Capítulo 1
POV: Emily
Tiro as luvas com um tipo de exaustão que vai além dos músculos.
Não são apenas minhas mãos que doem; é tudo. Meus ombros, minha coluna, o fundo dos meus olhos. Até meus pensamentos parecem pesados, como se estivessem se arrastando por algo mais denso que o ar.
“Doze horas?”, Melissa pergunta do outro lado do posto de enfermagem, já vestindo o casaco.
“Treze”, corrijo, jogando as luvas na lixeira. “Mas quem está contando?”
Ela bufa. “Você. Você sempre conta.”
Ela não está errada.
Eu sempre conto.
Horas. Casos. Batimentos cardíacos. Os segundos entre perder alguém e fingir que estou bem o suficiente para passar para o próximo.
Pego minha bolsa debaixo do balcão, com os dedos roçando o couro gasto por memória muscular. Este lugar — esse caos, esse limite constante entre a vida e a morte — foi onde aprendi a respirar sem pensar.
Também foi onde aprendi a não sentir demais.
“Millie.”
O apelido me atinge antes que eu possa evitar.
Um reflexo. Um fantasma.
É rápido. Provocador.
Mas ainda soa estranho.
Congelo por meio segundo — apenas o suficiente para notar, mas não para que mais ninguém perceba — e então me viro.
É apenas a Sarah, encostada na parede, já com sua jaqueta, me observando com aquele olhar que ela faz quando está prestes a se meter na minha vida.
“Nem começa”, murmuro.
Ela sorri, sem se desculpar. “O quê? Combina com você.”
“Não combina.”
Combinava.
Empurro esse pensamento para longe antes que ele crie raízes.
“Você vai sair com a gente”, ela diz, como se não fosse uma pergunta.
Suspiro, passando a mão pela nuca. “Acabei de completar um turno de treze horas, Sar.”
“E daí?”, Melissa interrompe, aproximando-se, com os olhos brilhando daquele jeito perigoso que significa que ela tomou uma decisão por mim. “É exatamente por isso que você deveria vir.”
“Eu deveria ir para casa”, argumento. “Tomar um banho. Dormir. Talvez esquecer que hoje existiu.”
“Ou”, diz Sarah, desencostando da parede, “você poderia agir como um ser humano por duas horas. Requisito mínimo. Comida, álcool, decisões questionáveis.”
Solto uma risada apesar de mim mesma. “Decisões questionáveis são o motivo de as pessoas acabarem de volta no meu pronto-socorro.”
“Ótimo”, diz Melissa. “Segurança no emprego.”
Balanço a cabeça, mas elas já estão se movendo, já assumindo que vou segui-las.
E eu sigo.
Porque é mais fácil do que lutar contra elas.
Porque se eu for para casa, estará tudo silencioso.
E o silêncio é... perigoso.
O bar é barulhento de um jeito que parece distante, como se eu estivesse ouvindo tudo através da água.
A música pulsa pelo chão, luzes baixas e quentes, corpos amontoados apenas o suficiente para deixar o ar pesado. Cheira a álcool, perfume e algo frito que não consigo identificar.
Normal.
Vivo.
Tão longe do branco estéril do hospital que quase parece entrar em outra vida.
Melissa pede as bebidas antes mesmo de eu sentar. Sarah já está examinando o ambiente como se estivesse em uma missão.
“Juro por Deus”, murmuro, sentando no banco, “se você tentar me apresentar para alguém...”
“Ah, nós não estamos tentando”, diz Melissa, deslizando um copo na minha direção. “Nós estamos conseguindo.”
Reviro os olhos, envolvendo meus dedos no copo gelado. “Não estou interessada.”
“Esse é o seu problema”, dispara Sarah. “Você nunca está interessada.”
“Tenho estado ocupada.”
“Há anos”, diz Melissa.
Tomo um gole, deixando a queimação se instalar no meu peito. “Eu gosto da minha vida.”
“Você gosta de controle”, corrige Sarah. “Existe uma diferença.”
Não respondo a isso.
Porque ela não está totalmente errada.
Porque o controle é mais fácil do que... qualquer outra coisa.
“Qual é”, Melissa cutuca meu braço. “Quando foi a última vez que você sequer olhou para alguém?”
Dou de ombros. “Olho para pessoas o dia todo.”
“Pessoas nuas e sangrando não contam.”
“Isso é subjetivo.”
Sarah geme. “Você é impossível.”
“E, ainda assim, aqui estou eu”, digo, levantando meu copo levemente.
Viva. Funcional. Bem.
Isso sempre foi o suficiente.
“Senhora.”
Viro-me levemente quando um garçom se aproxima, colocando uma bebida fresca na minha frente.
“Eu não...”
“Ele enviou”, diz o garçom, fazendo um aceno sutil para o outro lado do salão antes de se afastar.
Sigo o gesto automaticamente.
Oh.
Ele... não é o que eu esperava.
Cabelo escuro, levemente bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos por ele muitas vezes. Olhos azuis que captam a luz apenas o suficiente para se destacarem na penumbra. Sem uniforme, apenas uma camisa justa e jeans, mas há algo no jeito que ele fica de pé — firme, centrado — que o entrega mesmo assim.
