- Capítulo 1 — POV Elara
O cheiro da comida sempre deixava a casa da minha mãe mais viva do que o normal.
Dona Andreia dizia que jantar em família era “sagrado”, mesmo quando ninguém realmente estava com vontade de conversar.
— Elara, arruma a mesa direito — ela falou da cozinha, com aquele tom que não aceitava discussão.
Eu só respondi com um som qualquer e fui mesmo assim.
A mesa já estava quase pronta. Tudo no mesmo lugar de sempre: pratos simples, talheres alinhados, e aquela sensação de rotina que nunca mudava.
Meu irmão, Yuri, estava jogado no sofá, mexendo no celular como se não tivesse nada a ver com o caos organizado da casa.
Eu sentei na minha cadeira de sempre.
A de sempre.
Tudo sempre igual.
A TV estava ligada sem ninguém realmente assistir. Um programa qualquer preenchendo o silêncio entre uma coisa e outra.
Foi quando Yuri falou, sem tirar os olhos do celular:
— Hoje é o dia.
Eu franzi a testa.
— Dia de quê?
Ele finalmente me olhou, com aquele sorriso meio convencido que ele sempre fazia quando sabia que ia me irritar.
— De vocês se conhecerem direito.
Meu estômago deu um leve aperto.
— Quem?
— A Lana.
O nome caiu na sala como se tivesse mais peso do que deveria.
Dona Andreia apareceu da cozinha com uma travessa nas mãos.
— Finalmente, né? Já tá na hora de ela conhecer a família direito.
Eu olhei pra ela.
— Então esse jantar é por causa dela?
Yuri soltou um riso curto, como se fosse óbvio.
— Claro. Minha namorada não ia ficar só “namorada do Yuri” pra sempre sem conhecer a casa.
Namorada.
A palavra ficou presa na minha cabeça por mais tempo do que deveria.
Eu assenti devagar, fingindo normalidade, enquanto pegava o copo na mesa só pra ter alguma coisa pra fazer com as mãos.
Mas por dentro… alguma coisa já não parecia tão normal assim.
Depois daquela conversa, a casa parecia ainda mais cheia… mesmo sem ninguém ter chegado ainda.
Eu tentei fingir que era normal.
Que aquilo não era nada demais.
Afinal… meu irmão tinha uma namorada. Isso era completamente normal.
Talvez o estranho fosse só eu.
Talvez fosse só porque eu não estava acostumada com a ideia.
Lana ia vir jantar aqui. Só isso.
Nada além disso.
Yuri se levantou do sofá já pegando as chaves do carro.
— Vou buscar ela — ele disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Minha mãe apareceu na porta da cozinha.
— Leva um casaco pra ela, vai que esfria mais tarde.
Ele assentiu rápido.
— Tá bom, mãe.
E saiu.
A porta fechou com um som leve, mas a casa pareceu ficar mais silenciosa na mesma hora.
Eu fiquei ali por alguns segundos, sem saber muito o que fazer.
Depois fui pro meu quarto.
Sentei na cama, peguei o celular, e comecei a rolar sem realmente ver nada.
Vídeos, mensagens, coisas aleatórias.
Nada prendia minha atenção.
Era como se minha cabeça estivesse esperando alguma coisa acontecer… mesmo eu não sabendo o quê.
O tempo passou devagar.
Até que eu ouvi.
O som de um carro chegando.
Freio.
Motor desligando.
Portão abrindo.
Meu coração não acelerou.
Não tinha motivo pra isso.
Mas mesmo assim… eu levantei o olhar na direção da janela.
E fiquei quieta.
Porque o carro do Yuri tinha acabado de parar na frente de casa.
E a Lana tinha chegado.








