Capítulo 1
A magia desperta a Arcana Academy antes mesmo do sol. Ela vibra pelas paredes antes mesmo que o primeiro sino toque, escorregando entre as pedras como se fosse um ser vivo. Sinto isso todas as manhãs antes de abrir os olhos. Não dentro de mim. Nunca dentro de mim. Ao meu redor. Sempre ao meu redor. Ela treme sob as tábuas do assoalho do meu quarto, suave e constante, como uma batida de coração que pertence a todos, menos a mim. Ela se move pelas antigas paredes do castelo, pelas janelas de ferro, pelas proteções de prata entalhadas acima da minha porta. Ela brilha fracamente no teto quando o amanhecer começa a esticar dedos pálidos sobre as montanhas do norte, acordando cada amuleto, cada feitiço de proteção, cada chama encantada em todos os corredores. É lindo, cruel, e é a primeira coisa que sinto toda manhã. Um lembrete.
Abro os olhos para o mesmo teto que encaro desde que tinha onze anos de idade. Vigas de madeira escura formam arcos sobre minha cama estreita, esculpidas com antigos símbolos de proteção que cintilam quando a academia detecta movimento. Os quartos da maioria dos alunos respondem a eles facilmente. Cortinas se abrem com um estalar de dedos. Velas se acendem com um sopro. Guarda-roupas se destrancam com um sussurro.
O meu permanece imóvel. As cortinas pálidas ao lado da minha cama ficam pesadas e intocadas. A vela na minha mesa continua apagada. O guarda-roupa do outro lado do quarto aguarda com suas maçanetas de latão frias e inertes. Fico deitada por mais um segundo, encarando as vigas de madeira acima de mim e fingindo que já não estou cansada.
Então, o sino da academia toca. Uma vez. O som rola pela torre como um trovão preso na pedra, sacudindo os frascos de vidro na minha penteadeira e fazendo o amuleto de prata acima da minha porta pulsar em azul.
Chamada da manhã. O primeiro dia do último semestre. O dia em que cada aluno da Arcana Academy começa a se preparar para o Eternal Flame Gathering. Meu estômago gela antes mesmo que meus pés toquem o chão. Empurro os cobertores e me sento, deixando o ar frio morder minha camisola fina. O quarto cheira a chuva, livros antigos e ao sachê de lavanda que minha mãe insiste em enfiar nas minhas gavetas, mesmo eu tendo dezessete anos e não sendo mais uma criança que precisa que suas roupas cheirem a conforto.
Olho para a janela.
Além do vidro, a Arcana Academy ergue-se da neblina como algo antigo demais para pertencer ao mundo. Torres de pedra negra lançam-se em direção a um céu matinal arroxeado. Pontes de prata conectam uma ala a outra, bem acima dos pátios ainda envoltos em névoa. Hera sobe pelas paredes externas em cordas grossas, folhas escuras brilhando com o orvalho. Lá embaixo, os campos de treinamento estão vazios por enquanto, suas arenas circulares alinhadas com runas de proteção que brilham fracamente sob a grama.
Além da academia, a floresta estende-se por quilômetros. Pinheiros negros. Névoa prateada. Montanhas recortadas de forma afiada contra o horizonte. Para olhos humanos comuns, não há nada aqui. Apenas penhascos abandonados, terras em ruínas e um clima estranho demais para se atravessar. As proteções os mantêm afastados. Elas curvam estradas. Desfocam mapas. Transformam curiosidade em esquecimento, mas, para aqueles que nasceram com magia, a Arcana Academy é impossível de não ser notada. É um palácio de poder. Uma prisão de expectativas. Um lar, se você tiver a sorte de pertencer a ele.
Levanto-me e envolvo meu roupão ao redor do corpo, fazendo uma careta quando meus pés descalços tocam o chão frio. As pedras já aqueceram para a maioria dos alunos na torre, mas as minhas nunca aquecem, a menos que os feitiços da casa sejam configurados manualmente pela equipe. Quartos sem poder para garotas sem poder, penso amargamente. Então, odeio-me por isso. Meu quarto não é sem poder. Eu sou.
