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Autópsia de um Monstro: Volume 1

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Resumo

AUTÓPSIA DE UM MONSTRO Em uma cidade onde crimes são enterrados sob dinheiro, influência e silêncio, a Divisão de Homicídios enfrenta um novo pesadelo. Um serial killer começou a caçar homens violentos, abusadores e predadores que escaparam das brechas do sistema por anos. Seus corpos são descobertos mutilados com uma precisão quase cirúrgica, e a mídia rapidamente dá ao assassino um nome que espalha o medo por toda a cidade: O Açougueiro. No centro da investigação está um comandante veterano — uma das figuras mais respeitadas nas investigações criminais. Frio, metódico e impossível de intimidar, ele construiu sua carreira desvendando a verdade. Ao seu lado trabalha uma jovem médica legista cuja mente brilhante parece capaz de enxergar o que todos os outros deixam passar. Juntos, eles perseguem um assassino que não mata no caos, mas com paciência, inteligência e uma calma profundamente perturbadora. À medida que a contagem de corpos aumenta e o padrão se torna impossível de ignorar, toda a divisão é arrastada para uma corrida obsessiva contra um homem que parece entender a morte melhor do que qualquer outra pessoa. Mas algumas verdades nunca aparecem nos relatórios. Algumas não podem ser encontradas no sangue, no tecido ou no DNA. E, às vezes... o monstro mais perigoso não é aquele que você está caçando. Autópsia de um Monstro é um dark psychological thriller sobre obsessão, violência, mentes brilhantes e a linha tênue

Status
Completo
Capítulos
35
Classificação
4.5 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

A chuva caía suavemente sobre a cidade, não com violência ou dramaticidade, mas com aquela persistência fria e exaustiva que cobria as ruas com um brilho sujo e transformava as luzes de neon em manchas tremelicantes de cor.

Passava um pouco das quatro da manhã, aquela hora estranha em que as pessoas comuns ainda dormiam profundamente sob cobertores quentes enquanto a cidade revelava sua verdadeira face.

As boates estavam esvaziando lentamente.

Viciados procuravam sua última dose em esquinas mal iluminadas.

As sirenes ecoavam com mais clareza entre os prédios encharcados pela chuva.

E a Divisão de Investigação Criminal recebia, como de costume, seus chamados mais sórdidos justamente quando a noite parecia pronta para desmoronar.

No estacionamento subterrâneo, os motores pretos dos veículos da divisão ganharam vida quase simultaneamente. Seus faróis brancos refletiam no chão de concreto molhado entre as pilastras, enquanto os passos apressados dos policiais ecoavam pela estrutura.

Cassian Ward desceu por último.

Seu sobretudo preto estava aberto, revelando uma camisa escura esticada sobre um corpo forjado por anos de disciplina. Seus cabelos escuros estavam levemente úmidos da chuva pela qual tinha passado minutos antes, e aqueles olhos cinza-azulados pareciam ainda mais frios sob as luzes fluorescentes da garagem.

As pessoas sempre o notavam quando ele entrava em uma sala.

Não porque ele tentasse chamar atenção para si mesmo.

Mas porque sua presença ocupava o espaço sem esforço, carregando uma autoridade silenciosa que era impossível ignorar.

Um dos sargentos, um homem de ombros largos chamado Marcus Hale, fechou a porta de um carro e enfiou as mãos nos bolsos.

— A vítima já foi confirmada? — perguntou Cassian, calmamente.

— Homem. Cerca de quarenta anos. Encontrado perto das antigas docas do sul — respondeu Marcus.

— A patrulha diz que a cena é feia.

— Alguma testemunha?

— Um sem-teto que ligou para a emergência. Parece bêbado.

Cassian fez um aceno breve.

Não havia nada de incomum nisso.

Os assassinatos importantes sempre vinham acompanhados de pessoas que estavam assustadas demais, chapadas demais ou quebradas demais para oferecer qualquer coisa útil.

Outro policial se aproximou trazendo dois cafés.

Ryan Mercer era loiro, alto e quase permanentemente sarcástico, o tipo de homem que parecia relaxado demais para sua profissão, como se as piadas fossem a única coisa mantendo a morte a uma distância segura.

Ele entregou um copo a Cassian.

— Café preto. Sem açúcar. Exatamente como você gosta, para poder encarar a alma de um assassino sem piscar.

