A Defesa de Linda

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Resumo

Por que ele ficaria do lado de uma estranha em vez do seu próprio tio? Por que ele arriscaria sua carreira, sua herança e o nome da família por uma mulher que mal reconhece seus sentimentos? Porque Marco sabe de uma coisa com absoluta certeza: Linda não é uma assassina. À medida que segredos enterrados na poderosa família Noughton começam a vir à tona, Marco e Linda são arrastados para uma batalha pela verdade que nenhum dos dois esperava. Enquanto Linda luta para sobreviver a um sistema determinado a vê-la como descartável, Marco precisa decidir o quanto está disposto a sacrificar por justiça — e pela mulher que ele não consegue parar de amar.

Gênero
Drama/Romance
Autor
Esoye
Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

O cheiro de madeira queimada e terra úmida sempre a levava de volta à cozinha em Michoacán. Mas hoje, o cheiro de cinza era diferente. Não vinha de um fogão a lenha ou de um monte de mato sendo queimado. Vinha da pequena casa de adobe de um cômodo só, onde Linda Manuela tinha passado todos os dias de sua vida. Vinha do colchão, das cadeiras de madeira e das poucas fotografias desbotadas que ela, deliberadamente, tinha incendiado atrás da casa antes de trancar a porta da frente pela última vez.

Abuela Elena tinha partido. O ataque cardíaco a levou rapidamente, ali mesmo na varanda, enquanto o sol da tarde se punha atrás das montanhas. Agora, dois dias depois do enterro modesto que tinha drenado até o último centavo de suas economias, Linda estava parada à beira da estrada de terra. Ela tinha vinte e oito anos, estava completamente sozinha e carregava tudo o que possuía em uma única mochila de lona gasta.

Sem a avó, o povoado parecia um cemitério. Não havia trabalho, não restava família a quem recorrer e não havia motivo para ficar em um lugar que só a lembrava do que tinha perdido. O luto já não era uma dor aguda; era um peso sufocante que tornava difícil respirar. Ela não tinha um grande plano. Só sabia que precisava seguir em frente, ou o vazio a engoliria por completo.

Linda ajustou as alças da mochila, puxou sua jaqueta jeans para mais perto do corpo e começou a caminhar em direção à rodovia principal.

A jornada para o norte começou em uma sucessão de ônibus locais lotados e barulhentos. Por dois dias, Linda olhou pela janela enquanto as colinas verdes e exuberantes de sua região davam lugar às paisagens áridas e severas do norte do México. Ela quase não comeu, forçando-se a engolir pedaços de pão amanhecido e goles de água morna apenas quando sua cabeça começava a latejar. Toda vez que fechava os olhos, ela via as mãos calejadas da avó embrulhando tortilhas quentes em um pano de prato. A lembrança trazia lágrimas aos seus olhos, mas ela as limpava rapidamente. Ali fora, demonstrar vulnerabilidade fazia de você um alvo.

Quando o ônibus finalmente a deixou em uma cidade empoeirada na fronteira, a realidade do que ela estava prestes a fazer pesou em seu estômago como uma pedra. A cidade era um labirinto caótico de prédios de concreto baixos, ruas de terra e pessoas desesperadas. Homens com olhares duros ficavam parados nas esquinas, observando cada recém-chegado.

Linda tinha um nome e um número de telefone rabiscados em um pedaço de papel escondido no fundo de seu sapato — um contato de um coiote, que uma vizinha lá em casa tinha lhe dado meses atrás durante uma conversa informal sobre parentes que tinham ido para o norte. Ela levou três horas de espera nervosa em uma lanchonete mal iluminada até que um homem chamado Hector finalmente se aproximou de sua mesa.

Hector não parecia um monstro; parecia um empresário cansado. Ele não perdeu tempo com gentilezas. Pegou o envelope de dinheiro que ela tinha conseguido juntar vendendo a velha máquina de costura da avó e suas poucas joias de prata. Ele pesou o envelope na mão, deu um aceno seco e disse para ela estar em um armazém específico perto do limite da cidade à meia-noite.

“Traga água”, disse ele friamente, sem nem olhar nos olhos dela. “E se você ficar para trás, nós não vamos esperar.”

O armazém estava gelado quando ela chegou. Uma dúzia de outras pessoas já estava lá, amontoadas na escuridão. Havia homens jovens com ar ansioso, uma mãe segurando uma criança pequena e quieta, e dois irmãos adolescentes que pareciam aterrorizados. Ninguém falava. O ar estava pesado com a tensão e o cheiro de escapamento.

À 1:00 da manhã, Hector e outros dois homens mandaram todos subirem na carroceria de uma picape coberta. Eles se espremeram tanto que Linda conseguia sentir o batimento cardíaco frenético da mulher pressionada ao seu lado. O caminhão dirigiu por horas, saltando violentamente sobre estradas de terra no deserto até que finalmente parou com um guincho.