Caminho até a janela e pressiono minha mão contra o vidro. Lá fora, um grupo de alunos da Tempest atravessa o pátio, suas capas azul-marinho agitando-se atrás deles com o vento. Um deles levanta a mão, e a névoa da manhã se abre ao redor deles como uma cortina. Outro aluno ri e lança uma espiral de neve para o alto, embora a estação mal tenha começado a esfriar. A neve brilha no ar, linda e inútil. Observo até que meu peito doa.
Atrás de mim, uma batida suave toca minha porta. Três toques gentis. Minha mãe. Sei disso porque todos os outros batem uma vez e esperam como se tivessem medo de que minha falta de magia pudesse ser contagiosa.
“Valentina?” A voz dela atravessa a madeira, calorosa, mas cautelosa. “Você está acordada?”
Deixo minha mão cair do vidro. “Sim.”
A porta se abre antes que eu chegue até ela. A diretora Amara Vale Starling, minha mãe, entra no meu quarto já vestida com mantos verde-esmeralda, seu cabelo loiro-claro preso em um coque firme na nuca. Ela carrega autoridade da mesma forma que outras mulheres carregam perfume. Sem esforço. Silenciosamente. Completamente. O broche de prata preso em sua garganta traz o brasão da academia: três pontas de chama envolvendo um olho aberto.
Arcana Academy observa. Arcana Academy lembra. Arcana Academy escolhe.
Minha mãe ajudou a escrever essas palavras no saguão de entrada quando se tornou diretora. Às vezes, pergunto-me se ela se arrepende delas.
Seu olhar percorre-me em uma varredura, gentil e avaliador. Ela nota o roupão puxado apertado demais ao redor dos meus ombros. A pele pálida sob meus olhos. As cortinas intocadas. A vela escura na minha mesa.
Sua boca suaviza. “Você não dormiu.”
“Eu dormi.”
“Valentina.” Ela suspira.
Desvio o olhar primeiro.
Esse é o problema de ter a diretora da Arcana Academy como mãe. Ela vê tudo. As coisas que eu digo. As coisas que eu engulo. As coisas que escondo tão fundo que tento fingir que já não são mais minhas.
“Dormi o suficiente”, digo.
Ela entra mais no quarto, e as velas respondem instantaneamente. Chamas douradas florescem pela minha mesa, minha penteadeira, as arandelas perto do meu guarda-roupa. As cortinas se abrem com um sussurro, deixando o amanhecer espalhar-se pelo chão. As portas do guarda-roupa se abrem sem que ela precise levantar um dedo.
A magia a ama. Sempre amou.
A magia da minha mãe não é barulhenta, não é violenta, não é desesperada para ser vista. Ela obedece a ela da mesma forma que a própria academia confia em suas mãos. Ela nasceu com Aether, mas não como os alunos que transformam raiva em faíscas ou dor em escudos. Sua magia é mais suave que isso. Mais antiga, do mesmo jeito que o luar é antigo. Ela pode acalmar um recinto antes que alguém perceba que ela o fez. Ela pode fazer o medo afrouxar os dentes. Ela pode tecer ordem a partir do pânico.
Ela pode fazer uma escola inteira ouvir, e, de alguma forma, ela me fez. O pensamento me atinge antes que eu possa impedi-lo, afiado e familiar. Como?
Minha mãe caminha até meu guarda-roupa e estuda os uniformes pendurados lá dentro. “Primeiro dia do último semestre”, diz ela. “Você deveria usar a capa formal.”
“Eu sei.”
Sua mão para sobre o tecido preto. A capa formal da academia é mais pesada que a do dia a dia, com fios de prata que marcam os alunos do último ano. Para a maioria dos meus colegas, o forro revela a cor de sua vertente.
Tempest usa azul. Veil usa verde. Aether usa vermelho.
A minha é preta simples. Sem vertente. Sem marca. Sem especialidade. Uma capa vazia para uma garota vazia.