Cassian aceitou o copo sem reagir à piada, e Ryan sorriu, já acostumado àquela impossível muralha de calma.

— Um dia você vai dar risada de algo que eu disser.

— Duvido.

Marcus bufou.

Cassian ergueu o olhar para o grupo.

— Alguém sabe onde o Morel está?

Isso foi o suficiente para fazer Ryan rir imediatamente enquanto se encostava no capô do carro.

— Ele está atrasado de novo, com certeza. Aquele cara dormiria vinte e quatro horas por dia se pudesse.

Marcus balançou a cabeça, divertido.

— Não sei como, diabos, ele consegue estar exausto o tempo todo e ainda trabalhar melhor que metade da divisão.

— Porque ele provavelmente não é humano — murmurou Ryan.

— Acho que ele é movido a nicotina e café barato.

Cassian baixou os olhos para o copo em sua mão.

Faziam quase um ano que trabalhavam com Elian Morel.

Durante esse ano, o rapaz havia resolvido casos impossíveis, notado coisas que ninguém mais via, adormecido nos arquivos três vezes e chegado atrasado mais vezes do que se podia contar.

Ele era um paradoxo vivo.

Ryan pegou o celular.

— Eu liguei para ele, chefe. Ele está a caminho das docas.

Cassian ergueu uma sobrancelha.

— E daí?

Ryan sorriu.

— Ele atendeu no quinto toque e acho que ainda estava meio dormindo.

Marcus soltou uma risada curta.

— Eu juro que um dia ele vai aparecer em uma cena de crime usando chinelos.

Cassian abriu a porta do carro.

— Se ele resolver o caso, pode aparecer até enrolado em um cobertor.

As docas do sul cheiravam a água estagnada, óleo diesel e chuva fria.

O céu ainda estava quase preto e as ondas batiam contra estruturas de metal enferrujado, enquanto a fita amarela da polícia isolava a cena do crime e as luzes intermitentes pintavam os contêineres de carga em tons de azul e vermelho.

Quando Cassian saiu do veículo, todos os policiais na área se voltaram instintivamente para ele.

— Chefe...

— Onde está o corpo?

Um agente o guiou imediatamente por um dos becos estreitos entre os contêineres, onde a vítima estava estirada sobre o concreto molhado.

Era um homem grande.

Seu rosto estava inchado, irreconhecível.

Seu abdômen estava aberto.

Ryan praguejou baixinho atrás deles.

— Jesus...

Cassian agachou-se lentamente ao lado do cadáver e sua expressão tornou-se instantaneamente fria e atenta.

A incisão era precisa.

Precisa demais para ser resultado de um ataque de fúria.

— Não parece ter sido feito às pressas — murmurou Marcus.

— Porque não foi — respondeu Cassian calmamente.

A chuva batia suavemente em seu sobretudo enquanto ele estudava os rastros fracos de sangue que levavam aos canais de drenagem, a posição das mãos da vítima e a expressão congelada em seu rosto.

Um assassino impulsivo deixava o caos para trás.

Aquela cena demonstrava controle.

Método.

Paciência.

Algo lhe dizia que o homem tinha morrido aterrorizado.

Verdadeiramente aterrorizado.

Ao longe, um motor se aproximava rápido demais.

Ryan virou a cabeça.

— E lá vem ele. O fantasma exausto da medicina forense.

Um táxi amarelo freou bruscamente ao lado da fita da polícia.

A porta abriu-se quase imediatamente.

Elian Morel saiu às pressas, tentando vestir o casaco enquanto procurava nos bolsos por seu distintivo.

Seu cabelo estava completamente despenteado.

Seus olhos ainda estavam nublados pelo sono.

O uniforme médico azul-marinho sob o casaco preto estava muito amassado.

E em uma das mãos ele carregava um café que quase transbordou por completo.

Ryan explodiu em risadas.

— Meu Deus. Você realmente dormiu.

Elian ignorou-o completamente e passou por baixo da fita, quase tropeçando nos próprios pés.

— Desculpa... sinto muito mesmo — murmurou ele, ofegante.

— Meu celular estava no silencioso e...

Ele parou quando chegou até Cassian.

O comandante o observava atentamente.

Não com raiva.

Apenas com a intensidade suficiente para fazer Elian sentir-se um estudante novamente, pego desprevenido diante do único professor que ele nunca queria decepcionar.