“Desçam”, sibilou uma voz lá da frente. “Agora. Movam-se rápido.”

Eles saltaram para a noite gélida do deserto. A lua era apenas um filete, oferecendo luz mal o suficiente para ver a silhueta do homem que os guiava. Ele apontou para uma vasta e escura extensão de nada à frente.

“A cerca da fronteira fica a três quilômetros naquela direção”, murmurou o guia. “Assim que cruzarmos, caminharemos por dois dias pelo deserto até chegar à rodovia. Mantenham a boca fechada e fiquem perto.”

A caminhada até a cerca foi um borrão de adrenalina e medo. As botas de Linda afundavam na areia fofa a cada passo, fazendo suas panturrilhas doerem. Quando chegaram à barreira — uma estrutura imponente de barras de ferro enferrujado — os guias tiraram uma escada de metal pesada. Um por um, os migrantes subiram. Quando chegou a vez de Linda, suas mãos tremiam violentamente contra o metal frio. Ela se forçou a olhar para a frente, escalando o topo e pulando para a terra do outro lado.

Ela estava nos Estados Unidos. Mas não havia tempo para assimilar aquilo.

“Corram”, sussurrou o guia.

As trinta e seis horas seguintes tornaram-se um teste de sobrevivência pura. O deserto era um inimigo de extremos. Durante a noite, a temperatura caía tanto que os dentes de Linda batiam descontroladamente, e sua respiração formava nuvens brancas espessas no ar. Ela prendeu o cabelo em um coque apertado, tentando mantê-lo longe do rosto enquanto o vento cortante a açoitava.

Então veio o dia. Ao meio-dia, o sol era um martelo escaldante batendo sobre a paisagem árida. O espaço vasto e vazio não oferecia sombra alguma. O solo cozinhava sob seus pés, irradiando calor através das solas das botas de Linda.

Seu suprimento de água estava diminuindo mais rápido do que ela esperava. Cada gole parecia um luxo, mas sua garganta estava tão seca que parecia lixa. Seus pés eram uma massa de bolhas, e cada passo enviava uma pontada de dor por suas pernas. Por duas vezes, ela tropeçou em cactos baixos, arranhando as mãos e os joelhos no chão rochoso.

“Vamos”, ela sussurrou para si mesma, forçando as pernas a continuarem se movendo. “Só mais um passo. Pela Abuela.”

Na segunda noite, a exaustão física foi agravada por uma pressão psicológica aterrorizante. O deserto estava completamente escuro, exceto pelas estrelas acima. Cada farfalhar de arbusto seco ou uivo distante de um coiote fazia o grupo congelar em pânico. O medo da patrulha de fronteira era uma sombra constante. Por várias vezes, o guia ordenou que todos se deitassem no chão e ficassem perfeitamente imóveis enquanto os faróis distantes de um veículo passavam a um quilômetro de distância. Linda pressionou o rosto contra a poeira, prendendo a respiração, com o coração martelando contra as costelas tão alto que ela tinha certeza de que os oficiais ouviriam.

Quando o segundo dia amanheceu, o grupo tinha diminuído. A mãe e seu filho tinham se separado deles horas antes, quando não conseguiram acompanhar o ritmo, sendo deixados para trás no escuro — uma constatação brutal que atingiu Linda no fundo da alma. Seu próprio corpo gritava por descanso. Seus lábios estavam rachados e sangrando, e seus olhos ardiam pela poeira e pelo suor. Ela sentia tontura, com a visão embaçando nas bordas. Ela sabia que, se sentasse para descansar, talvez nunca mais se levantasse.

Finalmente, quando o calor da tarde estava se tornando insuportável, o guia parou no topo de uma colina baixa. Ele apontou para baixo, em direção a uma longa fita de asfalto preto que se estendia pelo deserto ao longe.

“A rodovia”, disse o guia, com a voz falhando de cansaço. “Uma van estará esperando no ponto de parada a três quilômetros daqui. Se conseguirem entrar, estão no caminho. Se não, estão por conta própria.”

Linda olhou para a estrada distante. Parecia estar a quilômetros de distância, uma distância impossível para seu corpo dolorido e machucado. Mas, ao respirar fundo e trêmula, ela sentiu uma centelha repentina e teimosa de sobrevivência brilhar dentro de si. Ela tinha sobrevivido ao luto de perder sua casa. Tinha sobrevivido à cerca da fronteira, às noites congelantes e aos dias escaldantes. Ela não ia morrer ali, na terra.

Com a última gota de água de sua garrafa engolida, Linda apertou as alças da mochila e começou a descida final pela colina em direção à estrada, caminhando em direção a um futuro desconhecido.