Prólogo
Prólogo
A Aurora cortava o céu da meia-noite acima das copas das árvores, pintando fitas verdes e violetas pelo firmamento.
Sob as árvores, a floresta permanecia como uma muralha de sombras impenetráveis.
Um grande dragão movia-se por entre as árvores.
Vapor saía de suas narinas, e ele mantinha as asas pesadas bem rentes às costas. Seu peso deixava marcas profundas na neve.
O olhar do dragão varria a linha das árvores, sem se deixar atrapalhar pela escuridão.
Uma rajada de vento soprou pela floresta.
Trazendo um cheiro estranho.
Invasores.
Suas narinas se abriram, e seus lábios se retraíram num rosnado silencioso. Ele esperou, um rosnado baixo crescendo em seu peito.
Três figuras surgiram ao longe, aproximando-se do extremo norte.
Suas capas vermelhas se destacavam contra o branco e o preto austeros da floresta nevada à meia-noite.
Cavaleiros Sombrios.
Eles os tinham encontrado.
O dragão se abaixou.
Tensionou os músculos.
Mostrou os dentes.
O vento mudou e um cavaleiro ergueu a mão. Os outros desaceleraram e viraram a cabeça, olhando para as árvores onde a criatura estava agachada.
Eles não conseguiam vê-lo por causa da neve e da escuridão, mas podiam senti-lo.
As pupilas do dragão se estreitaram até virarem fendas.
Havia eras que ele não provava o sangue de um Cavaleiro Sombrio.
A saliva se acumulou no fundo de sua garganta.
Havia coisas mais importantes do que vingança.
Um cavaleiro ergueu uma lâmina. A mão de outro brilhava com a luz vermelha fervilhante de uma magia corrompida. Um terceiro cavaleiro sussurrou algo que tornou a neve pesada preta sob ele. A corrupção se espalhou. Onde tocava uma raiz de pinheiro, a madeira escurecia, rachava e se desfazia em cinzas.
A criatura saiu de entre as árvores, com as mandíbulas abrindo-se enquanto um inferno era expelido. Os cavaleiros giraram para evitar as chamas crescentes, mas a criatura traçou um anel de fogo ao redor dos três, com paredes de chamas bloqueando todas as direções.
O dragão se virou e disparou floresta adentro, em direção ao abrigo escondido.
***
Aninhado no berço da floresta havia um abrigo feito de couro costurado e madeira-de-ferro. Lá dentro, uma jovem mulher estava caída contra a parede. Sempre que suas pálpebras pesadas se fechavam, as sombras nos cantos se contorciam, e ela despertava com um solavanco. Por dias, ela lutara contra o sono. Cada rajada de vento parecia um passo, cada galho quebrado, uma lâmina sendo desembainhada.
Um pequeno berço repousava ao seu lado, e de dentro vinha a respiração suave e rítmica de um bebê adormecido — o único som no mundo que não a enchia de pavor. Ela se abaixou para ajeitar o cobertor em torno do bebê, mas seus dedos se atrapalharam com o tecido.
Um som pesado ecoou do lado de fora — distante, mas aproximando-se.
Sua cabeça se ergueu num sobressalto, seu coração disparando num ritmo frenético.
Não.
Ainda não.
Não agora.
Ela encarou a porta, a mão deslizando em direção ao punhal em seu cinto.
A porta se abriu com um estrondo e o frio invadiu a cabana. Uma forma massiva preencheu a entrada. Mas a mulher lá dentro relaxou os ombros, e o fôlego que ela prendia no peito saiu lento e constante.
Uma voz profunda e retumbante soou não na pequena choupana, mas em sua mente: "Eles nos encontraram — Cavaleiros Sombrios. Precisamos ir. Agora! Eles estão quase em cima de nós".
"Não — não, não, não —", sua voz se transformou em um suspiro estrangulado. Pela porta, um brilho alaranjado pulsava entre as árvores. O cheiro acre de fumaça preenchia o ar. Vozes hostis ecoavam pelas árvores enquanto os Cavaleiros lutavam para escapar do fogo.
Eles estavam vindo buscar seu bebê.
Uma rajada de vento atingiu a cabana. Em algum lugar da floresta, as chamas crepitavam e rugiam. Ela se levantou e atravessou o quarto até um baú escondido sob a janela. Ela o abriu com força e começou a enfiar seus pertences em uma bolsa gasta. Ela tirou sua capa e a enrolou nos ombros, com os dedos atrapalhados ao tentar fechar o fecho.
"Seraphina —"
"Não há mais para onde ir", ela disse em voz alta. Ela pressionou a mão contra a testa. "Lugar nenhum... nem as aldeias, nem as florestas. Eles sempre nos encontram. Vão levá-la. Oh deuses, o que farão com ela —"
Ela não conseguiu terminar. Não conseguia dizer em voz alta o que os Cavaleiros Sombrios faziam com crianças como a dela.
"Então deixaremos Aerion."
Ela congelou, a mão agarrada à bolsa. "Nós não podemos."
Do lado de fora, uma árvore caiu no chão com um estrondo. O rugido do fogo ficou mais alto.
"Nós precisamos."
"Os guardas nas Fendas — eles saberão. Eles verão o que eu sou — o que ela é — e me matarão antes mesmo de eu chegar perto!"
O dragão baixou a cabeça até que seus olhos ficassem nivelados com os dela: "Então eu lutarei contra eles. Eu os manterei ocupados enquanto você corre".