Mamãe retira a peça cuidadosamente e a coloca na beirada da minha cama. “Os representantes do conselho chegam esta tarde.”
Meu estômago cai. “Hoje?”
“Eu te disse semana passada”, ela me informa.
“Você disse em algum momento deste semestre”, lembro-a.
“Eu disse no início do semestre”, ela me corrige.
“Isso não é a mesma coisa.”
Por um momento, seu rosto faz algo estranho. Não é raiva. Não é impaciência. Algo como preocupação, rapidamente escondida atrás da calma da diretora.
“Eles estão aqui para os preparativos do Gathering”, ela diz. “E para observar as colocações do último ano.”
“Claro que estão.” Reviro os olhos.
“Valentina.” Odeio quando ela diz meu nome assim. Como se quisesse me alcançar e me corrigir ao mesmo tempo.
Viro-me para a penteadeira e pego minha escova. Meu reflexo olha de volta para mim no espelho oval. Cabelo loiro claro caindo em ondas soltas sobre meus ombros. Pele pálida que parece nunca reter calor. Olhos azul-acinzentados largos demais para meu rosto pequeno, fazendo-me parecer mais nova do que sou. Frágil. Pequena. Quebrável.
É isso que todos veem quando olham para mim. Uma garota delicada em um mundo feito para o poder. Puxo a escova pelo cabelo com força demais. Mamãe vem atrás de mim e a tira gentilmente da minha mão. Deixo que ela faça isso, porque discutir tão cedo parece exaustivo. Ela começa a alisar as mechas com movimentos lentos, exatamente como fazia quando eu era pequena e ainda acreditava que minha magia estava apenas atrasada.
Atrasada. Foi isso que ela chamou por anos. Alguns dons levam tempo, Valentina. Alguma magia desperta de forma diferente. Algumas chamas precisam de paciência. Então fiz doze anos. Depois treze. Depois quinze. Depois dezessete, e a palavra atrasada tornou-se mais gentil do que a verdade.
No espelho, os olhos da minha mãe encontram os meus. “Você não precisa provar nada hoje”, diz ela.
A risada que escapa de mim é curta e feia. “Isso seria mais fácil se todos não olhassem para mim como se eu fosse apenas uma prova.”
Sua mão para no meu cabelo. Arrependo-me de ter dito isso imediatamente, mas não volto atrás, porque é verdade. Sou a prova de algo para todos. Para os alunos, sou a prova de que até linhagens famosas podem falhar. Para os professores, sou a prova de que a influência familiar pode colocar uma garota onde a habilidade nunca poderia. Para meu pai, sou a prova de traição.
Minha garganta aperta. Mamãe coloca a escova de lado. “Seu pai estará no café da manhã.”
O quarto parece ficar mais frio. Desvio o olhar do espelho. “Maravilhoso.”
“Ele pediu para vê-la antes do discurso de abertura.”
Meus dedos se fecham ao redor da borda da penteadeira. Meu pai não pede para me ver, a menos que haja alguém observando. “O que ele quer?”
A expressão de mamãe fecha-se cuidadosamente. “Ele é seu pai.”
Isso não é uma resposta. Nunca é. “É mesmo?”, pergunto suavemente.
O silêncio que se segue é imediato. Rápido demais. Vejo a dor passar pelo rosto dela antes que ela a esconda, e a culpa se retorce dentro de mim. Odeio machucá-la. Odeio que meu pai tenha feito essa pergunta pairar entre nós como uma terceira pessoa em todos os ambientes. Minha mãe não merece isso. Eu sei disso. Sei tão profundamente que, às vezes, saber disso dói mais do que a suspeita dele.
“Sinto muito”, sussurro.
Ela coloca ambas as mãos em meus ombros. No espelho, ela parece poderosa o suficiente para comandar reinos e cansada o suficiente para se quebrar quando ninguém está olhando.
“Você é minha filha”, ela diz.
Eu concordo com a cabeça.
Ela se inclina para perto, sua voz baixando. “E você pertence a este lugar.”
