegue se mover. Depois de processar o que viu, vai falar com Victor.
-Lucas: Victor, Victor, cara, tu tem que me escutar. O Logan... ele queimou as costas daquele cara. Ele queimou, Victor, você tem que acreditar em mim. Ele pegou o ferro e foi nas costas, aí eu não sabia o qu-
Victor corta Lucas.
-Victor: Lucas, se acalma... mas a parte do ferro, é verdade?
-Lucas: Tudo que eu falei é verdade, Victor. Acredita em mim.
Victor pensa por alguns segundos e depois fala:
-Victor: Eu vou falar com o Coronel sobre isso. Se acalma agora, Lucas.
Victor sai e vai direto até o escritório do Coronel. Chega andando rápido, com raiva.
-Victor: Que merda é essa de ferro quente?
-Coronel: É só a punição para aqueles que se comportam mal.
-Victor: Punição? O Lucas, do meu grupo, ficou tão apavorado que parecia ter visto um massacre. Você vai continuar escondendo coisas desse lugar ou vai revelar logo o que tem que falar, porra?
O Coronel encara Victor, depois abre um sorriso pacífico.
-Coronel: O ferro é apenas uma punição para quem desobedece às regras. Inclusive, a execução de hoje foi porque aquele homem já tinha quebrado diversas regras aqui.
-Victor: Não vem inventar punição só porque alguns querem sair daqui! Por que eles não podem sair? São soldados rebeldes? Prisioneiros? Ou são só escravos mesmo?
-Coronel: O que eu comando na minha base fica na minha base! Não com um monte de estranhos que perdem uma pessoa na primeira missão.
-Victor: E as crianças, Augusto? Meu filho conheceu uma esses dias. A criança usa trapos, parece cansada, ela tava trabalhando, Augusto. Elas são escravas, Augusto?
-Coronel: Suma do meu escritório e não volte, a menos que seja com minhas ordens. Vai.
Dois soldados levam Victor para fora. Ele caminha irritado e Paulo pergunta:
-Paulo: E aí? O que aquele merda falou?
-Victor: Nada do que gostariam de ouvir. Mas uma coisa é certa: temos que sair.
-Renan: Não é só... sair?
-Victor: Eles não deixam. Se você tentar, provavelmente vão te matar. Mas acreditem, vamos sair daqui. Já tá anoitecendo, vão para as camas agora, amanhã eu falo mais.
Lucas fala tremendo:
-Lucas: Aqui é seguro... né? É melhor a gente obedecer.
Victor pega sua arma e vai até uma mesa ali perto, onde tinha achado peças boas. Coloca a pistola na mesa e fala:
-Victor: Uma melhorada ia ser bom.
Victor pega as peças, retira algumas partes da arma, encaixa outras, troca o cano e muda o carregador, agora a arma tem mais força no disparo, mais munição e velocidade maior de tiro contínuo. Victor pega a arma, analisa, e guarda no coldre. Gustavo chega e fala:
-Gustavo: Pai, o Vinícius falou que vai mudar de setor hoje.
Victor pensa: "Mudar de setor?"
-Victor: Como assim, filho? Você sabe como funciona essa mudança?
-Gustavo: Não, mas ele falou sorrindo, então deve ser algo legal.
Victor dá um sorriso.
-Victor: Deve ser, filho.
Depois disso, Victor vai dormir. No dia seguinte, acorda, levanta e vai para fora, e vê que a criança que brincava com Gustavo não está mais lá. Victor entende agora o que "mudar de setor" significa, mas não fala nada para o filho. Gustavo se afasta e vai falar com outras crianças. Renan aparece com um pano sujo de sangue.
-Renan: Victor...
Victor pega o pano, analisa, e fala:
-Victor: Esconde isso em algum lugar. A gente sai em dois dias. Avisa o grupo.
-Renan: Beleza.
Renan vai até a cabana e avisa em silêncio parte do grupo. Depois anota em um papel, na própria cama: "segundo desaparecimento". Victor arruma algumas coisas na mochila. Logan observa e caminha até ele.
-Logan: Tá planejando alguma coisa, Ferraz?
-Victor: Só sobreviver.
Logan dá um sorriso.
-Logan: Legal demais, Ferraz...
Victor ignora Logan e continua arrumando as coisas. Logan sai.
Logan fala baixo, se afastando:
-Logan: É melhor dormir de olho aberto...
Victor olha, ignora, e continua arrumando as coisas. Lucas ainda estava dormindo, sonhando com Logan batendo em um homem e apontando a arma para ele. Daniel acorda Lucas.
-Daniel: Tá bem, Lucas? Você falou dormindo.
-Lucas: E-eu tô bem, Daniel.
Lucas levanta e vai para fora. Daniel observa e também se levanta. Lá fora, ouve apitos e soldados correndo — um homem com roupa de prisioneiro sai correndo, os soldados o derrubam e o levam para o mesmo lugar do outro prisioneiro. Gustavo corre até o pai.
-Gustavo: Pai, pra onde os soldados levam as pessoas?
-Victor: Às vezes os soldados levam eles para lugares melhores.
Victor se odeia por dizer isso.
A cena corta e mostra a visão de Lucas: ele vê Vinícius em um banco, pisca... e ele não está mais lá. Vê soldados imaginários mirando armas para ele e fala baixo, só Daniel, que estava perto, ouve.
-Lucas: Eles tão apagando a gente... um por um... eles tão... eles...
Lucas treme. A cena corta e mostra Marta lavando roupas na cabana, até encontrar o pano sujo de sangue infantil. Ela entende na hora e pergunta a Victor:
-Marta: Quantos?
-Victor: Mais do que dá pra contar...
Marta não chora, só esconde o pano e volta a lavar. Logan aparece com quatro soldados armados.
