Prólogo
Kael
No momento em que a vejo, o mundo se estreita.
Não desaparece — estreita-se —, como se tudo o que já importou tivesse sido puxado para um único ponto a seis metros de mim.
Riven Ash.
O laço não chega gentilmente. Ele não se constrói, não questiona, não espera. Ele ataca — violento e absoluto —, cravando-se no meu peito como uma lâmina que pertence ali. Meu lobo avança com um reconhecimento tão completo que parece inevitável.
Minha.
A palavra não é dita. Não precisa ser.
Ela também sente isso.
Eu sei que ela sente, porque seu corpo se imobiliza no mesmo instante que o meu. Porque seus olhos se levantam para encontrar os meus e, por uma fração de segundo, algo cru cintila ali. Não é surpresa. Não é confusão.
É reconhecimento.
E então...
Desaparece.
Substituído por algo mais frio. Algo decidido.
É aí que entendo: ela sabia.
Ela não tropeçou neste momento por acaso. Ela caminhou até ele de propósito.
A Clareira da Lua está silenciosa ao nosso redor. O bando está reunido à distância, observando sem ousar interromper. O ar parece parado, como se a floresta estivesse escutando.
Eu dou um passo à frente.
Um passo é tudo o que basta para o laço apertar, puxando, exigindo uma conclusão. Meu pulso bate mais forte a cada centímetro que diminui entre nós. Meu lobo pressiona, inquieto, impaciente: reivindique-a, complete isso, termine o que já começou.
Riven não se move em minha direção.
Ela se mantém firme.
Esse deveria ter sido meu primeiro aviso.
“Riven”, digo, seu nome soando áspero em minha garganta, estranho e, ao mesmo tempo, como algo que eu sempre soube. “Você sente isso.”
Não é uma pergunta.
O olhar dela não se desvia do meu. “Eu sinto.”
Sem hesitação. Sem negação.
Então por que...
Fecho a distância entre nós, parando pouco antes do contato. Perto o suficiente para sentir o calor dela, a atração, a inegável conexão que vibra sob minha pele.
“Então vamos terminar isso.”
Simples. Certo. Como deveria ser.
Minha mão se levanta, o instinto a guiando até ela — até o lugar onde o laço será selado, onde tudo se encaixará e silenciará a inquietação dentro de mim.
Ela não recua.
Ela não dá um passo atrás.
Mas sua voz corta o momento antes que eu possa tocá-la.
“Não.”
A palavra atinge mais forte do que qualquer golpe que já recebi.
Por um segundo, acho que ouvi errado.
O laço pulsa, confuso, agitado — meu lobo avançando em um protesto agudo.
“Você não entende o que está dizendo”, digo a ela, agora mais baixo, mais perigoso. “Esta não é uma escolha da qual você pode fugir.”
A expressão dela não vacila.
“Eu entendo exatamente o que estou dizendo.”
Não há medo nela. Não há incerteza.
Apenas determinação.
Do tipo que não se dobra.
Um rosnado baixo surge em meu peito, involuntário. “Você sente o laço. Você sabe o que é isso.”
“Eu sei.”
“Então por que está lutando contra ele?”
Pela primeira vez, algo muda no olhar dela — não é suavidade, não é arrependimento. É algo mais pesado. Algo que se instala profundamente e se recusa a sair.
“Não estou lutando contra ele”, diz ela.
Uma pausa.
“Estou recusando-o.”
A clareira fica em silêncio de uma forma não natural. Até o vento parece recuar, esperando.
Meu lobo se debate contra a minha pele, furioso, incrédulo. O laço se estica, tenso entre nós, exigindo resolução, exigindo conclusão.
Ela está quebrando algo que não deveria poder ser quebrado.
“Você não tem o direito de recusar isso”, digo, cada palavra agora afiada, cortada por algo mais frio que a raiva. “Não sem consequências.”
“Eu sei.”
Lá está novamente — aquela certeza.
Isso me perturba mais do que a própria recusa.
Dou um passo à frente, forçando-a a ceder ou a me enfrentar totalmente. “Então explique.”
O maxilar dela se contrai, apenas um pouco. A única fissura visível naquela fachada controlada.
“Não.”
A palavra atinge com mais força desta vez.
“Me dê um motivo”, exijo. “Um que faça sentido.”
O silêncio se estende entre nós.
E, nesse silêncio, eu vejo — o lampejo que ela tenta esconder. Não é dúvida.
É algo como... aceitação.
Como se ela já tivesse escolhido o custo.
Quando ela finalmente fala, sua voz está firme.
“Existe outro caminho para você.”
As palavras soam erradas no momento em que saem de sua boca.
“Não existe outro caminho”, respondo rispidamente. “Este é o único.”
O olhar dela mantém-se no meu, inabalável.
“Você acredita nisso”, diz ela. “Não acreditará mais tarde.”
Algo frio percorre minha espinha.
“O que isso significa?”
Ela não responde imediatamente. E quando o faz, é de forma medida — controlada, revelando apenas o que ela quer que eu saiba.
“Você terá outra chance.”
O laço recua com as palavras, como se as rejeitasse completamente.
“Não é assim que funciona.”
“Agora é.”
Minha paciência se esgota.
Tento alcançá-la novamente, mais rápido desta vez, decidido a terminar com isso antes que tudo saia do controle.
Sua voz corta o momento, afiada como uma lâmina.
“Eu rejeito você.”
Tudo para.
Não desacelera. Não hesita.
Para.
O laço se estilhaça com uma força que parece física, rasgando meu peito e deixando um vazio cru e exposto em seu lugar. O eco permanece, irregular e incompleto, como uma ferida que não sabe como cicatrizar.
Por um segundo, não consigo respirar.
Não consigo pensar.
Só posso sentir a ausência onde algo ainda deveria existir.
A clareira entra em alvoroço — suspiros, movimentos, descrença —, mas tudo soa distante, abafado pelo silêncio rugidor dentro da minha própria cabeça.
Riven permanece exatamente onde estava.
Imóvel.
Intacta.
Ela também sente — vejo pela leve tensão em seus ombros, pela forma como sua respiração parece um pouco mais profunda que antes.
Mas ela não tenta alcançar o que restou do laço.
Não tenta consertá-lo.
Ela o deixa morrer.
Lenta e deliberadamente, eu me endireito.
O que quer que estivesse me puxando em sua direção desapareceu agora, substituído por algo mais frio. Mais agudo.
“Você cometeu um erro”, digo, minha voz baixa e controlada, num esforço que custa mais do que a raiva.
Um lampejo passa pelos olhos dela.
Não é dúvida.
É reconhecimento.
“Eu sei”, diz ela calmamente.
As palavras não soam como arrependimento.
Soam como algo pior.
Antes que eu possa pressionar mais, antes que eu possa exigir mais do que essas meias-respostas que ela oferece como migalhas —
Ela acrescenta, quase como uma reflexão tardia:
“Quando ela chegar... eu a protegerei.”
A afirmação soa errada.
“Quem?”
Mas Riven já está se afastando, criando distância onde antes o laço nos mantinha unidos.
“Ela vai precisar”, diz Riven.
Sem explicação. Sem detalhes.
Apenas certeza.
E, pela primeira vez desde que entrei nesta clareira, algo estranho se enrosca em meu peito.
Não é dor.
Não é raiva.
É algo mais próximo de inquietação.
Porque Riven Ash não toma decisões levianamente.
E ela acabou de quebrar o próprio destino —
...por alguém que nem sequer chegou aqui ainda.









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