Meus olhos ardem. Quero acreditar nela. Quero acreditar tanto nisso que o querer parece patético. Em vez disso, olho para as velas que ela acendeu com menos esforço do que respirar. “Então, por que este lugar continua provando que não?”
Suas mãos apertam levemente meus ombros. Por um segundo, penso que ela possa dizer outra coisa. Algo real. Algo afiado o suficiente para cortar anos de conforto cuidadoso, mas então o segundo sino da academia toca. O som a salva. Ou me salva. Ela se afasta. “Vista-se rápido. O café da manhã começa em vinte minutos.”
“Sim, diretora.”
Sua boca suaviza novamente, mas ela não me corrige. Ela sai com a graça silenciosa de alguém que passou anos carregando segredos por salas lotadas. A porta se fecha atrás dela. As velas permanecem acesas.
Fico sentada imóvel por um momento, ouvindo a magia nas paredes e o eco do que ela não disse. Então me visto. O uniforme da academia é lindo da mesma forma que todas as coisas cruéis podem ser lindas. Um vestido preto justo com gola alta, mangas longas e botões de prata na frente. Botas de couro macio polidas até refletirem a luz. A capa do último ano, pesada sobre meus ombros, o forro preto simples roçando meus pulsos. Sem cor de vertente. Sem prova de magia.
Prendo o cabelo meio para trás com uma presilha de prata em formato de pássaro, depois considero imediatamente tirá-la. É óbvio demais. Orgulho familiar demais. Fácil demais para alguém notar. Deixo mesmo assim... Deixe que olhem. Eles sempre olham de qualquer jeito.
Quando entro no corredor, a torre está totalmente desperta. Estudantes saem dos quartos em ondas de cor e ruído. Capas agitam-se. Botas batem contra a pedra. Risadas ricocheteiam nos tetos abobadados. Magia faísca por toda parte, casual e impensada.
Uma garota Tempest envia uma fita de vento pelo corredor para puxar a trança da amiga. Um garoto Veil segura uma flor murcha na palma da mão e observa-a florescer em prata. Dois alunos Aether discutem perto da escadaria, e o ar entre eles tremeluz com um calor vermelho.
Mantenho minhas mãos cruzadas à frente enquanto caminho. Pequena e controlada.
“Cuidado”, alguém murmura enquanto passo. “Não queremos que a Starling tropece em toda essa magia.”
Alguns estudantes riem. Eu não olho. Olhar dá a eles algo para aproveitar.
Minhas botas me levam pela escada em espiral da torre leste, passando por retratos que seguem o movimento com olhos pintados, passando por janelas que mostram climas diferentes, dependendo de qual ramo passa por elas. Quando os estudantes de Tempest passam, o vidro se enche de nuvens de tempestade. Quando os estudantes de Veil passam, uma luz verde se move como vinhas sobre os vidros. Quando os estudantes de Aether passam, cores ondulam pelo vidro como emoções aprisionadas. Quando eu passo, as janelas permanecem limpas.
O salão principal se abre sob a torre em uma extensão de pedra negra, estandartes prateados e candelabros flutuantes. O teto é encantado para refletir o céu lá fora, embora o céu lá dentro sempre pareça mais dramático. Esta manhã, nuvens roxas como hematomas pairam sobre nós, entrelaçadas com um dourado fraco onde o amanhecer luta para romper.
Os estudantes se movem em grupos em direção ao refeitório. Ramo se reúne com ramo. Linhagens se reúnem com linhagens. O poder sempre sabe onde se sentar. Desço o último degrau e quase consigo atravessar o saguão de entrada despercebida. Quase.
“Valentina!” Meus ombros relaxam antes mesmo de eu me virar.
Seren Ashwick corre em minha direção com seus cachos ruivos saltando ao redor do rosto, sua capa verde, forrada com o estilo Veil, voando aberta atrás dela. Ela está ofegante, com os olhos brilhantes e carregando três livros que ela absolutamente não precisa antes do café da manhã. Seren é minha melhor amiga desde o primeiro ano, o que significa que ela ou tem um péssimo instinto de sobrevivência ou o coração mais forte da academia. Possivelmente ambos.
