Capítulo 1
Mais um planeta acabava de enfrentar seu inevitável fim. O desejo sanguinário daqueles que eram considerados tanto divinos quanto inimigos ocasionou outro colapso – era uma visão deplorável. Ao pisar no chão, sentia as cinzas afofando os sapatos. O ar estava rarefeito; um pulmão normal jamais aguentaria tantos detritos pairando. Enquanto isso, ele continuava andando, trajando uma capa negra que cobria o corpo inteiro. Era um homem de físico robusto, incrivelmente alto, beirando os dois metros e vinte centímetros, cuja respiração nem se podia ouvir direito. Ele era silencioso, ardiloso: onde pisava, certificava-se de não haver nenhum pedaço de carne para não profaná-lo. Até que chegou a umas ruínas bem maiores que as do caminho – prédios desabados, uma montanha de corpos que se estendiam pelas ruas, carbonizados, frios; nem mesmo sangue se via.
Logo, sacou do bolso uma espécie de bloco de notas, que vinha acompanhado de um lápis. Calmamente, sentou-se numa rocha – provavelmente um pedaço de um dos prédios – ajeitou a postura enquanto seus olhos buscavam ter uma visão mais ampla de tudo aquilo. Esgueirou o olhar para baixo e começou a escrever. Algumas vezes parava, pensava até demais, perdia-se um pouco, mas logo conseguiu sintetizar as palavras que queria esboçar naquele momento.
“Meu nome é Arthur e esta é a carta número 13. O tema vai ser o fim.
O fim é tão amplo e difícil de compreender.
Afinal, por que existe o medo de morrer?
Pelo que se agarram, afinal?
Não seria este cessar normal?
A vista é deprimente, é o que eu diria,
mas não vejo isso: vejo a queda fria,
pois faz parte do ciclo da vida.”
Depois de escrever aquilo tudo, Arthur fechou o livro e o guardou novamente no bolso. Sentiu que havia pensado demais. Será que o símbolo da humanidade era justamente aquilo? A morte? As pessoas pareciam tão calmas, seus semblantes não estavam assustados; provavelmente teriam uma vida melhor após a última respiração. Ergueu-se, limpando suas vestes com pequenos tapas contra o tecido, e começou a andar reto, sem rumo, ainda observando aquele pobre planeta. Até que suas calças foram puxadas bem forte – um desespero palpável – o que o fez parar e logo olhar para trás, para o chão. Viu uma mulher com sangue escorrendo pelo rosto; os respingos do líquido se espalhavam cada vez mais, uma cena grotesca, mas que de alguma forma não assustava Arthur. Ela tinha a boca trêmula, não conseguia respirar direito. Olhou para cima com todas as suas forças, a determinação que poucos teriam, e então falou, fraco, mas de alguma forma aquele poeta entendia:
— Por… favor… — Ela suspirou e continuou: — Leve… minha filha… ela não merece… essa dor…
Ao dizer isso, a mulher foi levantando de leve um pano que carregava consigo, revelando uma menininha extremamente bonita. Parecia ter apenas alguns meses de idade, mas dormia como se estivesse nas nuvens. Arthur ficou surpreso ao saber que ela sobrevivera aparentemente sem danos. Então, logo se abaixou. Aquela visão era diferente; nunca havia visto um ser tão frágil e belo daquela forma, tão de perto. Agora entendia o fraco que as pessoas normalmente tinham por bebês. Seu coração, por algum motivo, parecia bater agora – algo que ele pensava ser apenas uma ilusão. Então, foi tocando a mão daquela mãe, deixando-a repousar sobre o solo. Mesmo sem Arthur expressar nada, a mulher entendeu muito bem suas intenções. Ela logo veio a falecer, sem mais forças para existir naquele mundo tão cruel, tendo seus olhos fechados pelo homem, que desejou a ela uma boa estadia no pós-vida.
Arthur, cuidadosamente, pegou a criança do colo dela. Não tinha nenhum jeito para segurá-la nos braços; parecia mais que ele carregava uma montanha de pedras. Agora que tinha uma nova responsabilidade, sabia muito bem que aquela menina não poderia respirar aquele ar. Cobriu-a, então, com seu próprio manto e ergueu voo para cima com um salto. Sua aura corporal pareceu encobrir a pequena, impedindo-a de sentir o atrito do ar, e o calor a confortava como se ela ainda estivesse no útero. Depois, ambos foram para a lua daquele lugar. O homem pousou no local e agora deu uma visualizada melhor naquele planeta, vendo sua vermelhidão, o calor aumentando, tudo sem esboçar nenhuma reação.
— Hm… e agora, hein?… — Arthur disse enquanto olhava para aquele bebê. — Pelo visto minhas viagens vão ter que cessar um pouco. Eu acho que cuidar de uma criança pode ser uma experiência boa… Sinto muito pela sua mãe, pequena.
Dizendo isso, a bebêzinha se mexeu nos braços dele, fazendo-o ficar com os olhos arregalados. Bem, ele foi surpreendido por algo tão frágil; com certeza não estava acostumado a lidar com aquele tipo de situação, muito menos a cuidar de bebês. Começou a pensar em um lugar para cuidar dela e sabia exatamente onde ir. Normalmente visitava planetas como aquele, mas também sabia que havia alguns seguros e cheios de acordos para impedir aquele tipo de guerra. E lá, ele iria entender o que é humanidade. E com isso, iniciava sua aventura naquele novo mundo.