Personalizar legibilidade
Aa

Às Margens do Rio: Blue (4)

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Na cidade de Grand River, Jesse passou a vida inteira pagando pelo que é. Seus irmãos o espancam até sangrar por desejar outros homens. Eles chamam isso de salvar sua alma. Pela cidade, as pessoas chamam Jesse de “Blue” — o Azulado — porque ele está sempre roxo de hematomas por causa de uma surra ou outra. Jesse chama isso de normal... até o dia em que decide que não é. Ele deixa Grand River sem nada além de feridas e nunca olha para trás. Salvador tem seus próprios problemas. Um ex-detento em liberdade condicional, ele está a uma decisão errada de voltar para a prisão, e problemas sempre dão um jeito de encontrá-lo. Então, quando ele avista um estranho perto do rio onde suas irmãs estão nadando de topless, Salvador reage primeiro e pensa depois. O jovem ferido que ele arrasta para casa não é o que ele esperava. Leal. Doce. Faminto por gentileza. Blue só precisa de um lugar para se curar antes de seguir em frente. Salvador sabe que se apegar não é uma boa ideia. Um homem como ele não deveria querer alguém tão gentil quanto Jesse. Mas quanto mais tempo Jesse fica na fazenda, mais Salvador começa a desejar coisas que não pode ter... como... A confiança de Jesse. O sorriso de Jesse. Jesse em sua cama. E quando o passado de Jesse vem procurá-lo, Salvador precisa decidir o que está disposto a fazer pelo homem que, por acaso, apareceu às margens do rio.

Status
Completo
Capítulos
32
Classificação
4.8 8 avaliações
Classificação Etária
18+

A town by the river.

As bordas da caçamba da picape cravaram em suas palmas enquanto Jesse lutava para sair da Ford parada. Ele estremeceu ao baixar a tampa traseira. Então, segurou o lado do corpo quando suas botas atingiram a terra. Sua costela machucada doía tanto que a dor trouxe lágrimas aos seus olhos. Ele não tinha cem por cento de certeza se sua costela estava quebrada, talvez apenas trincada, mas não importava. Cada parte de seu corpo doía como o inferno enquanto ele ficava de pé, recuperando o fôlego.

O ar ali tinha o mesmo cheiro de terra seca e ervas de rio estagnadas que sufocavam a cidade de Grand River. Era como se ele tivesse simplesmente arrastado sua miséria para o outro lado da divisa do condado. Por um breve momento, ele examinou a área enquanto batia a tampa traseira da caminhonete. O estrondo metálico ecoou pelas vitrines vazias, um som estridente e solitário que o fez ranger os dentes. As janelas das lojas pareciam cansadas, com cartazes de papel enrolados e desbotados pelo sol. Até as bombas de gasolina pareciam gastas.

Ele tinha pego carona até uma cidade pequena que parecia apenas mais um grupo de casas sonolentas ao longo do rio. Jesse acenou para o motorista. O homem arrancou em uma nuvem de poeira.

Parado diante do posto de gasolina da esquina, ele viu seu reflexo no vidro das portas de entrada. Merda. Ele parecia todo roxo e machucado. Um lado de seu maxilar parecia estranho, inchado como se alguém tivesse enfiado algodão sob a pele. Sangue seco estava crostado sob seu nariz. Seu olho direito estava tentando inchar a ponto de fechar. Sua camisa estava rasgada na barra.

O cara que trabalhava na loja de conveniência deu-lhe um olhar curioso. Jesse abaixou seu boné e curvou a cabeça. Era hora de seguir em frente. Ele ajustou sua mochila no ombro e supôs que estava no condado vizinho ao de sua cidade natal.

Embora Jesse não pudesse ler a placa anunciando o nome da cidade, ele havia atravessado o rio e pegado carona por algumas horas. Ele tinha uma ideia de onde começava a divisa do condado. Ele olhou ao redor novamente. O lugar onde ele acabou não era muito diferente de onde ele tinha saído. Havia um posto de gasolina, uma mercearia minúscula, uma igreja e um bar. Isso batia com o que ele se lembrava.

Por três verões seguidos, Jesse trabalhou para um homem mais velho na região. Ele não sabia o sobrenome do sujeito, apenas que seu primeiro nome era Wendell. O velho fazendeiro era amigo do Pa, quando o Pa ainda era vivo. A fazenda de Wendell ficava perto dali.

Em algum lugar.

Sacudindo o calor sufocante que ameaçava fazê-lo sentar e dormir, Jesse ajustou sua mochila nos dois ombros e começou a descer a rua. Ele lembraria para onde estava indo conforme seguisse o caminho. Alguma coisa voltaria à sua mente. Além disso, qualquer lugar era melhor do que casa. Ele não aguentava mais seus irmãos.

As horas se arrastaram enquanto ele caminhava, chutando pedras pelo caminho. O tempo passava rastejando, medido em cercas, caixas de correio e a dor nos joelhos. Cada quilômetro parecia marcado em seu corpo.