“Você está atrasada”, ela diz, enganchando o braço no meu sem perguntar. “E antes que diga que não está, você está emocionalmente atrasada. Eu consigo sentir.”
“Você não pode sentir o atraso”, argumento.
“Eu sou Veil. Eu sinto tudo”, ela me corrige.
“Você sente a morte”, eu a lembro.
“E o atraso é a morte da pontualidade.” Ela ri. Apesar de mim mesma, eu sorrio.
Seren brilha como se tivesse vencido algo. Ela é uma das poucas pessoas em Arcana que nunca olha para mim como se me faltasse uma peça. Ou, se ela nota a peça que falta, ela tem a decência de agir como se fosse enfrentar qualquer um que apontasse o buraco.
O olhar dela desce para minha capa, e seu sorriso diminui por meio segundo. Apenas meio. Então, ela aperta meu braço. “Representantes do conselho hoje.”
“Eu sei”, suspiro.
“Todos estão em pânico”, diz ela, olhando para a frente.
“Bom”, digo.
“Isso foi quase cruel. Estou orgulhosa.” Ela sorri.
Caminhamos com a multidão em direção ao refeitório. As enormes portas duplas estão abertas, esculpidas com os símbolos dos três ramos aceitos: uma nuvem de tempestade dividida por um raio, um véu drapejado sobre um crânio em flor e uma chama contida dentro de uma mão aberta.
Três ramos. Três caminhos. Três lugares aos quais pertencer.
O refeitório se estende, longo e grandioso, cheio de mesas de madeira escura, estandartes dos ramos e centenas de estudantes. Chamas encantadas flutuam sobre cada mesa, mudando de cor com base na magia mais forte por perto. Azul sobre Tempest. Verde sobre Veil. Vermelho sobre Aether.
Na frente do salão, a mesa dos professores fica elevada em uma plataforma de pedra negra. Minha mãe já está lá, falando baixo com o Professor Thorne, que ensina defesa avançada e nunca sorriu para mim sem parecer que isso lhe custava fisicamente.
Ao lado da minha mãe está meu pai. Alaric Starling não precisa de magia para fazer um ambiente parecer mais frio. Ele é alto, de traços afiados e vestido com vestes formais pretas forradas de prata, com o brasão dos Starling preso sobre o coração como uma ameaça. Seu cabelo loiro escuro tem fios grisalhos nas têmporas, sua postura é perfeita e sua expressão é ilegível. Ele parece nobreza esculpida em gelo e está olhando diretamente para mim.
Meus passos diminuem. Seren percebe. “Quer que eu derrube mingau nele?”
Um som de susto quase escapa de mim. “Não.”
“Eu poderia fazer parecer um acidente.” Ela levanta as sobrancelhas.
“Você seria expulsa”, digo a ela.
“Por você? Vale a pena.” Ela me dá um empurrãozinho.
Meus olhos ardem novamente, mas desta vez parece menos horrível. “Estou bem”, sussurro. Seren não acredita em mim, mas me solta.
Atravesso o refeitório sozinha porque existem humilhações pelas quais ninguém pode caminhar ao seu lado. As conversas próximas à frente diminuem conforme me aproximo. Não silenciosas. Nunca óbvias o suficiente para serem chamadas de cruéis. Apenas mais suaves, mais finas, afiadas nas bordas.
Minha mãe me vê primeiro. Algo cintila em seus olhos, mas ela permanece com a postura rígida de reitora. O olhar do meu pai percorre meu rosto, meu cabelo, minha capa. O forro vazio.
Sua boca se contrai. “Valentina”, diz ele.
“Pai.” A palavra parece formal o suficiente para sobreviver.
Ele se abaixa e pressiona um beijo frio em minha testa. Para quem observa, é afetuoso. Correto. Um pai cumprimentando a filha no início do período. Para mim, parece uma atuação.
“Você parece bem”, diz ele.
“Obrigada.” Forço um sorriso.