A chuva escorria lentamente pelo maxilar de Cassian.

— Morel.

Aquela voz baixa e calma fez Elian engolir em seco.

— Sim...

— Você está vinte e um minutos atrasado.

Ryan ergueu discretamente dois dedos para Marcus.

— Novo recorde.

Marcus abaixou a mão antes que Cassian percebesse.

Elian passou a mão cansada pelo cabelo.

— Eu sei... Me desculpe. De verdade.

Cassian continuou olhando para ele por vários segundos.

— Você chegou a dormir?

Elian piscou, surpreso com a pergunta.

— Umas... duas horas.

Ryan quase riu de novo.

— Maravilha. O cara perfeito para ficar ao lado de um cadáver esquartejado.

Elian lançou-lhe um olhar exausto.

— Valeu pelo apoio moral, Mercer.

Cassian suspirou bem baixinho.

— Um dia você vai aprender que, se dormir com o celular no silencioso, alguém vai arrombar a porta do seu apartamento.

Elian baixou os olhos ligeiramente, quase envergonhado, e por um momento pareceu muito mais jovem que seus vinte e cinco anos.

— Não vai acontecer de novo.

— Ele está mentindo, resmungou Ryan.

Cassian lançou-lhe um breve olhar.

Ryan levantou as duas mãos.

— O quê? Todos nós sabemos que ele está mentindo.

Um sorriso cansado surgiu nos lábios de Elian enquanto ele calçava um par de luvas.

— Tá bom. Da próxima vez coloco cinco despertadores.

— Sete, disse Marcus.

— E deixe o celular do outro lado do quarto, acrescentou Ryan.

Elian soltou o ar devagar.

— Vocês são insuportavelmente irritantes às quatro da manhã.

Cassian deu um passo para o lado, permitindo que ele se aproximasse do corpo.

— Veja o que temos.

O profissionalismo voltou instantaneamente à sua voz.

Era sempre assim que funcionava entre eles.

Às vezes conversavam quase normalmente, com uma familiaridade construída por meses de casos, noites sem dormir e relatórios escritos lado a lado.

Depois, um cadáver aparecia e tudo se tornava frio, preciso e metódico novamente.

Elian agachou-se ao lado da vítima.

No segundo em que seus olhos caíram sobre o corpo, algo dentro dele mudou.

O cansaço desapareceu quase instantaneamente.

Seus olhos dourados ficaram completamente focados, calmos e silenciosos.

Cassian percebeu imediatamente.

Ele sempre percebia.

Elian tocou as bordas da incisão com os dedos cobertos de látex antes de mudar sua atenção para as costelas e as marcas ao redor dos pulsos.

— Ele foi contido antes de morrer, murmurou.

— Como você sabe? perguntou Marcus.

Elian nem sequer olhou para cima.

— Hemorragia subcutânea. Ele tentou se soltar.

Cassian cruzou os braços enquanto a chuva continuava caindo ao redor deles.

— Mais alguma coisa?

Elian permaneceu em silêncio por vários segundos.

— O assassino entende de anatomia.

Ryan olhou imediatamente para Cassian.

O silêncio entre eles dizia tudo.

Todos sabiam o que aquilo significava.

Pior.

Muito pior.

Elian continuou calmamente:

— A incisão... evitou os órgãos vitais. Ele queria mantê-lo vivo por mais tempo.

O silêncio tornou-se opressor.

Um dos policiais virou-se discretamente e vomitou ao lado dos contêineres.

Elian nem sequer reagiu.

Ele puxou lentamente um cigarro e acendeu-o sob a chuva, com o olhar ainda fixo na vítima.

— Estranho...

Cassian estudou-o com atenção.

— O quê é?

Elian soltou a fumaça lentamente.

— Não há raiva aqui.

Seus olhos permaneciam fixos no cadáver.

— Apenas intenção.

A chuva continuava a cair sobre o cais, transformando o asfalto em um espelho sujo onde as luzes giratórias tremiam sem parar, enquanto paramédicos e técnicos forenses já haviam começado o processo de remoção do corpo.

Os zíperes pretos dos sacos de cadáveres soavam suavemente pelo silêncio da manhã, e o ar parecia ficar mais pesado a cada minuto que passava, enquanto o amanhecer se aproximava.

