CAPÍTULO UM
LUCIANO
O rugido da multidão em Manhattan me atingiu como um soco assim que entrei na arena.
UFC Fight Nights. A primeira liga. Tudo pelo que sangrei desde os seis anos de idade, trocando socos no porão de um abrigo, movido apenas pela raiva e pela fome. Agora, aos vinte e cinco, eu tinha lutado para chegar aqui — ao centro da porra do universo, onde campeões são feitos e destruídos sob luzes impiedosas.
Marco bateu no meu ombro enquanto seguíamos pelo corredor em direção à arena principal. “Pronto para isso, fratello? Il Diavolo está prestes a entrar.”
“Nasci pronto.” Minha voz saiu baixa e firme. Confiante. Porque eu estava. Eu tinha lutado para sair do inferno. Isso era só mais uma jaula.
A arena se abriu diante de nós — uma catedral de violência e ambição. O octógono ficava no centro como um altar, cercado por milhares de fãs gritando. O ar fedia a suor, cerveja e adrenalina. O tipo de atmosfera que fazia homens mais fracos vacilarem.
Eu não era um homem fraco.
Enquanto passávamos pela multidão, vi outros lutadores me reconhecendo, acenando com respeito — ou medo. Eles conheciam o nome. Sabiam o que Il Diavolo significava quando entrava naquela jaula.
Girei os ombros, sentindo a marca da tinta na minha pele — cada tatuagem uma história, cada cicatriz uma lição. Meu cabelo estava preso num coque, com as laterais raspadas. Profissional. Controlado. A imagem de um lutador que tem a porra da vida sob controle.
Mas então eu a vi.
E cada gota de controle que eu achava que tinha se estilhaçou como vidro.
Ela estava perto do posto médico no outro lado da arena, parcialmente escondida atrás de uma mesa cheia de suprimentos. Pequena. Delicada. Afundada em uma blusa de mangas compridas que cobria suas mãos, seu corpo franzino quase engolido pelo tecido grande demais. O cabelo castanho claro caía em ondas suaves pelos ombros, e mesmo daquela distância, eu conseguia ver a palidez da sua pele — branca como a neve, intocada pelo mundo cruel onde eu cresci.
Ela era um anjo em uma cova de lobos.
E ela era minha.
O pensamento me atingiu com a força de um nocaute. Imediato. Absoluto. Inegável.
Eu não acreditava em amor à primeira vista. Acreditava em disciplina, em conquistar o que se quer com sangue e suor. Mas isso — isso — era algo primitivo. Algo que ignorava a lógica e a razão e ia direto à essência de quem eu era.
Ela me pertencia. Eu soube no momento em que nossos olhos se cruzaram na arena. Soube com a mesma certeza com que sabia aplicar um gancho de esquerda perfeito, como ler os movimentos de um oponente antes de ele fazê-los, como dominar uma jaula.
Este anjo era o meu destino.
E eu ia tomá-la para mim.
Comecei a caminhar em direção a ela, serpenteando pela multidão com um propósito único. Marco me chamou, mas eu não o ouvi. Não liguei. Só existia ela — aqueles olhos cinzentos e calorosos se arregalando ao perceber que eu estava indo direto na sua direção.
Ela corou. Corou de verdade, sua pele clara ficando rosada enquanto eu me aproximava.
“Ciao, angelo”, eu disse, minha voz baixando o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir acima do rugido da multidão. Meu sotaque italiano estava carregado e deliberado. “Qual é o seu nome?”
“Eu—” Ela engoli em seco, suas mãos pequenas desaparecendo ainda mais naquelas mangas compridas. “Everly. Eu sou a Everly.”
“Everly.” Testei o nome na língua, gostando da sensação. “Um nome lindo para um anjo lindo.”
Ela mordeu o lábio, o rubor aumentando. “Você deveria se preparar para sua luta. Ouvi dizer que estão chamando o Il Diavolo em breve.”
“Que chamem.” Dei um passo à frente, perto o suficiente para sentir o cheiro de baunilha e algo que era unicamente dela. “Não vou a lugar nenhum até você me dizer que vai assistir.”
“Eu... sim. Eu vou assistir.” A voz dela era mal um sussurro.
“Bom.” Estendi a mão e gentilmente coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, meus nós dos dedos roçando sua bochecha. Ela tremeu com o contato. “Então eu vou te dar um show, angelo. E quando eu vencer — e eu vou vencer — você vai me deixar te levar para jantar. Combinado?”
“Você não pode simplesmente...”
“Eu posso.” Sorri, deixando-a ver o predador por trás do charme. “E eu vou. Não vou te deixar ir, Everly. Nem agora. Nem nunca.”
Antes que ela pudesse responder, a voz do locutor ecoou pelos alto-falantes: “Senhoras e senhores, por favor, deem as boas-vindas ao octógono... a sensação italiana... IL DIAVOLO!”
A multidão explodiu. Milhares de vozes gritando meu nome. “IL DIAVOLO! IL DIAVOLO! IL DIAVOLO!”
Mantive meus olhos em Everly enquanto me afastava, observando-a me observar. Vendo a maneira como seu peito subia e descia rapidamente, como seus olhos seguiam cada movimento meu.
“Assista a mim, angelo”, chamei acima do barulho. “E saiba que tudo o que eu fizer naquela jaula esta noite é por você.”
Então eu me virei e caminhei em direção ao octógono, com a multidão se abrindo diante de mim como o Mar Vermelho. O grito ficava mais alto, mais frenético. Il Diavolo estava ali. O Diabo tinha chegado.
E ele tinha acabado de encontrar seu anjo.
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