Os olhos dele permanecem nos meus por tempo demais, buscando. Sempre buscando. Pergunto-me o que ele espera encontrar. Traços de um estranho. Uma mentira na estrutura dos meus ossos. Alguma fraqueza humana estampada claramente o suficiente em meu rosto para que ele possa finalmente parar de fingir.
“Você se comportará com cuidado hoje”, diz ele.
Não é uma pergunta. “Sim.”
“O conselho estará observando os estudantes do último ano. O cargo da sua mãe não a protege do escrutínio.”
O calor sobe pelo meu pescoço. Atrás dele, a expressão da minha mãe se torna mais severa. “Alaric.”
“O quê?” A voz dele permanece suave. “É melhor que ela ouça de mim do que deles.”
Deles. O conselho. Os professores. Os estudantes. Todo o mundo mágico que já conhece meu nome pelos motivos errados.
Entrelaço as mãos com mais força. “Eu sei o que as pessoas pensam.”
“Sabe mesmo?” As palavras dele caem suavemente. Isso as torna piores.
Por um segundo perigoso, quero dizer sim. Quero dizer-lhe que sei exatamente o que pensam porque ele pensou primeiro, porque cada boato sobre meu sangue começou no silêncio frio entre ele e minha mãe, porque crianças não questionam se uma filha pertence ao pai a menos que o pai as ensine como... mas não digo nada disso. Garotas sem poder aprendem cedo quais batalhas só as farão sangrar, e não estou pronta para lutar essa batalha hoje.
“Eu entendo”, digo.
Meu pai me analisa. Então seu olhar desvia para minha mãe. “Certifique-se de que ela entenda.” Ele se afasta antes que qualquer uma de nós possa responder.
Fico ali com o coração batendo forte demais contra as costelas e a pele quente sob o colarinho.
Minha mãe se vira para mim. “Valentina—”
Eu a interrompo. “Por favor, não.”
Sua boca se fecha. Odeio o quanto isso a machuca. Odeio mais ainda o fato de não conseguir suportar conforto agora. O conforto me deixa mole, e se eu for mole neste salão, todos verão com que facilidade eu me quebro.
Então eu dou um passo atrás. “Vou me sentar com a Seren.”
Minha mãe assente uma vez. “Discurso de abertura depois do café.”
“Eu sei”, respondo.
“E, Valentina?” Faço uma pausa. A voz dela baixa. “O que quer que aconteça neste período, lembre-se de quem você é.”
Algo nessas palavras se acomoda estranhamente sob minha pele, como um aviso que não compreendo. Antes que eu possa perguntar o que ela quer dizer, uma onda percorre o refeitório. Os estudantes se viram em direção às portas. As chamas de Aether sobre suas mesas escurecem, o vermelho sangrando para o preto nas bordas. O ar muda. Torna-se mais pesado. Mais quente. Carregado.
Seren aparece ao meu lado novamente, de repente muito quieta. “Ah”, ela sussurra. “Fantástico. O pesadelo chegou.”
Sigo o olhar dela e eu o vejo.
Valerius Draven entra no refeitório como se fosse dono de cada sombra nele. Ele é alto o suficiente para que a porta o emoldure por um segundo suspenso, de ombros largos sob uma capa preta da academia forrada de vermelho profundo. Cores de Aether, mas não o carmesim brilhante que a maioria dos estudantes de Aether usa. O forro dele é mais escuro. Quase da cor de vinho. Na verdade, parece a cor de sangue. Sua pele oliva captura a luz do candelabro. O cabelo preto curto cai em ondas soltas sobre a testa, descuidado de uma forma que parece deliberada. Sua mandíbula é afiada, sua boca não sorri, sua presença é tão forte que as conversas morrem à medida que ele passa, mas são seus olhos que fazem minha respiração falhar. Avelã. Não suaves. Não quentes. Afiados como vidro quebrado pegando fogo.