Elian Morel removeu lentamente as luvas, um dedo de cada vez, sem nunca tirar os olhos da vítima.

O corpo foi cuidadosamente colocado em uma maca, enquanto a água da chuva misturada ao sangue escorria em direção aos ralos entre os contêineres.

Um dos policiais mais jovens desviou o olhar instintivamente.

Outro acendeu um cigarro imediatamente.

Ninguém nunca se acostumava com cenas como essas.

Eles simplesmente aprendiam a respirar durante elas.

Elian massageou a nuca distraidamente e inalou o ar frio da manhã.

Ele não sentia o frio.

Ou, pelo menos, na maior parte do tempo, ele já não notava quando estava com frio.

Sua mente permanecia presa nos detalhes.

Cortes.

Sangue.

Tecido.

Expressões.

Os últimos segundos da vida de uma vítima.

Era isso que o consumia.

E ele provavelmente nem percebia mais.

— Morel.

A voz de Cassian Ward surgiu calmamente atrás dele.

Elian virou a cabeça levemente.

Cassian fez um gesto breve, indicando silenciosamente que ele deveria segui-lo.

Sem explicações.

Sem dramas.

Apenas aquele movimento curto e controlado que todos na divisão entendiam imediatamente.

Elian deu um último trago no cigarro e o seguiu.

Caminharam vários metros para longe do restante da equipe, em direção à borda do cais onde o vento batia mais forte e o choque das ondas contra o metal enferrujado criava um ritmo quase hipnótico.

Por vários momentos, nenhum dos dois falou.

Cassian observava a água.

Elian enfiou as mãos nos bolsos do casaco encharcado pela chuva.

— Chefe... eu sei que me atrasei.

Sua voz estava mais baixa agora.

Menos sarcástica que o habitual.

— Fiquei acordado terminando o relatório do homicídio no apartamento Riverside.

Cassian voltou o olhar lentamente para ele.

A chuva umedecia seu cabelo escuro, enquanto as luzes rotativas da polícia esculpiam seu rosto em sombras frias.

— Eu sei.

Elian piscou, surpreso.

— Ryan me disse que você enviou o relatório à uma e vinte da manhã, continuou Cassian calmamente.

Elian soltou o ar devagar pelo nariz.

Claro que ele sabia.

Cassian sempre parecia saber tudo o que acontecia na divisão.

Risadas ecoaram fracamente um pouco mais adiante no cais, provavelmente porque Marcus tinha dito algo estúpido novamente.

Elian baixou os olhos levemente.

— Ainda não é uma desculpa.

Cassian observou-o por vários longos segundos.

Com cuidado.

Do jeito que ele sempre fazia quando tentava determinar se o jovem à sua frente estava apenas cansado ou exausto por completo.

Porque havia uma diferença.

E Cassian começava a notar essa diferença cada vez mais.

As olheiras sob os olhos de Elian ficaram mais profundas nos últimos meses.

Ele havia emagrecido.

Estava fumando mais.

E, às vezes, parecia que sua mente funcionava alguns segundos à frente do seu corpo.

— Você é jovem — disse Cassian, por fim.

Elian levantou o olhar.

— Eu sei que você precisa de tempo para respirar.

— Tempo com seus amigos.

— Sair à noite.

O tom dele não era duro.

Nem chegava a ser uma repreensão de verdade.

Era calmo.

Calmo demais.

E, de alguma forma, aquilo fazia Elian se sentir ainda mais culpado.

— Eu não espero muito de você — continuou Cassian.

— Mas, ao mesmo tempo... eu espero.

Instintivamente, Elian baixou o olhar novamente.

Exatamente como um aluno pego cometendo um erro na frente de um professor que ele respeitava demais.

O vento mexeu as mechas úmidas de cabelo em sua testa.

Cassian notou imediatamente a exaustão profunda em seus olhos.

Não era apenas falta de sono.

Era algo mais.

Algo que sugeria que a mente de Elian nunca sabia como parar de verdade.

— Olha — continuou Cassian, em um tom mais baixo.

— Você tem vinte e cinco anos.

Elian ouviu sem interromper.

— Você é a pessoa mais jovem já aceita em uma divisão forense neste nível tão rapidamente.

Ao longe, as portas de uma ambulância bateram.

O corpo já estava a caminho da patologia.

