Chapter 1
O vento cortante do norte uivava como uma fera ferida, cortando as passagens estreitas da montanha e congelando até os ossos. Para Zora e sua família, o frio era um adversário constante, um contraste marcante com o calor das terras que seus ancestrais chamavam de lar. Zora, aos dezoito anos e possuidora de um espírito grande demais para as expectativas restritivas de sua posição, ajeitou a pesada capa de lã grande demais que envolvia seu corpo. Sob as camadas de tecido grosso, ela usava túnicas largas e calças, uma escolha deliberada feita por seu pai para protegê-la dos olhares errantes e predatórios dos homens em terras onde sua pele era uma raridade.
Seu cabelo, uma coroa magnífica de cachos fechados e escuros, era meticulosamente entrelaçado em tranças longas e complexas que chegavam às suas costas, mantendo a rebeldia de suas madeixas controlada contra a ventania. Como filha de um comerciante em ascensão, Zora estava acostumada a viajar, mas esta jornada era diferente. Seu pai, um homem de vontade de ferro e aguçado instinto comercial, estava determinado a levar seu império comercial mais para o norte do que qualquer um de seus parentes jamais ousara. Ele não queria apenas lucro; ele queria um legado. Ele queria que o nome de sua casa fosse sussurrado com respeito, desde as costas banhadas pelo sol até os fiordes congelados.
Enquanto o sol mergulhava abaixo do horizonte irregular, pintando o céu em roxos profundos e laranjas intensos, eles avistaram as luzes âmbar bruxuleantes de uma estalagem à beira da estrada. Era um prédio robusto e baixo, feito de pedra e madeira pesada, com cheiro de fumaça de turfa e peixe salgado.
No momento em que cruzaram as pesadas portas de carvalho, a cacofonia do salão principal morreu de repente. O calor da lareira os atingiu, mas foi o peso do silêncio que pareceu mais forte. Zora sentiu a mudança imediata na atmosfera. Dezenas de olhos — azuis claros, cinzas e cor de avelã — voltaram-se para eles. Naquele canto remoto do norte, pessoas de sua compleição eram tão raras quanto ouro no leito de um rio. Os olhares não eram necessariamente hostis, mas eram intensos, cheios de uma curiosidade crua e evidente que fazia Zora se sentir como um espécime sob uma lente.
"Mantenha a cabeça erguida, Zora", murmurou seu pai, sua voz um estrondo baixo de segurança. "Somos convidados e comerciantes. Trazemos valor."
Eles encontraram uma mesa isolada no canto, longe dos olhares curiosos dos clientes habituais. Depois de pedir várias tigelas de ensopado grosso e canecas de cerveja morna, o segundo irmão mais velho de Zora, Kaelen, inclinou-se para perto. Kaelen era o cauteloso, o estrategista dos irmãos, e seu rosto estava marcado por preocupação.
"Escute-me", sussurrou Kaelen, com os olhos percorrendo o salão. "Isso não é como os portos do sul. Os homens que governam estas terras — os homens do norte, os Vikings — eles não seguem as regras de comércio que conhecemos. Eles são guerreiros primeiro e homens depois. Ouvi histórias de seus ataques, sua sede de sangue e sua total falta de piedade por aqueles que consideram inferiores."
Zora revirou os olhos, um sorriso desafiador brincando em seus lábios. "Eles são apenas homens, Kaelen. Eles comem, dormem e sangram como qualquer outra pessoa."
"Esse é exatamente o tipo de conversa que faz as pessoas morrerem", sibilou Kaelen. "Você tem uma língua que se move mais rápido que seus pensamentos, Zora. Em um lugar como este, uma palavra mal colocada ou um olhar de desafio não é apenas uma gafe social — é uma provocação. Fique em silêncio. Seja invisível. Para o seu próprio bem."
Zora abriu a boca para retrucar — provavelmente algo sobre como ser 'invisível' era uma maneira chata de viver — mas uma mudança repentina na sala a parou.
As portas pesadas se abriram com um estrondo, deixando entrar um turbilhão de neve e uma lufada de ar congelante. Um grupo de homens entrou marchando, sua presença dominando instantaneamente o espaço. Eles eram gigantes, vestidos com peles e couro, com machados presos às costas e cicatrizes marcando seus rostos curtidos. Eles irradiavam uma energia primitiva e intimidadora que fez os outros clientes se encolherem em seus assentos.
Mas foi o último homem a entrar que fez o coração de Zora parar.