Ele está me observando.
Não de um jeito que pareça invasivo.
Apenas... constante.
Interessado.
Me viro de volta para minhas amigas.
— Meu Deus — Melissa respira. — Ele é gato.
— Você deveria falar com ele — Sarah acrescenta imediatamente.
— Eu não vou... não — balanço a cabeça, já alcançando minha bebida. — De jeito nenhum.
— Emily.
— Eu disse que não.
Mas eu olho de qualquer jeito.
Só uma olhadinha rápida.
E ele ainda está lá.
Ainda olhando.
E, quando nossos olhos se cruzam desta vez... ele sorri.
É um sorriso pequeno. Quase hesitante.
Como se ele não tivesse certeza de que eu não vou rejeitá-lo.
E antes que eu possa me impedir...
Eu sorrio de volta.
É automático. Instintivo.
Passa tão rápido quanto veio.
Mas é o suficiente.
Porque, um segundo depois, ele se afasta do bar e vem em nossa direção.
— Ah, ferrou, você caiu nessa — Sarah murmura, já saindo do banco.
— Eu odeio vocês duas — sussurro entre dentes.
— Também te amamos — diz Melissa, alegre.
Ele para na minha frente, mais perto agora, e de alguma forma ainda mais...
Presente.
— Oi — diz ele, com a voz tranquila. — Vou tentar pessoalmente, já que a bebida sozinha não pareceu convincente.
O calor sobe pelo meu pescoço.
— Eu não tinha certeza se deveria dizer sim ou não — admito.
— Justo — ele acena. — Posso tentar de novo?
Cruzo os braços, arqueando a sobrancelha apesar de mim mesma. — Pode tentar.
— Não sou um babaca — diz ele. — Não vou insistir se você não estiver interessada. Eu só vi você, achei que parecia alguém com quem eu gostaria de conversar e resolvi arriscar.
Simples.
Direto.
Sem enrolação.
— Ah, ela quer — diz Sarah. — Ela definitivamente quer conversar.
Me viro para fuzilá-la com o olhar, mas ela já está pegando a bolsa.
— Senta — Melissa diz a ele, como se estivesse dando uma ordem.
Ele olha para mim, esperando.
À espera.
Hesito por meio segundo.
Então...
— ...Você pode sentar.
É só disso que ele precisa.
Ele puxa o banco para mais perto, acomodando-se ao meu lado.
— Derek — diz ele, estendendo a mão.
— Emily.
O aperto dele é quente. Firme. Breve.
Minhas amigas desaparecem como se nunca estivessem estado lá.
Traidoras.
— Então — digo, envolvendo o copo com os dedos —, a bebida era sua única estratégia?
Ele solta uma risada contida. — Era a minha melhor.
— Ousado.
— Arriscado — ele corrige. — Você parecia prestes a dizer não.
— Eu quase disse.
— Mas não disse.
Não.
Não disse.
Nós começamos a conversar com mais facilidade do que eu esperava.
Não é intenso. Não é pesado.
É apenas... fácil.
Ele faz perguntas e realmente ouve as respostas. Ele não está apenas esperando sua vez de falar; ele presta atenção de um jeito que parece raro.
Perigoso.
— Então — digo depois de um tempo, inclinando levemente a cabeça —, o que você faz, Derek?
Um brilho passa pelo olhar dele. Não é hesitação, apenas uma mudança.
— Sou militar — diz ele.
Aí está.
Claro.
Inclino a cabeça, estudando-o agora que estou prestando atenção.
A postura.
A imobilidade.
O jeito que ele se mantém, como se estivesse sempre consciente do espaço ao redor.
Sem uniforme.
Mas ainda está lá.
Instinto antigo. Memória antiga.
Mas eu não me afasto.
Em vez disso, meu olhar desce — breve e casualmente — e é aí que eu vejo.
As plaquetas de identificação.
Elas pendem logo abaixo da camisa, a corrente pegando a luz quando ele se move.
Minha respiração falha.
Não pelo que elas são.
Mas pelo quão familiares elas parecem.
— Você está bem? — pergunta ele, notando a mudança.
Eu piscando, forçando-me a voltar.
— Sim — digo rapidamente. — É que... faz tempo que não vejo isso de perto.
Ele olha para baixo e depois volta para mim. — Memórias ruins?
Hesito.
— Nem todas ruins — admito.
Algo mais suave surge na expressão dele.
— Então talvez não seja a pior associação para se ter.
Talvez.
Ou talvez as piores apenas demorem mais para aparecer.
Desta vez, tomo um gole da bebida.
E não deixo passar o jeito como os olhos dele demoram em mim um segundo a mais do que o necessário.
Como se ele estivesse tentando descobrir algo.
Como eu também estou.
E, pela primeira vez em muito tempo...
Eu não me afasto disso imediatamente.









there’s no chance that Ethan and the new guy is one in the same, is it?
I love military stories! Great work author!❤️
Love a military 🪖 story. Looking forward to reading this 🙃🤓