— Você tem uma mente brilhante, Morel.

As palavras foram simples.

Diretas.

Sem qualquer ênfase dramática.

Talvez fosse exatamente por isso que atingiram com tanta força.

Elian engoliu em seco, discretamente.

Ele não estava acostumado com elogios.

Não elogios sinceros.

— Você resolveu casos que estavam engavetados há décadas — continuou Cassian.

— Você notou detalhes que detetives com vinte anos de experiência ignoraram completamente.

Elian travou o maxilar levemente.

Cassian deu um passo à frente.

Sem ameaçar.

Apenas o suficiente para que sua voz não fosse engolida pela chuva.

— Não dê satisfação a pessoas que se acham melhores que você só porque são mais velhas e têm mais tempo de serviço.

Os olhos dourados de Elian se levantaram lentamente para ele.

Pela primeira vez naquela manhã, ele não parecia sarcástico.

Nem exausto.

Nem distante.

Ele simplesmente parecia jovem.

Muito jovem.

— Alguns deles já estão esperando que você falhe — continuou Cassian.

— Que você se atrase.

— Que apareça de ressaca.

— Que pareça desorganizado.

Elian soltou o ar lentamente.

Porque era verdade.

Ele sentia aqueles olhares havia meses.

Olhares de pessoas que achavam que ele era novo demais.

Magro demais.

Uma criança demais.

E então ele resolvia os casos deles.

O que só os fazia ter mais ressentimento.

— Eu sei — murmurou Elian.

Cassian o observou em silêncio por vários segundos.

— Você não precisa provar para ninguém que é brilhante.

Uma rajada de vento frio passou entre eles.

— Mas precisa provar que consegue sobreviver aqui.

As palavras pairaram no ar.

E Elian entendeu imediatamente o que ele quis dizer.

Aquela divisão destruía as pessoas.

Não de uma vez só.

Não em um mês.

Nem mesmo em um ano.

Ela as quebrava aos poucos.

Um cadáver por vez.

Uma criança morta.

Uma vítima.

Uma noite sem dormir.

Cassian sabia disso melhor do que ninguém.

Porque ele tinha visto pessoas entrarem em colapso.

Álcool.

Ataques de pânico.

Divórcios.

Suicídios.

O trabalho forense não mata rápido.

Ele mata devagar.

Elian umedeceu os lábios.

— Eu dou conta.

Cassian sustentou seu olhar por alguns segundos, como se tentasse decidir se acreditava nele.

— Não tente me convencer.

— Convença a si mesmo.

O silêncio se estabeleceu entre eles.

Então, em algum lugar distante, Ryan gritou algo para Marcus e começou a rir imediatamente.

Elian coçou a nuca, distraído.

— Prometo que não vou me atrasar de novo.

Cassian ergueu uma sobrancelha.

— Foi o que você disse no mês passado.

Um sorriso cansado surgiu instintivamente no rosto de Elian.

Pequeno.

Quase infantil.

— Desta vez eu estou falando sério.

— Sei, sei.

Elian olhou para ele por alguns segundos.

— Você não acredita nem um pouco em mim, acredita?

Pela primeira vez, algo quase imperceptível surgiu na expressão de Cassian.

Um leve traço de divertimento, tão breve que poderia ter sido imaginação.

— Nem um pouco.

Elian suspirou de forma teatral e puxou outro cigarro.

Cassian notou imediatamente.

— Qual é o número desse?

— Não sei.

— Você é um péssimo mentiroso.

Elian acendeu o cigarro e tragou profundamente.

— É porque estou cansado.

Cassian balançou a cabeça de leve.

Então, seu olhar voltou para o cais, para as pessoas que ainda se moviam pela cena do crime.

Sua voz tornou-se fria e profissional novamente.

— Quero o relatório completo até o meio-dia.

— Você terá.

— E Morel...

Elian olhou para cima.

Cassian sustentou seu olhar por alguns segundos.

— Vá para casa depois da autópsia e durma pelo menos algumas horas.

As palavras vieram tão naturalmente que Elian foi pego de surpresa, de verdade.

Porque, à sua maneira fria e contida...

Cassian Ward tinha acabado de cuidar dele.



"Nem toda luz é boa.

Nem toda escuridão é má."

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I love mystery, intriguing moments, this is a great read looking forward to the journey.

19 dias
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