Jesse já tinha deixado a cidade pequena para trás há muito tempo. Agora, ele trotava por uma estrada rural sinuosa. A poeira voava em seu rosto. Sua pele parecia ressecada. O calor que irradiava do asfalto tremeluzia, distorcendo o horizonte em uma linha ondulada e zombeteira. O sol o castigava, como se ele estivesse sendo punido por suas escolhas de vida. Isso parecia justo.

Tirando o moletom, ele guardou a peça em sua mochila. O suor escorria por suas costelas em trilhas que coçavam, grudando poeira na pele. Seus jeans estavam úmidos na cintura. Parando, Jesse tirou a camisa e a pendurou no pescoço. Agora ele estava apenas de calça jeans e botas, mas ainda sentia calor.

Jesse continuou andando.

Suas meias estavam úmidas, trapos abrasivos contra sua pele. Suas botas cheiravam a suor velho e lama de rio. Cada passo o obrigava a reconhecer a ardência da bolha em seu calcanhar. Ignorar a dor nos pés era fácil, já que seu rosto latejava. O sol transformou sua boca em areia seca. Um carro passou voando, jogando cascalho nele, e ele esfregou a sujeira do rosto. Os hematomas em sua pele e ao redor dos olhos ainda estavam tão sensíveis que suas mãos o faziam ofegar de choque. Nada de tocar no rosto.

Parando para descansar, ele enfiou seu boné na mochila e seguiu para o lado da estrada. Aquela parte do caminho era familiar, e ele se perguntou se estava perto da fazenda de Wendell. O homem possuía uns quarenta hectares por ali, então ele poderia estar na propriedade agora e nem saber.

Olhando para as árvores, ele ouviu... água? É, água. Sob o zumbido incessante das cigarras, ele ouviu aquele som de correnteza baixa. O barulho da água batendo sobre as pedras desgastadas do rio era um bálsamo refrescante para seus nervos à flor da pele. Ele suspirou. Jesse se lembrou do rio e de como costumava nadar nas tardes quentes. O rio serpenteava pela propriedade de Wendell, e ele se lembrou de como podia vê-lo à distância quando estava no palheiro. Ele ouviu atentamente e então caminhou em direção ao som do fluxo constante.

O ar mudou perto das árvores. Mais frio. Úmido. Como se a própria terra estivesse respirando de forma diferente ali embaixo. Ele empurrou uma parede de arbustos que chegavam na cintura. O ar cheirava a terra úmida, folhas podres e ao leito do rio. Caminhando com dificuldade, Jesse avistou a água e a vegetação densa entre ele e um gole. Lama grudou em suas botas enquanto os mosquitos zumbiam. Ele ficou atento às cobras e então encontrou um lugar para chegar perto da água.

Agachado, Jesse tocou no lodo verde enquanto ele criava redemoinhos na superfície. Uma nuvem de mosquitos pairava. Ele hesitou em colocar a mão naquela sujeira. Ele estava com sede, mas aquela cor lamacenta era o que havia de menos apetitoso.

Hora de superar o nojo. As chances de conseguir água limpa eram mínimas, e ele precisava beber desesperadamente.

Tomando coragem, ele começou a enfiar a mão além das plantas. Bem nessa hora, ouviu um barulho de água. Ele parou. A risada rouca de uma mulher ecoou no ar. Recolhendo a mão, ele espiou através das árvores densas.

Embora não visse ninguém, Jesse ouviu a risada da mulher novamente. Ele levantou a cabeça e se afastou da vegetação abundante ao lado da beira do rio.

Caminhando, Jesse pisou no que parecia ser uma trilha estreita. Quando ouviu mais risadinhas, seguiu o barulho. Ele não tinha certeza de quanto tinha andado quando as avistou.

O rio tinha um trecho aberto. Uma margem de areia suave levava até a água profunda. Duas jovens lindas falavam rapidamente em espanhol, brincando e espirrando água uma na outra. Jesse imaginou que as moças bronzeadas, talvez mexicanas, estivessem na casa dos vinte anos. Ele passou os olhos pela pele bronzeada de seus torsos nus e deu de ombros. Ele não estava nem aí, mas talvez pudesse pedir informações. Isso se elas falassem inglês.

Ele não estava nem aí.

A constatação de que ele não sentia nada por aquelas mulheres o atingiu como um tronco de árvore na testa. Jesse era tão afim de homens que nem conseguia se dar ao trabalho de olhar para duas mulheres nuas se divertindo no rio.

Seus olhos dispararam para sua virilha. É. Nem um sinal.

Que inferno ele ia fazer? Ele não conseguia se livrar daquela atração. Jesse tentou tanto, pra caralho, ser hétero. Ele queria querer mulheres. Ele desejava desesperadamente ser normal, era assim que seu irmão chamava, mas ele não conseguia. Não importava quantas vezes seus irmãos o batessem, cada golpe não mudava o que o excitava.