"Não!", a voz de Seraphina falhou. "Se você lutar contra eles sozinho, vai morrer! São muitos, e então eles vão me pegar de qualquer jeito, e tudo será em vão! Você sempre encontra outro caminho —"
"Não há outro caminho. Minha longa vida termina aqui, Seraphina. Que seja por você. Pela pequena. Prometa-me que ela nunca cairá nas mãos de Soraxis."
O olhar de Seraphina desviou-se para o berço. Ela atravessou o quarto em três passadas e ajoelhou-se ao lado dele, as mãos tremendo ao alcançar o interior. O bebê se mexeu quando Seraphina a pegou, tão pequena e frágil em seus braços. Os olhos da criança se abriram por um momento — brilhantes, curiosos — antes de se fecharem novamente.
Seraphina abraçou sua filha com força enquanto a dor a dilacerava, lágrimas trilhando caminhos em suas bochechas.
"Me desculpe", ela sussurrou no cabelo macio do bebê. "Sinto muito. Eu vou manter você segura. Não importa o custo."
"Teremos apenas alguns instantes quando eles romperem a barreira", disse o dragão. "Não desperdice nem um segundo se preocupando com o que farão comigo. Abra um portal para a Fenda do Norte e não pare."
Seraphina engoliu seco o nó em sua garganta enquanto envolvia a criança no cobertor, prendia a bolsa ao ombro e saía para a noite congelante.
As árvores gemiam com o vento e as chamas estalavam à distância, mas, por enquanto, o caminho parecia livre. Os Cavaleiros Sombrios estavam perto — ela podia ouvir seus gritos abafados atrás da parede de fogo —, mas por ora, ela se mantinha. Seraphina entrou na clareira, o frio cortando através de sua capa. O dragão movia-se ao lado dela.
Ao longe, o anel de fogo estava falhando.
Um cavaleiro atravessou a fumaça.
Depois outro.
Depois um terceiro.
Eles emergiram da floresta em chamas e se espalharam pela borda da clareira, com as armas em punho. Magia vermelha tremeluzia entre seus dedos.
Com um rugido estrondoso, o dragão entrou na frente dela, abrindo suas asas massivas. Fogo explodiu de suas mandíbulas, varrendo a neve em uma parede flamejante entre eles e os cavaleiros.
Os cavaleiros recuaram, protegendo os olhos.
Um ergueu a mão e lançou magia carmesim contra as chamas. Outro gritou um encantamento. A parede de fogo oscilou e se contorceu enquanto eles lutavam para romper.
Seraphina virou-se para seu dragão, os olhos cheios de lágrimas. Ela deu um passo à frente e pressionou a testa contra sua cabeça de escamas grandes. Sua respiração a envolveu em ondas gentis.
Aquela era a última vez que ela sentiria aquilo.
Um soluço escapou de sua garganta. Sua mão livre subiu para descansar contra a mandíbula dele, os dedos espalhando-se sobre as saliências e sulcos.
Ela havia voado sobre essas escamas.
Dormido contra esse calor.
Crescido à sombra desta criatura magnífica que a escolhera, a amara, a protegê-la.
E agora ele morreria por ela.
Além da parede de fogo, ouviam-se gritos. O estalo da magia. Os gritos distantes à medida que os cavaleiros forçavam o caminho.
O dragão estava entre ela e a morte, como sempre estivera.
"Eu não posso —", sua voz falhou. As palavras não vinham. Seus ombros tremeram enquanto ela pressionava com mais força contra ele, como se de alguma forma pudesse se fundir a ele.
Mas não havia outro jeito.
"Obrigada", ela sussurrou. "Por tudo."
"Vá. Não olhe para trás."
Ela tentou se afastar, mas sua mão permaneceu pressionada contra as escamas dele, sua testa ainda contra a dele. Ela queria ficar. Lutar ao lado dele. Morrer ao seu lado, se fosse necessário.
Mas o bebê se mexeu contra seu peito. Seraphina olhou para baixo e se afastou, segurando a filha com mais força. Então ela ergueu a mão livre e a moveu em um círculo lento.
Ela não conseguia alcançar a Terra diretamente.
Mas podia alcançar a Fenda do Norte.
A luz inundou a floresta da meia-noite — brilhante, ofuscante, vertendo de suas pontas dos dedos como prata líquida.
Um grito escapou de seus lábios quando o poder a percorreu.
Seus joelhos quase cederam sob ela.
A neve ao redor explodiu para fora.
As árvores gemeram quando um vento violento atravessou a clareira.
O ar tremeluziu e rasgou, e um portal se abriu diante dela.
Além dele estendia-se uma vasta plataforma de metal suspensa sobre um deserto congelado. Muito além da plataforma, cortinas da Aurora verde e violeta dançavam pelo firmamento.
A Fenda do Norte.
Além da plataforma esperava a Terra.
Além da plataforma esperava o exílio.
Uma vez que ela cruzasse a Fenda, não haveria volta para casa.
Ela obedeceu à última ordem dele e não olhou para trás. Enquanto mergulhava no portal cintilante, um rugido de fúria ecoou do mundo que ela estava deixando. Os gritos dos homens e o cheiro ardente do fogo de dragão a seguiram.
A fenda engoliu a ela e à criança.
Ela se foi.









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