Capítulo 1 - A Fuga
POV de Bethany
Já se passaram sessenta horas.
Sessenta horas em dois trens diferentes.
Sessenta horas tentando não desmoronar.
Sessenta horas desde que arrumei duas malas, peguei meu filho e fugi.
Sessenta horas desde que escapamos do monstro.
Olhei pela janela do trem, com Noah dormindo encostado no meu peito e nossas malas ao lado, e me perguntei como, diabos, minha vida tinha chegado a esse ponto.
Nós fomos namorados na época da escola. Ele era aquele aluno simpático e nota dez que todas as garotas queriam, mas ele nunca parecia interessado em nenhuma. Eu era a novata — a que foi expulsa da escola antiga por quebrar o nariz de outra menina.
É, eu era uma vadia. A "garota má" da escola.
Mas, de alguma forma, o garoto doce só notou a mim.
Bom... ele costumava ser doce.
Nos primeiros três anos, tudo parecia perfeito. Talvez perfeito demais. Estar com ele me deixou um pouco mais suave. Eu sorria mais. Eu não ficava tão brava o tempo todo. Nós saíamos, passávamos cada segundo juntos na escola, andávamos com os amigos dele, íamos a festas — fazíamos todas aquelas coisas normais de adolescente que as pessoas escrevem músicas a respeito.
Até passamos na mesma faculdade. Ele cursou administração e eu artes. Arte sempre foi a minha praia. Enquanto crescia, eu nunca ficava longe de um caderno de desenho ou um lápis, e acabei até desenhando minhas próprias tatuagens.
Ele odiava minhas tatuagens.
Dizia que não eram "coisa de dama". Dizia que mulheres não deveriam marcar a pele porque isso as fazia se destacar demais e parecer menos femininas.
Eu deveria ter visto os sinais de alerta naquela época.
Durante o segundo ano da faculdade, descobri que estava grávida do Noah. Ainda não sei como isso aconteceu, já que eu tomava a pílula religiosamente todas as manhãs, mas, apesar do susto, eu fiquei feliz. Realmente feliz.
Ele não ficou.
Ele não ficou bravo nem animado. Apenas... indiferente.
A princípio, nada mudou. Eu continuava indo às aulas e passando meu tempo livre com ele, mas, conforme a gravidez avançava, tudo ficou mais difícil. Eu vivia exausta, e os enjoos matinais me atingiram tão forte no segundo trimestre que, em alguns dias, eu mal conseguia funcionar.
Foi quando ele começou a me pressionar para largar a faculdade. Ele dizia que eu deveria ficar em casa e criar nosso bebê, exatamente como a mãe dele tinha feito. Aparentemente, era isso que "damas de verdade" faziam.
Ele não gostava da ideia de sua namorada ter uma carreira e ser mãe. E, como eu era jovem, estúpida e perdidamente apaixonada por ele... eu concordei.
Só depois que Noah nasceu eu percebi, de verdade, o quanto ele tinha mudado.
Primeiro, foram minhas roupas. Ele dizia que minhas calças skinny rasgadas e blusinhas mostravam pele demais. Então, troquei tudo por calças comuns e blusões largos, me cobrindo toda porque isso o deixava feliz.
Depois, foram meus amigos. Ele sempre tinha um motivo para dizer que eles eram más influências ou que eu não deveria passar tempo com eles. Depois de meses de desculpas e planos cancelados, eles pararam de ligar de vez.
Com o tempo, eu não podia sair do apartamento sem permissão.
Se o Noah precisava de fraldas ou se precisávamos de mantimentos, eu tinha que pedir primeiro.
Certa tarde, mandei uma mensagem dizendo que precisávamos de fraldas e perguntei se podia ir à loja. Ele nunca respondeu. Depois de esperar mais de uma hora, decidi ir mesmo assim.
A loja ficava a apenas quinze minutos de caminhada. Comprei o que precisávamos e voltei direto para casa. Assim que atravessei a porta do apartamento, ele explodiu. Ele gritou que nunca tinha me dado permissão para sair.
E então ele me deu um tapa.
Essa foi a primeira vez.
No ano seguinte, vieram mais tapas. Depois socos. Depois chutes.
Certa noite, ele me bateu tanto que não consegui sair do chão por quase quatro horas. Mas, quando o Noah começou a chorar no berço, gritando por mim, eu me forcei a levantar. Eu me arrastei pelo apartamento usando o sofá e as paredes, só para alcançar meu filho.
Nunca fui à polícia. Eu tinha medo demais do que ele faria se eu tentasse. E eu não tinha mais ninguém a quem recorrer.
Meu pai morreu em um acidente de carro quando eu era pequena, e minha mãe e eu paramos de nos falar depois de uma briga enorme quando saí para a faculdade. Ela odiava minhas escolhas de relacionamento. Ela nem sabe que tem um neto.
Sem irmãos. Sem amigos. Ninguém.
Eu estava completamente sozinha.
Até quatro dias atrás.
Foi o dia em que decidi que já tinha tido o suficiente. Eu não podia deixar o Noah crescer naquele apartamento. Eu não podia correr o risco de ele se tornar o próximo alvo.
Então, fiz um plano.
Comprei passagens de trem em segredo e usei a pequena quantia de dinheiro que consegui economizar. Na manhã seguinte, quando ele saiu para trabalhar na firma de contabilidade do tio, arrumei uma mala para mim e uma para o Noah. Enchi a mochila minúscula dele com brinquedos, chamei um táxi e fui direto para a estação de trem.
E agora, aqui estamos nós. Em algum lugar entre nossa vida antiga e o que quer que venha a seguir.
Encontrei uma cidade pequena a algumas horas de Nova York. Silenciosa. Parece segura. Nada como a Califórnia. Quase ninguém por lá. Perfeita para desaparecer.
Um movimento agitou meus braços, me tirando dos meus pensamentos. Olhei para baixo e vi o Noah piscando para mim com seus olhos azuis sonolentos.
"Ei, garoto lindo", sussurrei com um sorriso, esperando que ele não visse o medo escondido por trás dele. "Você dormiu bem?"
Ele assentiu, esfregando os olhos com um punho minúsculo. "Já estamos quase chegando, mamãe?"
"Quase, bebê. Só precisamos pegar um ônibus para a nossa casa nova."
Ele assentiu de novo antes de se virar para a janela, observando as árvores passarem como um borrão lá fora.
Não falta muito agora.
Então finalmente estaremos a salvo.
Eu espero.