Era isso. Jesse tomou uma decisão. Ele viveria como um monge. Homens não precisavam de sexo. Homens precisavam de ar, água e comida. Só isso. Jesse nunca teria qualquer tipo de relacionamento. A vida era boa sem sexo, sem amor ou sem ninguém se importando com ele. Sua família nunca se importou com ele, então ele estava acostumado a se sentir sozinho.

Seu novo plano seria mudar para uma cidade nova e nunca mais falar com ninguém. Isso se chamava ser um eremita, certo? Ele seria um ótimo eremita. Pelo menos um eremita não sentiria toda a dor que o perseguia. Jesse não aguentava mais a turbulência emocional e as surras físicas. Mais um pouco de vida assim, e ele daria um fim em si mesmo.

Ele sabia disso no fundo de sua alma. E talvez... ficar sozinho para sempre não doesse tanto depois de um tempo.

Ignorando as mulheres que riam, Jesse decidiu que não pediria informações. Elas falavam muito espanhol e havia riscos demais, especialmente se elas não o entendessem. Um homem saindo da mata para cima de duas mulheres nuas seria visto como um tarado na melhor das hipóteses e um serial killer na pior. Ele seguiria em frente e, talvez no caminho, encontrasse um lugar melhor para beber água.

A ideia de ir embora estava cimentada em sua cabeça, mas então ele parou.

Aquilo era uma caixa térmica de comida.

Seu estômago contraiu tão forte que ele se dobrou um pouco. Perto de um SUV preto havia uma caixa térmica vermelha brilhante — a condensação na tampa capturando o sol como um farol de salvação. Ele quase podia sentir o gosto de pão de forma barato e mortadela.

Ah, sim. Seu estômago roncou. Talvez as mulheres estivessem em um piquenique. Ele se agachou baixo e deslizou para mais perto do veículo, imaginando sanduíches em sacos plásticos ou salgadinhos. E se elas tivessem água engarrafada?

Água cairia muito bem agora.

Roubar não era seu costume, mas ele estava faminto pra caralho e com ainda mais sede. Ele não gostava do que estava prestes a fazer, mas seu estômago insistia que aquelas mulheres não sentiriam falta de um ou dois itens. Elas pareciam saudáveis e com curvas. Ele só esperava que não houvesse cerveja.

Além de desistir de sexo ou de ter um relacionamento, Jesse planejou largar o álcool. Memória após memória de suas escolhas estúpidas enquanto bebia surgiam para apontar seus erros, um atrás do outro. É isso. Ele tinha acabado com a bebida.

Ele empurrou tudo isso para fora de sua cabeça e focou em roubar bolachas velhas ou palitos de queijo. Ele pediria a Deus para perdoá-lo depois — não que Deus tenha dado muita atenção a ele algum dia.

Ficando de olho nas mulheres na água, Jesse se abaixou mais e manobrou silenciosamente pelos arbustos. Ele se deslocou para baixo novamente, verificando se as mulheres nunca olhavam para ele.

As moças mergulharam na água. Ele olhou porque um homem hétero deveria olhar. Elas usavam apenas a parte de baixo de seus trajes de banho. Elas surgiram, rindo. Seus seios saltavam e balançavam. Ele olhou para sua virilha. Sério? Nada? Ele era tão gay que isso o fazia querer vomitar. Ele nem conseguia apreciar peitos.

Deus o odiava.

As mulheres viraram as costas para ele. Bom. Ele se aproximou com os olhos no prêmio. Ele conseguia imaginar um sanduíche em sua boca e água fresca e limpa resfriando sua língua.

O crack agudo de um galho seco sob seus pés estilhaçou a calmaria pacífica do rio. O som foi seguido pelo baque de botas esmagando o mato. Jesse se virou e olhou para cima. Ombros largos bloqueavam a luz do sol. Antes que pudesse falar, um homem enorme, irritado e bronzeado pairou sobre ele. Merda. Um punho veio em direção ao seu rosto. A cabeça de Jesse foi para trás com o golpe. Seu rosto ardeu em agonia.

Então... tudo ficou escuro.

Deixe AuthorCMMoore saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

8

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

5

De Suspense

Emocional

8

Emocional

Profundo

1

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

4

Chocante

Boa Escrita

8

Boa Escrita

Enredo Envolvente

6

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

5

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

1

Diálogo Forte

author

oh wow my heart breaks for Blue. The abuse of beating the gay out of him. I hope he finds peace.

2 meses
1
author

what a great opener. 👍

2 meses
1
author

What a sad and miserable situation he's in.
I could feel the oppressive heat and humidity. I could picture the nasty water and the riverbank that's overgrown with weeds and brush.
He is in so much pain, hungry, thirsty and exhausted. His body pushed about as far as it can go. Then his already wrecked face gets hit by a man that can pack a punch. No wonder he blacked out. He could hardly stand touching his face himself.
It hurts my heart how Blue got his name. His brothers are so ignorant and horribly cruel to him.
I just want to reach out and help him so badly!

2 meses
1