Ele era mais jovem que os outros, provavelmente na casa dos vinte e poucos anos, embora se portasse com uma autoridade que sugeria que ele era quem estava no comando. Ele não era tão corpulento quanto seus companheiros, mas era magro e musculoso, seus movimentos fluidos e predatórios. Seu cabelo era de um loiro pálido e brilhante, puxado para trás de um rosto injustamente bonito — maçãs do rosto marcadas, nariz reto e olhos da cor de uma tempestade de inverno.
Zora tinha ouvido os rumores. Ela sabia que diziam que os Vikings eram cruéis, selvagens e desprovidos de empatia. Mas, ao encará-lo, ela percebeu, com um choque de eletricidade, que a crueldade podia ser estonteantemente bela.
Quando o líder vasculhou o salão, seu olhar travou no dela. Por um batimento cardíaco, o mundo ao redor deles desapareceu. O barulho da estalagem, o cheiro do ensopado, os avisos de seu irmão — tudo isso desvaneceu. Havia uma intensidade em seu olhar que parecia um toque físico, uma curiosidade penetrante que espelhava a dela própria.
O pânico explodiu em seu peito, e Zora rapidamente desviou o olhar, encarando fixamente sua tigela de ensopado, com o coração martelando contra as costelas.
"Zora", avisou seu pai, sua voz um aviso curto e baixo. "Mantenha sua curiosidade sob controle. Não atraia atenção."
Zora assentiu rapidamente, mantendo os olhos baixos, esperando que, ao ignorá-lo, ele perdesse o interesse. Ela disse a si mesma que estava segura no canto, protegida por seu pai e seus irmãos.
Ela estava enganada.
O baque pesado das botas ecoou pelo chão de madeira, tornando-se mais alto e mais próximo. O ar pareceu engrossar quando uma sombra caiu sobre a mesa deles. Zora não precisou olhar para cima para saber quem era; o cheiro de vento frio e couro velho o precedia.
"Uma visão rara por estas bandas", disse uma voz. Era um arranhado profundo e melódico que enviou um calafrio pela espinha de Zora.
Zora olhou para cima lentamente. O líder Viking estava parado bem ao lado dela, um sorriso fraco e divertido puxando os cantos de seus lábios. Ele não olhou para ela primeiro; em vez disso, dirigiu-se ao pai dela com um aceno de respeito formal, porém dominante.
"Eu sou Bjorn", anunciou ele, sua voz ecoando pelo salão silencioso. "Líder deste posto. Não costumo ver comerciantes de sua... origem particular viajando tão longe para o norte. Diga-me, o que os traz ao fim do mundo?"
O pai de Zora levantou-se, encontrando o olhar de Bjorn com um semblante firme e inabalável. "Comércio, Lorde Bjorn. Buscamos expandir nosso alcance e estabelecer parcerias que beneficiem ambas as nossas casas."
Bjorn cantarolou, um som de leve interesse, mas então seus olhos se moveram. Ele olhou para Zora, seu olhar percorrendo seu cabelo trançado e as roupas largas que falhavam em esconder a graça de sua postura. O sorriso em seu rosto se alargou, tornando-se algo mais predatório, mais calculista.
Ele se virou para o pai dela, seu tom mudando para algo casualmente transacional.
"Suas mercadorias podem ser interessantes", disse Bjorn, seus olhos voltando para Zora, "mas me sinto mais interessado em sua companhia. Diga-me, comerciante... qual é o preço pela garota?"
O ar na mesa tornou-se gelado. Zora sentiu uma onda de choque, sua respiração prendendo na garganta. Ela olhou para o pai, com os olhos arregalados, um pequeno gaguejo involuntário escapando dela. "P-pai?"
A expressão de seu pai se transformou instantaneamente. O comerciante diplomático desapareceu, substituído por um pai cujo instinto protetor era uma parede de granito. Ele deu um passo à frente de Zora, sua voz trovejando com uma autoridade feroz e repentina que assustou até os Vikings parados atrás de Bjorn.
"Minha filha não é um pedaço de gado para ser negociado", declarou seu pai, sua voz ecoando pela estalagem. "Ela não é gado, e não está à venda. Nem por todo o ouro do norte, nem por todas as terras do sul."
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Os guerreiros Vikings se moveram, suas mãos indo em direção aos cabos de suas armas, sentindo um desafio ao seu líder. Bjorn, no entanto, não parecia zangado. Ele parecia intrigado. Ele encarou o desafio do pai, depois voltou seu olhar para Zora, que o encarava com uma mistura de medo e uma centelha inesperada e vibrante de indignação.
Bjorn soltou uma risada curta e seca, um som de diversão genuína. "Espírito", murmurou ele, quase para si mesmo. "Eu gosto de espírito."
This first chapter makes me very interested! 😊