Capítulo 1: Vida nova em um piscar de olhos
O despertador tocou exatamente às 06:00. Kairos Kioto abriu os olhos sem pressa, como se o som fosse apenas mais uma variável irrelevante no ambiente. Não disse uma palavra. Não bocejou. Não esticou os braços. Apenas se levantou, vestiu o uniforme novo da Advanced Tokyo Institute — aquele blazer preto com detalhes dourados que simbolizava a elite — e saiu do apartamento.
Normalidade. É isso que meu pai quer. Acordar, ir à escola, fingir que sou apenas mais um garoto de dezesseis anos com notas medianas e zero ambição.
O trajeto até a escola foi silencioso. Kairos observava os outros estudantes que caminhavam no mesmo sentido: alguns rindo alto, outros com fones de ouvido, a maioria ainda sonolenta.
Ao entrar pelos portões imponentes da escola, o vento frio da manhã bagunçou levemente seu cabelo preto. Kairos ajustou a gravata, olhando um grupo de meninas e seguiu pelo corredor principal.
— Ei, você é o novo da turma A, né?
A voz veio de uma garota de cabelos castanhos longos e olhos castanhos. Ela se aproximou com um sorriso educado demais para ser genuíno.
— Aliás, qual é mesmo seu nome?
— Kairos Kioto. E o seu?
— Haruka Mizuki, prazer em conhecê-lo.
— Bem-vindo. Ela inclinou a cabeça, como se estivesse-o testando.
— Dizem que você não fala muito. E que suas notas nos testes de admissão foram... suspeitas.
Kairos manteve o rosto neutro.
— Suspeitas? Ele repetiu calmamente. — Só estudei bastante. Nada demais.
Na verdade, eu poderia ter tirado 100. Mas 70 é o suficiente para não ser notado, sem ser ameaçador demais. Equilíbrio é tudo.
Haruka riu baixinho.
— Bom, a turma A é diferente. Aqui a gente compete pra valer. Todo mês tem os exames especiais. Quem cair pra Classe B ou abaixo... bem, as consequências não são leves.
— Entendido.
Eles caminharam juntos até a sala. Assim que Kairos entrou, o burburinho diminuiu. Vinte e poucos pares de olhos o avaliaram. Ele sentiu o peso das expectativas — e do desprezo.
Durante a primeira hora, o professor apresentou as regras da escola: pontos de classe, o sistema de ranking mensal, as recompensas e punições. Kairos ouvia com atenção fingindo atenção enquanto olhava para um grupo à sua frente.
Turma A. A mais forte. Cheia de talentos naturais, herdeiros e alunos com conexões. Perfeito para quem quer brilhar. Mas brilhar chama atenção. E atenção é o oposto de controle.
No intervalo, aconteceu.
Um grupo de quatro alunos — liderados por um garoto alto chamado Renji Takahashi — o cercou no fundo da sala.
— Olha, Kairos, começou Renji, cruzando os braços. — A gente votou. Você não se encaixa aqui. Suas respostas nas dinâmicas de grupo foram estranhas. Parece que você não corresponde aos níveis atuais da sala, notas muito baixas.
Kairos ergueu uma sobrancelha.
— Baixas? Achei que estava na média, foi todo meu melhor.
— É. Tipo agora. Renji deu um passo mais perto. — Você não demonstra habilidades reais. Isso deixa a turma desconfortável. A gente não precisa de peso morto para carregar.
Kairos não elevou a voz. Não precisou.
— Então vocês querem me expulsar da Classe A logo no primeiro dia?
— Não é expulsão, corrigiu Haruka Mizuki, juntando-se ao grupo. — É... realocação. Pra seu próprio bem. A Classe D tem gente mais... simples. Você vai se encaixar melhor lá.
Kairos ficou em silêncio por alguns segundos.
— Entendo. Ele sorriu educadamente. — Vocês estão protegendo o grupo. Admiro isso.
Quando o dia terminou, Kairos já havia sido oficialmente transferido para a Classe D. A sala era visivelmente mais barulhenta, mais desorganizada. Alunos jogando conversa fora, alguns dormindo na carteira, poucos realmente preocupados com o ranking.
Ele entrou e escolheu um lugar no fundo. Yuna Aizawa — que também havia sido realocada por "problemas" — sentou-se duas carteiras à frente. Ela virou o rosto levemente, fingindo arrumar o cabelo.
Kairos falou baixo, quase para si mesmo, mas alto o suficiente para ela ouvir:
— Uma sala cheia de descartados.
Yuna virou-se devagar.
— É você e um deles, mas não parece o tipo que aceita ser descartado, esquisito.
— Esquisito? Mim chamo Kairos. Ele corrigiu suavemente. — E você também não parece o tipo que aceita ficar na Classe D por muito tempo.
Ela sorriu de canto.
— E o que você sugere?
Agora começa.
Kairos inclinou-se levemente para frente, voz baixa, quase um sussurro:
— Eu sugiro que a gente transforme essa sala no que ela nunca foi. O fundo do poço costuma ser o melhor lugar para quem quer subir. Ninguém espera movimento vindo de baixo.
Yuna sustentou o olhar por longos segundos. O resto da sala continuava barulhenta, alheia.
— Você fala como se já tivesse um plano.
— Vamos por partes, vou desenvolver isso na hora certa.
— Mas porque eu deveria confiar em você?
— Porque tenho o mesmo objetivo, chegar a turma A é isso basta.
Ela olhou desconfiada mas falou seu nome.
— Ok, podemos ser aliados no momento, meu nome e Yuna Aizawa. Prazer.
— Prazer em ter conhece Yuna.
Ela desviou o olhar dele é se virou para frente.
Enquanto o sol da tarde entrava pelas janelas, Kairos Kioto olhou para o quadro vazio da sala D e pensou:
Classe A me expulsou achando que era uma punição.
Eles não fazem ideia do que a por vir.
Fim do Capítulo 1