-Logan: Ferraz... meu bom amigo, vamos conversar.
Victor hesita um pouco, mas sabe que não tem escolha. Acompanha Logan, caminhando lado a lado pela base.
-Logan: Tu tem cara de quem já matou antes.
-Victor: Às vezes não tem escolha.
-Logan: Sempre tem escolha, Ferraz.
Logan se aproxima e fala no ouvido de Victor:
-Logan: A única pergunta é... quem vai primeiro?
Logan sorri torto e volta a caminhar normalmente.
À noite, Renan segue um soldado até uma vala. Vê brinquedos, roupas sujas e muito sangue. Fica apavorado, mas volta para a cabana e tenta dormir.
Ato 10:Uma saida
No dia seguinte, Gustavo acordou Victor.
-Gustavo: Pai... por que todo mundo que muda de setor não volta mais?
Victor mentiu. Se odiou por isso enquanto falava.
-Victor: Porque eles mudaram de base militar.
Provavelmente pra outra cidade.
-Gustavo: Ah...
Gustavo ficou claramente triste, pensando nos amigos que tinha perdido de vista. Victor fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da mentira, depois se levantou e foi procurar Felipe.
-Felipe: Fala aí, quais as novidades.
-Victor: Tô planejando uma fuga. Esse lugar não é o que parece.
Felipe pensou por um instante.
-Felipe: Não vai dar pra levar todo mundo.
-Victor: Eu sei.
Silêncio pesado.
-Victor: Bom, se cuida.
Victor começou a sair da sala, mas Felipe o chamou.
-Felipe: Me espera aí. Vou junto.
Ele se levantou, mancando com a ajuda de uma muleta, e seguiu Victor.
Lá fora, os soldados faziam a contagem diária, chamando os nomes um por um, incluindo os do grupo de Victor. Um soldado leu em voz alta.
-Soldado: Vinicius Alves?
Silêncio desconfortável. O soldado riscou o nome do caderno. Gustavo apertou a mão do pai com força.
Felipe foi conversar com o resto do grupo, enquanto Gustavo corria pra brincar e acabou dando de cara com Logan. Ele se abaixou, ficando na altura do menino.
-Logan: Seu pai é um homem importante, sabia?
-Gustavo: É?
Logan sorriu.
-Logan: Muito.
Victor observava tudo de longe. Logan percebeu, deu um sorriso, se levantou e foi embora.
À noite, a fuga começou. Victor acordou todo mundo. O plano era simples, ir até os fundos da cabana e sair pelo muro usando uma corda. Mas entre todos os membros, Victor escolheu deixar Lucas de fora.
O plano funcionou até certo ponto. Todos saíram sem serem vistos. Na hora de subir na corda pra pular o muro, ouviram um assobio.
Victor virou devagar. Logan estava lá, arma apoiada no ombro, soldados ao redor, e Lucas tremendo ao lado deles, falou gaguejando.
-Lucas: Me... me des-desculp-pem.
A cena voltou algumas horas, mostrando Lucas caminhando sozinho mais cedo naquela noite, até encontrar Logan encostado num muro. Logan o encarou, sabendo exatamente como lidar com alguém que ouvia vozes que ninguém mais ouvia.
-Logan: Sabe, eu não confio no Victor. Mas confio em você. Só que confiança não vai te salvar da dor. Só a verdade salva.
-Lucas: C-como assim?
-Logan: Eu sei que o Victor tá planejando alguma coisa. Só preciso de uma confirmação. Se você souber de algo, eu te poupo.
-Lucas: Eles... eles tão planejando uma fuga. Essa noite. Atrás da barraca.
Logan deu um sorriso torto.
-Logan: Esse é o meu garoto.
Silêncio.
De volta ao presente, Logan encarou Victor.
-Logan: E aí, Ferraz. Sabe, eu tava começando a acreditar em você. Então, como foi sua primeira vez? Vou deixar passar.
Fez um sinal com a mão. Os soldados começaram a empurrar o grupo de volta pra cabana.
-Logan: Tenham bons sonhos.
Ele disse isso com o mesmo sorriso torto de sempre. Todos foram dormir, sem escolha.
No dia seguinte, Logan disparou tiros pro alto, acordando todo mundo na base, principalmente o grupo de Victor.
-Logan: Ontem, algumas pessoas acharam que tinham escolha. Então, por causa disso, levem o que vai acontecer aqui como um recado.
Ele olhou pro grupo de Victor, um por um. Felipe sussurrou.
-Felipe: Que porra vai acontecer...
Logan abriu um sorriso largo e apontou o dedo pra Renan.
-Logan: Você. Sobe aqui.
Renan hesitou, olhou pra Victor, e foi até Logan. Ele tirou o próprio casaco e entregou a arma pra um soldado segurar.
-Logan: Aqui a gente resolve como homem. Quando você quiser vir, eu tô pronto.
Renan entendeu o que estava acontecendo. Esperou um segundo, percebeu que não tinha escolha, e avançou. Tentou o primeiro soco e errou. O segundo acertou. Levou um soco de volta. Os dois lutaram, um confronto intenso, até que Logan acertou uma joelhada no rosto dele. Renan caiu no chão, sangrando.
Logan riu. Pegou um bastão de beisebol que um soldado carregava. Antes de agir, olhou pra Victor e sorriu.
Depois começou a bater.
Bateu, e bateu, e bateu, esmagando a cabeça de Renan até o corpo parar de se mexer.
Felipe e Victor ficaram paralisados de horror. Tânia, Marta e Sandra choraram. Daniel ficou sem reação, o medo travando qualquer movimento. Lucas só chorava, em silêncio.
Tela preta.
Fim do primeiro capítulo.