Ele não olha ao redor para ver quem o observa. Ele já sabe que todos olham. Dois garotos caminham atrás dele, ambos poderosos, ambos silenciosos. Reconheço um como Eli, um herdeiro de Tempest com marcas de raio tatuadas fracamente ao longo dos dedos. O outro é um estudante de Veil chamado Luc, cuja família tem fama de preservar ossos sob as paredes de sua propriedade, mas nenhum deles importa quando Valerius Draven está na sala. Ninguém importa quando Valerius Draven está na sala. Ele é a realeza do último ano. Linhagem Draven. Herdeiro do Fogo Sombrio. O estudante mais forte que a Arcana Academy viu em décadas, de acordo com todos os professores que têm medo de parecer impressionados.
Nunca falei com ele. Ele existe em outro mundo completamente. Um feito de poder, medo, reputação e violência disfarçada de controle. Meu mundo é menor. Mais silencioso. Sem poder. Feito principalmente de evitar olhos como os dele. Como se invocado por esse pensamento, seu olhar corta o salão e pousa em mim. Tudo dentro de mim fica imóvel.
Não é um vislumbre. Um vislumbre é descuidado. Rápido. Humano. Isso é uma avaliação.
Seus olhos cor de avelã percorrem-me da mesma forma que os do meu pai, mas de alguma forma pior. Meu pai busca provas de que não sou dele. Valerius olha como se já tivesse encontrado provas de cada fraqueza que possuo e estivesse entediado com a descoberta.
Seu olhar desce para minha capa, para o forro preto vazio. Depois volta para o meu rosto. Sem expressão. Sem escárnio. De alguma forma, isso é mais cruel. Então, lentamente, um canto da boca dele se levanta. Não é um sorriso. É um veredito.
Minha espinha se enrijece. Seren murmura algo sob a respiração que soa muito como: “Príncipe das sombras arrogante”.
Valerius desvia o olhar como se eu tivesse deixado de existir. O ar sai dos meus pulmões de uma vez só. Eu o odeio. Odeio-o por aquele olhar. Por não precisar falar para me fazer sentir pequena. Por estar ali com todo aquele poder envolto nele como um direito de nascença, julgando-me da segurança de ser tudo o que esta academia adora. Odeio o fato de minhas mãos estarem tremendo. Escondo-as nas dobras da minha capa.
“Não deixe que ele te atinja”, Seren diz baixinho.
“Ele não atingiu”, minto.
Seren me lança um olhar.
Viro-me em direção à nossa mesa, mas algo estranho roça sob minha pele. Um calor. Tão fraco que quase não percebo. Ele cintila baixo em meu peito, lá e desaparece antes que eu possa respirar. Paro de andar.
Por um segundo, as chamas flutuantes acima da mesa de Aether se curvam. Não em direção a Valerius. Em direção a mim. Meu pulso acelera. Então as chamas se endireitam. O calor desaparece. Tudo volta ao normal.
Os estudantes conversam. Cadeiras raspam. Pratos se enchem sozinhos com o café da manhã. A magia zumbe através de paredes que não sabem o meu nome.
Fico paralisada no meio do refeitório, com uma mão pressionada contra o peito.
Seren se vira de volta. “Val?”
Eu pisco.
“O que houve?”
Olho para a mesa de Aether. Valerius Draven senta-se no centro, já cercado por poder e silêncio. Ele não olha para mim novamente. Por que olharia? Eu não sou nada para ele. Não sou nada para esta academia, exceto um boato em uma capa preta.
Forço minha mão para baixo. “Nada.”
A palavra tem um gosto familiar.
Sento-me ao lado de Seren sob uma chama verde que não é minha, em um salão cheio de magia que não posso tocar, e conto a mim mesma a mesma mentira que conto todas as manhãs. Estou acostumada com isso. Estou acostumada a não ter poder. Estou acostumada a ser vigiada. Estou acostumada a querer algo que nunca despertará dentro de mim, mas, do outro lado do refeitório, as chamas de Aether cintilam em preto nas bordas e, por razões que não compreendo, algo sob minha pele responde.
Apenas uma vez.
Como uma faísca pequena demais para qualquer outra pessoa ver. Como um segredo tentando respirar.